Danny dirigia como um louco pela cidade destroçada, Freud e eu nos segurávamos nos cantos da caçamba da caminhonete para tentar não ficar rolando para lá e para cá. Laura e Tracy pareciam conversar sobre alguma coisa no banco de trás, olho para Freud:

— Oque você fez, sabe... Foi muito corajoso.

— Valeu. — Estava um pouco corado. — Eu gosto mesmo dela. — Enquanto olhava para Tracy.

— Percebi. — Concordo com a cabeça, soltando um pequeno sorriso. — Sabe... Só tenta não partir muito pra cima, ela passou por muita coisa.

— Eu sei, eu sei... — Responde.

Olho para frente e vejo o Shopping ao longe, alguns carros destruídos virados formavam uma barreira. Em cima dela, alguns soldados armados guardavam o abrigo. Danny para o carro na frente da barreira, enquanto todos apontavam as metralhadoras para nós. Todos ficam dentro do carro em silêncio, eu finalmente me levanto na caçamba, gritando:

— Nós só queremos entrar !

— Não temos muito espaço ! — Um deles grita. — Em quantos vocês estão ?

— Seis e um bebê ! — Respondo, ainda em gritos.

Os soldados parecem parar um pouco para pensar, finalmente um deles grita:

— Tudo bem, podem entrar !

Todos saímos do carro e escalamos os carros para passar por cima da barreira, ajudo Laura a subir com o bebê. Caminhamos em direção ao Shopping, que não era daqueles muito grandes, e entramos pela outrora porta automática, agora simplesmente aberta como uma porta comum.

Centenas de pessoas estavam no saguão, sentadas, de pé em grupos conversando ou dormindo em um daqueles sacos de acampamento, alguns funcionários uniformizados entregavam cestas de comida para as pessoas. Danny sai correndo para alguma direção, eu o sigo com os olhos e o vejo abraçando um casal.

— Legal pra ele. — Diz Freud.

— Temos que achar os nossos também. — Diz Tracy, ao seu lado.

— Vamos tentar achar os nossos pais. — Digo em voz alta, para o grupo todo ouvir. — E quem não achar venha aqui no saguão às 13:00 para continuarmos a viagem.

— Você não vai ficar aqui ? — Pergunta Laura, preocupada.

— É claro que ele vai atrás dos pais dele. — Responde Fred, rolando os olhos.

— Eu tenho que fazer isso. — Digo.

Freud e Tracy saem juntos, caminhando em meio à multidão.

— Não é aquela sua tia ? — Pergunta Fred, apontando para a tia Mary sentada em um banco do outro lado do saguão.

— Eu vou procurar pelos meus pais. — Diz Laura, caminhando em direção à escada rolante que não estava mais funcionando.

Fred vem comigo na direção da minha tia. Ela me vê e corre para me abraçar:

— David, eu achei que tinha te perdido...

— Eu não podia deixar você sozinha, tia. — Respondo.

— O prédio pegou fogo, todas as minhas amigas, todas elas... — Tia Mary tenta dizer alguma coisa, soltando algumas lágrimas.

— O importante é que você conseguiu sair sã e salva . — Digo, concordando com a cabeça.

— Filho !! Aqui em cima !!! — Uma voz de mulher vêm do andar de cima, e Fred sai correndo em direção à escada rolante. Eu o vejo e sorrio.

— David... Eu não consegui falar com seus pais. — Diz a minha tia, com voz triste.

— Não tem problema, eu tenho certeza que eles estão bem. — Digo, sorrindo. — Você conhece alguém mais corajosa que a minha mãe ?

— Você vai atrás deles, não é ? — Pergunta Mary, com um sorriso fraco.

— Tia, eu preciso. Você vem comigo. — Respondo.

— Não posso, eu não aguento mais uma aventura dessas. Eu estou bem aqui.

— Tia, eu não vou te deixar sozinha, não de novo. — Digo, me esforçando para não soltar uma lágrima.

— David, preste atenção. Você está destinado a grandes coisas, não pode deixar que eu o atrapalhe. E como eu disse, tenho mais chances de ficar viva aqui do que viajando pelo país. Você é um homem forte. — Ela encosta o dedo indicador no meu peito esquerdo. — Sei que consegue. Seus pais precisam de você.

Eu não digo nada, apenas lhe dou um abraço forte e saio em direção à escada, procurando por Fred. O vejo conversando com sua mãe, já a tinha visto antes algumas vezes, me aproximo. O pai de Fred havia morrido a muitos anos atrás e ele vivera com sua mãe solteira até agora.

— Eu não permito !!! — Exclama a mãe, nervosa.

— Mãe, eu preciso fazer isso. Não posso deixar o David sozinho. — Fred dizia, tentando convencê-la.

— Eu posso nunca mais te ver !! — Ela ficava mais nervosa a cada segundo.

— Eu prometo que vou voltar.

— É tudo culpa sua ! — Ela gritava, apontando pra mim enquanto eu me aproximava.

— Mãe, a decisão é minha. Ele não tem nada a ver com isso.

— Eu não vou te perder de novo só pra você ir em uma aventura com seu amigo aí.

— Mãe. — Ele repetia, tentando acalmá-la. — Eu já disse que prometo que vou voltar pra você, e eu nunca poderei viver comigo mesmo se eu deixar o David ir sozinho nessa jornada. — Eu acompanhava a conversa, calado.

— Se você se afastar de mim agora, nunca mais será bem vindo perto de mim. — Ela dizia, séria dessa vez.

Fred a abraça e ela retribui, chorando.

— Eu prometo, sério. — Dizia Fred enquanto se afastava de sua mãe e vinha na minha direção.

Começamos a caminhar para longe.

— Você tem certeza disso ? — Pergunto, preocupado.

— Por favor, não torne isso mais difícil pra mim. — Fred diz, secando uma lágrima.

Eu concordo com a cabeça em silêncio, novamente. Continuamos caminhando pelo Shopping, observando alguns paramédicos trabalhando em alguns pacientes com pernas quebradas ou alguma coisa do tipo. Vejo Laura no andar de baixo conversando com uma mulher, provavelmente sua mãe. Eu aponto para elas e nós descemos.

— Como eu posso não querer ficar com ele ? — A mulher dizia, chorando de alegria. — É a cara do seu irmão.

— Eu sei, né ?

As duas se abraçavam e seguravam o bebê como se fosse um presente dos céus.

Eu cutuco Laura nas costas e ela se vira.

— Eu acho que é aqui que nos separamos, né ? — Digo, tentando sorrir.

— Acho que sim. — Ela diz, também com um sorriso falso.

— Foi legal te conhecer de verdade, sabe... Você nunca se importou comigo enquanto o mundo não estava desmoronando.

— E foi um grande erro. — Laura respondia agora com um sorriso de verdade. — Você é provavelmente o único garoto do qual eu gostei de verdade.

—Doeu. — Fred diz, atrás de mim.

— Você também é legal. — Responde Laura, rindo.

Eles se abraçam.

— Até mais. — Diz Fred.

Laura chega perto de mim e me beija rapidamente.

— Sobreviva . — Diz ela.

— Vou tentar. — Sorrio.

Eu a abraço também, e me afasto com Fred para o centro do saguão, lá estavam Freud e Tracy.

— Não acharam ? — Pergunta Fred.

— Nem sinal. Tentamos gritar, perguntar pras pessoas, de tudo. — Responde Freud. — E agora ?

— Nós vamos para o interior, procurar pelos meus pais.

— Como esse idiota não consegue se virar sozinho, eu vou junto com ele e voltar para a minha mãe depois. — Fred responde, rindo.

— Nossos pais moram em uma cidade a uns 10 quilômetros , podemos pegar "carona " com vocês, se for caminho. — Diz Tracy.

— Claro. — Digo. — Quanto mais, melhor. — Sorrio.

— E como vamos ? A pé ? — Indaga Freud.

— Não tenho a menor ideia. — Respondo, sendo o mais sincero possível.

Notas finais
final aberto FTW
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!