Sobreviva Ao Seu Destino
26 Entre inimigo e amigo.
Notas iniciais
Ross se levantou do chão um pouco atordoado com a pancada, o desfecho da cena já tinha acabado, e observou a arma do arqueiro, parecia resistente e o disparo foi bem eficiente; o outro homem, caído com o humanoide, não havia hesitado em participar da luta e aparentemente eles tinham um plano combinado, por isso Ross não confiou neles. Eles se viravam bem demais sozinhos, pensou enquanto assistia o homem sobre o humanoide descer de seu posto com um pulo e depois observar cada um deles com seus olhos azuis gelo.
— Fique longe! — o desconhecido que lutou contra o humanoide rosnou para Joy, que ia ajuda-lo a ficar de pé. Um pouco rancoroso o rapaz se afastou e o homem se levantou com algumas caretas de desconforto nas costas.
Mas Stan logo fixou seus olhos em Joy, sem expressão, apenas o olhando.
— Quem são vocês? — Tae perguntou, limpando um filete de sangue que escorria de um corte na testa para seus olhos puxados.
Stan o olhou indiferente, depois olhou para o outro desconhecido, que ainda não tinha nome, e foi este que respondeu impondo mais autoridade na voz e puxando o ar com dificuldade:
— Nós é que perguntamos. Quem são vocês?
— Isso é uma pergunta boboca, Clarke. — disse o rapaz chamado Rock, de cabelos castanho, escuros e rebeldes. Ele estava de volta, entregando a flecha propositalmente com a seta suja virada para Stan pegar, mas o outro percebeu e com um olhar sem paciência pegou na haste. — Claramente são pessoas. E devem ser de além das montanhas Duna e também do Abismo. Porque nós sabemos que antes disso e não tem nada! Esses projetos de criatura semi-humana comem tudo que encontram.
— Montanhas? Abismo? Do que eles estão falando? — Piper com Judie, já próxima de Joy e Sean, perguntou para eles. E eles olharam para Joy, mais ele também não sabia a resposta.
Henry tinha acordado. Alice tentava conversar com ele, mas o rapaz estava se curvando no chão pela dor aguda na cabeça e soltando alguns resmungos que chamou atenção de Clarke.
— Stan — o mais velho disse uma vez e o moreno se moveu.
Ele se aproximou de Henry e o tirou da posição fetal em que estava. Depois segurou o rosto do rapaz com força e Henry lutou, empurrando-o e tentando faze-lo solta-lo. Pouco depois Stan o largou, o sangue que escorria de um corte na cabeça de Henry havia sujado suas mãos, mas ele não te importou tanto, apena se afastou limpando o sangue na roupa e dizendo neutro:
— É, foi um apancada forte, talvez esteja com algum trauma. Vai ficar agonizando até que melhore. A não ser que tenha algo para mate-lo desacordado — ele olhou para Alice e ela não disse nada, então ele se virou para Clarke: — Acho que não precisamos desse. Já temos homens demais.
— É verdade, o deixe aqui — Rock concordou. — Podemos levar só as garotas. Os outros estão feridos mesmo — e o rapaz, o mais baixo dos três, olhou Alice com um leve sorriso no canto da boca.
— Precisamos de todos — Clarke disse revirando os olhos e cansado da imbecilidade daquele. — Vamos seguir o plano. Levamos todos, e pouco me importo com a história deles. Vocês vão vir conosco. — dessa vez ele falou com tom suficientemente sério para todos.
Clarke era o mais velho dos três e de qualquer um que estava na floresta, e os outros dois também eram mais velhos que os banidos. Talvez por isso, e por desconhecerem as intenções dos três, que o grupo os seguiu em silencio e atentos até que o sol começou a se por e Clarke indicou um bom lugar para passarem a noite.
Tae e Ross concordavam que não confiava neles e disseram para cada um de seu grupo para não se apegarem, pois assim que desse iam se separar do trio de desconhecidos.
— Mas eles são de algum lugar. E não deve ser longe, eles não tem nem uma mochila com eles. Com certeza são sobreviventes e devem ter a melhor estrutura que podemos imaginar nesse lugar. — Aurora argumentou, sentada no meio da roda envolta de uma fogueira. Em canto mais afastado Clarke afiava a faca e Stan e Rock conversavam entre eles, sem interação com nenhum banido.
— É serio isso? — Cheryl perguntou. — Você não desconfia de toda aquela habilidade deles e o fato de enfrentarem dois humanoides sozinhos? Você viu o tamanho daquelas criaturas, só loucos os enfrentariam em tamanha desvantagem.
Auri’s ficou em silêncio, a dúvida sobre a esperança de finalmente se estabelecerem em algum lugar pesando com o perigo que aqueles três podiam significar. Então ela notou Yuki, afastado de qualquer um e da fogueira, com a mão diante do rosto, concentrado. Sem pensar muito, mas estranhando-o, ela foi até ele mancando levemente, a dor no tornozelo tinha se tornado gradualmente suportável, e se ajoelhou diante do loiro.
— Tem algum problema aí? — perguntou e ele a encarou. — Me deixa ver. — Aurora estendeu a mão e alguns segundos se passaram com ele não desviando o olhar do dela, desconfiado de sua atitude, até que deixou sua mão sobre a dela.
Após analisar a ferida, que tinha sofrido mais quando Yuki usar a espada na briga, ela o olhou com uma leve cara de nojo.
— Isso não tá bom. Acho que tem um pedaço de madeira aqui. — ela disse tocando a parte mais escura do corte, fazendo-o sentir a dor. Ele tentou puxar a mão pra si, mas ela o segurou firme. — Você não vai conseguir sozinho. Vai por mim. Meu irmão teve algo parecido e foi mais rápido com ajuda.
Yuki suspirou e deixou a mão aos cuidados da morena. Aurora tomou cuidado avaliando a melhor maneira de tira a farpa e começou seu trabalho. Era complicado, pois a madeira estava funda por ele ter mexido tanto, e o rapaz não ajudava ao dar puxões súbitos na mão. De repente ela pegou a faca e foi encarada com breve espanto por Yuki.
— Para ajudar a puxar — ela explicou.
No primeiro cutucão com a lâmina, tentando fisgar a madeira, ela parou assustada e olhou Yuki que tinha segurado sua coxa com a mão livre.
— Para você saber o meu nível de dor. — ele explicou e sorriu levemente forçado. — Não esta ligando muito para isso até agora.
Ela concordou sem jeito e continuou seu trabalho sentindo-o apertar sua perna, incapaz de esquecer o toque na medida em que ela mexia na ferida. Aquilo a tinha ajuda perceber melhor a agonia dele e também ele tinha parado de dar os puxões súbitos, mudando para a força que a segurava. Depois de alguns minutos ela conseguiu tirar a farpa e sorriu mostrando a pequena lasca de madeira avermelhada entre aos dedos. Estranhamente Yuki retribuiu o sorriso, aliviado do incomodo e sem a soltar. Quando o silêncio entre eles pesava e o rapaz não desviada os olhos verdes claro dos dela e nem dava intenção de parar de tocar a perna dela, eles foram distraídos com um comentário alto:
— Ei, isso aqui é uma larvinha!
Em uma mão Clarke segurava a parte de trás da gola da blusa de numero maior que Judie usava. A menina tentava se soltar sem sucesso e o homem ria da atividade dela, mas não durou muito. Sean ágil rápido ao ficar de pé logo depois de perceber o que aconteceu e segurou o pulso de Clark, fazendo pressão para manter a criança ainda com os pés no chão e menos enforcada, e firmemente mandou-o solta-la o encarando.
Arrogantemente o mais velho sustentou o olhar e soltou a criança devagar. O ruivo ficou mais calmo e o soltou também. Mas Clarke só esperava ter o braço livre para segurar Judie novamente e se afastar de Sean e qualquer outro, com alguns passos para trás e sua faca recém-afiada na garganta de menina.
— Stan — Clarke chamou encarando fixamente Sean, que paralisou com a ação inesperada. O rapaz chamado respondeu com um Hum? e ele continuou: — Estava errado de precisar de todos. Essa criança não vai durar nada lá, é melhor poupa-la... É muito miúda, não aguentaria nenhuma pancada.
Sean puxou o machadinho do cinto com a fala, irritado e perturbado, mas hesitou quando o homem forçou mais a lâmina na pele da criança, que soltou algumas lágrimas de medo enquanto tremia. A alguns metros deles, Stan assistia a cena, levemente incrédulo, e suspirou dizendo:
— Larga ela, Clarke. Sabe que tem gente que vai gostar de tê-la como mascote. E isso não é atitude de um líder. Você é pelo menos dez anos mais velho que o irmão dela, devia dar algum exemplo.
Pareceu que o homem refletiu as palavras e desviou o olhar do de Sean, pensando contrariado.
— Se ela sobreviver ela vai crescer. Vai ser útil. — Rock deu seu comentário desnecessário, pois Clarke já soltava a garota devagar.
Judie correu para Sean assim que estava livre e o homem olhou para o pequeno grupo que ficará de pé em apoio ao ruivo.
— Desculpe. Era apenas um teste. — Clarke dissimulou dando de ombros e calmamente se afastando de olho neles.
Henry estava consciente naquela noite, com a cabeça e o lado direito do rosto enfaixados na tentativa de estancar o sangue do corte no meio dos cabelos. Alice e Rose se revezavam para saber como ele estava indo. A pancada da maça lhe deixou uma dor continua do traumatismo, que por alguma sorte dava sinais de que ele poderia ficar bem. Mas as crises de dor agudas ainda o deixavam quase desejando que não estivesse acordado. Só não cedia a tomar um chá concentrado de uma planta, que os órfãos conheciam do treinamento, e funcionava como um sonífero poderoso, porque queria ficar de olho e capaz de responder se algum daqueles três quisesse se livrar dele de novo. Aurora tinha contribuindo com um composto de plantas medicinais amassadas que aliviava levemente a dor do ferimento e evitaria uma infecção, ela também entregou o medicamento para Yuki utilizar na mão ferida para que ele não tivesse mais problemas.
Piper tentava acalmar Judie junto de Sean. Os três até pareciam um apequena família, a ruiva, o ruivo e a menor que os dois estavam cuidado, mas não eram. Tae observava a cena sem muita emoção, chegando até a pensar, por um curtíssimo tempo, que na idade da garota ele ia perder a família e nem sabia, depois viveria completamente sozinho, aprendendo a se virar. Cheryl estava do lado dele, e ela parecia desconectada do mundo pensando em qualquer coisa. Então ele continuou ouvindo a conversa.
— Pode ficar tranquila. Nós não vamos deixar que os três façam qualquer coisa com você de novo. E o Sean vai prestar mais atenção para que não te peguem de surpresa... Quer dizer, eu também vou ficar de olho. — disse Piper.
— Eu não quero mais ficar aqui... — murmurava a menina encostada no ruivo, chorando tanto que parecia que ia desidratar.
— Ninguém quer, Judie — Piper disse calma. — Mas é onde estamos, e vamos ser fortes para sobreviver até que não tenhamos força alguma.
— Judie pare com isso logo. Até o Tae tá ficando cansado disso. — Sean disse, olhando o rapaz que observava a cena e se surpreendeu rapidamente em ser mencionado. A menor levantou o olhar sob a aba do gorro, que ainda possuía, e viu a cara dele atenuando a expressão de choro. Para ela Tae era sério demais e alguém que não devia ser perturbado. Ela conhecia um pouco da fama dele nos treinamentos de órfãos, ele era bom em tudo que aprendia, um bom aliado naquela situação.
— Não quero que me separem do Sean de novo. — murmurou ela mais calma depois de engolir o choro. — E depois ele vai desistir de me achar...
— Que bobagem — Piper falou. — O Sean agora te adora, e não vai desgrudar de você tão fácil — e o rapaz ruivo lançou um olhar desconfiado para a garota, mas ela continuou falando em nome dele: — Antes do banimento ele não sabia a importância que você tinha pra ele, por isso que não foi atrás de você. Não só ele, eu também estou aqui e vou cuidar de você. Além de tudo isso, você mesma contou que fugiu sozinha dos homens da colônia que te prenderam, não foi? Então, você é muito capaz de lutar, e se ele não vier atrás de você, você vai procura-lo e achar.
Tae conseguiu observar a menor sorrir das palavras de Piper. Finalmente ela tinha parado com a criancice desnecessária.
— O que você fez para os homens da colônia te prender? — Cheryl ficou curiosa. Os agentes normalmente perseguiam adolescentes encrenqueiros, não crianças, elas eram mais facilmente amedrontadas com uma voz autoritária e uma chamada de atenção.
— Nada — a menor respondeu rouca. — Só me levaram do quarto antes da manhã chegar e sem falar nada.
Tae viu sua mente clarear e percebeu a situação, então soltou um riso sarcástico que ninguém entendeu.
— Garotinha burra — ele disse e Piper e Sean o encararam sérios, até Cheryl o olhou estranhando. — O pessoal que te levou ia deixar você ficar na colônia o resto da sua vida, e provavelmente sem trabalhar.
Os que estavam próximo se espantaram com a afirmação dele.
— O que você esta falando? Ninguém fica na colônia assim. — Sean disse sem entender.
Tae riu, percebendo a ignorância dos outros órfãos banidos.
— Claro que ficam. Só que ninguém fica sabendo porque eles fazem um bom trabalho — ele respondeu. — Existe um lado sujo, e até sórdido, que muitos poucos conheceram, meu caro Sean. O governo da nossa odiada colônia podia fazer o que quiser com qualquer um de nós e todos os habitantes já estavam acostumados a nos ignorar, não ia dar importância a um sumiço ou outro.
— Mas o que iam fazer com ela? — Piper quis saber. — Como pode afirmar que ela ia viver o resto da vida lá?
— Isso foi sugestivo. Judie tem as características mais comuns dos habitantes de lá, se fosse o caso de quererem os órgãos ia ser um desperdício, ela é magra demais. Provavelmente algum ricaço de alto nível encomendou-a. Se tivesse ficado, eles iam dar um jeito de apagar todo o seu registro e criar um novo, dando- lhe dando um pai e uma mãe mortos, e por alguma razão você ia parar com algum padrinho ou madrinha da alta sociedade, onde iria viver e provavelmente esquecer o que viveu como órfão.
A noite passou-se devagar. A descoberta de um dos lados sujos da colônia fez Piper, Sean, Judie e Cheryl ficar pensando até dormirem. Joy estava de vigia depois de Ross, de olho nos desconhecido durante a noite. A maioria tinha conseguido pegar no sono e descansavam depois de comerem e beberem algo. No entanto Frederico ainda estava acordado do lado dele, o seguindo de perto por ter salvo sua vida; e o garoto também achava que seria melhor protegido se ficasse com ele.
— V-você... sabe que aquele cara fica te olhando? — Fritz disse em um sussurro disfarçado, indicando Stan. Joy foi mais direto e olhou o homem de volta. — O que acha que ele quer com você? — o menor perguntou preocupado. Seria uma disputa injusta se ele tentasse ajudar Joy a se defender se algo parecido com o da Judie acontecesse.
— Eu não sei. — o moreno respondeu com tom de cansaço. — Não tenho nada de mais.
Ah, claro, Fritz pensou irônico e consigo, nada além de um corpo bem desenvolvido, os olhos de um azul chamativos e um jeito naturalmente divertido. Então ele se obrigou a parar com aqueles pensamentos estranhos, deixando o assunto morrer e fazendo companhia na vigília.
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