Soho Dolls
4 Capítulo 3 - My doctor
Notas iniciais
Estava exausta da noite anterior e da de sexta feira ainda. Normalmente meus domingos eram assim, eu passava o dia na cama apenas me recuperando do desgaste físico que era submetida nas madrugadas anteriores e tomando doses altas de relaxantes musculares. Cada músculo do meu corpo doía, como se fosse minha primeira vez, no domingo eu mal andava e quem dirá sentava, então para fazer um programa digno dos duzentos dólares que recebia era muito difícil.
Eu dormia tranquilamente quando escuto alguém correndo pelo quarto em direção ao banheiro e vomitando na privada. Me virei bem de vagar na cama, evitando ao máximo movimentos bruscos para que meu corpo não doesse e olhei o relógio ao meu lado, 10:40 da manhã, revirei os olhos, era cedo demais para acordar, só tinha dormido cinco horas, minhas pálpebras ainda pesavam e eu desejava mais que tudo voltar a dormir...
A cama ao meu lado estava vazia, só podia ser Caroline passando mal no banheiro. De novo. Isso já estava se tornando costume, todos os dias ela acordava e ia direto para o banheiro e por incrível que pareça, no mesmo horário.
– Carol? – Juntei forças para proferir o apelido de minha amiga.
– Hum? – Ouvi seu resmungo vindo do banheiro e de novo, aquele barulho desconfortável dela vomitando, fiz uma careta com o som. Me sentei na cama e me levantei, ignorando o desconforto vindo por entre minhas pernas, segui para o banheiro pra socorrer minha amiga. – Não Lena, volte a dormir, não quero que veja isso... – Sussurrou envergonhada apoiada ainda sobre o vaso.
– Caroline, não fale besteiras, sou sua amiga, sabe disso. – Revirei os olhos chegando perto dela e segurando seus cabelos para trás enquanto ela terminava de jogar para fora o que tinha a feito passar mal.
– Obrigada Lena... – Sorriu fraco após ter se limpado. Ela estava muito pálida e abatida, nunca tinha visto minha amiga assim. – E me desculpe por isso e por ter te acordado.
– Tudo bem, acontece. – Correspondi o sorriso. Caroline era minha melhor amiga, melhor dizendo, ela era minha irmã.
Eu a conhecia há exatos sete anos, quando entrei para o bordel ela já estava lá. Sua mãe tinha morrido de câncer que começou na mama e acabou se espalhando para alguns órgãos internos, quando descobriram já era tarde demais e seu corpo, muito debilitado, não aguentou a quimioterapia. Caroline, com doze anos, passou a morar com seu pai, um homem muito rígido e sério, um religioso radicalista que quando descobriu que sua filha tinha feito sexo antes do casamento e aos dezessete anos, a expulsou de casa apenas com a roupa do corpo. Sem muita escolha, Carol se entregou a prostituição também e felizmente nós nos conhecemos.
Ela fazia tudo ficar mais fácil com seu jeito alegre e extrovertido. Não conseguia me lembrar de um dia em que eu não acordei com ela me desejando um “bom dia, flor do dia” com um sorriso de orelha a orelha ou de alguma vez que ela me recusou colo e um ombro para chorar quando precisei. Me lembrava exatamente de quando ela me acolheu depois de minha fatica primeira noite naquele lugar....
Eu chorava desesperadamente. Nada fazia meu choro cessar e soluços involuntários já saiam de meu peito. Caroline, minha colega de quarto, me deixou deitar em seu colo e acariciava meus cabelos enquanto eu encharcava sua calça do pijama de lágrimas.
– Chore amiga, vai passar, você vai se acostumar... – Ela tentava me consolar, mas nada conseguia me acalmar.
– Dói demais Caroline... – Falei entre soluços. Eu não falava só de dor física, mas a que estava ali dentro também. – Dói muito!
– Eu sei que dói, mas vai passar, em alguns dias você não vai mais sentir nada. – Seus dedos desembaraçavam meus longos fios. – E nas outras vezes vai ser melhor...
– Não era isso que eu queria para o meu futuro, Carol. – Me levantei ficando de frente para ela. – Minha virgindade que era algo tão precioso para mim, que eu fazia planos para perder com o garoto que eu gostasse, foi tirada por um velho, um homem casado e com a brutalidade que eu nunca pensei que fosse possível ser colocada no sexo.
– Sinto muito, Lena, sinto mesmo! – Pegou minha mão. – Se eu pudesse, juro que iria nos tirar dessa, mas infelizmente estamos juntas no mesmo barco e nas mesmas condições. – Soltou um riso pesado e sem graça. – A única coisa que posso te favorecer, é meu ombro e meu colo para que você chore.
– Obrigada... – Sequei minhas lágrimas mas novas molharam meu rosto novamente. Caroline chegou perto de mim e me abraçou e eu fiz o mesmo.
Carol era uma pessoa excepcional e eu não consegui me imaginar sem ela, na verdade, eu não sei como iria ter conseguido sobreviver esses sete anos sem ela. C, era minha irmã mais velha e eu a amava demais.
– Volte a dormir, E. Você está horrível, amiga. – Carol seguiu para sua cama se deitando e abraçando uma almofada cor de rosa.
– Ah, obrigada! – Ri irônica. – Você também não parece bem, precisa dormir mais do que eu...
– Eu não aguento mais esses enjoos, ontem eu quase não consegui nada por causa do mal estar. – Revirou os olhos. – Só o dinheiro de Klaus não está sendo o suficiente... – Suspirou pesado. Caroline tinha um cliente fixo, uma coisa que pouquíssimas de nós conseguia. Evitávamos o máximo ter uma relação estável com algum homem.
– E como vocês estão, ein? – Deitei em minha cama de frente para ela.
– Na mesma! – Revirou os olhos. – Ele só quer sexo e eu quero algo a mais... – Carol era apaixonada por ele, mas Klaus só estava interessado no prazer que ela o favorecia e também por status que seu físico passava, ela era linda, o sonho de qualquer homem e ele era um empresário famoso e bilionário, então em jantares e reuniões a levava como acompanhante para se mostrar.
– Vocês já conversaram?
– Elena, eu sou uma prostituta e ele um bilionário, o que ele vai querer comigo?
– Carol se vocês nunca conversaram, como vai saber? E se ele sente o mesmo?
– Grande piada... – Revirou os olhos secando uma lágrima que escorreu pelo canto de seu olho. – Amiga, vou dormir, estou exausta.
– Ok. – Assenti. Não iria insistir em falar sobre o assunto, ela não andava com o emocional muito estável e a ultima coisa que queria era deixar minha amiga triste.
Me virei para o outro lado e tentei voltar a dormir. Caroline estava perdidamente apaixonada por Klaus e eu tinha que admitir que sentia um tanto de inveja disso, quando minha amiga falava dele, seus olhos pareciam estrelas de tanto brilho e seu sorriso era tão grande quanto de uma criança passando as férias na Disneylândia. Eu nunca tinha me apaixonado antes e por mais doentio que isso soasse, gostaria muito que isso acontecesse comigo.
Queria amar alguém na mesma intensidade que Caroline amava Klaus, queria ter alguém para cuidar e que cuidasse de mim. Na verdade, eu queria alguém que me fizesse companhia, que passasse o final de semana comigo e que dividisse a cama. Minha carência efetiva era tanta que chegava a ser masoquismo a ponto de eu querer me apaixonar.
Com esses pensamentos, automaticamente, um par de olhos azuis tomaram conta de meus pensamentos, de novo. Porque diabos eu estava pensando em Damon? Desde sexta feira eu não conseguia tirá-lo de minha mente, na verdade, tentava entender porque meu corpo tinha reagido daquela forma, ele era um cliente qualquer, era um homem qualquer, não tinha nada de diferente, fisicamente.
Mas o modo que ele gemia “meu” nome, seu carisma e o prazer que tinha me favorecido não saiam de minha mente e pareciam martelar minhas lembranças as tornando mais vividas e intensas. Queria tanto que ele voltasse, queria me perder mais um pouco naqueles olhos, ouvir mais um pouco daquela voz aveludada... Não queria só sexo, queria conhece-lo melhor, saber mais do que só seu nome. Eu iria entender se ele não quisesse mais, mas só precisava vê-lo uma ultima vez.
Suspirei fundo e olhei, mais uma vez, o relógio, 11:15, não iria conseguir voltar a dormir. Caroline dormia profundamente ao meu lado, tirei seus cabelos dos olhos e dei um beijo em sua testa. Ela estava exausta e nem se mexeu quando a toquei.
Tomei um banho rápido e coloquei uma roupa de ginastica, sai do quarto e fui para a sala.
– Estou vendo um fantasma? – Bonnie falou divertida ao me ver. Revirei os olhos, mal humorada e bufando. – Não, é a Gilbert mesmo. – Bonnie também trabalhava com a gente, mas nossa relação não era muito satisfatória. Nossa rixa começou quando um cliente que costumava a ser seu acabou me escolhendo e ela, por vingança fez o mesmo comigo, só que ainda pior.
– Bom dia, Lena! – Meredith sorriu simpática. – Caiu da cama?
– Não, na verdade, Caroline em acordou... Vomitando! – Revirei os olhos.
– De novo? – Assenti. – Já a mandei ir ao médico, isso já está ficando sério.
– E quem disse que ela obedece? – Fui à cozinha me debruçando no balcão de estilo cozinha americana enquanto comia uma maçã conversando com elas. – Amanha vou acompanha-la até o médico, não tem condições, nada para no estomago dessa menina, sem falar na falta de disposição dela.
– Para mim isso tem outro nome... – Bonnie riu se intrometendo na conversa. – Gravidez... – Um estalo percorreu minha espinha. Não, minha amiga não poderia estar grávida.
– E para mim você não passa de uma intrometida que se acha médica! – Sorri irônica e ela fechou a cara. – Hum, Marquinhos está ai? Estou querendo malhar.
– No domingo? – Meredith cerrou os olhos.
– Estou precisando me distrair. – Dei de ombros. Na verdade, eu precisava pensar em outra coisa, me preocupar mais com meu corpo, afinal, era com ele que eu tirava meu sustento. – Ele está ou não?
– Como se eu vivesse sem vocês né?! – Uma voz afeminada soou atrás de mim me fazendo sorrir abertamente. Marcos, ou melhor, Marquinhos para os íntimos, era nosso personal trainer que Meredith havia contratado para nós há uns anos atrás. Ele praticamente morava no bordel conosco, por não ter família nós erámos sua única companhia. Depois de Caroline, Marcos era a pessoa que eu mais confiava no mundo, ele tinha o poder de me fazer rir de tudo independente da situação.
Sua vida também não tinha sido fácil, principalmente por ser homossexual e sua família não aceitar esse fato. Aos seus dezoito anos seu pai o trouxe até Meredith para que ela tirasse sua virgindade, mas a única coisa que realmente perdera aquela noite foi a vergonha para assumir sua opção sexual para a família. A reação deles não saia do esperado, sua mãe não aguentou de “desgosto” e o expulsou de casa também. Marcos, sem muita opção, foi morar nos dormitórios da faculdade, que cursava educação física na época na Universidade de Nova Iorque, e para conseguir sustento trabalhou de garçom em nossa boate. Mais tarde, Meredith conseguiu o contratar como nosso personal trainer após ter montado uma mini academia no terraço do bordel para nós.
A vida dele não tinha sido fácil. Na verdade, a vida de ninguém daquele bordel tinha sido fácil... Nossas histórias eram todas tristes.
– Que bom que está aqui! – Abri meus braços o abraçando forte e roubando um beijo rápido dele.
– O que te faz querer malhar em pleno domingo, gata? – Abraçou minha cintura.
– Gordura! – Revirei os olhos. – Manter a forma é bom, sabia? – Dei a ultima mordida em minha maçã e joguei o resto fora.
– Uhum, sei. Finjo que acredito! – Ironizou.
– Vamos, antes que eu desista. – Peguei uma garrafa de água da geladeira, minha toalha de rosto e dei um leve tapa nas nádegas dele o incentivando para ir.
– Ai! A de trás não te pertence, pelo menos não a minha! – Me repreendeu e eu ri.
Nós dois seguimos para a academia em silencio, eu evitava olhá-lo porque sabia que se ele olhasse dentro de meus olhos, iria perceber meu conflito interior e eu não queria dividir isso com ninguém. Deixei minhas coisas de lado e fui para a bicicleta.
– Ok Elena, já pode me contar o que está acontecendo... – Se debruçou no guidão ficando cara a cara comigo. Desviei o olhar do dele e pedalei mais rápido. – Olhe para mim! – Segurou meu queixo me fazendo olhá-lo. – Elena.
– Não está acontecendo nada, Marcos.
– Com certeza está, eu te conheço, Elena, me conte o que está acontecendo.
– Não sei, estou preocupada com Caroline, só isso! – Dei de ombros me afastando dele, ficando apenas sentada sobre o banco, sem me apoiar no guidão.
– Tá, até pode ser, mas não é isso que seus olhos me dizem, tem mais coisa ai dentro!
– Marcos, não precisa se preocupar, já passa. – Balancei a cabeça tentando afastar aqueles olhos azuis de minha mente.
– Tanto faz, mas eu quero saber, seja lá o que for, não quero que você fique mal nem por um segundo. – Suspirei fundo, ele não iria desistir, até parece que não o conhecia, conseguia ser mais teimoso que uma mula.
– Só estou cansada dessa vida. – Dei de ombros. – Queria tanto conhecer alguém especial, queria amar alguém, sabe? Como Caroline ama Klaus! Por mais que não seja um amor correspondido, queria ter o prazer de falar, eu amo ele, meu coração anda frio demais. – Meus olhos se encheram de lágrimas e eu os revirei evitando que elas escorressem.
– Porque isso agora, morena?
– Sabe Marcos, estou cansada de ser um objeto sexual, cansada desses homens asquerosos fazerem o que bem entenderem de mim sem se importar se estão me machucando ou se estou gostando... Estou cansada de ser frigida, Marcos. – Mordi minha bochecha controlando o choro. Ele e Caroline eram os únicos que eu tinha realmente conseguido contar sobre meu bloqueio sexual, na verdade, eu não era a única que não conseguia gostar das transas, Carol, por exemplo, só conseguiu ter um ápice com Klaus e mais dois outros homens.
– Como assim? Sinceramente, eu não entendo como que você consegue nunca sentir prazer! Se existe alguém que é feita de ferro, esse alguém é você, pode ter certeza!
– Nunca também não né, Marcos! – Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios ao me lembrar do orgasmo que tive com Damon.
– Que sorriso é esse?
– Olha, eu vou te contar porque não consigo mais guardar isso para mim, na verdade, eu acho isso frescura de minha parte estar tão envolvida com isso. – Parei de pedalar e desliguei a bicicleta, me sentei em um banco de madeira dando espaço para que ele se sentasse comigo.
– O assunto é sério, pode falar, adoro uma fofoca! – Bateu palmas, animado, e se sentou em minha frente.
– Nessa sexta eu fiz um programa, o nome dele era Damon, e céus, eu nunca vi homem como ele... – Um sorriso interessado apareceu em seus lábios e ele fez um “uhum” me incentivando a continuar. – Ele era lindo demais, tinha os olhos mais azuis que eu já vi, cabelos negros e sedosos e um sorriso perfeito que só puxava os cantos dos lábios e formava uma covinha extremamente sensual. – Mordi o lábio inferior ao me lembrar dele em cima de mim sorrindo satisfeito. – Marcos, seu corpo é perfeito, o abdômen dele bem definido, as coxas torneadas, tudo... E ele foi um dos únicos que conseguiu me fazer chegar até lá! – Minhas entranhas foram tomadas por um calor conhecido, mas ao mesmo tempo pouco comum, quando eu comecei a falar do corpo de Damon. Meu corpo desejava intensamente receber o dele de novo.
– Ok ok, já pode parar de descrevê-lo porque só com a descrição eu estou excitado! – Cruzou os braços como se estivesse magoado. – Menina, como assim, ele te fez gozar de primeira? – Cerrei os olhos relutante em relatar mais algum fato ocorrido entre Damon e eu. – Nem venha, Elena Gilbert, você começou e agora termine. – Revirou os olhos. – Me conte logo, ele te fez gozar?
– Não de primeira, mas o que realmente me tocou, foi que ao perceber minha frustração quando eu o deixei gozar na primeira vez, ele me deitou na cama e me satisfez... – “Agora você vem junto” Aquelas palavras fizeram meu sexo se contorcer de desejo.
– Wow! – Seu queixo parecia ter caído e ele colocou a mão sobre a boca que estava aberta em um “O”. – Gente, que bafão, Elena Gilbert tendo um orgasmo com o gostosão! – Riu alto.
– E agora ele não sai da minha mente... E eu não paro de querer dormir com ele de novo. – Escondi meu rosto nas mãos. – Eu estou enlouquecendo de desejo por ele, Marcos! – Choraminguei. – Seus olhos azuis, suas mãos fortes em minha cintura, aqueles lábios, seu corpo... Marcos, eu quero tanto que ele volte. – Desabafei.
– Ah minha linda, vem aqui... – Ele se aproximou de mim me abraçando forte.
– Eu o convidei para voltar. – Sussurrei.
– O que? – Sua voz saiu um pouco mais alta que o esperado.
– Isso mesmo que você ouviu...
– Ok, é mais sério do que eu imaginava. E ele, o que disse?
– Que voltaria...
– Menina, ele está no papo!
– Por favor né, Marcos, você acha que ele falou sério? – Ri sem graça. – Até agora ele não apareceu, não vai ser hoje que aquela beldade vai dar as caras aqui querendo meu programa. – Dei de ombros tentando demonstrar descaso. – E sabe, acho que eu só estou assim porque ele conseguiu me dar prazer, foi uma vez só, e eu estou sendo fresca, fraca.
– Não querida, ele mexeu contigo mesmo, posso ver em seus olhos!
– Marcos... – Gemi manhosa. – Ele gemeu meu nome! — “Nina” Sua voz extasiada ecoava em minha mente. “Nina, ande logo com isso” “Nina... Eu vou...” “Nina...” “ Nina, eu não aguento mais...” Malditos sons extremamente excitantes. Eu o queria gemendo em meu ouvido de novo, era pedir demais?
– E...
– E você não sabe o quanto é significativo para mim não ser chamada de “puta” e “vadia” nessas horas... – Falei um tanto magoada. – Eu quero que ele volte, Marquinhos. – Gemi manhosa.
– Elena, vamos esperar até semana que vem, se o seu ator de cinema não aparecer eu rodo essa Nova Iorque inteira até encontrar o seu Damon!
– Você é demais, sabia? – O abracei forte descansando a cabeça em seu ombro musculoso. Marcos era bem diferente, digo, fisicamente, ele tinha um corpo musculoso, não tanto, mas era muito bem definido. Qualquer pessoa, desconhecida, que o visse diria que ele é hetero mas era só ele começar a falar que sua voz o entregava. Tinha que admitir que eu e Caroline já tentamos várias vezes tentar tirar alguma casquinha de nosso amigo, mas ele era jus a sua homossexualidade.
– Ai, vou começar a ficar com ciúmes. – Passos calmos e uma voz doce nos fez rir. Caroline. – Também quero um abraço, estou carente! – Ela fez um beiço manhoso.
– Carente? Me tirou ne, loira! – Marcos revirou os olhos rindo dela.
– Não nesse sentindo, seu pervertido! – Cerrou os olhos se sentando no colo dele.
– O que houve com o seu amado, Niklaus? – Ao falar o nome de Klaus, Marcos forçou um sotaque britânico devido à nacionalidade do homem.
– Nós brigamos... – Franziu o cenho. – Eu estava passando mal e ele queria que eu saísse com ele, mas eu não aceitei então ele ficou putinho e disse que iria procurar outra.
– E você disse o que? – Perguntei.
– Disse para ele ir, que não iria sentir falta dele e que duvidava que ele fosse encontrar alguém como eu ou mlehor! – Cruzou os braços se aninhando no colo de Marcos.
– E agora?
– E agora eu estou moída porque meu homem está procurando outra vadia para comer enquanto eu estou aqui chupando dedo com saudades dele.
– Então você está no grupo certo, C, nós três estamos carentes. – Falei.
– Elena te contou?
– O que?
– Um moreno alto, bonito e sensual a apresentou o céu!
– Não acredito! – O susto foi tanto que Caroline se endireitou no colo de Marcos. – Me conte isso, por favor! – Eu revirei os olhos. – Vai me contando enquanto eu vou correndo na esteira. – Se levantou seguindo em direção a esteira.
– Nem pensar, Caroline, se sente aqui novamente, não vou te deixar fazer nenhum esforço físico, você está muito debilitada e teho certeza que não tem nada no estômago também, então só vai voltar a malhar quando estiver bem de saúde. – Me levantei e peguei sua mão a fazendo voltar para onde estava.
– Elena, não faça isso comigo, eu engordei horrores essas semana... – Relutou.
– C, por favor, só até descobrimos o que você tem. – A olhei pidona fazendo um leve beiço com o lábio inferior.
– Você é impossível. – Rvirou os olhos e me obedeceu.
Caroline se sentou nas pernas de Marcos mais uma vez e eu comecei a narrar minha noite com Damon, nos mínimos detalhes para não sobrasse mais perguntas.
...
Já era segunda de manhã e eu não conseguia acreditar que aquela maratona de sexo tinha acabado. Segunda, terça e quarta eram os dias que eu mais gostava. Apesar de ganhar muito menos do que em uma noite de programa, eu pelo menos não precisaria ter um contato mais intimo com os homens, era só servir mesas e dançar no pole dance, que por sinal, era o que eu mais gostava de fazer.
O sol já raiava lá fora e eu desejava dormir mais, mas um som que entrou em minha rotina, me fez despertar. Caroline passando mal. Já chega, não conseguia mais ver minha amiga se definhando e sendo teimosa por não querer ir ao médico. Me levantei rápido, fiz um coque frouxo nos cabelos e segui para o banheiro.
– Já chega, Caroline! – Usei meu melhor tom autoritário e fui para trás dela segurando seus cabelos como ontem. – Você vai se arrumar e nós vamos ao hospital.
– Não... – Choramingou.
– Sim! – Continuei com o mesmo tom. – Eu não estou mais te aconselhando como antes, agora estou te mandando! – Ela suspirou se dando por vencida e então se colocou de pé em frente a pia para se lavar.
– Você espera eu me arrumar e o enjoo passar um pouco?
– Claro! – Dei um beijo em sua testa e segui para o quarto para também me arrumar.
Assim que nós duas estávamos prontas, fomos para a sala e enquanto Caroline se recompunha, pelo menos um pouco, eu empurrei uma salada de frutas para forrar o estômago. Quando terminei, pegamos um táxi e seguimos para o hospital que ficava no centro de Manhattan.
– Elena, podemos ir embora? – Minha amiga balançava a perna incessantemente ao meu lado. – Eu já estou melhor, pronta pra outra!
– Caroline, porque o medo? – Me virei de frente para ela a encarando. – Você sabe de alguma coisa que eu não sei?
– Não! Claro que não! – Riu nervosa.
– Então, não tem nada a temer, daqui a pouco o médico te chama e nós descobriremos o que tanto está te fazendo mal.
– Caroline Forbes! – Seu nome foi chamado por uma mulher.
– Vai lá amiga, conte tudo, ein! – Segurei sua mão a incentivando.
– Pode deixar... – Ela assentiu. “Boa sorte, C.” Pensei. Ela iria precisar, pelos seus sintomas, a noticia que estava por vir não era nada boa.
Assim que Caroline entrou no consultório eu me levantei e fui caminhar pela sala de espera. Eu tinha o péssimo costume de não conseguir ficar parada, minha mãe costumava a falar que eu tinha alfinetes na calça porque nada me fazia ficar sentada, quando era menor fui até levada em médicos especialistas para averiguar se eu não tinha algum tipo de hiperatividade, mas assim que a consulta acabou, a médica garantiu para meus pais que eu era completamente saudável e estável.
Carol estava demorando um pouco e eu já estava ficando inquieta. Enquanto eu caminhava até o bebedouro, uma voz conhecida fez meu coração disparar e eu tive a impressão de que água gelada foi injetada em minhas veias.
– Ah, o ultimo do turno. – Um riso gostoso terminou a frase.
Me virei lentamente desistindo de tomar água, me deparando com a mais bela visão que alguém poderia ter... Meu moreno com uma prancheta na mão e com um jaleco impecavelmente branco e bem engomado na altura dos joelhos. Então o exibido era médico...
Uma vontade louca de correr dele me atingiu em cheio mas minhas pernas não obedeciam, principalmente quando percebi que ele vinha em minha direção. “Merda, merda, merda, mil vezes merda”. Eu queria vê-lo de novo, mas não fora do bordel, não como Elena Gilbert, mas como Nina.
– Com licença... – Ele pediu simpático e só então percebi que estava na frente do bebedouro. Levantei meu rosto para olhá-lo e ele adquiriu uma palidez terrível parecendo que havia visto um fantasma. Merda, merda, mil vezes merda. – Nina? – Meu coração estava na garganta de tanto que batia. Ah, sua voz aveludada falando meu nome...
– Damon... – Sussurrei da mesma forma. Nós ficamos nos encarando por longos minutos nos encarando, seus olhos estavam presos aos meus e ele não sabia o que fazer, estava estático. Ainda bem que estávamos em um hospital porque eu tinha certeza de que ele iria desmaiar. – Então é aqui que você trabalha... – Quebrei o gelo entre nós.
– Pois é, vejo que me descobriu! – Seus lábios se esticaram naquele sorriso perfeito fazendo me esquecer de como se respirava. Mordi o lábio dando de ombros e seu olhar adquiriu um tom malicioso. “Por favor, Damon, estamos no meio do hospital, não faça isso comigo, não me provoque desse jeito.” Pensei.
– Meu Deus, Elena, finalmente te achei, te procurei por toda a parte... – Caroline falou atrás de Damon e eu tive vontade de estrangulá-la. Por que ela não me chamou de E, como sempre fazia? A fuzilei com os olhos. Meu moreno arqueou a sobrancelha em um tom duvidoso como se perguntasse quem era ela, encolhi os ombros amaldiçoando minha amiga por isso.
– Caroline! – Forcei um sorriso. – E então? Como foi?
– Desculpe amiga, não queria interromper... – Encolheu os ombros como se me pedisse desculpas. – Bom, a doutora quer fazer uns exames de sangue então eu vou seguir para o laboratório que tem aqui. – Explicou. – Se quiser ir embora eu vou entender, vai demorar bastante e você deve estar cansada.
– Não, negativo, eu te espero, vai lá C.
– Obrigada! – Sorriu. – Vou estar lá dentro, ok?
– Claro, claro! – Eu acompanhei com o olhar minha amiga desaparecer por entre um corredor e entrar em uma porta de vidro embaçado e assim que ela sumiu, voltei a encarar o homem em minha frente.
– Então... – Suspirei.
– Estava pensando, quer ir tomar um café comigo? – Sugeriu.
– Não quero ocupar seu tempo, Doutor... – Olhei em seu jaleco procurando seu nome. – Salvatore. – Sorri vitoriosa. Nome italiano. Tão sexy quanto o dono.
– Eu acabei de atender o ultimo paciente, tenho tempo de sobra. – Olhou a prancheta que estava em sua mão, foleando os papeis que ali se encontravam. – E eu adoraria te conhecer melhor. – Aquele sorriso surgiu em seus lábios e eu não pude recusar. “Me conhecer melhor? Por favor, cara, nós transamos na sexta de noite, o que mais de mim você quer conhecer?” Revirei meus olhos mentalmente. – Podemos ir à lanchonete aqui do hospital, eles tem o melhor pão de queijo que eu já comi.
– Você quem manda. – Sorri. Damon assentiu e assim que me virei de costas ele tocou a base delas me guiando. Um arrepio percorreu o local ao sentir suas mãos másculas em mim. “Elena, se controle”.
Nós descemos por dois jogos de escadas, tudo em silencio, eu apenas o seguia seus passos rápidos, ansiosa para conversar com ele.
Chegamos à lanchonete e Damon escolheu uma mesa reservada, bem no canto do recinto. O lugar era harmonioso, com um porcelanato branco e brilhoso e tinha mesas quadradas de dois a quatro lugares. Mulheres trabalhavam uniformizadas, com toucas especiais e aventais amarrados a cintura. Rapidamente uma delas veio em nossa direção com uma cardeneta e uma caneta a mão.
– Doutor Salvatore... – Ela o cumprimentou e ele sorriu para ela com um aceno de cabeça.
– Vou querer o de sempre. – A moça rabiscou seu pedido e então se virou para mim.
– Senhorita?
– Um expresso, sem açúcar.
– Volto logo! – Assentiu e então se retirou.
– Então, Elena... – Ele começou. – Estou me perguntando se Nina seria um apelido ou um diminutivo de seu nome, mas até agora não cheguei a uma conclusão. – Sorriu me provocando. Ele estava flertando comigo?
– Vejo que me descobriu também, Doutor... – Me debrucei à mesa para encará-lo melhor. – Na verdade, Nina não vem de Elena e não é meu segundo nome, também. Quem me batizou com esse nome foi Meredith... – Expliquei.
– Meredith, é...
– Sim, isso mesmo que você está pensando... Dona do bordel. – Dei de ombros.
– Entendi. – Soltou um riso divertido.
– Médico então, huh? – Sorri para ele. – Isso explica seu pequeno agrado. – Os cento e cinquenta dólares amais pelo meu programa e mais os cinquenta pela minha dança.
– Costumo agradar quem me agrada... – Deu de ombros. Um arrepio percorreu minha espinha de novo e eu desviei os olhos dele. Então ele tinha gostado também? – Mas, Elena, se me permite lhe chamar assim... – Olhou para mim como se pedisse permissão e eu assenti. – Me conte mais sobre você...
– Não te muito a ser dito. – Me encolhi dando de ombros. – Você já sabe meu nome de verdade e com que trabalho, não tenho nada de interessante, Doutor Salvatore, nada que não saiba. – Ri sem graça. – Mas com certeza sua vida é cheia de acontecimentos...
– Bom, sei também que você trabalha sério e consegue enlouquecer um homem de prazer quando quer... – Damon fez o mesmo que eu, se debruçando a mesa nos fazendo ficar cara a cara. “Não faça isso comigo, Damon, por favor, não estou aqui a trabalho...” Minhas entranhas se aqueceram em súbito e eu entrei em seu jogo.
Nossa proximidade era perigosa, eu conseguia sentir seu hálito em meu rosto me fazendo querer acabar com aquela distancia entre nossas bocas e selar nossos lábios em um beijo avassalador. “Se controle, Elena”.
Quando eu estava tomando coragem para fazer o que tanto desejava, a garçonete chegou com nossos pedidos, nos fazendo pular nas cadeiras. Uma tensão desconhecida tomou conta de nossa mesa, conseguia ver o desejo em seus olhos e não conseguia não me afetar com ele. Como que era o nome disso mesmo? Ah sim, tensão sexual...
– Me conte o que quer saber... – Soltei um sorriso sacana tomando o primeiro gole do meu café enquanto ele mordiscava seu pão de queijo. Damon parecia escolher as palavras para falar comigo. – Bom, eu sou órfã... – Comecei. – Meus pais morreram quando eu tinha dezesseis anos em um acidente de carro, era isso que você queria saber? – Sorri divertida.
– Obrigado! – Falou aliviado. – Então desde então você... – Assenti.
– E você?
– Bom, eu sou viúvo, tenho uma filha de doze anos e como já pode perceber, sou médico. – Uma filha? Doze anos?
– Sei que é falta de educação, mas se me permite, quantos anos tem? – Cerrei os olhos.
– Trinta e mais três! – Riu. Já podem me beliscar... Trinta e três anos e nessa forma? Ele era sobrenatural, isso era um fato. – E a Dama tem quantos anos de vida? – Dama... Ri alto escandalosamente. Sério, Damon?
– Dez a menos. – Sorri.
– Sua amiga trabalha com você? – Seu tom era cuidadoso, ele era cauteloso quando o assunto era meu trabalho, pelo menos até agora. Eu assenti tomando meu café. – E ela está bem?
– Enjoos matinais. – Expliquei.
– Ela está...
– Espero que não! – Soltei um suspiro pesado. Esperava mesmo porque eu sabia o que ela iria passar se realmente estivesse esperando um bebê.
– Ela não sabe quem é o pai?
– Não sei, na verdade, não cheguei a conversar sobre isso com ela.
– Desculpe a intromissão.... – Encolheu os ombros.
– Sem problemas. – Sorri o reconfortando. – Você foi casado muito tempo?
– Eu e Katherine erámos amigos de infância, nossos pais eram melhores amigos e em consequência fomos criados juntos e na adolescência acabamos nos apaixonando. Começamos a namorar eu tinha dezessete e ela dezoito, depois de idas e vindas, eu acabei a engravidando aos vinte e então nos casamos! – Deu de ombros.
– Mas casou porque foi obrigado?
– Não, eu a amava de verdade. – Sorriu. Eu conseguia ver o brilho no olhar dele ao falar dela, era o mesmo que via nos olhos de Caroline quando o assunto era Klaus.
– E então...
– E então nós criamos nossa pequena Emily juntos em harmonia, até descobrirmos que ela tinha arritmia cardíaca e uma “bela” manha, teve uma parada cardio respiratória. – Fez aspas no “bela”.
– Sinto muito... – Franzi o cenho me sentindo culpada por ter tocado nesse assunto.
– Tudo bem. – Tomou um gole do chá gelado que pediu. – Ela tinha só vinte e oito anos... – Seu olhar ficou frio, triste. Ele ainda a amava e a amava muito, pelo jeito.
Um maldito silencio reinou entre nós e nosso assunto acabou. Eu terminava de tomar meu café enquanto ele encarava seu pão de queijo meio comido sobre um pires. Revirei em minha mente mais tópicos que podiam ser comentados, mas nada me parecia apropriado depois dessa conversa pesada que tivemos e felizmente meu celular tocou. Olhei no visor, era Caroline.
– Perdão, Damon, vou ter que atender!
– Fique a vontade. – Peguei meu celular e me levantei da mesa ficando um pouco afastada dali.
– Carol? — Atendi.
– Amiga, cadê você? Por favor, preciso de ti! – Ela chorava em desespero, confirmando minhas hipóteses.
– Ok, espere em frente ao bebedouro, ok? Já estou chegando.
– Venha rápido!– E desligou.
– Está tudo bem? – Damon perguntou assim que voltei à mesa.
– Não tenho tanta certeza... – Passei as mãos pelos cabelos, nervosa. – Damon, vou ter que ir encontrá-la, você se importaria de terminar o café sozinho? – Me senti mal por ter que deixa-lo, mas minha amiga precisava mais de mim do que ele, no momento.
– Não, claro que não!
– Obrigada! – Peguei minha bolsa, retirei de minha carteira uma nota de dez dólares e deixei sobre a mesa.
– Elena, pode deixar que eu pago. – Segurou minha mão que estava com o dinheiro.
– Eu posso pagar meu café, Damon.
– Eu sei que pode, mas eu que convidei, eu pago.
– OK! – Revirei os olhos e guardei o dinheiro solto mesmo. Não tinha tempo para discutir com ele. – Adeus Damon. – Dei um beijo em sua bochecha e sai correndo ao encontro de Caroline.
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