Sobrenatural

2 Pobre Violet


Evelyn respirou fundo erguendo o chocolate quente que havia feito — uma das únicas coisas que conseguia fazer na cozinha — e tomando um gole, enquanto revisava a primeira página de seu trabalho. Francamente, será que os professores de História Inglesa I da Universidade de Montana não tinham coração? Pleno recesso por conta das festas de fim de ano e eles deixam os alunos responsáveis por escrever cinco páginas sobre a Monarquia Inglesa.

A jovem ergueu os braços acima da cabeça, tentando aliviar os ombros; havia voltado para casa há dois dias, para o fim de ano e não retornaria para a universidade em Missoula antes de dia doze de Janeiro. Isso era ótimo; mais tempo para passar com o pai e com as amigas de infância, Kate, Scarlett e Violet. Cada uma delas haviam saído de casa para universidades diferentes e haviam combinado de se reunir hoje a noite na casa de Scarlett.

Já seu pai, era o detetive John Lewis, que apesar de sentir saudades da filha, precisara sair bem cedo, pois aparentemente um crime bem fresquinho havia sido cometido, deixando um bilhete 'para ela na porta da geladeira. Que crime seria esse?, Evelyn pensara. Mystic Valley não era uma cidade grande e nem agitada demais, porém quando ela era criança, depois que a mãe falecera, seu pai a alertava que cidades pequenas também poderiam esconder crimes obscuros.

Suspirando, a jovem voltou seus olhos esverdeados para o relógio do computador. Ainda eram somente nove e quinze da manhã e ela já estava entediada. Nem mesmo sua amada História a estava ajudando a passar o tempo. Talvez devesse ler um pouco, era o melhor remédio para o tédio, porém pela primeira vez não sentia vontade de ler. Algo a estava incomodando... uma sensação estranha havia se instalado na ponta de seu estômago.

Balançando a cabeça levemente, Evelyn foi até o banheiro e jogou um pouco de água no rosto; não conseguia explicar o súbito mal estar. Se apoiou na pia e respirou fundo, encarando seu rosto refletido no espelho ao mesmo tempo em que ouvia a água da pia correndo fortemente. O barulho de água corrente, em geral, sempre a acalmava.

Secou o rosto com a toalha felpuda e macia e jogou os cabelos ondulados para trás ao mesmo tempo em que escutava o familiar toque de seu celular na bancada da cozinha. Saiu do banheiro correndo, poderia ser seu pai e não queria que ele pensasse que ela havia saído.

Mas ao olhar no visor, viu que era o número de Kate e não de seu pai. O que Kate iria querer com ela ás nove da manhã? Kate não era do tipo que desperdiçava recessos acordando cedo sem necessidade.

Atendeu o telefone, mal dizendo "alô".

— Evelyn! — a voz de Kate estava embargada e talvez um pouco desesperada — Aconteceu alguma coisa... a Violet ela... ela foi morta!

***

051215

Residência dos Lewis, Mystic Valley — Montana.

07:40am.

John Lewis foi acordado pelo seu celular tocando na estante ao lado de sua cama. Trincando os dentes, pegou o celular. O que queriam agora? Seria alguma emergência?

— Detetive Lewis. — atendeu, já se pondo de pé e alcançando suas roupas elegantes.

— John, uma garota foi encontrada morta próxima a boate Sunrise Nightclub. — a voz Vivian Vaughnn soou em seus ouvidos — Já avisei a Brandon.

— Chego aí em vinte minutos. — respondeu e desligou, ao mesmo tempo em que abotoava a camisa, colocando a gravata em seguida.

Penteando rapidamente o cabelo, saiu para o corredor, parando brevemente em frente ao quarto de sua filha. Evelyn dormia serenamente, exalando uma inocência que chegava a dar pena de deixa-la sozinha. Era difícil para John ter que deixar a filha tantas vezes para resolver assuntos do trabalho, mas ele precisava cumprir com seu dever; a cada dia que passava, a pacata cidade de Mystic Valley ia ficando mais perigosa e obscura, mesmo que aos poucos. Ao menos Evelyn entendia isso, ou se ressentia nunca demostrara.

Ela lembrava a mãe.

Dando um último olhar carinhoso a filha, o detetive desceu as escadas correndo e escreveu um bilhete as pressas para a filha, explicando uma urgência no trabalho.

***

— A vítima é Violet Brown, 18 anos. — Vivian disse, a Brandon e a John — A estimativa é que tenha sido morta entre 22:00 da noite e 02:00 da manhã. — a policial os levou ao local já isolado, onde um legista dava sua primeira olhada.

John sentiu o choque o atingir ao ver a jovem caída no chão, com a garganta cruelmente cortada e completamente suja de sangue. Ligando o nome com o rosto delicado, soube que conhecia a garota.

— Essa menina é amiga de minha filha. — ele disse, pressionando os lábios. Seus olhos azuis examinaram o perímetro.

Brandon se ajoelhou em frente ao corpo, já com as luvas por precaução. Brandon Mitchell era um jovem de vinte e cinco anos, de cabelos negros e muito dedicado ao trabalho que fazia. Era um bom parceiro, John precisava admitir.

— Uma faca ou um facão pode ter sido usado para cortar a garganta. — o legista falou. Era um homem de uns cinquenta anos, notou John. Mas sempre esquecia seu nome — Talvez até mesmo um machado de pequeno porte. Não posso dizer mais até que tenha examinado propriamente o corpo.

— Obrigada, Edward. — agradeceu Brandon.

— Já avisaram aos pais de Violet do ocorrido? — John se virou para a policial Vaughnn.

— Ainda não. — ela respondeu — Queríamos espera-lo chegar.

John e Brandon trocaram um olhar.

— Nos dê mais meia hora e isole o perímetro mais além. — disse — Não podemos correr o risco de que nossa investigação seja comprometida por histerias.

Vivia Vaughnn assentiu. Iria fazer o que a foi pedido.

John voltou os olhos para a pobre Violet novamente. Seus olhos castanhos claros estavam arregalados e vidrados, como se estivesse em puro pânico ao enfrentar a morte. Aquela garota não havia sido morta com um único golpe. Teria sido pega de surpresa? Teria entrado em uma briga? Não, ele conhecia aquela menina, ela era uma boa garota.

O detetive travou o maxilar.

Evelyn ficaria arrasada quando soubesse.

***

051215

09:38am.

John Lewis fechou os olhos com força ao ouvir a voz de sua filha grita-lo de seu lugar junto as três amigas que haviam chegado.

Merda de cidade pequena e seus habitantes fofoqueiros. Ele estava lidando com uma mãe histérica e um pai em estado de choque, mas não poderia ignorar sua filha que parecia prestes a se descontrolar — algo que era muito raro.

Deixou Brandon cuidar dos Brown por um momento e avançou em passos largos até Evelyn.

— Pai..! — sua voz falhou. Seus olhos verdes estavam arregalados, mas ela não chorava. Kate ao seu lado estava pálida e Scarlett chorava sendo amparada pela mãe.

— Lyn, doçura, olhe para mim. — ele segurou seu rosto firmemente entre suas mãos — Preciso que não fique sozinha nesse estado. Não sei que horas eu irei voltar, mas nós iremos conversar. — ele beijou sua testa — Seja forte.

— Pai.. — a voz de sua filha embargou.

Ele não olhou para ela; se olhasse não conseguiria mais voltar ao seu trabalho.

— Beatrice — ele chamou a mãe da garota Scarlett — Leve as garotas para casa, não é bom que fiquem sozinhas.

A mulher loira assentiu, abalada.

— Pai! — Evelyn tentou insistir.

— Vá com elas, Evelyn. — ele manteve a voz neutra.

E então entrou no carro e partiu. Seria um longo dia.