Sobreviva Ao Seu Destino
4 Para alguns a tormenta de um banimento.
Notas iniciais
S-K andava pela cidade antes do meio dia. Tinha terminado seu serviço mais cedo e por isso ganhou um tempo antes de ir para o treinamento. Depois de se afastar do centro da cidade cheio de casas bem próximas, surgiram as residências com jardim aos fundos, e andando mais um pouco ele chegou na área que lhe deixava mais tranquilo, no leste da colônia, e se infiltrou em um pomar de cercas baixas de madeira escura. Ele gostava de caminhar por lá sentindo os diferentes aromas e também aproveitando do silencio tranquilizador que o pomar possuía, apenas quebrado por passarinhos que se escondiam muito bem.
[Piper Hopkins]
–Ele não vai continuar andando... vai? -sussurrou Piper ajeitando o cabelo ruivo acobreado e ondulado, cortados acima dos ombros e desalinhados, atrás de uma orelha.
–Está parecendo que ele vai. -Joshua, irmão mais velho de Piper, disse também assistindo o garoto que avançava sob as sombras das arvores frutíferas.
Os dois estavam escondidos atrás da mesma arvore de tronco largo, indecisos se deviam se relevar ou não, já que normalmente havia uma multa para quem fosse pego colhendo qualquer fruto, e não sabiam se o garoto de cabelos ruivos-escuro, que mais parecia castanho de longe e sem muita luz, era um dos vigias do pomar.
–Ah não! –exclamou Piper quando S-K continuou andando na direção de sua tentativa de armadilha mal terminada e abandonada ao notarem alguém se aproximando, logo o rapaz foi içado para cima bruscamente, e a garota se escondeu de vez atrás da arvore ocultando o rosto nas mãos para não ver. -Acha que devemos deixa-lo lá?
Joshua ainda observava S-K pendurado e balançando por alguns segundos, mas antes de responder alguma coisa a armadilha falhou e o rapaz despencou de volta ao chão.
–Bem, parece que ele conseguiu sozinho. E sua armadilha, irmãzinha, não prestou muito. –respondeu Josh com um desapontamento fingido e Piper voltou a olhar o rapaz que se levantava do chão. -Se ele for um vigia, podíamos ter fugido com ele ainda pendurado...
S-K sentia algumas partes do corpo doloridas, mas notou mais preocupado um ferimento, sem explicação de como surgiu, na testa que sangrava em um filete que quase atingia seu olho esquerdo. Depois ele pegou o pedaço de corda que o capturou e observou o mecanismo que se enrolava nas árvores próximas.
–Isso é meu. -disse Piper o surpreendendo e com a mão estendida para recuperar a corda.
A garota ruiva, de olhos escuros e chamativos no rosto de pele clara com algumas sardas ao redor do nariz e nas maçãs do rosto, tinha saído do esconderijo e encarava fixamente o garoto, tomada de súbita coragem.
S-K sorriu fino e notou o irmão de Piper se aproximar logo atrás dela, então terminou de enrolar e soltar a corda.
–Eu não sei o que tentou fazer, mas isso não é uma armadilha.
–E desde quando você é o guia-de-armadilhas em pessoa? -disse Piper pegando a corda enrolada e sendo analisada pelos olhos cinza de S-K.
–Bom, desde que sou obrigado a ter aulas de armadilha. -e ele arcou as sobrancelhas enquanto a garota o encarou, perturbada, e depois se virou para o irmão:
–Ele não é um vigia, Josh. — e se virou para S-K. –Você é daqueles do Abrigo, não é? Desde quando pode ficar andando por aí? Normalmente vocês estão enfunados em algum lugar que ninguém vai, fazendo coisas que ninguém gostaria. Eu soube que os mais velhos de vocês podem conhecer os lugares mais remotos da cidade, é verdade? Vocês realmente recebem treinamentos? Como é? Pode me ensinar alguma coisa útil? Meu irmão está tentado me ensinar alguma coisa, mas estamos caminhando lentamente, ainda mais com o banimento marcado e...
S-K mal tinha começado a pensar na resposta da primeira pergunta, e Piper não lhe deu tempo para entender a próximo e nem a seguinte. Quando deixou de ouvi-la, olhou para o irmão da menina, que parecia mais acostumado com a garota que falava sem muitas pausas e até conversava sozinha contando fatos e coisas que não era perguntado.
–Como que você se chama?- Joshua perguntou em meio ao falatório de Piper, que parou ao notar a conversa paralela.
–S-K. -respondeu.
–Quê? Será que bateu a cabeça forte demais? Tente se lembrar, vamos. — Piper se aproximou dando incentivo e com uma leve preocupação dele ter adquirido amnesia. -Qual o seu nome?
Ele sorriu da aproximação dela e logo percebeu que a garota não tinha tido muito contato com os órfãos, então explicou que os nomes deles era assim, letras, sem ligação alguma com nada. Sem ligação com o nome que sua família lhe batizou e sem importância para o governo. Depois dando uma leve olhada para o céu, verificou se tinha tempo e resolveu dar algumas dicas de armadilha para Piper e seu irmão.
[Han Tae Joon]
Depois de dias aprendendo na teoria o uso de armas de lâminas e modos de fazê-las usando o que se encontrar, o instrutor ia permitir um treino prático, um campeonato onde se fariam duplas, cada com um com uma espada e um escudo, e lutariam até que restasse uma dupla de vencedores invictos. Para ajudar, da companhia de proteção da colônia, cinco soldados mestres nessa pratica estavam presentes e iriam auxiliar o grupo de quase trinta órfãos de vinte anos em treinamento.
Han Tae Joon, um jovem de cabelos castanhos com um tom de vermelho, pele clara e olhos castanhos escuros puxados, já tinha tido aquela aula o ano passado, mas não tinham recebido instruções e treinaram apenas nos alvos e manequins. Enquanto os cinco soldados marcavam o piso em vários quadrados de 8M² (4mX4m), Tae vagou sério pelo salão cheio de janelas altas -algumas sem vidro, piso de madeira, teto alto e sem nenhum móvel, analisando cuidadosamente quem seriam os melhores da turma, até que os soldados disseram para formarem as duplas.
–Você! Saia daí! –disse Tae ao olhar uma arena próxima.
Ele estava mandando um garoto com cara de tédio, da idade dele e consideravelmente mais baixo que os seu 1,84 de altura, deixar de ser a dupla de um garoto de cabelos curtos e dourados, que estranhou Tae expulsar seu oponente fácil.
–Esta querendo perder rápido como aquele?- perguntou o rapaz, que era levemente maior fisicamente que Tae, posicionado do outro lado do espaço e esperando a distribuição do equipamento chegar até eles.
–Pelo contrario. -disse Tae o encarando sem expressão e cruzando os braços para esperar. –Apenas não quero disputas fáceis desde o começo. Sou bom o suficiente para começar com algo que não dá na cara que é frouxo.
O loiro estreitou os olhos e exibiu uma irritação, depois o ignorou.
Tae Joon tinha tido um família que ia ficar com ele o tempo que pudessem, mas esse tempo foi decidido quando uma doença de tratamento muito caro e difícil chegou. Tendo ele como segundo filho e as condições para sobreviverem sempre em um controle absoluto, a doença desequilibrou tudo. Os pais de Tae foram os primeiros a não resistirem. Seu irmão mais velho tentou como pode manter a vida deles ao ocupar a vaga de trabalho do pai, mas também foi contaminado e morreu. A família já estava sendo observada pelo Departamento de Controle de Não Primogênitos, e eles não deixaram que Tae, com apenas dez anos na época, continuasse na casa ou tentando viver sozinho, e ele foi mandado para o Abrigo.
Logo um soldado lhe entregou uma espada não muito larga e nem muito estreita, a lamina possuía algumas marcas de ferrugem e seu punho estava gasto, mas ainda utilizável. O escudo era bem rustico, aparentemente um simples pedaço de madeira quadrada com tiras de couro pregadas em um dos lados para se segura-lo, e já estava marcado por vincos de treinos com espada anteriores. Seu oponente recebeu o mesmo equipamento.
–Atenção!- disse o instrutor no meio do salão em uma voz que ecoava. — O objetivo disso não é causar dano ao oponente, ou pelo menos nem tantos, é apenas um treino, mas os que perderem na primeira rodada não terão atingido o objetivo do dia. Se se machucarem, se saírem da arena ou se estragarem algum equipamento, daremos a vitória ao outro! Podem começar!
Os órfãos se olharam, diversos grupos pareceram hesitantes para começaram, mas Tae Joon avançou assim que o instrutor deu a ordem. Ele correu rapidamente até seu oponente, que se distraiu observando os outros, mas no ultimo segundo se protegeu usando o escudo. Tae continuou forçando a lamina contra a madeira, usando força para fazer seu oponente dar alguns passos para trás e sair da arena. O loiro havia se surpreendido com a força que não podia ser jugada pela aparência de Tae, então teve que forçar o pé no chão para não sair da marca.
–Preparasse para ser derrotado! -Disse Tae liberando o escudo do outro e se afastando para o meio do espaço.
Tae desviou do primeiro golpe de espada do seu oponente dando um simples passo para o lado, então o loiro usou a borda escudo para acerta-lo e ele se protegeu usado o próprio. O som das madeiras se chocando ecoou diferente dos outros sons de madeira versus metal do salão, e Tae sentiu uma leve dor no antebraço atrás do escudo, mas ignorou e agilmente levantou o braço com espada e fez um giro sobre eles para passar a lamina atrás do outro escudo do oponente, ainda ocupado em empurrar Tae. O loiro percebeu tarde o que ia acontece e a lâmina cortou seu braço esquerdo, sem causar um corte maior, pois ele se afastou atrapalhado e tropeçou caindo para trás. Tae ainda permanecia de pé e observou-o se preocupar com o corte no braço que manchava o chão e suas roupas de sangue.
–N-C vencedor! -disse um dos soldados que passava entre as arenas. –Pode ir até a parede e espere lá. –indicou para Tae um dos extremos do salão, onde já havia alguns rapazes e garotas encostados, e depois voltou a andar jugando as lutas nas outras arenas.
O loiro derrotado tinha a face vermelha de raiva quando encarou Tae com uma expressão convencida que dizia que estava certo em seu julgamento. Então Tae seguiu para a parede onde os vencedores esperavam, porém mal deu alguns passos e o rapaz se levantou do chão, o virou segurando-o pelo ombro e lhe deu um soco. Tae foi rápido, desviou-se da rota do punho, que passou bem em sua frente, depois retribuiu a ação golpeando o estomago do outro com o escudo, que ainda estava em seu braço. Enquanto o oponente agonizava, Tae o derrubou no chão com um movimento de perna e empunhou a espada com a ponta contra o peito do loiro, pronto para finca-la se fosse necessário, mas um dos soldados percebeu e ordenou que ele parasse. Tae encarou presunçoso uma ultima vez seu oponente derrotado duas vezes e foi para seu lugar mantendo a expressão séria de sempre.
[Aurora Consegree]
O dia de Aurora tinha começado com a escola obrigatória. Aos dezesseis anos ela era alta, de cabelos castanhos escuros levemente ondulados e médios com uma franja puxada para o lado, olhos grandes ligeiramente puxados e cor mel, e uma pele levemente bronzeada com as bochechas e lábios rosados, era uma garota atraente. Aurora estudava na escola para os primogênitos, um grande prédio branco de dois andares em um terreno com gramado verde na frente, onde a maioria dos moveis era de madeira escura e envernizada, e todos os alunos vestia-se sempre com o uniforme impecável. No final daquela manhã de estudos ela foi verificar o ranking das boas notas em uma lista no quadro de avisos perto da porta de vidro de saída.
–Auri's, sabe que mesmo que passe uma semana seu nome ainda vai estar aí no topo, né? É perda de tempo ficar verificando. -um primo dela alguns graus, falou ao passar por ela. Ela sorriu, um sorriso angelical e ao mesmo tempo malicioso que costumava usar, e então o seguiu porta a fora carregando sua mochila.
Aurora tinha uma razão bem interessante para se manter a melhor da classe, e quem sabe da escola, pensava no futuro, mas não o futuro de gloria que podia ter dentro da colônia.
Ela seguiu pelas ruas acompanhando o primo e logo seu pai surgiu no caminho. Eles costumavam se encontrar assim no horário de almoço e iam juntos buscar o irmão de Aurora, Pietro, quatro anos mais novo, na casa do primo e da tia. O pai de Aurora se chamava Guillo e sua mãe Eleanor, eles tinham se conhecido bem jovens, ela com 16 e ele com 17, e não demorou nada para Aurora surgir. Desde então eles estão juntos e são felizes, apesar de conviverem com a dificuldade financeira e tendo que sustentar o segundo filho. Mas uma tormenta arrasadora estava esperando: Guillo era um órfão. Ele ainda trabalhava e treinava como qualquer outro, o que fazia a mãe de Aurora também trabalhar para sustentar tudo e Pietro ficava com o parente. E depois do anuncio da data do Banimento ele estava mais preocupado, pensando o tempo todo que ele e o filho seriam mandados embora e ficariam Aurora e Leonor sozinhas, não havia solução em sua mente. Ele até dava algumas dicas para o garoto, e Aurora volta e meia se intrometia para aprender e auxiliar o pai nos ensinamentos ao mais novo. Mal sabia sua família que Aurora tinha decido aos dez anos de idade que o irmão ficaria, e que essa era uma das razões dela ir tão bem em tudo que o governo propunha. Que desapontamento não seria a melhor da escola, com um dos futuros mais promissores em qualquer das áreas de serviço, simplesmente ser banida.
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