Sociedade Oculta das Lâminas

5 Uma noite na América II


Hans caminhava cambaleando pelas extensas ruas de Nova York. A noite estava erma e escura, com apenas alguns poucos mendigos e bêbados margeando o asfalto, e o garoto andava sem rumo em meio aos postes pálidos e polidos daquela cidade. Seu rosto era uma rosa de fogo, doía e ardia muito, e provavelmente não estava bonito para quem o visse. Na sua cabeça, nada rodava direito; ainda não sabia a quem culpar, o que pensar sobre aquilo ou que rumo tomar a partir dali. Talvez voltasse para o hotel depois de esfriar um pouco a cabeça. Talvez ele tenha sido um pouco rude demais com os mestres... Talvez os mestres tenham sido rudes com ele.

Em meio a tais devaneios, muito mais inconscientes do que pensados, Hans avistou uma pequena silhueta em baixo de um poste a distância. O pequenino corpo tremia-se e emitia pequenos gemidos de tristeza. Hans se aproximou devagar. Era uma criança, um garoto, vestido em muitos casacos e com um pequeno pacote marrom às mãos. Braun se agachou perto dele e o menino, quando o viu, gritou de susto e se afastou o mais rápido que pode.

—Você ta brincando comigo, pirralho? Eu venho para te ajudar e você foge! – Bradou Hans, irritado. Havia sangue escorrendo de sua boca. Ele limpou-o.

— Tio, você está morrendo! – A criança gritou com uma voz fina e alta.

-O velho Johe vai precisar de mais trinta desses para pensar em me matar. Ele nem sabe bater direito! Mas enfim, o que você ta fazendo aqui, moleque? Já está tarde para alguém da sua idade ficar vadiando na rua.

O menino desabou no choro. – Eu me perdi de meu pai. Eu to com muito medo, tio!

-E esse pacote aí em sua mão, o que é? – perguntou Hans apontando para o pacote marrom.

-Eu achei em um beco. Mas é só pó!

-Pó? Por que diabos você pegou pó?

-Porque ele brilha. Olha!

E o garoto estendeu o conteúdo ao aprendiz. Hans suspirou, cansado, e se aproximou para observar o achado. Quando tomou o pacote na mão, porém, ao perceber o peso e o brilho descomunal do produto, Hans empalideceu. Seu corpo esfriou completamente e ele precisou sentar-se na calçada para não cair.

-Menino desgraçado, onde diabos você conseguiu isso? – Ele perguntou, a voz saindo da garganta com dificuldade.

-Já disse, eu achei em um be...

-Em um beco?! Impossível! – Hans gritou. – Você sabe o que é isso aqui? Isso é pó de estrela! Você tem noção do que é pó de estrela?

-Pó de estrela? Não, tio, nunca ouvi falar.

—- X –

-É pó de estrela. – Disse Junnichi, no hotel, para Helena e Joseph.

O asiático estava postado em pé, recostado na parede do seu quarto, enquanto Helena e Joseph estavam sentados na cama, apreensivos. O cômodo estava silencioso e desagradável, de tal forma que a tensão quase se materializava no ar.

-Pó de estrela... Então, a cidade pode ficar perigosa. O pior momento possível para o maldito Hans sair de casa! – Bradou Joseph, preocupado.

-Pelo visto, uma grupo de criminosos conseguiu invadir a sede da SOL e roubar um pacote de pó de estrela. Talvez tenha sido sorte, ou habilidade, mas é que foi um grande feito. Vocês saberem que todo mundo da SOL é mantido por causa do pó... – Explicou Junnichi.

-Sim. O líder da SOL, cuja identidade é desconhecida a todos, é também o dono da maior empresa de extração mineral espacial do mundo... E o dinheiro que nos mantém é todo provindo de um mineral especial extraído de um certo asteróide, o pó de estrela. – Joseph continuou.

-Pó de estela... Sua durabilidade, leveza e capacidade de afiação são incomparáveis. É simplesmente absurdo, com certeza o melhor mineral do universo inteiro. Um simples pacote de tal substância é o suficiente para se comprar um país pequeno. – Concluiu Helena.

-Se o povo souber que um material tão caro está aqui, em Nova York, muito sangue será derramado. Temos que encontrar Hans o mais rápido possível. – Falou Joseph.

-Deixe-me ir, por favor, Joseph-sama. Fui eu quem causar todo este tumulto. Eu devo resolver! – Junnichi disse, preocupado.

-Não diga besteiras, Jun. Vamos todos juntos. Quanto mais gente, mais rápido. Temos que encontrá-lo antes que a guerra comece... – Finalizou Helena.

—- X --

-Então, acho que o melhor a fazer é irmos à polícia, não? – Perguntou Hans ao garoto enquanto os dois andavam pelas calçadas escuras.

O menino fez que sim.

-A propósito, qual seu nome?

-Joe, Joe Deen.

-Eu sou Hans Braun. Prazer.

E os dois andaram longos minutos em silêncio.

-A propósito, Joe... Onde é a delegacia?

Neste momento, Hans avistou um grupo de delinqüentes postados em uma esquina à distância. Imediatamente ele tocou em sua adaga e parou, preocupado. Pareciam ser uns sete ou oito delinqüentes, todos maiores que Hans, e de espadas empunhadas. Não, não eram delinqüentes. Eram da SOL;

Hans se virou e puxou o garoto na direção oposta, sem comentar nada. O menino reclamou, porém a urgência que Hans emitia pelo aperto do pulso foi o suficiente para calá-lo. Vendo que Hans fugia, os delinqüentes apertaram o passo. Assim fez Hans também, até que a situação tornou-se uma perseguição. Será que sabiam sobre o pó? Será que entregar o artefato seria o bastante? Hans não sabia responder às perguntas que lhe vinham a mente. O mais importante, naquele momento, era fugir.

Enquanto isso, em um canto próximo da cidade, Junnichi percorria as sombras em silêncio, numa velocidade incrível. Ele ficara responsável por sondar a parte leste da cidade. Vez ou outra o rapaz podia ver vultos de gangues vadiando pelas ruas, provavelmente atrás do Pó. Mais uma vez, uma preocupação arrebatou-lhe a mente; Hans não tinha a mínima chance contra o pior dos regulares da SOL.

Jun ouviu, então, um sussurro vindo de um beco. Ele subiu no telhado de uma casa e se esgueirou para sua beirada, a fim de ouvir a conversa. Haviam quatro membros da SOL, portando armas comuns e bem feitas, e como Jun previu, o tópico da conversa era o Pó. Por entre os sussurros e palavras mal pronunciadas, Jun ouviu apenas:

-... Garotinho pegou o Pó, quando...

-... Parece que tem um cara da SOL com ele, um aprendiz... Proteger.

-Proteger?... Dinheiro, isso sim ele deve estar querendo...

Jun saiu antes do fim da conversa. Provavelmente, seu medo havia se concretizado. Hans teve contato direto com o Pó, e agora deve estar em perigo. Junnichi apertou o passo e andou o mais rápido que pode, mesmo que aquilo significasse ficar mais desprotegido. Se alguma coisa, pensou, acontecesse a Hans Braun, a culpa seria dele. Ao chegar em certa rua, porém, seu corpo parou e o coração quase soltou-lhe à boca.

Um pouco a frente, próximo a uma esquina, oito membros da SOL pareciam espancar algo. O boné atirado na calçada, sujo de poeira e sangue, era uma prova óbvia de quem era o agredido. Jun sentiu um aperto no peito e uma pequena lágrima surgir no canto direito do rosto. Mas não, não era uma lágrima de tristeza. Era um profundo ódio, tanto de si mesmo quanto de Hans. O moleque inconseqüente provavelmente estava protegendo o Pó. Muito provavelmente, a ânsia por poder e riqueza havia feito Hans Braun sucumbir ao patético de ser morto pelo banal. E também havia o auto-ódio, a auto-piedade, por Takahashi Junnichi, o homem que ele era, que se orgulhava tanto de sua sabedoria e espiritualidade, mas sucumbia ao patético de odiar alguém tão jovem e inocente.

Focado em seus pensamentos, porém, antes que Jun pudesse fazer qualquer coisa, ele sentiu um vento forte ao seu lado. A cena foi muito rápida para ser vista, mesmo para os olhos treinados de Jun. Em um momento, não havia nada lá; no instante seguinte, chispas brancas cintilavam por entre os Regulares da SOL e listras perfeitas de sangue eram pintadas nos muros e no chão ao redor. Havia um vulto, um ser difuso pela escuridão, que se esgueirava e parecia dançar entre as chispas enquanto todo o resto dos marginais tombava sangrando. E o mais impressionante eram os caminhos exatos, meticulosos, que o sangue fazia ao redor da carnificina.

-A estrada de sangue, Lesley Ann... – Disse Jun, paralisado.

Ao passo de meio minuto, estavam todos caídos. Em pé, havia apenas uma garota de casaco largo e saia. Seus cabelos, de uma cor loira meio maculada, desciam selvagens de sua testa suada. E um olhar penetrante, intimidador, reluzia à luz do poste. Era tão nova quanto Hans, mas estava muito acima do rapaz. Jun conhecia muito bem aquele ser. Lesley Ann, a garota que se tornou uma Mestra em um ano; era quase uma lenda. Muito mais poderosa que Jun ou Helena, e a apenas alguns passos de Joseph. Aos pés da menina jazia Hans Braun, encolhido e completamente molhado de sangue. Jun não sabia se o sangue era dele ou de seus agressores. Nos braços de Hans, Jun pode ver com dificuldade, um garoto, tão pequeno, tão indefeso, porém completamente intocado. Nesse momento, Jun ajoelhou e se sentiu exausto. Se sentiu um lixo.

Hans Braun não era uma criança tola; e Jun bateu em si mesmo por pensar o contrário.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.