Eu estava parado em um farol, quando meu celular começou a vibrar e tocar ‘’ Aerosmith – I Don’t Wanna Miss a Thing’’, o tirei do bolso e atendi. –Alô? – disse normalmente, até ser surpreendido por um grito. –ALÔ? QUE ALÔ O QUE, VOCÊ E ESSA MANIA DE NÃO VER O CONTATO ANTES DE ATENDER!!!!!! – era impossível esquecer desses gritos ou da voz fina e chata que sempre me atormentava. –JU? JULIA FABRO? – comecei a rir – MEU DEUS MENINA, PARA DE GRITAR, ESTAMOS NO TELEFONE, NÃO A MILHÕES DE QUILÔMETROS UM DO OUTRO!!!- Ela, então continuou rindo. – Whatever, eu sei que é hoje que você pretende voltar para o camp, que tal dar uma passadinha aqui pra irmos juntos? –. –Tranquilo meu bem, 20 minutinhos to ai, até já já. – Desliguei o celular e o deixei no banco do passageiro, fui até a rotatória e fui em direção ao Centro de São Paulo.
Chegando no prédio que ela morava com sua mãe, avistei-a em frente ao portão, mexendo no celular como sempre e de pernas cruzadas, como se sempre estivesse dançando ou pensando em coisas que eu nunca entenderia. Parei o carro no outro lado da calçada e desci. O sorriso divertido tomou conta de seu rosto assim que ela me viu. Seus cabelos enrolados e escuros com as pontas roxas que por tanto tempo foram alvo de piadas minhas, caiam sobre seus ombros fazendo um emaranhado lindo de roxo com castanho escuro. Seus olhinhos escuros e um pouco puxados estavam apertados por causa da miopia e da maldita mania de não usar óculos, ela estava mais alta do que alguns anos atrás, porém continuava mais baixa que eu, o que seria eterno. Tinha a pele bem clara e um nariz que me fascinava, com a ponta empinada. Seu sorriso tortinho do passado mudou por conta do aparelho que tinha tirado uns meses atrás e agora estava certo e lindo (não que já não fora). Vestia uma camisa minha, que dei a ela no seu aniversário de 13 anos, surpreendentemente, agora com 16 ainda servia. Ela pulou nos meus braços e nos abraçamos por um longo tempo, ela cheirava a uvas. Deveria ser culpa de seu pai, Dionísio. Ela saiu dos meus braços e disse. –E então, quanto tempo né? 2 semanas é muito tempo sem te ver, seu insuportável. –Ela começou a rir quando disse a última palavra. –Vamos logo baixinha. –Falei provocando. –Pegue o que tem de levar e vamos. –Ela ia me xingar, mas provavelmente desistiu. Pegou suas duas lâminas e as prendeu em ambos os lados de sua cintura, cada uma tinha cerca de 70 cm de bronze celestial, prateados e com desenhos de vinhas em torno da mesma, pegou sua mala com algumas roupas e suas coisas e colocou nas costas. –Vamos então, chega de enrolar. – Atravessamos a rua e entramos no carro. Dei partida e saímos colocando os assuntos em dia.
Chegamos perto do aeroporto e deixámos o carro estacionado alguns metros antes do estacionamento. Entramos no aeroporto e fomos até passagem escondida até as profundezas do local, vimos então, uma porta de bronze e uma pequena brecha na lateral, depositei um Dracma (moeda no nosso mundo) e a porta se abriu. Lá dentro era escuro e tinha alguns suprimentos para emergências, chamamos esses locais de ‘’ Casas de Abrigo’’, dentro ficam algumas armas, como adagas, espadas, arcos. Ficam também suprimentos, como comida, ambrosia, kit’s médicos e tem macas em todo o lugar, meio bagunçado e empoeirado, porém, seguro. O mundo foi se ajustando por conta da quantidade de semideuses que tem surgido desde a grande guerra. Percy Jackson derrotou Cronos e fez os deuses terem algumas novas regras, os deuses são permitidos ter filhos, todos eles, inclusive os 3 Grandes, porém todos os filhos devem ser clamados a partir de seus 12 anos de idade. Eu tinha essa idade na época e morava nos Estados Unidos, nasci lá, como a maioria dos meus amigos. Nasci na Califórnia e tenho TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Fui para o Acampamento no ano seguinte, um Sátiro chamado Chris que me levou, morava na mesma rua que eu, quando ele me contou tudo isso, achei que iria enlouquecer e fiquei assustado mas fascinado por esse mundo, eu já não via mais graça na vida normal e odiava viver na monotonia. Fugi de casa e deixei tudo para trás, sem olhar para trás, sem pensar em minha mãe ou em meu irmãozinho, foi uma atitude impulsiva, eu achava que a vida era um desenho animado, que eu podia simplesmente ir e depois voltar como se tudo estivesse bem. Depois de 3 anos de muita agitação e adaptação, voltei para casa e me expliquei para minha mãe... Foi um dos piores dias da minha vida, foi um grande choque para ela e meu irmão, porém nos resolvemos. Alguns dias depois de eu ter voltado a morar com ela, eu soube de seu câncer e fiz o impossível para salvar ela, mas mesmo eu sendo filho do deus da Morte, meu pai não podia segurar a vida dela aqui na terra, é contra as regras, mas me garantiu que ela teria uma passagem especial para os Campos Elísios. Quando ela se foi, voltei com meu irmão para o acampamento e fiquei mais alguns meses lá, quando fiz 17 anos, vim para o Brasil com a Ju, nos consideramos primos, já havíamos passado por muita coisa juntos e nos amávamos muito, era difícil explicar o elo que nos ligava. Ela foi morar com a mãe e eu fui morar sozinho.
Ju me deu um tapa e disse –Acorda! De novo viajando nos pensamentos? – ela disse emburrada. – Desculpa, pega algumas dracmas e segure no meu braço. – Ela tornou o olhar para mim e disse. – Não! Por favor, não. Vamos de avião, você sabe o quanto eu odeio isso! – ela me deu um soco no braço. – Para com isso Ju, vamos demorar se formos de avião. Vamos, segura no meu braço. – Ela cedeu e segurou. Segurei a respiração, imaginei as colinas da Costa norte de Long Island e pulei nas sombras. As sombras nos abraçaram de bom-grado e tudo ficou escuro, alguns segundos depois, a luz do sol esquentava minhas costas. Era sempre muito desgastante essas viagens, porém eu já havia me acostumado. Tive de pegar Ju no colo, ela sempre passava mal durante as viagens pelas sombras. –EU DEFINITIVAMENTE, ODEIO OS FILHOS DE HADES! – Disse gritando e me empurrando com o que restava da força que ela tinha gastado –Calma garota, estamos aqui. – acenei com a cabeça e a coloquei no chão. O pinheiro de Thalia jazia ali, dando a impressão de onipotência e conforto. – Vamos. – E seguimos subindo o pequeno morro. Deixei o ar encher meus pulmões, o cheiro de grama molhada e a grande explosão de cores, como o azul do céu, o verde da grama, o marrom das árvores, invadir minha visão. Era uma sensação tão nostálgica e perfeita que eu não sentia desde a última vez que deixei esse local. Definitivamente, estávamos em casa.
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