Sobrevivendo ao ensino médio
3 Não seja o babaca
Todos nós temos algo que nos causa ou, eventualmente, causará vergonha.
Não adianta fugir ou fingir que não, pois, isso é uma regra universal. Assim como colocar a colher no lixo e o potinho de iogurte vazio na geladeira,acontece na vida de todo mundo.
Para você que está no ensino médio, alguma coisa que te dará vergonha em lembrar irá acontecer. Não existem escapatórias,a única opção é enganar as pessoas ao seu redor e a si mesmo, o que chega a ser o mais vergonhoso de tudo, logo, não é o melhor a se fazer.
Se você quer ser um Conor de Handsome Devil que briga por tudo por não querer reconhecer quem é, eu tenho péssimas notícias: isso só se agravará cada vez até que vire uma bola de neve e cause um estrago gigantesco irreversível.
Existia algo que eu me envergonhava de ter feito. Se eu pudesse voltar no tempo, concertaria com toda certeza do mundo.
Assim que comecei minha semana de estudos num patamar de educação um pouco distinto do que eu já estava acostumado, convivi com pessoas diferentes. Ainda que você afirme que tem mente aberta, existe uma diferença ou outra que não conseguimos digerir, isso é fato. No meu caso, eram as pessoas dramáticas, riquinhas que pagavam de revoltadas e sofridas.
Pode até ser, em raros casos, que a pessoa realmente enfrente um problema sério, mas na maioria das vezes é só a adolescência falando.
Huang Zitao, passava por essa fase emo da vida, hoje em dia ele não deve se orgulhar.
E nem vem xingar o cara não, a maior parte de nós passa por isso — hipocrisia minha defendê-lo agora.
Em todo caso...
Eu nunca fui dos mais simpáticos, admito ter evoluído bastante depois de certos erros e acertos que cometi ao longo da minha vida estudantil e preparatória para o mundo real.
Na escola, você pode errar um cálculo, apagar e tentar novamente. Entretanto avida em si não funciona bem assim. Não mesmo.
Se você erra, pode custar a vida de alguém ou um sucesso, talvez você esteja prejudicando a pessoa que vai curar o câncer de alguém amado, etc.
Por isso, eu aprendi a pensar duas vezes antes de abrir o bocão. Certas coisas ficam melhores se não ditas, fazem menos estragos, sabe?
Nas sextas, era costume do professor de educação física nos pôr para correr. Minha escola acreditava que não tinha como ter uma boa mente e um corpo sedentário, bobagem, afinal de contas, não se prepara um cérebro numa academia. Eu sempre costumava correr em dupla com Wu Yifan,um repetente cabeça de vento.
Com toda certeza, ao invés de sua cabeça ser recheada de miolos, ele tinha uma grande quantidade de líquido cefalorraquidiano — nome complicado né? Te deixo pesquisar no Google.
Ele sempre costumava zoar toda e qualquer pessoa que tinha diferença, por exemplo,ele insistia em chamar MinSeok de tulipa roxa (sim, aquela droga de apelido pegou) — eu não fazia ideia do porque e quando descobri, desejei nunca ter internet para pesquisar coisas. JunMyeon era o “passa cola” e eu era o “tampa buraco”, pois, segundo ele, JunMyeon só me procurava quando Min não estava e vise versa.
É quase aqui que surge o surubão.
Antes que você considere isso tudo bem escroto, eu sugiro que se acalme e se concentre.
Wu sempre que corria ao meu lado, me mandava manter o ritmo da respiração em compasso, devido ao fato de que eu me cansava rápido demais. Eu nunca tive o costume de praticar esportes, estava sempre na frente do computador assistindo ou jogando alguma coisa.
Wu Yifan era o tipo de pessoa que você odeia.
Eu, particularmente, não o odiava – ao menos não ainda. Ao chegar à linha de chegada comemorei, embora apenas tivesse me curvado e apoiado às palmas sobre os joelhos suados.
Eu queria que o professor me visse como o aplicado aluno que era, contudo, com toda certeza ele me via como a personificação da preguiça.
— Byun, não pare de uma vez, isso faz mal — o cara que bradou fora Jongin,um primeiranista que estudava na classe de JunMyeon junto a Wu. Kim Jongin era considerado um dos (senão o) garotos mais bonitos de toda a escola, para ser mais específico ele era o crush de geral.
Apesar de andar com os bullys, ele até que poderia ser caracterizado como um cara legal, se, claro, você desconsiderar o gigante complexo de superioridade.
— Vá se ferrar Kim — resfoleguei. O ouvi rir.
Subitamente, senti uma pancada em meu dorso,mas não era uma daquelas pancadas normais que a gente denomina como “esbarrão” e sim, uma com força o suficiente para que me levasse ao chão e por pouco – muito pouco mesmo – não caísse de cara.
Puxei ar para meus pulmões que arderam devido à sede, senti o meu rosto efervescer. Contei regressivamente num genuíno intuito de acalmar toda a raiva que esbraveava no meu peito de um jeito quase estonteante. Tudo a minha volta parecia passar vagarosamente. Estava claro que aquilo fora de propósito.
Levantei-me depressa, andei na direção da pessoa que identifiquei como Huang, que segurou a barra da camisa para poder enxugar o líquido que transpirava pela sua pele. Eu poderia muito bem jogar a culpa nos hormônios e surrar a cara dele com todas as minhas forças até que aquele filho da puta mudasse de cor.
Foi o que eu fiz — bem, não exatamente, afinal de contas, eu não sou tão encorpado ao ponto de fazer alguém mudar de cor.
— Filho da puta! — bradei enraivecido. Avancei em sua direção e comecei a esmurrar seu peitoral com toda a força que eu tinha. Huang colocava seus braços a frente do corpo para proteger-se. — Olha por onde anda babaca!
— Byun, Byun, calma para com isso! — os braços másculos de Kim Jongin tentavam me conter. Ele passou seus antebraços por baixo de meus membros apendiculares, ergueu-me e puxou-me até a arquibancada, onde me obrigou a sentar e esfriar a cabeça.
Ele correu a mão pelo rosto, parecia tão agitado quanto eu. Ele andava para lá e para cá até que, finalmente, aquietou-se e pousou as mãos nos quadris. Umedeceu seus lábios e correu seus olhos para o restante do campo aberto. Parecia focar-se, principalmente, no amontoado de pessoas que cercavam Zitao.
Algo me dizia que não foi uma boa ideia bater de frente, mas já era tarde.
— Cara, Huang é fanático pelo Yifan. Aquilo foi só ciúme. — correu os dedos pela testa removendo o suor. Jongin resfolegou.
O vento bateu em nossos corpos. Pude sentir finalmente minha inervação relaxar.
— Certo, ciúme, ok, mas o que eu não tenho nada com o rabo dele.
Kim soltou uma respiração risonhae finalmente relaxou. De um lado, existia uma mesa branca cumprida, cheia de garrafas e alguns petiscos de frutas. Kim caminhou até lá e apanhou uma dos recipientes com água.
— É, eu sei. Ele meio que é estranho sabe. — Jongin fincou as sobrancelhas e entregou-me uma garrafa de água bem gelada. Acolhi de bom grado, guiei a garrafa até a boca e apertei as laterais do plástico me refrescando. Afastei o objeto e o coloquei entre minhas pernas.
— Olha, eu não diria estranho. Estranho quase todo mundo é. Aquele cara é psicopata, no mínimo.— bufei.
Ele desatou a rir. Sabe aquela pessoa que é bonita até quando está rindo desesperadamente? Pois é!Kim Jongin com certeza é uma pessoa de beleza incontestável.
— Cara, não fala isso perto de ninguém. Todo mundo acha que ele precisa de apoio e ajuda. Ai de quem falar só um “a” com ele.— Jongin contraiu o rosto.
Espantei-me. Em fodidos dezesseis anos de vida essa foi a coisa mais absurda que eu já havia escutado na vida.
— Ah, não. Fala sério.
— Sim senhor, é exatamente isso que você ouviu. — Sentou-se ao meu lado e pousou seus cotovelos sobre as coxas — Se você acha ele é psicopata espera só até conhecer o D.O KyungSoodo segundo ano, é bem violento.
Abanei a cabeça negativamente.
— Desculpa, odeio apanhar de graça, então é melhor eu na minha e ele na dele.— abanei a cabeça rapidamente.
— D.O é um cara legal. — Jongin baixou a cabeça com um sorriso, estranhamente devo admitir, abobalhado no rosto.
Simultaneamente, nós dois olhamos para Zitao ele ainda estava cercado de alunos e no meio da balburdia estava o professor. Huang nos mirava enfurecido, como se a qualquer momento fosse desenvolver a capacidade de disparar raio lazer pelos olhos.
Para minha sorte, isso era humanamente impossível e eu torcia para que continuasse assim.
[...]
Osino do intervalo soara como um grande alívio. Corri para juntar-me com Minseok, assim que o avistei no refeitório pude notar que ele conversava com um garoto aparentemente de estrutura baixa, já que estava sentado eu não podia observá-lo com precisão.Ele tinha uma pele pálida e seus cabelos pendiam sobre os olhos redondos, bem marcantes e sólidos. Ainda receoso, juntei-me a eles.
— Byun, eu fiquei sabendo da sua briga com o Huang. Cara, que bosta. Geral não fala de outra coisa, tem uma galerinha que ta puta contigo já.
— Se ele é retardado a culpa não é minha, apenas posso dizer que eu aguento muita coisa, menos frescura do filho dos outros. E outra, ele que me machuca e eu, por me defender, sou culpado?
Kim franziu seu cenho e abanou as mãos.
— Vai com calma, acabei de sair de uma aula de física. — Minseok puxou-me pelo braço para que eu me aproximasse um pouco mais, deitei a cabeça em seu ombro. Seus dedos travessos despentearam meus fios. De um jeito atravessado, baguncei os seus. Eu amava não só o cheiro e a maciez do cabelo de MinSeok, como também a cor. Sério, ele ficava extremamente bonito de cabelo roxo.
Olhei para o adolescente a nossa frente e sorri sem dentes, sorriso esse que não demorou a ser correspondido. Ele destacou sua lata de refrigerante e pôs dois canudos.
— Então você é o cara que espancou Zitao?
— Educadamente espanquei o Zitao — ergui o dedo indicador ao corrigi-lo. Ele deu um breve puxar de boca, daqueles bem contidos. Tipo quando você sente vontade de rir de determinada situação, embora não seja o melhor a se fazer.
— Ao menos alguém finalmente fez algo com ele, começou a passar dos limites. — D.O baixou seus olhos ao refrigerante.
— Eu cheguei agora, mas francamente, aquele cara é uma figura. — Pontuei,
— Dizem que ele repetiu por conta do Yifan. — virei-me para Minseok que me fitou — Que foi? É o que dizem.
— Se ele fez isso, mano...
— Sim, ele é bem retardado — completou o de madeixas negras.
— Ah, é. Desculpa. Byun, esse daí é o KyungSoo, ele estuda na mesma sala que eu, a gente começou a sentar junto na aula de computação.
Rapidamente recordei-me da conversa com Jongin.
— Ah, o carinha violento do segundo ano.
Kyung fincou suas sobrancelhas.
— Alguém andou falando com o Jongin. — Minseok observou.
— É, foi ele quem separou a briga dos dois — Soo vestiu expressões emburradas, por algum motivo parecia extremamente desconfortado sobre estarmos falando do Crush de geral.
— Você realmente se informou de tudo, não? — tentei desviar o rumo da conversa.
— As noticias correm, meu caro Watson. — estreitou os pequenos olhos e ergueu a pontinha do queixo. Chacoalhou a cabeça de modo que seus fios se agitassem em reação. Nós três rimos, entretanto, voltamos a ficar sérios rapidamente.
— E também o Kim vive na nossa sala. — D.O encheu seus pulmões de ar e vagarosamente os soltou.
— Eles têm uma relação de amor e ódio realmente incrível — MinSeok ofereceu-me seu refrigerante e eu aceitei de bom grado. Min era o tipo de pessoa que pegava comida, mas nunca terminava tudo.
— Tipo você e o... — o adolescente pálido tentava recordar-se e estalava os dedos. Endireitei-me entusiasmado, ele já havia falado sobre o tal cara.
— JongDae! — Completei entusiasmado e apontei para Kyung que animou-se.
— Vão se foder vão — Min afastou-se, com uma falsa cara de mágoa. Eu sabia que internamente ele xingava o Dae de todas as formas possíveis e impossíveis. Kyung e eu desatamos a gargalhar.
Minseok ficava uma graça quando bravo, principalmente pelas bochechas cheias que ficavam extremamente rosadas, não tinha como levá-lo a sério numa situação tensa.
— Cadê o Myeon? — tentei puxá-lo para perto novamente.
— Está doente e achou melhor ficar em casa.
— Quando eu chegar em casa, mando mensagem para ele. — levantei-me a fim de ir pegar um salgadinho. Direcionei-me até uma daquelas máquinas de lanches, coloquei o dinheiro e apertei as funções. Esperei a comida, entrementes, havia algo que estava me deixando deslocado.
Olhei ao redor e entendi o por quê.
Todos os alunos presentes no refeitório fitavam-me como se eu fosse um assassino, se possível um pouco pior. Peguei a embalagem que fora o único som que se propagou em todo o âmbito.
Senti-me perdido, deslocado, a coisa que me despertou do transe quase sem fim fora a mão firme de Kim Minseok, que me levou até onde, anteriormente, eu estava sentado.
Assim que me acomodei no assento, D.O girou seu tronco para olhar os arredores.
— Acho que a noticia correu rápido demais. — Soo murmurou.
Foi aí que a percepção me tomou e ganhou força em meu psicológico, como pequenas luzes que pipocavam em meio ao breu.
Quando você coage alguém não aceito, seja por uma diferença endógena ou apenas uma característica que todos odeiam, absolutamente, nenhum ser vivo irá se importar. Agora, quando você arruma uma confusão, por mais boba e sem fundamentos que seja com alguém aceito socialmente, todos irão te odiar sem nem olhar teu lado da história.
É isso que chamamos de ensino médio. Uma preparação repleta de veracidade para o mundo que vemos hoje.
[...]
Invadi o banheiro extremamente irado. Eu precisava ficar sozinho e pôr minha cabeça no lugar, ainda que, aparentemente, fosse inútil. Com toda certeza meus dias no ensino médio seriam uma porcaria.
Quando se é odiado por toda a escola, não te resta muito. Apenas aguentar piadas, peças, o bullyng e a solidão.
Eu sei que falei sobre como ficar sozinho pode ser bom. E é. Principalmente quando não tem um tanto de gente querendo sua cabeça separada do pescoço. Sem contar que desde a última vez que vi Huang ele parecia extremamente decidido a fazer da minha vida um inferno.
Tudo por culpa do Yifan!
Ele poderia simplesmente deixar-me em paz, ao invés de me por na mira de um psicopata passional.
Certo. Dava para superar, era só manter a calma e a cabeça no lugar.
Abri a torneira e pousei minhas palmas sobre a pia fria. Joguei água no rosto, girei o cilindro e fitei meu reflexo. Eu não havia percebido por ter entrado depressa demais.
Tinha gente lá, se tratava pessoa que eu jamais, sob nenhuma circunstância, queria ver naquele momento. Ainda que eu estivesse envolto numa massa de raiva densa, tentei colocar a cabeça na frente da situação, afinal, Huang estava numa situação igualmente deplorável. Zitao se situava sentado no chão do banheiro com seus joelhos dobrados. Ele vestia expressões assustadas que se davam pelo fato de que eu teria, a poucos segundos atrás, entrado no banheiro que nem maluco.
Seu queixo tremia e seus soluços agora estavam audíveis. Os orbes de Huang estavam semiabertos e inchados por conta do pranto. Suas feições estavam comprimidas e eu estava atônito. Um pouco fissurado em seu reflexo. Uma sensação confusa afligia-me. Na mesma proporção em que a raiva se alojava em meu peito, um ímpeto de perguntar se estava tudo bem crescia.
Respirei fundo com certa dificuldade, ironicamente eu arfava. Talvez por conta do jorro de adrenalina que me acometeu de repente ou poderia se dar como consequência do susto que eu havia tomado. Não sei ao certo.
Muitas pessoas no meu lugar aproveitariam da oportunidade e afogariam ele no vaso sanitário. Entretanto, eu sou um ser humano assumidamente idiota e que acredita num conceito chamado “humanidade”.
Decidi quebrar aquele clima estranho de ficar encarando sem falar ou fazer algo. Virei-me e sentei-me ao seu lado. Dobrei meus joelhos e o vi remexer-se conflituoso, ele parecia perguntar se podia ou não se aproximar. Apenas o puxei e deixei que ele pousasse sua bochecha quente sobre meu ombro, onde derramou suas lágrimas.
Não existia nada pior do que precisar de alguém e estar sozinho. Era uma dor que eu não desejava a ninguém.
E no fim das contas, eu me arrependia amargamente de ter o julgado. Eu não sabia qual era o ponto raiz de sua dor, nem mesmo se ele realmente sofria só por Yifan.
A maior lição que eu havia aprendido em "O sol é para todos", é que não se pode julgar um homem sem antes calçar seus sapatos.
Se você algum dia ver uma pessoa precisando de ajuda, estenda a mão. Não importa se você conheça ou não, se gosta ou não, apenas ajude. No dia que você precisar, pode ter certeza que o carma não vai se esquecer da sua boa ação, ele nunca falha.
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