Sobrevivência do mais forte.
19 Capítulo 19 - Entre Sombras e Gelo.
– Hellyster Snowduck. – Disse Pettrick em voz alta para todos ouvirem, com certeza ele não estava nem um pouco feliz com toda aquela situação desfavorável para ele, apesar de tudo, ele havia perdido três aliados fortes. O filho de Quione andou para frente em nossa direção e quando nosso grupo se virou para decidir quem iria lutar, Du simplesmente saltou como um raio para cima do filho de Quione. Du era extremamente rápido e todos os sobreviventes e até mesmo os renegados ficaram surpresos com a investida surpresa. Mas não mais do que Snowduck. Já era tarde demais para ele se defender quando Du laminou o ar em um arco negro e medonho para cima do mesmo, uma rajada negra chegava até Snowduck com tempo apenas do mesmo erguer desesperadamente sua Katana de gelo.
O impacto fez uma nuvem branca explodir do local atingido. Quando Du estava a 15 metros, ele tocou o chão fazendo uma fenda enorme surgir engolindo tudo que estava a sua frente. Quando o conselheiro parou, haviam se passado exatos 20 segundos, um ataque devastador em apenas 20 segundos, Du é realmente incrível.
–-------------------------------------Du irá narrar a história a partir de agora. ---------------------------------
Droga. Fui lento demais. Ele não deveria ter tido tempo nem de pensar em erguer sua espada. Olho para frente, de onde uma nuvem de poeira branca está tentando escapar da fenda, e aguardo o golpe do filho de Quione, ele não estava nem perto de morto, eu podia sentir isso. Olho para trás rapidamente e vejo meus amigos, todos surpresos e sem reação com o que havia acontecido, olhando para o grupo de Pettrick, eles estavam da mesma forma. Eu poderia gargalhar, se fosse outra situação.
A poeira ia se dissipando aos poucos e pude enxergar a silhueta de Snowduck, o rasgo no chão estava abaixo dele, ele vestia uma fina armadura de gelo e estava pisando em um disco de gelo que flutuava acima da fenda, ele está ofegante e claramente irritado.
–E ai cria do submundo, é só isso que pode fazer? – Ele perguntou provocativo.
–Acho que você não percebeu que: Esse único ataque que eu fiz, quase te matou. – Respondi sorridente. Snowduck adotou uma expressão amarga, como se tivesse comido algo azedo.
–Arrrrrgh, cale essa maldita boca! – Gritou e disparou em cima de sua prancha de gelo em minha direção rapidamente, saltei em cima do mesmo com Ultimum empunhada, porém ele deu um salto mortal para trás e jogou a prancha, que foi tomando a forma de um disco, em cima de mim. Aquilo me atingiu em cheio na boca do estomago, talvez era para ter me fatiado.
Fiquei sem ar e fui sendo levado para cima com o disco de neve até quando ele explodiu em uma onda congelante e devastadora, parecia que eu havia sido alvo de uma tempestade de gelo. Senti meus membros parando de responder junto dos meus órgãos. Eu precisava sair do meio daquele caos congelado.
Uma ideia. Juntei forças para agarrar o cabo de Ultimum e fiz a mesma explodir em chamas negras, depois toquei a lâmina flamejante no peitoral da minha armadura que começou a esquentar até entrar em chamas também. O calor fez meus sentidos despertarem, lembrei de que eu estava no ar e comecei a girar Ultimum para dissipar aquela tempestade, minha lâmina devorava o ar frio e o substituía por um calor intenso, quando já estava totalmente desperto, rodei 360° graus e a nevasca sumiu na noite. Comecei a cair, estava a mais ou menos 30 metros. Usei a velocidade da queda e mergulhei no chão de cabeça, observando meu adversário surpreso antes de entrar no mar de sombras. Meio-segundo depois emergi na frente do filho de Quione espantado, Ultimum estava direcionada para o peito dele e eu atravessaria o corpo dele com esse golpe. A expressão de espanto do garoto mudou para um sorriso maníaco divertido, faltava 5cm para minha espada tocar o peito do mesmo, mas ele bateu o pé no chão e tudo explodiu em cor branca, senti meus músculos atrofiando e eu ficando mais lento... Não, eu estava parado no ar. Quando a fumaça passou pude ver o que me prendia. Uma enorme escultura de gelo formando uma espécie de Iceberg que tinha como centro, eu. A uns 10m estava o garoto rindo freneticamente, apesar de eu não poder ouvi-lo por conta do gelo, eu sabia que estava me zombando e sabia também que se eu ficasse mais tempo dentro daquele iceberg meu coração iria parar e eu vou me tornar uma escultura de gelo aonde gerações malignas vão passar e ler uma placa escrita:
“Aqui jaz o EX-conselheiro de Hades, derrotado pelo magnifico Hellyster.’’
“Há, de maneira alguma.’’
Senti a temperatura aumentar, não em mim, mas em minha armadura. Alguns segundos passados, pude ver a expressão de duvida do filho de Quione através do gelo e minha armadura irrompeu em fogo infernal explodindo a maldita escultura. Emerjo da confusão branca banhado em labaredas negras e avanço para cima de meu oponente com Ultimum empunhada, dirijo um corte na vertical em direção a cabeça do mesmo. Ele se defende rapidamente com sua espada, o impacto fez a grama ao meu redor queimar, era pra ele ter se queimado também. Talvez ser filho da deusa da neve deve dar uma ajudinha contra o calor.
Dirigi outro golpe agora na horizontal, cortando a defesa de meu oponente e raspando sua costela, ele reage com um grito e salta para trás com a mão livre no ferimento. Solto uma risada maníaca e falo:
–Agora acabou, maldito Renegado. – Olho a expressão de dúvida nele apertando o ferimento.
–Não acabou não... Você só me acertou de raspão! É melhor não cantar vitória agora. – Ele ergue sua espada e uma rajada de gelo vem em minha direção, porém lento demais. Desvio com um simples passo para o lado, a rajada passa à alguns centímetros de minha cabeça, mas isso não me incomoda.
–Não importa. Você não entende nada mesmo, não é? Achei que teria uma base sobre os filhos de Hades, antes que algum deles lhe matasse. –
–CALA ESSA PORRA DE BOCA. – Ele tirou a mão do ferimento que estava ficando escuro. Dessa vez ele começou a soltar spikes de gelo em minha direção, aquilo vinha em uma velocidade incrível, porém nada demais para mim. Quando os spikes iam chegando perto de mim, eles automaticamente derretiam por conta da armadura banhada em fogo infernal.
–A partir do momento que o ferro estígio entra em contato com sua pele, você já está marcado para morrer. – Dei um meio sorriso e fui andando aos poucos até ele. Ele estava apavorado, desolado e fracassado. Isso só deixava as coisas melhores.
–Por favor... nã-ãão me mate, por favor.... Eu não quero morrer. – Então ele se pôs a chorar, caiu de joelhos e baixou a cabeça... E começou a sussurrar para si, era uma forma de diálogo. A primeira voz era mais imponente e dura, enquanto a segunda era mais fraca, insegura, covarde. Graças a minha audição aumentada por conta do escuro, pude ouvir algumas partes do diálogo:
‘’QUE DROGA É ESSA DUCK?’’
‘’Eu... eu não quero morrer, Hell. Me desculpe, por favor, eu não quero morrer.’’
‘’VAI TOMAR NO SEU CU! VOCÊ SE REBAIXOU INCRIVELMENTE A ESSE BOSTA.’’
‘’Ele é muito forte, eu não sabia... eu fraquejei, ele me cortou com a maldita espada de ferro amaldiçoado, acabou.’’
‘’Ah, vai se foder. Deixa que eu lidero a partir de agora.’’
Então algo mudou, ele parou de soluçar e começou a tremer levemente. Ele.... Ele estava rindo? O filho de Quione levantou a cabeça e cravou seus olhos de maníaco em mim. Ele pigarreou e então começou a dizer como se nada houvesse acontecido:
–Me desculpe por Duck, ele é bem sensível. – Duck? Quem era Duck? –Mas agora, você vai poder enfrentar o meu verdadeiro poder, não sou como ele é. Chorão e fracote. Prazer, eu sou Hell. – O.k., minha cabeça estava girando. Esse não é um simples caso de bipolaridade, é um caso ao extremo, tão extremo que as duas personalidades conhecem uma a outra e conversam entre si. Isso é realmente muito sinistro.
Hesitei por alguns minutos, me lembrei que eu havia o cortado com Ultimum, ele iria morrer em menos de alguns minutos. Relaxei e iniciei uma conversa:
–Ótimo, eu estava esperando mesmo o segundo round. Mas acho que ele não vai acontecer, assim como você e seu parceiro dividem o mesmo corpo, meus ataques afetam os dois. Por exemplo, você vai morrer já já. – Ele me avaliou-me e então começou a rir, uma risada escandalosa como aquelas que um vilão super-malvado fazia em desenhos.
–Ahhhh, meu querido filho de Hades, você tem que se lembrar que meu amigo Duck, já havia se rendido. Eu não. – Então ele tirou a mão de cima do ferimento, que para minha surpresa, estava congelado. – Eu não vou morrer ao toque de seu ferro amaldiçoado, porém acho melhor você evitar o toque da minha Katana-Kin. – Droga. Eu ainda não havia descoberto as propriedades daquela maldita arma enquanto eu havia exposto as da minha espada.
–Então vou ter que fatiar você em diversos pedacinhos. Isso vai ser divertido. – Parti em direção de Hell, mesmo ainda sentado. Ele se levantou extremamente rápido e saltou no ar, eu já havia dirigido um corte na horizontal que fatiou o ar, lá de cima ele mirou as mãos para baixo e soltou uma raja de gelo muito mais rápida que as anteriores. Não tive tempo de esquivar então ergui Ultimum e criei um escudo de sombras para aguentar o impacto.
O impacto dissolveu meu escudo mais rápido do que eu pensava e a rajada de gelo passou a centímetros do meu corpo. Quando olhei para cima ele não estava mais no ar, então meus sentidos dobrados se puseram em ação, ouvi o leve farfalhar de algo pisando à minha esquerda e agachei, foi tempo de um raio branco passar por onde deveria estar minha cabeça, apoiei meu braço livre no chão e acertei um chute em cheio na costela ferida de Hell, que fez o mesmo arfar e se contrair. Girei e acertei meu punho flamejante no queixo do garoto magro em um upper digno de eu ser chamado para gravar “Rocky Balboa’’.
O soco o levantou no ar, mas em tempo o suficiente para ele recobrar a consciência, ele girou um mortal e mergulho em minha direção com a espada em mãos, me defendi com Ultimum e então recuei e ataquei novamente. Ficamos em um duelo de espadas de mais ou menos 5 minutos, ele atacava e eu defendia, eu atacava e ele defendia, estávamos só esperando quem seria o primeiro a abrir uma brecha. Eu, infelizmente, nunca fui tão bom em lutar com espada, Lelo havia me ensinado bastante, mas eu sempre fui melhor na manipulação dos meus dons, eu não podia manter aquele duelo por muito tempo ou eu abriria uma brecha fatal. Saltei para a esquerda e levantei minha mão para uma sombra sair do chão e atacar o filho de Quione, ele rapidamente desviou e recuou 10 metros.
–Bem, eu já estou ficando cansado dessa luta. É a que mais durou até agora, então vou finalizar já. Só preciso de tempo. – Ele levantou as mãos e fez surgir três humanoides brancos armados de maças e escudos, então afastou as pernas e começou a “meditar’’. Antes dos humanoides partirem para cima de mim, senti tudo ficando mais frio. Não o frio da escuridão que me confortava, mas um frio devastador e congelante. Olhei para o filho de Quione e vi uma aura azul em volta de seu corpo, senti ela sugando todo meu fogo infernal que na real, era verdade. Fui perdendo o calor da minha armadura aos poucos, o chão ao redor do filho de Quione já estava congelado e ia se espalhando cada vez mais rápido.
Os humanoides começaram a correr em minha direção, porém haviam se tornado tigres-brancos, preparei Ultimum e mandei duas rajadas de sombras em direção dos humanoides. Eles não tinham o raciocínio tão rápido e as rajadas partiram os três ao meio, infelizmente eles se regeneravam. Quando desmancharam, eles uniram-se em uma bola de neve de 3 metros e rolavam em minha direção.
Quando faltava cerca de 5 metros, eles se dividiram em três ursos polares e me atacaram com suas patas e bocas. Desviei rapidamente do Urso1, ele errou a patada e arranquei-a fora, logo girei ao redor de seu corpo e cortei as patas traseiras. Ele caiu gemendo e com apenas uma pata restante, então o Urso2 e o Urso3 colidiram em minha direção, tive sorte de desviar do grande corpo dos monstros e saltei sobre o Urso3, o que foi um erro, pois na hora comecei a perder meu calor rápido demais. Eu já não vestia mais minha armadura improvisada de fogo infernal, o metal não iria conseguir manter aquele calor com essa temperatura baixa.
Cravei Ultimum na nuca do Urso3 e fiz a mesma explodir em chamas, o que foi muito eficaz e o monstro se desfez completamente. O Urso1 já estava de pé e ao lado do Urso2, tentei me concentrar, mas eu já ofegava. Eu estava cansado, meus membros mais pesados por conta do frio e minha visão aos poucos se fechando... Então o Urso1 se juntou com o Urso2 e a confusão de transformação me deixaram perdido, no final da mesma, jazia um humanoide de 5 metros com uma maça e um escudo.
–Perfeito. – Sussurrei para mim no tom mais irônico que jazia naquele estado.
Olhei para trás rapidamente e vi que Hell estava totalmente azul e a grama estava congelada em cerca de 15 metros de diâmetro, eu precisava parar ele de algum jeito, no mínimo atrasa-lo. Levantei os braços e convoquei 15 esqueletos armados de diversas armas, ordenei que eles atacassem Hell enquanto eu segurava o gigante. Se eu fizesse o contrário, provavelmente o gigante daria um tapa nos esqueletos e me atacaria. Meus esqueletos foram para cima do filho de Quione, me virei a tempo de ver uma maça gigante caindo sobre meu corpo, saltei para a esquerda e senti a força do impacto, rolei e saltei em direção do braço do humanoide. Em um arco canalizei fogo infernal em Ultimum e arranquei o braço do humanoide que caiu em forma de água, porém o gigante girou o escudo e me acertou com a borda dele bem no meu braço esquerdo. A força não me jogou longe, mas me machucou muito. Devia ter quebrado. Mesmo na noite, eu não iria recuperar aquele ferimento tão cedo.
Olhei para Hell e meu animo desabou (mais), meus esqueletos haviam congelado antes de chegar até ele. Eu precisava fazer algo antes de que o acampamento inteiro vire um super-Iceberg junto de meus amigos. Avancei contra o humanoide e cortei a dobra de seu joelho, fazendo-o se render ao chão, saltei e peguei impulso na borda do escudo do humanoide para saltar sobre sua cabeça e cair na direção da nuca, alguns centímetros antes tentei convocar todo o fogo infernal que eu conseguia em minha armadura. Fiquei quente novamente e então mergulhei na nuca gélida do gigante, atravessei rapidamente o pescoço do mesmo, porém eu havia perdido grande parte do calor.
O gigante se desfez em agua e então quando percebi, a grama congelada já chegava perto de mim e Hell estava totalmente azul. Eu não conseguia mais lutar, meu braço esquerdo pendia como um peso morto, minhas pernas tremiam e meus olhos iam fechando aos poucos... talvez... talvez... tivesse acabado mesmo...
–NÃO! – O som da voz do pequeno garoto que havia me transformado em quem sou hoje invadiu minha mente com um calor incrível. –NÃO PENSE EM DESISTIR, EDUARDO VIANA! EU NÃO VOU DEIXAR. – Minhas pernas foram parando de tremer, minha mente estava limpa, meu braço havia parado de doer e meus olhos estavam acordados novamente. A voz de Lelo havia sido como uma dose extra de cafeína na veia.
Senti as sombras se curvando a mim e aos poucos recuperando parte de minha energia. Eu poderia fazer mais dois movimentos finais e um eu já sabia qual seria.
Hell logo abriu os olhos que estavam totalmente azuis e uma névoa pendia sobre seu corpo, como se o garoto fosse inteiramente uma escultura perfeita de gelo, os fios negros de seu cabelo caiam sobre os ombros. Ele dirigiu o olhar ao redor e disse:
–Diga adeus a seus companheiros e seu acampamento inteiro, filho de Hades! – E então meu plano suicida veio à tona.
‘’ Lelo! Rápido, mande Martinato criar a barreira de fogo mais quente que ele puder.’’
Segundos depois o filho de Quione soltou um grito e tudo congelou de forma quase instantânea em um raio de 5km, eu saberia pois eu senti monstros e peixes morrendo até na praia de Long Island. Felizmente minha primeira parte do plano deu certo. Eu mergulhei nas trevas no momento que o gelo alcançou minha posição, eu só não sei se essa parte iria dar certo. Fiquei ali, no mar de trevas por mais 2 ou 3 segundos, mas foi o suficiente para as trevas começarem a me agarrar. Vou explicar: Quando usamos poder demais, principalmente poderes que envolvem o mundo Inferior, começamos a fazer parte de lá... literalmente fazer parte, como se começássemos a virar alguma forma de espectro ou até mesmo um pedaço de trevas. Principalmente se você tentasse ficar mergulhado tempo demais no mar de trevas, mas era minha única ideia suicida. Tentei sugar toda aquela energia de trevas no mar infinito, algumas sombras foram se curvando a mim e vindo em minha direção, porém as que eu tentava puxar ou eram rebeldes demais ou fortes demais. Estava sendo como participar de um cabo de guerra, mas aos poucos fui sentindo meu poder se revitalizar, meu braço havia se curado, os cortes da batalha e o cansaço sumindo. Porém eu já podia sentir minha essência se fundindo com as trevas rápido demais, eu estava perdendo o controle daquilo.
As trevas sussurravam no meu ouvido:
“fique.... Aqui nada irá incomoda-lo..... Fique conosco.... Venha filho do nosso Senhor, junte-se ao reino de seu pai.”.
“Talvez os sussurros estivessem certos... Eu poderia ficar aqui para sempre... Descansar, não ter de me preocupar com mais ninguém…” Então comecei a sentir o frio da escuridão, aos poucos minha essência e as trevas virando um só.
No segundo seguinte eu mergulhei naquele mar eterno e caí dentro de um sonho. Meu corpo é baixo e rechonchudo, eu visto uma camisa toda preta e estou de shorts jeans, eu não me vestia como as pessoas no Egito pois eu não havia nascido aqui no Norte da África, eu nasci nos Estados Unidos e com 3 anos eu vim para cá. Eu lembro vagamente antes de entrar no avião minha mãe se despedindo de um homem muito branco e vestido de terno preto, que mais tarde eu saberia que era meu pai. Minha mãe era a negra mais linda do mundo, com lindos olhos negros como jabuticabas e o cabelo cacheado que formavam lindas cachoeiras negras despencando sobre seus ombros, seu sorriso era lindo como as estrelas são e seu abraço, com a capacidade de te levar ao paraíso. Não é de se admirar que até mesmo o deus do Mundo Inferior se apaixonasse por ela.
Tudo se passava como um flash, eu via quando cheguei no Egito na rua estreita e o maldito Sol castigando minhas costas, eu nunca fui muito fã do Sol, sempre preferi o escuro e o frio. Eu devia ter 11 anos e carregava algumas sacolas, eu estava voltando da vendinha que era a um quarteirão de casa. Andei de cabeça baixa chutando uma pedrinha e me perdi em pensamentos, como contar quantos passos eu dava da vendinha até em casa, foi ai que esbarrei em um garoto vestido com aquelas roubas egípcias estranhas e brancas, pela cara dele, ele não gostou nada daquilo. O garoto estava com mais três amigos, apontou pra mim e gritou algo que já estava cansado de ouvir em árabe. “اختيار الدهون الغريب’’, que significa mais ou menos “Peguem o gordo malvestido/fudido/viado.’’ Comecei a correr em direção de casa, não faltava muito para chegar lá mas eu não podia ir pra casa com um bando de garotos correndo atrás de mim. Eles não podiam saber aonde eu morava ou não iriam parar de atormentar. Eu corri mais alguns metros até entrar em um beco sem saída, eu já estava cansado e não conseguia pensar mais no que fazer, pelo menos o beco proporcionava proteção contra o Sol, estava arejado e a sombra esfriava minha pele. Alguns segundo depois os garotos apareceram na entrada do beco com os sorrisos maliciosos e estalando os dedos.
Eu já estava cansado disso, só por eu ser diferente esses idiotas vinham atrás de mim, era assim na escola que eu tive de largar por conta desses otários e minha mãe teve de contratar, com o pouco dinheiro que tínhamos, um professor de inglês e árabe para mim. Eu já estava cansado de apanhar, de ser menosprezado. Mesmo que eu apanhasse agora, não importava, eu iria lutar. O primeiro garoto veio em minha direção com o punho fechado, porém algo havia acontecido, os meus sentidos estavam totalmente despertos, eu podia sentir cada musculo do meu corpo agir por conta própria, podia até prever os movimentos daqueles idiotas. Quando o punho do garoto desceu sobre meu rosto, eu rapidamente desviei para a esquerda e peguei a tampa da lixeira mais próxima e bati com a lateral em sua costela. O garoto gemeu de dor e apertou a parte atingida, logo caiu no chão gemendo.
Logo o segundo e o terceiro garoto vieram em minha direção, mas eu não fui tão rápido quanto, um chute me surpreendeu na coxa e me desestabilizou, em seguida um punho acertou em cheio a lateral do meu rosto, me jogando no chão. Tentei levantar e fui surpreendido por um chute na costela, logo os três garotos estavam em cima de mim, me chutando e praguejando em árabe. Eu estava de saco cheio disso....
“Chega, chega, chega. Eu quero que eles sumam, eu quero... EU QUERO QUE ELES PAREM.’’
Do nada ouvi gritos e as pancadas pararam, quando abri os olhos só consegui ver o rosto de três meninos apavorados correndo de dois esqueletos armados de alfanjes.
Mergulhei novamente em outro sonho e caí em um quarto, o meu quarto. Eu estava sentado na cama e lia um livro inglês que minha mãe havia me dado, tinha sido caro, pois vinha de outro país. O livro era ‘’ Looking For Alaska’’ e minha leitura foi cortada por um grito vindo da sala. Rapidamente eu fecho o livro e corro para a sala de estar, a visão fez minha pergunta morrer na garganta.
Minha mãe estava com os olhos arregalados e chorava, adotava uma expressão de pânico. Algo estava segurando ela, até agora eu não consigo definir muito bem o que era, parecia estar meio enevoado. Parecia ser uma garota com cabelos longos loiros e pele bem branca, porém no lugar de olhos normais estavam olhos de predadores, vermelhos e cheios de ódio ou fome. No lugar de dentes normais, saltavam dois caninos do tamanho de adagas. Ela segurava minha mãe enforcando a mesma e com suas mãos, que tinham unhas de 20 centímetros e bem pontudas, miravam o pescoço da vítima.
Eu não sabia o que fazer, me encontrava a poucos metros de minha mãe e do monstro, porém não conseguia pensar em nada a não ser ver o rosto desesperado de minha mãe balbuciando palavras entre soluços:
–Meu querido... Vá! Não ouça nada o que ela dizer, ela não sabe de nada... Vá embora, querido! – Eu não conseguia me mover, nem sequer compreender o que ela queria dizer. Então o ser que a prendia começou a falar, com um sotaque meio francês.
–Awwwn, é lindo I’amour entre uma mãe e um mestiço nojento. Bem, tenho ordens de aniquilar você e qualquer rastro da sua existência, pequeno verme. Você está bem longe daqueles que um dia puderam te proteger e mesmo estando com eles, acredito que eu estaria fazendo um favor para eles, limpando da terra a escória do Olimpo. – Eu olhei para ela atônito, sem entender ao que ela se referia, talvez ela tenha percebido a dúvida estampada na minha testa e continuou. –ÓH! Então a scories, não sabe sobre o mundo que devia viver? Mas isso é um crime pior que o meu, querida Marthina Viana. Negar a seu garoto de ser tudo que ele poderia ser? Tsc. Tsc. Claro, não que isso mudaria algo, você também tem sangue Olimpiano nas veias, não tem Marthina? Mesmo que seja muito distante, posso sentir o fedor dos deuses em seu sangue. – Minha mãe se debruçou e gritou:
–CALE A BOCA, SUA MALDITA BRUXA! NÃO TE INTERESSA NADA SOBRE NÓS. – Os soluços haviam diminuído e minha mãe adotava uma expressão mais severa e até assassina, eu não conseguia absorver tudo aquilo. Era muita coisa, nada fazia sentido. Eu me perdi em pensamentos e antes que eu pudesse perceber a “coisa’’, segurou mais firme ainda o pescoço de minha mãe.
–Enfim, lamento ter de terminar assim. Chega de frescur... – A expressão do monstro mudou de superioridade para surpresa, minha mãe havia agarrado o braço dela e aplicado um golpe de judô que jogará o monstro no chão, que jazia ali gemendo de dor. Minha mãe não perdeu tempo, correu em direção da cômoda e tirou algo de lá, uma espécie de facão todo bronzeado e brilhando. Minha mãe olhou para mim com os olhos secos de tanto chorar e gritou:
–VÁ, MEU QUERIDO! – Eu não consegui reagir, então o monstro saltou sobre minha mãe, que desviou rapidamente e esfaqueou o monstro na coxa, porém a criatura havia sido igualmente rápida e cravou suas garras no peito de minha mãe. Senti meu estomago revirar e então caí de joelhos, quando menos percebi, meus olhos haviam se transformado em um dilúvio. Minha mãe caiu imóvel no chão, sussurrando um último:
“Eu te amo, meu menininho.’’
Senti tudo ao meu redor ruir, senti a alma de minha mãe sendo enviada para o julgamento final, senti a essência dela deixando o mundo dos vivos, eu estava enlouquecendo, pude até vê-la diante três juízes determinando sua sentença. Vi a criatura se virando para mim com o olhar triunfante e dizer:
–Viu, vermezinho? É isso que a sua raça merece. Ser morta e simplesmente se tornar parte de lendas. – Ela veio vindo em minha direção lambendo a unha ensanguentada. Mas eu já não sentia mais medo. Eu sentia ódio, apenas ódio e ódio. Olhei para minha mãe novamente esperando-a acordar e dizer que era tudo uma brincadeira, mas eu sabia que não iria acontecer. O mundo começou a passar em câmera lenta, eu sentia cada passo do monstro à minha frente, sentia até mesmo sua respiração, sentia todos os músculos do meu corpo e algo mais... Sentia que a sala inteira fazia parte de mim, sentia as sombras sussurrando para mim:
‘’ venha príncipe, nos governe, mostre o verdadeiro inferno para esse monstro, mostre a ela o seu poder. Se alimente da vingança, do ódio, da morte, do desespero dela. Deixe-nos ajuda-lo, meu mestre. Se torne parte de nós.’’
Uma voz mais grave invadiu meu pensamento clareando tudo. Ou melhor, deixando mais escuro ainda.
‘’ Esses malditos servos nunca entendem que não vão conseguir seduzir qualquer filho meu a se tornar parte do mar eterno de Sombras.’’
Olhei para o monstro que agora estava parado e encarava algo acima de mim. Seus olhos estavam dilatados e suas presas haviam recuado formando dentes normais, ela agora estava em pânico, total pânico. Ela recuava um pouquinho de cada vez, um centímetro ou outro bem calculado.
–É o seguinte, Bruxa. Você veio até aqui, no Egito, para matar a mãe do meu filho e meu filho? – A voz era grossa e extremamente rígida, eu sentia medo só de ouvir ele falando, eu não iria conseguir olha-lo sem querer morrer. Porém a voz me gerava familiaridade. – Lamento informar que você acabou de invocar um mal tão poderoso que deixará sua raça eternamente amaldiçoada por mim. Vocês estarão proibidas de passar pelas sombras que servem a mim ou então serão engolidas para um mundo pior que o Mundo Inferior. E vou fazer questão de que façam hora extra no Tártaro. – Com esse depoimento a bruxa havia se encolhido e tentou se defender:
–Is-s-so, não pode ser possível, eles me disseram que vocês não podiam interferir diretamente com seus filhos, quer dizer, não dessa forma, é uma lei... – Ela balbuciava tentando chegar a lugar nenhum. O sujeito passou a minha frente e pude velo vestido de um terno inteiramente preto, com marca de alguns rostos que pareciam estar se movimentando. Usava uma cartola preta e era branco como o gelo, vi o mesmo sorrindo de soslaio e então ele deu uma breve risada, uma risada pavorosa que daria vontade de qualquer um se enterrar vivo.
–Sabe como é, minha querida. Eu não sou um deus muito certinho, nunca fui muito com as regras. Aliás, hoje é seu dia de sorte. Você vai evaporar para nunca mais se reconstituir. NUNCA MAIS. – As últimas palavras soaram como estrondos e tudo começou a tremer, os quadros caiam e espatifavam no chão, os móveis também se desmontavam aos poucos ou só quebravam. Os olhos, antes vermelhos, agora brancos da bruxa perdiam toda a vida, assim como seu cabelo louro iria se tornar branco e como todo o resto. Alguns segundos depois a bruxa simplesmente virou pó e se misturou com o vento. Naqueles segundos senti sensações assombrosas, como a morte, a escuridão, raiva. Porém era algo confortavelmente familiar, como se meu destino fosse se tornar parte daquilo tudo, que em parte, eu não estava errado.
O sujeito se virou e olhou para mim com certa admiração e um brilho dourado no olhar. Seus olhos eram negros, como os meus, totalmente pretos. Sua pele era totalmente pálida, como a de um morto, cabelo raspado, seus dedos eram enfeitados por diversas joias com o brilho ofuscado e ferro parecido de ébano, usando uma bengala feita de algo parecido com mármore, talvez ossos? O sujeito irradiava o cheiro de morte, cheiro de rancor, cheiro de desespero. Algo nele me fazia ter vontade de pedir perdão por todos os meus erros, mas não havia sentido. Então tudo isso parou quando ele pôs a mão em meu ombro e disse:
“Me desculpe meu filho, mas é só até aqui que levamos sua visão do passado. É melhor voltar a seu presente, você está mergulhado nesse mar eterno por tempo demais. Vá.” – A voz saiu mais como um sussurro em minha mente. Olhei de novo para o corpo de minha mãe. Aquela imagem iria me atormentar até hoje nos meus piores pesadelos. Eu lembro que no passado, meu pai havia sumido no mesmo instante que fez a bruxa sumir e eu corri para o corpo de minha mãe, ficando ali por horas até um garoto magrelo e branquelo atravessar as sombras com o nome de Nico Di Angelo, me explicando sobre tudo e me levando ao acampamento apesar de eu espernear chorando por minha mãe.
“Vá’’ meu pai havia dito. Ele tinha razão, precisa voltar para minha vida.
Fechei os olhos e me concentrei em minha essência, quando abri os mesmos e olhei para o escuro e apenas o escuro, eu pude ver minha silhueta quase fantasma. Meus braços e pernas haviam praticamente sumido e eu ficará transparente. Canalizei todo o rancor do meu passado, toda a raiva que eu havia contraído a partir dos anos e com a voz em tom imperativo, ordenei:
–BASTA! SOU FILHO DO SEU SENHOR, SOU UM DOS PRÍNCIPES DOS MORTOS E DAS SOMBRAS. VOCÊS SÃO MEU LEGÍTIMO DOM, MEUS LEGÍTIMOS ESCRAVOS, COM O DEVER DE ME SEGUIR E APENAS SEGUIR O MEU COMANDO. – Aquela descarga de gritos fez com que eu sentisse todas as sombras se retraindo e cedendo, com o mais próximo de medo que elas poderiam sentir, de uma vez toda aquele poder, vindo de encontro a mim. Senti como um buraco negro, todo aquela escuridão me reconstituindo por completo e senti minha armadura queimando fria em meio as sombras. Ultimum e sua pedra na ponta brilhavam como nunca, vibrava ansiando por almas. Não sabia quanto tempo havia passado desde que eu estivera ali embaixo, o tempo passa diferente nessas duas dimensões, aqui que pareceu ter sido uma eternidade, deve ter passado nem 5 minutos no mundo normal. Enchi minha armadura com todas aquelas sombras inquietas e então me pus a subir para mundo normal.
–------------------------------------------Léo volta a narrar a partir de agora. -----------------------------------
O último pensamento que pude ouvir de Du antes do mesmo sumir e cortar o nosso elo empático foi “Mande Martinato criar a barreira de fogo mais quente que puder.’’, o que não foi muito difícil, pois mesmo antes de Du dizer isso, o frio já nos castigava. Stephan fazia de tudo para aquecer a todos e quando o filho de Quione congelou tudo, em um raio de 5km no mínimo, Stephan já havia erguido uma barreira de puro fogo, o que o desgastou muito e precisamos deixa-lo deitado descansando, mas felizmente nos salvou. Quando a barreira cessou, varri com os olhos todo o ambiente que antes verde, agora totalmente branco. Olhei na direção dos chalés e a visão congelou meu coração.
Os chalés estavam todos brancos sendo cobertos por uma camada de puro gelo, ao nosso redor a grama continuava verde, porém adianta estava tudo congelado. Até mesmo o bosque, estava totalmente branco. Flocos de neve quase invisíveis caiam do céu e então olhei para o centro de toda aquela destruição. Meus amigos estavam todos boquiabertos, mas só uma coisa me importava agora. Du.
Hellyster Snowduck ria descontroladamente. Eu não via sinal de Du, o que me preocupava. Hellyster havia congelado tudo à sua frente, felizmente o Pinheiro de Thalia continuava intacto, porém infelizmente Pettrick e os demais também.
–É! EU DISSE QUE NENHUM DE VOCÊS É CAPAZ PARA O PODER DO GELO! MATAREI UM POR UM COMO MATEI SEU PRECIOSO FILHO DO SUBMUNDO. O PRÓXIMO, SERÁ O ANJO VINGADOR! – Anjo vingador? O que? Nunca ouvi essa menção em qualquer lugar. Antes de Hellyster iniciar o passo, algo surgiu em uma explosão negra. Uma espécie de vórtice eclodiu de onde Du estava. Do vórtice pude ver um homem, totalmente envolto de uma armadura sombria e extravagante, algo monstruoso que fez todos, menos a mim e meu irmão, recuar. A aura de medo que aquele ser gerava era devastadora, senti todos os meus sentidos gritarem para eu me afastar, mas eu sabia que o alvo daquilo era outra pessoa. O filho de Quione congelou, o que seria meio irônico, mas congelou de medo. Ele ficará mais pálido que o normal, quase amarelo.
O ser saiu do meio do vórtice e quando tocou o chão, toda aquela grama congelada começou a derreter a ponto de recuperar a vida e morrer, adotando um tom amarelo/preto. Cada passo que Du dava, acontecia a mesma coisa com a grama. Faltava alguns 30 metros quando Hellyster começou a chorar.
–N-N-N-N-ão pode ser-r-r... – Ele choramingava. – O-o-que é voc-ê? – Ele não conseguia se mover e apenas ficava ali parado, deixando as lagrimas saltarem de seu rosto. Du deu um sorriso de meia-boca e simplesmente disse como quase um sussurro mas sua voz varreu o grande acampamento por inteiro.
–O seu pior pesadelo. –
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