Sobrenome Intensidade
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A casa fora construída de uma madeira escura e que se mantinha sólida mesmo com o passar do tempo. O terreno ao redor era recoberto por grama e algumas bromélias haviam sido espalhadas sem qualquer critério. Duas arvores altas e robustas, com copas verdejantes cresciam lado ao lado em meio ao jardim e serviam de apoio ao balanço no qual as crianças se divertiam. Lilian gostava do lugar e naquela tarde se pegou a desfrutar de sua casa como fizera no primeiro dia. A moça era jovem, entre 25 ou 30 anos e trazia no rosto uma serenidade típica das pessoas do interior. Os grandes olhos negros estavam concentrados no trabalho de cavar pequenos buracos onde seriam postas as mudas de variadas flores. O vento soprava seus cabelos e ela experimentava o silencio como quem medita ou faz uma prece. Não parecia que algo pudesse atingi-la naquele momento.
Poucos instantes depois um choro alto e dolorido cortou o ar e fez com que Lilian aprumasse o corpo sobre os pés. Correu para dentro da casa e procurou pela filha caçula. A encontrou no quarto com as mãozinhas espalmadas contra a irmã, que a socava com toda a força que seus punhozinhos continham.
— Luciana! – A menina maior virou seu rosto e mais uma vez Lilian se espantou com a indiferença daquela criatura. Ela não demonstrava qualquer emoção enquanto surrava a menor. Lilian se dirigiu a elas e ergueu a caçula nos braços, desferindo um tapa certeiro na mão de Luciana. – Precisa para com isso minha filha!
A garota a encarou com olhos claros e voltou a brincar com a boneca que jazia esquecida a seu lado. Lilian manteve a outra filha segura nos braços e a levou para fora, sentindo o coração apertado pelo choro que não cessava. Depositou a menininha a seu lado e ofereceu a ela uma mudinha de flor. O choro foi diminuindo e em seguida ela já afundava as mãos na terra fofa.
Lilian estudou a menina e se perguntou como duas crianças poderiam ser tão diferentes. Luciana era impetuosa, quieta e em certos momentos demonstrava uma violência assustadora. Já Dóris era dócil, medrosa e expansiva. A diferença de poucos anos não parecia ser o problema e sim a irritabilidade característica e o ciúme que Luciana tinha da irmã. Ela não entendia o porque, mas sentia que aquilo iria piorar com o tempo.
Com o passar dos anos a diferença entre as crianças apenas aumentavam. No jardim de infância, Dóris era querida enquanto a irmã, alguns anos a frente, estava sempre sozinha e possuía uma personalidade caustica. Se saia bem nos esportes e costumava competir com garotos em partidas de futebol e basquete. Quando se sentia injustiçada em algum lance durante as partidas não hesitava em usar os punhos. Antes de completar 12 anos, já acumulara varias suspensões e advertências por violência.
Dóris crescia como uma flor. Era absurdamente carinhosa e obediente, com uma inteligência vivaz e espírito de equipe. E apesar de ser controlada, já aprendia a tratar a irmã com a mesma aspereza com que era tratada. Durante a adolescência, Luciana ficou ainda mais distante e se mostrava irritada com sua aparência. Aos 15 anos era magra demais e com um rosto ossudo, onde seus traços ficavam indistintos. Não se podia dizer se era bonita ou feia, apenas não fazia gênero algum e foi nessa época que a relação com a irmã caçula piorou. Luciana ficava a observar aquela criatura que flutuava a seu redor, com cabelos castanhos e olhos esverdeados, pele branca e traços extremamente delicados. E tudo no que pensava era em esbofetea-la sempre que podia.
Apesar dos olhares assustadores que a irmã dirigia a ela, Dóris era feliz. Todo verão ia para a casa dos avós e experimentava durante um mês a paz do campo. O sitio ficava no interior do Paraná e alguns irmãos de seu pai moravam lá o ano inteiro. Ela gostava de acompanhar o ritual da preparação do açúcar mascavo, ou como diziam seus primos “açúcar amarelo”. Durante muitos dias todos acordavam bem cedo e iam para as roças de cana. Dóris ficava fascinada observando os carros de boi que se movimentavam em procissão pelas estradinhas de terra. Em poucas horas regressavam com os carros apinhados de cana.
A moenda era ligada e seu tio césar começava a moer canas. O bagaço caia para um lado e o liquido doce, chamado garapa era desviado para um enorme tacho de latão e aquecido até ferver. Quando estava no ponto de melado, as crianças tinham permissão para mergulhar varetas feitas da própria cana no liquido e esperar para que esfriasse um pouco. Na temperatura certa se tornava uma liga que podia ser amassada e puxava. Dóris se divertia enquanto sua mãos trabalhavam e davam forma as puxa-puxas. Quando estava na consistência certa ela enrolava a massa em forma de caracol e colocava no refrigerador. Eram dias de felicidade e doçuras, em que ela nadava com os primos e brincava de caça ao tesouro. Todas as manhãs iam aos pomares de bergamota e ficavam com a barriga cheia de tanto comer as frutas. A noite se reuniam ao redor do fogão a lenha e Dóris observava fascinada enquanto seu tio fazia seu palheiro, com cheiro forte, mas característico. Conversavam sobre muitas coisas e dormiam tarde.
Quando voltava para casa Dóris sentia saudade do clima de paz e harmonia que a muito deixara de existir em sua casa, com as constantes discussões entre os pais e Luciana. A moça não ficava mais em casa e abandonara a escola. Passava seus dias trilhando pela cidade com um grupo de rapazes e moças mais velhos. Nunca sabiam onde ela estaria e Lilian vivia com os nervos a flor da pele de preocupação.
Quando chegou ao ensino médio, Dóris já demonstrava certa tendência para se adaptar. Se saia bem no inglês e queria futuramente morar em outro país. Nessa época se tornou a melhor amiga de uma garota loira e CDF chamada Juliana.
Dóris a achava atrapalhada, mas notava na garota uma lealdade rara o que a fez se apegar ainda mais. Costumavam dormir uma na casa uma da outra e foi nessa época que ela conheceu o irmão de Juliana.
Era uma noite fria de inverno e Dóris esperava; de banho tomado e vestindo pijamas que Juliana trouxesse a pipoca e enquanto isso mantinha um filme pausado. Seus olhos se voltaram para a porta da sala quando esta foi aberta e não conseguiu move-los depois. Um viking loiro e muito alto foi adentrando com uma mala e uma bolsa de viagem. Dóris se levantou e percebeu que sua voz estava presa na garganta. O rapaz a olhava sem qualquer expressão no rosto e logo Juliana retornou.
Os gritos de felicidade que se ouviram a seguir foram contagiantes. Juliana se lançou nos braços do rapaz e ele a apertou enquanto sorria. Os pais da amiga chegaram logo em seguida, com grandes sorrisos. Quando estava mais calma, Juliana puxou o irmão pelo braço e o apresentou a Dóris.
— Essa coisa feia é meu “irmãzinho” mais velho! – Disse ela em tom de brincadeira. Ele estendeu a mão e Dóris a apertou.
Tentou dizer algo, mas sua voz nãos saiu. Ela não reconhecia o sentimento que a invadia naquele momento, suas pernas estavam bambas e seu sorriso estava fixo assim como seus olhos, que acompanhavam cada pequeno movimento do rapaz.
— Leone, muito prazer. – Disse ele em uma voz baixa e um pouco rouca.
— Dóris! – Ela estremeceu ao notar sua voz esganiçada. – Prazer!
Ele soltou sua mão e sentou na outra extremidade do sofá , Juliana se lançou em seu colo e ele a abraçou. Contou que havia chegado a pouco da capital, onde estava cursando a faculdade de engenharia. Ele e os pais haviam resolvido fazer uma surpresa para Juliana.
Dóris ficou ouvindo o rapaz contar calmamente sobre algumas experiências e a concentração de Juliana enquanto o ouvia. Seu coração palpitava sempre que ela lançava os olhos ao rapaz. Ele tinha um rosto muito simétrico; sobrancelhas retas sobre olhos azuis claros. O nariz descia em uma linha contida e perfeita enquanto a boca bem desenhada mostrava o lábio inferior um pouco mais cheio. Dóris sentiu o rosto esquentar quando passeou os olhos pelos ombros largos e pelas mãos grandes que seguravam Juliana protetoramente.
Naquela noite, depois de se despedirem e se encaminharem para os quartos, Dóris ficou pensando em Leoni e sentiu seu coração se expandir de alguma forma. Demorou a dormir.
Nas semanas que se seguiram ela parecia viver um sonho. Sempre que podia ia a casa de Juliana e ficava angustiada, esperando ver Leone. Ele passava pela sala e seu coração pulava, ele dizia algo e o rosto dela esquentava. Mas não conseguia manter uma conversa, não era tímida, mas ficava estranhamente sem palavras perto dele.
E um dia ele partiu novamente. As férias haviam terminado e ele iniciaria em um estágio em uma grande construtora de Curitiba. Nos dias que se seguiram a sua partida, Dóris experimentou um sentimento de profunda solidão. Mesmo estando na escola ou com Juliana. De certa forma era pior ao encarar a amiga, que era tão parecida com o irmão, ou ao frequentar a casa dela. Estava sempre se voltando para a porta na esperança de que momento ou outro ele entrasse, com aquela cara séria e a habitual voz baixa e rouca.
Em casa, ela convivia em clima de guerra. Luciana não perdia uma oportunidade de ridicularizar e ofender a irmã caçula. E esta tentava a todo custo não cair nas provocações. Via o sofrimento dos pais e a desleixo da irmã e por isso procurava se manter afastada de casa o maximo que podia. Fazia aulas de natação, corria no parque, cuidava do filho pequeno de uma vizinha e sempre que podia dormia na casa de Juliana. Era desgastante, mas necessário.
Na passagem de ano de 1999 para 2000, seu coração teve uma grata surpresa. Juliana a convidou para a festa da virada em sua casa e avisou que alguns parentes compareceriam, entre eles o irmão.
Dóris foi a sua loja preferida e, com o dinheiro que havia ganhado como baba, comprou a vestido mais bonito que encontrou. Seu corpo esbelto ficou adorável no vestido longo branco. Ela estava feliz e ao voltar para casa encontrou a irmã vendo TV na sala. Observou a figura magra e com olhos sem brilho, e continuou seu caminho.
Luciana estava cansada. Estava bebendo demais e dormindo pouco, sentia sua mente desconexa e não conseguia controlar a raiva que sentia. Tinha um grupo de amigos que a acompanhavam nas noites em claro e na bebida. E por fim acabava se lançando em alguma orgia com os garotos. Em algumas noites era usada por todos os rapazes do grupo e tinha de ir sozinha para casa.
Não sabia em que estava se transformando, mas não voltaria atrás. Detestava o comportamento estável e controlado dos pais, a monotonia da cidade do interior, o falatório e a preocupação dos vizinhos. Não queria ser uma daquelas figuras que tinham vidas medíocres e pacatas. Não era uma boa moça como a irmã, que passava seus dias tentando ser correta e criar laços com gente tão desprezível quanto ela. Para Luciana a vida era uma aventura solitária e perturbadora e que deveria ser encarada como uma guerra. Ela não seria uma pessoa comum que passava anos tentando criar uma autoimagem aceitável para expor aos observadores interessados. Era um agente da discórdia e gostava disso.
Ela ouviu a irmã chegar e depois se dirigir ao banheiro. Levantou-se cambaleante e se dirigiu ao quarto de Dóris, encontrando uma sacola sobre a cama e retirou o vestido. Segurou-o em frente ao próprio corpo e se olhou no espelho. Seu cabelo estava embaraçado e com olheiras abaixo dos olhos borrados. Sua figura estava realmente ruim. Guardou a vestido e foi para seu quarto.
Dóris chegou a casa de Juliana as 8 da noite. Quando passou pela porta segurou-se para não ir ao chão, tamanha moleza que a atingiu. Leone estava parado no meio da sala, com vários balões brancos na mão enquanto o pai os pendurava. Ela pensava se ela iria olha-la com apresso ou se a elogiaria, mas teve uma decepção quando o rapaz lançou-lhe um olhar indiferente e sussurrou um singelo ‘boa noite’, voltando sua atenção ao pai.
Durante as horas seguintes, Dóris se manteve gravitando a o redor dele, como um satélite. Ele não a olhava ou falava com ela e Dóris se convenceu de que a considerava criança demais. Na hora da virada, todos se abraçaram. Quando Leone se aproximou e fechou os braços ao seu redor, Dóris se sentiu protegida e aquecida, quis que aquele momento durasse para sempre, mas logo ele a soltou. Juliana pulou nela e ela sorriu, não obstante uma tristeza profunda se apossou dela.
“Eu só preciso esperar alguns anos, ele vai me notar um dia.” Pensou ela.
Durante todo o tempo Dóris estava ocupada demais. Fazia curso de Inglês, computação e mantinha as aulas de natação. Estava saindo da adolescência e seu corpo, que antes estava apenas em formação, projetava agora o vigor de uma mulher. Apesar dos exercícios estava sempre 5 kilos acima do peso ideal. Os seios iam se tornando cheios e redondos e o quadril largo seguido de coxas lisas e consistentes. Os cabelos castanhos emolduravam o rosto de pele branca, os olhos esverdeados e grandes passavam uma estranha cordialidade e a boca era delicada e carnuda.
Ela se mantinha afastada dos rapazes e perdia a paciência quando tentavam leva-la a algum encontro. Preferia segurar vela para Juliana ou ficar em casa lendo. Foi nessa época que descobriu os livros de Sidney Sheldon e passava horas lendo as aventuras de Tracy Whitney e Jeff Stevens em “Se Houver Amanhã”, chorou com os Jennifer Parker em “A Ira dos Anjos” vibrou com a inteligência de Elizabeth Roffe em “A Herdeira”. Mas ela mesma passava pelos próprios infortúnios.
Em meados de julho, Luciana havia saído de casa e ido morar com um namorado. Não souberam dela por várias semanas. Até o dia em que foi encontrada desmaiada em uma pensão na cidade vizinha. Estava drogada e desnutrida. Os pais a buscaram assim que teve alta e Dóris soube, no momento que a viu, que as coisas iriam apenas piorar.
No dia em que Dóris se formou no ensino médio já tinha tomado a decisão de qual curso faria na faculdade. Ela e Juliana faziam planos de morarem juntas em Curitiba e assim estudarem em boas universidades. Na mente de Dóris também estava certo que ela ficaria mais próxima de Leone.
Ela ria de si mesma. O tempo passava e não conseguia esquecer o lindo rapaz, imaginava como ele a veria agora; mais crescida e madura. Pensava se ele a a olharia com outros olhos e planejava como o conquistaria. Sua oportunidade surgiu em janeiro de 2002. Leone chegou a casa dos pais para férias de duas semanas.
Quando a viu ele curvou os lábios em um pequeno sorriso, mas Para Dóris foi algo de rara beleza e que ela a muito esperava. Queria a aprovação dele, que a presença dela causasse mais do que indiferença. No primeiro fim de semana de sua estada, levou Dóris e Juliana para uma boate na cidade vizinha. As duas beberam e dançaram por horas e o rapaz se manteve distante, apenas a observa-las e tomando água.
Dóris queria se aproximar, encurtar a distancia dos anos que os separavam e desfazer aquele nó incômodo que a paixão reprimida deixava em sua garganta. Mas tinha medo de ser rejeitada. Ele a levou até a porta de casa naquela noite, enquanto Juliana dormia no carro. Eles se olharam e Dóris sorriu.
— Foi muito divertido, espero repetir a dose enquanto estiver aqui. – Disse ela, sentindo o álcool causando calafrios por seu corpo.
— Foi sim. – Ele deu um passo a frente. – Dóris... – Ele pensou por alguns instantes enquanto a encarava. – Foi bom te ver.
Dóris observou, decepcionada, enquanto ele se movia até o carro. “Ele queria me dizer algo. O que seria?” pensou ela. Cambaleou levemente e entrou pela porta. Assustou-se quando notou que Luciana havia observado toda a cena pela janela.
— Sabe o que eu vi? – Os olhos dançavam no rosto magro. – Você esta de quatro por esse cara!
— Isso não te diz respeito. – Dóris virou-se enquanto ainda falava. – Vai dormir, não esta com uma cara boa.
Luciana permaneceu por muito tempo onde estava. E quando dirigiu-se ao quarto tinha um sorriso maldoso nos lábios.
Dóris nunca soube quando ou como as coisas aconteceram. Em um dia ela tinha o coração alegre e cheio de esperanças. Pensava que nada poderia atrapalhar a história de amor que se desenhava a sua frente. Mas tudo havia virado cinza. Seus sonhos, suas fantasias, sua confiança nos outros e em si mesma.
Na semana seguinte a festa em que Leone a levara e a Juliana, ela não o havia visto nem uma vez. Entendia que talvez ele estivesse ocupado. Mas sua percepção mudou no dia em que chegou em casa e o viu beijando sua irmã.
Não soube o que houve com ela naquele momento. Por dentro sentiu-se desintegrar e a dor fez sua garganta se fechar , por longos segundos sentiu-se sufocar. Caminhou devagar e por um tempo que pareceu longo demais. Viu as mãos dele cercando o corpo magro de Luciana e o rosto branco colado ao dela.
Pela primeira vez percebeu o farrapo de gente que era Luciana e como parecia feia perto dele. Sentiu-se profundamente humilhada como mulher e ser humano. Primeiro porque sabia que havia sido covarde e não o tomara para ela quando deveria e segundo porque achava que ele merecia alguém muito melhor do que Luciana.
”Merece a mim e não a essa viciada nojenta!” Pensou ela.
Ela parou como se houvesse recebido um duro golpe. ”O que estou pensando? Quando fui que me tornei tão horrível?”
Os minutos passaram e ela não se moveu. Tudo havia ruído e ao mesmo tempo nada havia mudado. Ainda amava aquele homem, com a mesma intensidade dos primeiros dias. Não era uma paixão de adolescente; superficial e passageira. Era forte e infinitamente doloroso.
Nada demonstrou quando a viram. Sorriu e cumprimentou- os dois, passou por eles e entrou em casa. Corpo ereto, cabeça erguida e morrendo por dentro.
Nas semanas que se seguiram assistiu a um triste e tenebroso espetáculo. O beijo não fora algo aleatório e sem importância. Leone visitava Luciana todos os fins de semana e ela se mostrava agora muito caseira. Logo assumiram o namoro e Dóris se obrigava a vê-los juntos na sala de casa. Esperava que assim a decepção logo a fizesse esquecê-lo, mas tudo só piorava. O amor parecia crescer dia após dia dentro dela, não de forma doce como outrora, mas a ferindo e magoando. Perdeu peso e muitas noites ela passava em claro.
Aos poucos sua visão foi clareando e se tornando amarga. Agora ela via que Luciana não havia mudado em nada e enquanto Leone estava trabalhando na capital ela mantinha o mesmo estilo de vida de antes. Bebia, se drogava e o traia a vista de todos.
Juliana e os pais não apoiavam Leone. E de uma forma assustadora ele parecia se apaixonar por Luciana ainda mais a cada vez que a via. Esforçava-se para compreende-la e aos poucos ela ia se tornando mais confiante de seu poder. Os pais de Dóris, sempre com muito amor pediam a Luciana que parasse de se comportar daquela forma. Insistiam, ameaçavam, bajulavam, mas ela não se importava.
A gota d’água para Dóris, fora uma vez em que quando Leone chegara um dia antes do previsto e não encontrara Luciana em casa. Dóris se recolheu, não suportando a ideia de vê-lo decepcionado. Ele saiu de carro e voltou durante a madrugada. Estivera em todos os lugares que Luciana parecia frequentar e quando a encontrara, a levara para casa. Estava desacordada e nua sob o cobertor que a cobria. Leone a carregou até o banheiro e a banhou gentilmente, recusando-se a deixar essa tarefa a mãe.
Quando já estava na cama Luciana acordou e lançou ofensas a todos que a cercavam, principalmente a Leone. Ele a tudo ouviu e nada disse.
Esse comportamento se repetiu muitas vezes nos anos que se seguiram. Leone acabou por montar um escritório de arquitetura improvisado, onde podia concluir seus projetos e ficar perto de Luciana. E Dóris, incapaz de fugir aquela realidade e dar as costas a Leone a tudo presenciava. Dedicou-se ao curso de Relações Internacionais em uma faculdade pequena no município vizinho. Nunca disse a ninguém o que sentia, nem mesmo a Juliana, sua melhor amiga.
Em uma noite em que Luciana estava com febre em casa, Dóris foi até ela para saber se podia fazer algo. Entrou no quarto e se aproximou da irmã. Ela havia sido internada três semanas antes em uma clinica de reabilitação e havia voltados durante o fim de semana. Dóris a olhou e tocou e quando a mulher abriu os olhos e a percebeu soltou uma risada , seguida por uma tosse apavorante.
— Eu peguei você, não é? – Disse ela. – Notou o quanto ele me ama? O seu Léo? Se você soubesse o quanto eu tenho me divertido, já teria parado de bancar a boa samaritana.
Dóris nada disse. Sentiu a maldade, a inveja e o ódio da irmã. Percebeu que tudo o que ela fazia era uma espécie de punição o todos que a cercavam, sua felicidade era a infelicidade dos outros e estava disposta a se destruir desde que levasse os outros com ela . Perguntou-se se aquilo não seria um terrível pesadelo e se ela poderia algum dia acordar. Mas não era e quando olhou para aquele corpo magro e devastado, perguntou-se o que teria cativado Leone naquela mulher? Porque a amava? Porque aquele homem bonito e de personalidade forte aceitava todas as humilhações a que sua irmã o submetia?
Nunca seria capaz de entender. Da mesma forma que sabia que podia ser muito tarde para si mesma. Talvez nunca mais voltasse a ser feliz, talvez vivesse uma vida tão estúpida e sem sentido quanto sua irmã. A única diferença é que ela teria uma consciência e escrúpulos o bastante para não se matar ou matar aos sonhos daqueles que a amavam.
E foi assim que em um dia de novembro de 2005, as 3 hrs da manhã, Luciana morreu em decorrência de uma parada respiratória. Havia sido internada horas antes, por uso abusivo de entorpecente.
“Adeus, Dóris.” Dissera ele.
Seria pecado sentir alivio? Era o pensamento de Dóris enquanto olhava pela janela do carro. Sua mãe ainda chorava e por algum instinto de lealdade as lágrimas também escorriam de seus olhos. Sentiu um frio correr por sua espinha quando chegou em casa. Tudo parecia tão vazio. Era como se Luciana houvesse roubado todos os sons e alegria de todos que a cercavam. Não voltou a falar com Juliana e o dialogo com os pais se resumia a frases curtas.
Sentia pena de si mesma, dos sonhos que haviam se perdido, do amor tão bonito e tão puro que fora transformado em aversão. Precisava de espaço, ampliar seus horizontes e respirar novos ares. Caso contrário iria definhar ali.
Nas semanas que se seguiram empregou todo seu esforço em conseguir um intercâmbio fosse para onde fosse. Se inscreveu para bolsas de ajuda humanitária na África do Sul e também para trabalhos temporários nos EUA e Inglaterra. Quase três semanas depois recebeu a resposta de uma ONG sul africana. Ela fora selecionada e aguardavam sua resposta.
Aceitou de imediato.
Algum tempo depois embarcava em um avião com destino a África. Queria esquecer tudo o que ocorrera, queria ao menos tentar ser feliz e seu último pensamente em solo brasileiro foi em certo rapaz de olhos azuis, que um dia havia sido todo o seu mundo.
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