Sobreviva Ao Seu Destino
28 Planície da Neblina.
Notas iniciais
Quando Piper despertou, sentido um frio vindo com um vento, ela abriu seus olhos e viu tudo sob a cobertura pálida e branca de uma neblina densa. A ruiva estranhou tudo, pois mal via cinco metros a sua volta e o sol era apenas uma pequena esfera brilhando distante. Sentou-se esfregando os olhos castanhos e tentou enxergar mais distante, mas não adiantou nada. Então ela ouviu o som de passos e uma sensação gélida percorreu sua coluna junto com o medo. Piper pensou que podia ser aqueles três desconhecidos nada normais e imediatamente segurou sua faca e esticou o braço, passando por cima de Judie, para acordar Sean. O rapaz despertou e moveu sonolento, mal notando o estado daquela manhã. Então uma sombra disforme foi se definindo na cortina de neblina enquanto se aproximava.
— Que bom que estão acordados — Stan disse recebendo os olhares dos ruivos. — Está na hora de continuarmos. Vamos, fiquem de pé e se quiserem acordem os outros ou eles vão ficar.
Depois disso o moreno com o curto rabinho de cavalo se afastou.
Os outros que não estavam acordados logo despertaram e buscaram encontrar os companheiros dentro do perímetro que a neblina os permitia enxergar. Nesses minutos nenhum dos três desconhecidos os buscou novamente, mas pelas conversas e alguns som dos passos dava para os banidos perceberem que eles ainda não tinham partido.
— Nós temos que deixa-los — Ross comentou mal humorado, as marcas da luta estavam em tons de roxo em seu rosto de pele clara e barba crescida. — Podemos muito bem sobreviver sem o tipo deles.
Tae abriu a boca para dizer algo em concordância, mas um riso gozador e rápido o interrompeu. Subitamente Stan estava materializado na roda de café da manhã deles, de braços cruzados como se estivesse lá a um bom tempo.
— Vocês não sobreviverão aqui — o mais velho disse para todos, mas encarando Ross, que o olhava com amargor. — Na floresta vocês tinham alguma mínima chance. Aqui — e Stan moveu a cabeça, indicando a campina oculta na neblina — é um dos piores lugares para tentarem isso.
Os jovens o olharam em um silêncio tenso. Henry subitamente soltou um riso fraco, a bandana ainda pressionando sua cabeça latejante, e depois ele perguntou:
— Então para onde é que vocês vão?
— Para o outro lado — Stan respondeu sem expressão alguma. — Saberão mais se chegarem lá vivos. Por enquanto tentaremos dar alguma chance para vocês os suportando. Mas estejam preparados até o fim das suas vidas para lutar. — Os jovens se entreolharam, mas antes que alguém puxasse mais assunto do homem, ele continuou: — Estamos indo agora. Tentem permanecer por perto e atentos, não vamos ficar chamando ou procurando por alguém. Venham.
Stan deu as costas para eles. Aurora tomou a frente e conseguiu o toca-lo para chamar atenção.
— O que é que tem do outro lado, afinal? — ela perguntou o olhando nos olhos.
— Um lugar minimamente descente para não terminarem sua vida como animais selvagens.
— Hãn! Pelo jeito de vocês, parece bem o contrário... — Ross comentou sarcástico.
— Não me provoque para querer assistir a sua morte. E andem logo! Não temos tanto tempo.
Dando a costa para eles de novo Stan começou a se afastar para se juntar á Clark e Rock.
Aurora não sabia o que esperar do que tinha do outro lado, assim como os outros. A planície parecia assustadora, com um nível bem mais complicado para encontrar o que precisavam para sobreviver. Podiam não ter comida nem agua durante muito tempo, mas, se ela desse algum mínimo crédito aos desconhecidos, tinha um lugar que eles podiam chegar. E ter um lugar para chegar era melhor que não ter nenhum. Com essas conclusões Aurora seguiu atrás de Stan, carregando sua mochila um pouco mais leve sem os suplementos que consumiram.
Foi uma decisão difícil para cada um deles. Para todos o espaço aberto tinha muitas desvantagens, e isso fazia Stan estar certo de que não sobreviveriam sozinhos naquele lugar. Mas os três desconhecidos tinham convicção e determinação de atravessar aquela área para chegar nesse lugar, deviam acreditar plenamente que do outro lado havia algo melhor que sobreviver na floresta. Os poucos que não conseguiam confiar nos três tiveram que segui-los à contra gosto. Estes sabiam que não tinham melhores chances se ficassem sozinhos para trás e para sobreviver na floresta, mesmo que o ego dissesse que sobreviveriam sozinhos muito bem.
Eles se afastaram do acampamento em uma direção confusa, mas para longe da borda da floresta. A frente de todos caminhava Rock, por medida de segurança e estratégia de Clarke, poia o primeiro deles ia ser o atacado se alguma criatura surgisse, e também Rock estaria longe de confusão com os banidos que os seguiam. Para Rock a posição não parecia ruim como era, ele era o primeiro e tinha orgulho de estar a frente guiando todos. Stan vinha atrás deles, ás vezes chegava ao meio do grupo os observando e às vezes caminhava atrás de seu líder, sem se importar com os outros, mas seus olhos sempre passavam por Joy, o vigiando constantemente.
A Neblina estava do lado deles, sem mudança alguma em sua textura, e Sean era um dos que se perturbava de como aqueles três sabiam a direção em que estavam caminhando silenciosamente. O terreno em que pisavam era de uma grama baixa e fina encoberta por orvalho, o solo era macio e sem pedras, por vezes com algum monte sem explicação e arbustos secos.
Em um momento Stan ficou para trás dos dois companheiros. O grupo seguia em uma fila indiana mal organizada. O rapaz não dava conversa pra quem lhe fazia pergunta e Joy era um que fechava a cara quando ele estava por perto e ficava em completo silêncio. Stan parou de repente, atento aos arredores. Frederico por pouco não trombou nele e logo percebeu pela expressão do moreno mais velho que algo não estava certo, e notou-o colocar a mão no punhal preso no cós das calças surradas que usava. Parte do grupo passou pelos dois distraidamente, mas Joy parou ao lado de Frederico e acabou trocando um olhar com o mais velho, notando que este estava tenso. Logo Clarke fez todo o grupo pararem de andar e ouviu atentamente os arredores, sem poder enxergar muita coisa na neblina. Um farfalhar foi escutado por todos, poderia ser confundido com o som do mato sendo soprado pelo vento, mas não havia vento na planície.
— O que foi isso Sean? — Judie segurou mais firme a mão do rapaz, e ele não teve tempo de sequer pensar em uma resposta.
— ALICE! — Foi a voz desesperada de Ross, que por instinto olhara para trás e vira o vulto branco se aproximar da garota loira que acompanhava o debilitado Henry.
O animal de focinho fino e branco, orelhas arredondadas e grandes, olhos puxados âmbar com pupilas verticais e um chifre perolado no meio da testa mordeu por trás uma grande mecha dos cabelos dourados da moça, sem conseguir pegar a carne do pescoço como desejava. A criatura do tamanho de um cão grande se apoiou nas costas de Alice quando a atacou, e ela gritou de dor pelas garras finas das patas dianteiras cravadas em suas costas e por seu cabelo que foi puxado quando o animal tentou descer e arrasta-la.
Aurora, que estava do outro lado de Henry, o largou e puxou a cimitarra enroscada na mochila para atingir as costas do animal de corpo comprido como um furão e com uma calda volumosa com diversos espinhos escondidos. O corte no dorso fez a criatura soltar Alice e se contorcer com a dor. O sangue vermelho-alaranjado escapava do corte e sujava o pêlo cinza claro. Alice tratou de se afastar e encontrou Piper e Tae, que estavam parados mais a frente.
O animal parou encarando o grupo de humanos e a garota próxima que havia lhe ferido. Nessa postura se parecia com uma raposa clara de corpo alongado e as quatro patas com garras finas e mortais arcadas sobre a grama.
Ross se aproximou da loira ferida jogada nos braços de Tae, que estava sem reação de como sustenta-la em seus braços. Ela não parecia bem. Piper tentava conversar desesperada, mas Alice começou a tossir com grande quantidade de sangue escapando pela boca e dos furos em suas costas.
A raposa ferida subitamente ergueu o focinho e soltou um uivo sem fim extremamente estranho, ruim e agudo. Perturbando cada um do grupo, com o som vibrando por dentro de seus corpos por mais que tentassem tampar os ouvidos e, por instinto, fechar os olhos com a dor que a nota trazia para suas cabeças. A criatura não ia parar com seu ataque sonoro se Henry, que estava suportando uma dor na cabeça bem antes de todos, não tivesse reagido dando um chute no pescoço esticado do bicho. Clarke e Rock olharam o que aconteceu para o animal ficar quieto e gostaram. A raposa se engasgou, o chute foi forte o suficiente para a traqueia ser quebrada, o ar não passava e o animal de desesperou como se algo estivesse preso em sua garganta até que sem oxigênio ela desmaiou e logo deixou de reagir.
Ross se voltou novamente para Alice, segurando-a, tentando ver seu estado por sua expressão, mas não tinha o que fazer. A garota fungava o ar contaminado com seu próprio sangue e o encarava fixamente com os olhos azulados úmidos. Tae informou que as garras entraram profundas demais, eles não podiam nada com o ferimento interno. Piper estava do lado, em choque com as palavras e incapaz de pensar em muitas coisas, afinal era sua amiga que estava no pior momento que podia estar e não tinha como ajuda-la.
— FIQUEM ATENTOS! Ainda não acab... — Stan tentou avisa-los enquanto pegava uma flecha para seu arco, mas Fritz foi derrubado no chão por uma nova unidade da raposa branca.
Satn apontou sua flecha para as costelas do animal o mais rápido que pode, mas foi empurrado por Joy que sibilou que ele ia atingir Frederico. Ele acabou se desiquilibrando e, ainda se pondo de pé, assistiu Joy montar no corpo da criatura, puxar uma faca, segurar o cangote da criatura e passar a lâmina no pescoço da raposa. Mesmo falecendo a raposa curvou a calda espinhenta e conseguiu atingir a coxa do rapaz, deixando grossos espinhos cravados.
Subitamente Stan olhou em volta, enxergado coisa suficiente através da neblina: o corpo de Alice estava nas mãos de Piper, ajoelhada no chão, Ross e Tae montavam um cerco perto dela enfrentando outra criatura; Rock tinha espinhos na barriga e uma faca pingando o sangue vermelho alaranjado de outra criatura recém-abatida, enquanto Clarke assistia os outros, calmo, mas com uma arma em mãos; Pietra estava próxima de Yuki, Sean e Judie, e tentava protege-los com seu arco em mãos; Aurora e Henry mantinham-se juntos, mas o rapaz tinha se ajoelhado no chão com alguma crise tardia de dor na cabeça ferida, o que fez Rose se afastar da loira da Cheryl e ir tentar ajuda-los a se defender. Stan então olhou para Joy, que puxara o corpo do animal de cima de seu amigo e tentava fazer alguma coisa em meio à quantidade de sangue que se empoçava no chão e deixava Fritz extremamente pálido.
— Solta ele! Não tem mais chance Joy! — Stan empurrou o moreno de cima do amigo.
Joy pareceu não ouvi-lo, mas largou facilmente o menino ensanguentado quando notou Cheryl sozinha e sendo atacada por uma das raposas brancas que pareciam vir de uma matilha infinita. A besta que a garota tinha só serviu para bloquear a mordida da criatura e tentar manter o bicho com as garras afastadas de seu corpo esguio. Com isso Joy se pôs de pé, focado em ir ajuda-la, e não percebeu uma criatura sem oponente que se infiltrava furtivamente no meio dos que lutavam e lhe agarrou pela panturrilha com os dentes pontiagudos e começou a puxa-lo para longe da batalha. Joy viu Stan apontar a flecha para o animal que o mordia, mas disse:
— NÃO! Ajuda ela! — gritou fazendo uma cara feia e apontando para Cheryl. Depois ele atacou sua raposa com a faca, mesmo sendo arrastado.
Stan obedeceu, apontou para a raposa diante da loira e atirou. O primeiro disparo o despertou para a ação, e logo mais algumas flechas atingiram outras criaturas antes que atacassem alguém, enquanto os banidos foram derrotando as que lhes atacavam.
A agitação se dissolveu rapidamente. Os corpos de mais de meia dúzia das raposas estavam espalhados entre os sobreviventes. A neblina densa voltou a ficar estática e silenciosa à volta deles. Os corações disparados, mesmo os quebrados pela chegada da morte, continuaram batendo e a adrenalina ainda corria no sangue.
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