Sobreviva Ao Seu Destino
17 Mantenha a calma.
Notas iniciais
Os que foram salvos de virar café da manhã de criaturas estranhas, estavam seguindo o rapaz desconhecido por toda a manhã. O cansaço aparecia a cada passo deles, mas sem recursos, sem armas ou as preciosas mochilas com as suas coisas, a única coisa que fizeram foi seguir aquele estranho, que andava sempre a frente deles sem se importar com os quatro, e se alguns deles se distraíssem por um momento ele ia desaparecer na mata e os abandonar. Nos pensamentos de Cheryl, seguia-o por que talvez ele tivesse uma mochila em algum lugar, com alguma comida, mas quando chegou o meio dia, andando sem parada, sua teoria parecia não ser tão possível.
Quando o rapaz finalmente parou foi para retirar seu disfarce de pele, deslizando-o sobre o corpo para amarrar em volta da cintura, ficando com uma regata preta, e depois tirou de sobre os ombros uma calça de tecido grosso e remendada, que estava escondida até aquele momento, vestindo-a distraidamente enquanto observava os quatro se aproximarem e cederem ao cansaço se sentando no chão ou encostando-se em algum tronco. E Henry foi o primeiro a falar alguma coisa depois da cena:
— Por estava sem as calças até agora? — perguntou, com uma leve gozação na voz, ao se sentar no chão.
O desconhecido o encarou por um momento, sem uma expressão, então respondeu:
— Molhei ontem à noite em um rio e pensei que secaria na madrugada, mas tive que ir até aquele lugar. Só não vesti antes porque não gosto de andar com calças úmidas. — ele olhou rapidamente para outros três, as duas garotas e o outro de olhos puxados. Então franziu o cenho ao perguntar — O que vocês estão fazendo aqui?
— Como assim? — Tae disse sério e levemente sem paciência, encostado em uma arvore. — Estamos descansando um pouco. Ficamos uma noite sem dormir e precisamos comer logo, e para não ajudar você não parou um momento desde que saímos daquele lugar.
—... Também estou com fome. — disse o desconhecido olhando em volta pensativo, depois voltou ao assunto. — Mas não foi isso que perguntei. Quero saber o que vocês quatro estão fazendo aqui, como e por quê?
Tae suspirou, controlando sua irritação crescente ao pensar que falava com um rapaz com algum problema mental, ou desmemoriado, do qual não estava com paciência para lidar naquele momento.
— Fomos banidos pela colônia, como todo mundo. Estamos aqui para sobreviver a tudo isso e se não conseguirmos, vamos morrer. — resumiu Henry com um tom de obviedade na fala.
— Morrer? — o rapaz levantou as sobrancelhas. — Chegaram bem perto disso ontem.
Henry o encarou estranhando o jeito que a fala soou, como se ele não compartilhasse do mesmo passado ou destino deles, ou de qualquer banido.
— Você não se lembra? A Colônia, órfãos, banimento, “tchau família”, “vamos morrer”?
O moreno desconhecido negou com a cabeça, mudo, pensativo, e estranhando Henry. Um breve silencio se instalou enquanto a ideia de desmemoriado se tornava um pouco mais solida ao olharem para o salvador deles.
— Ao menos sabe seu nome? — Cheryl resolveu constatar alguma informação.
Ele assentiu quase rindo e respondeu:
—Joy. E vocês, sabem seus nomes?
Cheryl e Tae se apresentaram rapidamente e Henry disse seu nome e apontou para Suzie a apresentando — a menor parecia a mais cansada de todos, com os olhos fechados e sem prestar muita atenção na conversa. Depois Joy deu uma olhada em cada um deles, sabia que não ia lembrar o nome de todos tão fácil, mas não podia ser difícil: Tae é o asiático sério, a garota de cabelos loiros e compridos é Cheryl, o alto tranquilo era Henry e a mais baixinha e pálida era a Suzanna.
Cansado de ficar ali, entre trocas de olhares, Joy foi em direção a alguns arbustos.
— Onde você esta indo? — Tae perguntou o encarando com um pouco de espanto. —Não podemos continuar gastando energia sem um plano. Precisamos descansar e comer, e é melhor ficarmos aqui um tempo.
—Mas esse já é um bom plano. — falou Joy se virando para ele. — Vocês podem ficar aqui. Eu só vou buscar alguma coisa para comer, não precisa se preocupar.
Tae pensou um pouco se ia ficar ou segui-lo, deixar a possibilidade de um almoço nas mãos daquele cara não lhe era agradável, mesmo estando cansado preferia ter alguma garantia de alimento, então se ofereceu para ir com ele e o seguiu dizendo para os outros três ficar ali e descansassem.
Na mata os galhos dos arbustos lhe atingiam em diferentes partes do corpo, em sua frente ele sabia que estava Joy, seguia-o apenas ouvindo o som dos galhos e folhas que sendo pisadas. Em um momento fez-se silencio e Tae não entendeu, mas continuou andando naquela direção até encontrar o moreno agachando-se atrás de um arbusto e observar algo do outro lado. Aproximou-se e tentou descobrir o que ele via através das diversas folhinhas. Joy levantou o rosto e o olhou com um sorriso fino:
—Que estranho ter alguém atrás de mim. — comentou Joy mais para si. Então ficou de pé quase trombando no outro. — Mas você não é tão barulhento quanto os outros.
Dito isso olhando Tae, Joy pegou a faca no meio da roupa e atravessou a parede de folhas e galhos finos. E Tae o seguiu. Logo os dois pararam observando a armadilha diante deles com um animal, que parecia um roedor cinzento e roliço, preso por uma das patas e deitado no chão exausto, segundo os sinais na terra e folhas, a criatura estava à bastante tempo tentando se soltar. Joy olhou em volta cauteloso, verificando se havia algum outro predador querendo a presa, e quando olhou na direção de Tae riu rapidamente da expressão dele, estranhando a cena, depois Joy mirou a faca no animal e atirou. O animal sofreou o golpe na nuca exposta e mal reagiu, soltando apenas um grunhido decadente.
— Quem fez essa armadilha? — Tae perguntou olhando em volta enquanto Joy buscava a criatura abatida.
—Os pássaros é que não foram. — ou outro ironizou, e Tae fechou o punho, mas Joy continuou a falar: — Por sorte, essa daqui é minha. Mas tem outras que são dos nossos amigos humanoides-pálidos, pois estamos no território deles ainda e é bom tomar cuidado, sabe: manter os olhos abertos — e com um sorriso gozador, Joy jogou o animal para os braços de Tae e se afastou logo para recuperar o trecho de corda e desfazer a armadilha.
Depois e poucos minutos Joy chamou Tae para segui-lo, mas não era a direção certa. E Tae ficou no mesmo lugar.
—Vamos voltar para junto dos outros. — disse autoritariamente para Joy.
—Outros? Ah, é verdade. Certo. Mas antes é melhor limparmos. Segura ele no alto um pouco.
Tae, estressado e sem paciência, levantou o animal segurando-o pelas patas dianteiras, mas mudou a cara quando Joy abriu um corte na barriga gorda e esticada do bicho, afundando a lamina para poder alcançar aquele interior e depois deixando os restos cair naquele chão e ser enterrados com alguns chutes de folha misturada com terra. Quando terminou, Joy sorriu para Tae, que observava todo o ato querendo ou não aprendendo.
Quando retornaram Cheryl ajudou arrumando a fogueira, depois que Joy pediu que alguém a fizesse. Parte da carne foi assada de forma improvisada, mas o estranho demostrava melhor desenvoltura com esses improvisos. Depois de matar a fome, o moreno se ajeitou entre Cheryl e Tae, e aos poucos caiu no sono, como Henry já estava fazendo há mais tempo.
Ninguém do grupo conseguiu ficar muito tempo acordado, mesmo com a luz do dia passando entre as folhas das arvores e depois só acordaram quando Joy chutou o pé de cada um já desperto.
—Que bom que acordaram! Se vocês vão ser mesmo meus, temos que continuar andando para sairmos dos territórios de caça dos humanoides. Vamos logo.
—Seus? Ninguém aqui vai ser seu! — disse Tae, ainda levemente contaminado pelo cochilo rápido. — Estamos aqui apenas para sobreviver. Achamos que a melhor forma é estando em um grupo.
—Eu não sobrevivi com um grupo. — Joy disse um pouco mais sério encarando o asiático sentado no chão. —Sobrevivi pelas coisas que sei e que meus pais me ensinaram. Mas não vai ser ruim serem meus, vou cuidar bem de vocês. —sorriu convencido. — Ou se não, podem ir, não obriguei nenhum de vocês me seguirem até aqui. Só não me sigam sem eu saber.
Os quatro trocaram olhares rapidamente.
—Ele é doído — comentou Cheryl em tom baixo com Tae. — Mas pode ser útil com algumas coisas. Acho que devemos segui-lo por enquanto.
Depois que todos ficaram de pé, Joy andou a frente deles, mostrando o caminho, se é que ele sabia para onde estava indo.
[R.Y.C.R]
Naquele final de tarde, Ross seguia cada vez mais irritadiço com a falta de agua, tinha sede e o cantil vazio, as meninas deviam ser as únicas que podiam ter algum gole de agua, mas ele não ia retirar isso delas. Ter Donnatelo no grupo com o incomodo o tornozelo ferido deixava a caminhada devagar demais para a chance de encontrarem uma fonte de água.
— Será que os outros estão bem? — Rose perguntou quando se cansou do silencio. — Sabe, de todas aquelas pessoas que saiu com a gente, quantos ainda estão vivos?
—É tanta preocupação aqui, que não dá para pensar nisso. — respondeu Don, andando do lado dela mancando. — Talvez essa nossa paz seja só porque outros estão entre nós e as piores coisas daqui.
Sua fala fez a garota ficar quieta por alguns minutos, até beber o ultimo gole de agua do cantil e reclamar do fim da mesma.
—Acho que dá para usarmos aquilo. — Charlotte ouviu-a, comentou e apontou para alguns cipós que passavam sobre a cabeça deles na trilha que seguiam. Há um tempo pensava nas formas de conseguir água, e aquilo era uma de suas respostas.
Assim que Don e Rose pararam observando o que ela mostrou, Charli deu um jeito de puxar um dos cipós para baixo, o som fazendo Ross e Yuki também pararem, e com a faca cortou o caule que tinha em mãos e mostrou para Rose, em poucos segundos o liquido límpido brotou e começou a gotejar.
— Tem certeza disso? — Don perguntou incerto e Charli assentiu confiante em seu conhecimento.
— Você tem boa memoria. — Ross se aproximou falando um pouco perturbado em admitir. — Ensinam essas coisas em um dos primeiros anos, não é tão espantoso. Mas nem se mutilássemos todos os cipós daqui, vamos ter água suficiente.
...
O grupo andou até Yuki indicar um lugar alto, no topo de uma colina íngreme pequena, onde podiam passara noite. Era um bom lugar, já que dava uma boa visão do que tinha a volta deles e ficariam sobre qualquer coisa.
Prontos para a noite, Yuki testava a lamina da espada em uma das arvores magras de em volta sem ser incomodado. Ross e Don conversaram, comentando alguns casos que tiveram e outros assuntos, até que Donnattelo se distraiu vendo Rose esticar a corda do arco com uma flecha posta, mas sem postura e sem mira, e a flecha escapou sumindo na escuridão.
—Acabou de desperdiçar uma flecha, Rose. Largue isso antes que se machuque ou machuque alguém. — Ross falou com leve arrogância na voz, enxergando com ajuda da luz da fogueira.
—Pensei que soubesse tratar bem as garotas. — falou Don o olhando fingindo-se de surpreso.
—Depende do que eu quero com isso. E no momento quero que ela não atinja alguém com uma das flechas.
Rose passou a praticar apenas esticar a corda e mantendo a força o máximo que podia sem deixa-la corda escapar, até que Donnatelo foi ajuda-la, arrumando alguns galhos retos e sem ponta que e ela podia lançar sem ferir alguém e dando as dicas que ele recebeu nos treinamentos de órfão.
[Sean&Cia]
A manhã seguinte surgiu diferente para todos. O nevoeiro branco e denso estava para todo o lugar. Piper mal conseguia ver onde estavam os outros do grupo dela, que sabia que não estavam longe, e logo chamou por alguém, depois foi com um leve susto que notou a aproximação de Aurora.
— Hoje está frio — disse a morena á Piper. — Queria fazer alguma coisa quente, me ajuda com a fogueira?
Piper assentiu e acompanhou a outra até os restos da fogueira apagada, deixando Alice sozinha se esconder em meio sua capa, resistindo em sair do lugar quente tão cedo.
Em pouco tempo todos estavam acordados cobertos com suas capas, e a pequena Judie, que não tinha mochila, estava com uma jaqueta de couro emprestada de Alice.
—Vamos sair andando nesse nevoeiro todo? Sem ver nada?— perguntou Richard ao grupo reunido durante o café da manhã.
—Ficar ou ir, nos dois modos é perigoso. — Disse Pietra, que agora possuía um arco rústico, feito de uma madeira selecionada e resistente, e um conjunto de três flechas também feitas por ela.
— Eu voto para irmos. — falou Alice. — Quando mexermos o corpo vai ajudar a esquentar, e podemos encontrar um abrigo melhor, tipo uma caverna, ai seria bom, ficaríamos abrigados e com menos chances de sofremos algo.
Todos concordaram, e assim, depois de comeram, levantaram acampamento e caminharam. Caminharam por horas e o branco estava sempre à frente deles e por todos os lados, as arvores no raio de cinco metros se mostravam, mas outras arvores além disto, não podiam ser vistas.
Subitamente murmúrios extremamente baixos chegaram aos ouvidos de Sean, o deixando confuso se estava mesmo ouvindo aquilo. Buscou algum sinal nos outros, se tinham notado alguma coisa diferente, mas encontrou apenas a menorzinha do grupo o olhando, enquanto seguia andado ao seu lado. Na segunda vez, o que ouviu foi o som de folhagem, e o ruivo parou olhando em volta, mesmo sabendo que não podia ver. Estranhando-o, Piper perguntou o que foi e observou Sean e Fritz, que talvez não tivesse ouvido nada, mas ficou preocupado, olhando em volta. A frente deles, após alguns passos, Louis, seguido de Richard, Aurora e Pietra, também pararam estranhando a movimentação do resto do grupo. Com o silencio presente, sem o som de passos, todos ouviram o levíssimo múrmuro e logo a seguir o zunir de uma flecha. A agitação foi rápida diante do ataque. Sean, Piper e Judie se abrigaram atrás de qualquer arvore próxima, assim como Aurora e Alice se esconderam atrás de algum tronco e foram imitadas por Frederico. E Louis não teria percebido o objeto passar por ele se não sentisse o raspão no ombro e ouvisse o baque da flecha prateada se cravando na raiz de uma arvore logo atrás; ao lado dele Pietra não perdeu tempo para lançar uma de suas flechas na mesma direção de onde veio o ataque, com a melhor mira que tinha, depois ouviu algum som sem muita distinção, mas para ela significou que acertou o alvo. Entretanto, em resposta, duas novas flechas vieram, a fazendo seguir Louis e empurrar Richard para um abrigo.
[R.Y.C.R]
— Meu Deus e agora! Don!
Nos braços de Rose o rapaz de cabelos loiros e olhos castanhos cuspia sangue, sem conseguir ar e sentindo o fim de sua vida chegar.
Yuki não devia ter simplesmente lançado a flecha, estavam apenas querendo entender o que estava se aproximando e ainda discutiam em tom baixo sobre ir ou não ver de perto, não era para atacar. Mas a ansiedade foi demais para ele suportar, e quando o som das folhas e galhos parou ele quis movimenta-los. E agora um dos membros do grupo estava com uma flecha de madeira fincada no meio das costelas, sofrendo as consequências de sua ação. Mas Yuki, na verdade, pouco se importava com aquilo, atirou em dobro logo depois, e atiraria outras se Ross não o puxasse e o desequilibrasse para derruba-lo, buscando manter uma posição oculta de quem quer que fosse.
Rose não sabia o que fazer com o rapaz ferido, e nem Charlotte, com onze anos, que estava do lado dela.
Donnatelo trincava os dentes com a dor em seu peito, semiconsciente do que acontecia e sabendo apenas que a sorte não estava ao seu favor, segurou o restante de haste que via e puxou-a, livrar-se daquilo lhe deu um breve alivio na busca do ar que se misturava com o com o próprio sangue, porém, mais para o espanto das garotas, a flecha não estava inteira. A ponta havia se desintegrado em farpas durante o golpe, e provavelmente estavam espalhadas, o que tornava tudo um pouco pior. Os minutos seguintes foram o fim. O coração reagia contra a farpa que o feria e o fazia derramar o sangue de forma errada no interior do corpo, o que gerou uma das dores mais agudas antes das ultima batida.
Para Rose não teve muito tempo de reação diante do ultimo espasmo de dor do rapaz, apenas a sensação de fragilidade da vida apareceu. Mal o conhecia, mal conviveram, mas a partir daquele momento não existia mais possibilidade de saber mais dele e ela sentiria alguma falta.
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