Sobremesas e Estações

1 Capítulo Único - As Estações


Notas iniciais
Dedico essa história a maior shipper de deamus que esse mundo já viu! Mel @jupitereestrela, espero realmente que você goste do que eu escrevi para você. Eu usei a música Dive do Ed como inspiração para os "dramas" da fic.

Boa leitura!

Primavera

Lily Evans estava saltitante. Não apenas porque a sua estação preferida havia começado há algumas semanas, mas porque ela finalmente esvaziou a última caixa da mudança. Era isto! Estava definitivamente e devidamente instalada no seu novo apartamento que não é maravilhoso apenas porque fica no mesmo prédio que a morada do seu melhor amigo, Sirius Black, mas também porque está localizado na quadra ao lado do seu trabalho e possui um aluguel barato, principalmente se levarmos em conta a localização.

E para colocar a cereja no bolo, o trabalho dos sonhos de Lily tornou-se realidade! Após uma graduação em Gastronomia e dez longos anos trabalhando ao lado de chefs renomados, cursos técnicos e mil livros de receitas lidos, ela finalmente havia sido contratada para trabalhar no restaurante A Toca como Sous Chef ao lado da renomada Chef de Cuisine, Molly Weasley.

Resumindo, a vida não poderia estar melhor para Lily e aquela noite ela dormiu com um sorriso no rosto, sabendo que acordaria às cinco da manhã e trabalharia até tarde ao lado de seu amigo e ex-colega da faculdade, Remus Lupin.

Quando seu despertador tocou, a ruiva jogou as cobertas para o lado e levantou de um pulo, pois estava animada demais para enrolar na cama. Após uma ducha rápida e um café da manhã com panquecas e café, Lily estava pronta para enfrentar seu primeiro dia de trabalho.

Naquela manhã ela iria ao mercado e as docas na esperança de conseguir os melhores ingredientes para o restaurante e só adentraria o mesmo perto do horário do almoço, quando os demais funcionários estarão presentes para definirem o cardápio servido durante aquela semana.

As horas passaram voando e logo era possível ver Lily andando apressada pelas ruas em direção ao restaurante. Ela não estava atrasada, mas queria ser uma das primeiras a chegar na tentativa de causar uma boa impressão e Remus, é claro, não perdeu a oportunidade de implicar com ela.

− Você sabe que só vamos almoçar depois de decidir o cardápio, certo? Se está correndo na esperança de conseguir mais almôndegas, sinto muito, mas chegou cedo − ele disse fazendo uma falsa expressão de pesar.

Evans revirou os olhos ao se sentar na cadeira ao lado do homem.

− Ao contrário de você, não vivo meu dia pensando na próxima refeição.

− Talvez isso explique o sua expressão sempre azeda.

Antes que Lily conseguisse retrucar, Molly entrou no restaurante com um sorriso luminoso dizendo:

− Bom dia, bom dia. Vejo que estamos todos aqui − então lançou uma piscadela à Lily. − Como todos sabem, hoje Lily Evans começará a trabalhar conosco!

Ao falar isso, a ruiva menor fez sinal para que Lily levantasse ao passo que os outros batiam palmas e diziam “olás”. Toda a equipe estava sentada na área do restaurante e para isso foi necessário unir algumas mesas e puxar algumas cadeiras. Ela conheceu Rosmerta, a mulher com piercing no nariz responsável pelos drinks, Dorcas e Emmeline, as garçonetes, assim como Amos e Dedalus, os garçons. Alice, Frank, Glenda, Emma, Remus e os demais trabalham na cozinha, assim como Molly.

Depois das devidas apresentações, a chef distribuiu alguns papéis com os pratos que serão servidos nos próximos dias e Lily ficou feliz ao descobrir que sabia fazer todos eles com maestria. Remus deu uma cotovelada em sua cintura antes de sussurrar:

− Contenha seu ego, Evans.

E nesse clima as horas foram passando. Lily estava mais do que feliz de constatar que A Toca possui um clima agradável e ninguém a olhou estranho ou a excluiu por ser novata e chefe da maioria ali. Após um almoço agradável com todos e uma conversa no escritória de Molly, onde a ruiva mais nova ficou ciente de todas as suas obrigações, estavam todos cozinhando para a abertura do restaurante que seria em breve e mesmo na loucura que a cozinha se encontrava o clima agradável permanecia, ficando presente até o fechamento do local.

Aquela noite, Lily voltou ao seu apartamente com um sorriso no rosto e a sensação de dever cumprido, mal podendo esperar pelo próximo dia.

***

Semanas haviam se passado desde que Lily Evans começou a trabalhar n’A Toca e as coisas não poderiam estar melhores. A primavera estava chegando ao seu fim, mas nem mesmo isso conseguia estragar o bom humor da mulher.

Remus e ela saiam todos os sábados e iam em diferentes restaurantes da cidade na busca de inspiração para novos pratos, muitas vezes sendo acompanhados por Marlene McKinnon que é crítica de comida há anos e mal pode esperar uma oportunidade para colocar seu paladar a prova.

Foi por isso que Lily ficou surpresa ao encontrar a melhor amiga parada entre as mesas do restaurante horas antes do mesmo abrir. Quando Alice a chamou alguns minutos atrás dizendo que Marlene estava a esperando, o primeiro pensamento da ruiva foi “Merlin que eu esteja errada e ninguém tenha feito uma crítica negativa da nossa comida”, mas assim que viu os olhos castanhos da amiga levemente arregalados (como ficam quando ela está empolgada), a única coisa que Lily pode fazer foi franzir a testa, confusa.

− O que aconteceu? − perguntou.

Lene revirou os olhos.

− Eu sabia que você estaria tão focada em seu trabalho que esqueceria que existe um mundo além disso! − ela exclamou tirando uma revista de dentro da bolsa e a estendendo. − Página 20.

Erguendo uma sobrancelha para o ar misterioso da outra, Lily abriu a revista na página indicada e sentiu qualquer expressão sumir do seu rosto. A manchete “James Potter aceita trabalhar no renomado Hufflepuff” fazem as entranhas da mulher se revirarem e mil pensamentos cruzarem sua mente.

James era um modelo para Lily. Mesmo sendo apenas cinco anos mais velho do que ela, o homem já havia trabalhado em inúmeros restaurantes de renome, publicou vários livros e teve seu próprio programa de TV! Ele era uma máquina feita para trabalhar e de alguma forma parecia que o seu dia possuía mais de 24 horas. Por isso, saber que ele trabalhará num restaurante na mesma cidade que ela é incrível.

Se não fosse o fato de que o restaurante em questão fica na frente d’A Toca e é seu maior concorrente.

Lily conseguia sentir suas mãos suarem, os pensamentos pulando de um para o outro sem parar. Mas no fim, só havia uma conclusão a se chegar: ela não deixaria que seu ídolo a passasse para trás. Evans faria A Toca e sua comida estarem nas capas dos jornais nem que para isso tivesse que morar no restaurante.

− Ele vai chegar apenas no verão, está terminando de gravar a última temporada do seu programa na Itália − Marlene disse totalmente alheia aos pensamento de Lily. − Você pode esbarrar com ele no mercado! Isso não é ótimo?

E foi devido a animação no rosto da amiga e sua fé de que ao mostrar a matéria a Lily ela estava fazendo-lhe um favor, a ruiva sorriu. Afinal de contas, Lene de fato a ajudou. Saber da chegada do inimigo semanas antes de o fato ocorrer com certeza davam alguma espécie de vantagem à ela.

− Sim − ela disse apertando a revista em mãos. − De fato é ótimo.

Verão

Estava quente como o inferno e dentro da cozinha a temperatura com certeza era maior, não somente devido aos fornos e fogões ligados, mas devido a pressão que Lily sentia aumentar em seus ombros cada vez mais. Ela estava trabalhando n’A Toca havia alguns meses e as coisas não estavam ocorrendo exatamente como o planejado.

É verdade que Molly é tão boa quanto a sua reputação diz e Remus está presente todos os dias como Chef de Partie, isto é, chef responsável por uma estação específica, neste caso a dos molhos e massas. Alice, que trabalha na estação de Lupin e é seu braço direito, havia se tornado uma boa amiga e Lily sentia que seus colegas de trabalho gostavam dela.

Mas o mundo não era mais um mar de rosas. O verão havia chegado e com ele James Potter. O chef tinha começado a trabalhar no Hufflepuff aquela semana e as críticas diziam que de fato ele é tão bom quanto dizem. As clientela d’A Toca não diminuiu e as críticas também eram boas, mas Lily não podia ignorar o fato de que cada dia mais seus clientes fiéis pareciam mudar sua lealdade para o restaurante à frente.

O fato de Molly ter passado o cargo de Chef da cozinha para Lily porque ficaria um tempo fora devido a oportunidade de ser jurada no Masterchef Reino Unido não poderia ter vindo em pior época. Evans sabia que estava reclamando de barriga cheia e que a oportunidade era maravilhosa, mas também era um acréscimo à sua lista de tarefas que parecia a deixar cada dia mais uma pilha de nervos.

Aquele dia, Lily não foi para casa com um sorriso no rosto assim como não havia acordado animada aquela manhã. Tudo o que ela queria naquele momento era tomar um banho relaxante e dormir um sono profundo na esperança de que sonhasse com uma receita maravilhosa que milagrosamente traria a glória ao restaurante.

A última coisa que desejava era ver luz por baixo da sua porta e ouvir movimentação dentro do seu apartamento que supostamente estava vazio. Entrando em pânico, Lily não pensou duas vezes antes de correr para o elevador que ainda estava no seu andar e pressionar com força o botão que a levaria ao andar de Sirius. Ela sabia que passava da uma da manhã, mas seu amigo como um bom policial deveria estar preparado para atender ocorrências a qualquer momento.

Foi com isso em mente que ela apertou a campainha e aguardou batendo o pé no chão. O homem alto com os cabelos escuros presos num coque (algo possível somente pelo fato dele trabalhar disfarçado) abriu a porta com uma expressão pra lá de carrancuda.

− Não é porque você trabalha até de madrugada que não deve respeitar o sono alheio, Evans − ele resmungou dividido entre o sono e o mau humor.

− Tem alguém no meu apartamento! − Lily exclamou tentando não acordar os vizinhos e percebendo o quanto sua voz tremia.

Sirius piscou, deixando o sono de lado e entrando em estado de alerta.

− Como assim? − ele perguntou pegando sua arma dentro do apartamento e fechando a porta do mesmo antes de andar em direção ao elevador com a ruiva em seus calcanhares.

Durante o tempo que a caixa metálica levou para chegar ao andar de Lily, ela relatou os fatos e obedeceu quando Sirius disse para dar-lhe a chave e ficar atrás dele. Era um pouco estranho ver seu amigo agindo de forma séria, mas ela não iria comentar sobre isso enquanto ele destrancava a porta e entrava em seu apartamento.

− Você? − Sirius disse num tom surpreso e confuso. − O que faz aqui?

− Eu é que pergunto − alguém de dentro do imóvel respondeu. − Por acaso essas coisas são suas?

Sem conseguir conter sua curiosidade e imaginando que se houvesse perigo Sirius não estaria conversando com o ladrão, Lily ousou colocar sua cabeça pela porta, deixando o resto do corpo na segurança do corredor.

− Não, são dela − Sirius disse pra alguém que a ruiva não conseguia ver já que o corpo do amigo perto da entrada do apartamento tapava sua visão e não sabia como se sentir ao ver que Sirius apontava o polegar sobre o ombro sem olhá-la, como se soubesse que a esta altura ela já deveria ter sido vencida pela curiosidade.

Franzindo a testa, Lily colocou seu corpo para dentro, mantendo-se na soleira da porta ao mesmo tempo que o estranho se inclinava para o lado na tentativa de ver quem Sirius mostrava. Foi nesse momento que os olhos verde esmeralda de Lily encararam pela primeira vez os olhos chocolate de James Potter. Em carne e osso. No meio da sua sala.

A ruiva imaginou que a sua cara de confusão não deveria estar muito diferente da cara de James que passava seus olhos por ela e Sirius várias vezes.

− Deixe-me apresentá-los − Sirius disse como se há apenas alguns minutos não estivesse preparado para atirar em alguém. − Lily, esse é meu amigo de infância, James Potter. James, essa é a minha melhor amiga, Lily Evans. Ela é chef igual você.

− É mesmo? − James disse com um ar curioso e levantando uma sobrancelha, no que Lily estreitou os olhos. − E onde você trabalha?

− N’A Toca − Lily disse tentando ignorar o ar avaliador de James.

− Interessante − ele disse antes de se virar para Sirius. − Achei que você havia parado com as pegadinhas quando quase foi expulso da faculdade de Direito.

Foi a vez de Sirius fazer uma careta confusa.

− Perdão?

− Muito criativo você decorar meu apartamento e aparecer no dia da minha mudança agindo como seu eu fosse um ladrão. Até convenceu uma atriz a participar! − e então se virando para Lily completou − E aí? Quanto ele ta te pagando?

A mulher não conseguiu esconder sua expressão de choque ao abrir levemente a boca e se inclinar para trás.

− O que?! − exclamou indignada. − Esse apartamento é meu! Você é quem está invadindo.

− Muito engraçado − Potter disse andando em direção ao sofá. − Mas pode parar porque eu tive um dia cheio no trabalho e estou cansado.

− Pois então saía da minha casa! − Evans disse dando alguns passos para frente e cruzando os braços.

James a olhou por alguns segundos antes de estreitar os olhos e falar:

− Você é boa, mas pode parar. Sirius, por favor, pague a moça e me explique isso.

Sentindo que Lily estava a segundos de voar em direção ao pescoço de James, Sirius deu alguns passos à frente de modo a se colocar entre os dois e falou:

− James, eu não sei o que deu em você, mas de fato esse apartamento é de Lily. Ela está morando aqui há meses, pergunte a qualquer um! Não sei o que está acontecendo, mas você deve ter se confundido. Tem certeza de que está no andar certo?

Percebendo a seriedade no rosto do amigo e a vermelhidão que deixava o rosto da mulher quase no tom dos seus cabelos, James parou. De fato as coisas do apartamento estavam bem instaladas e ele sentiu um cheiro de lírios ao entrar no imóvel, como se realmente alguém morasse ali. Será que ele havia se enganado e estava sendo rude ao sentar no sofá de uma estranha em plena madrugada? Merlin, sua mãe o mataria se soubesse.

Levantando rapidamente, o homem com cabelos apontando para todos os lados foi em direção à sua bolsa que estava sobre a mesa de jantar, abrindo-a e pegando o contrato do aluguel que havia assinado há meses. Estava ali: Residencial Gryffindor, apartamento n° 7. Logo, o apartamento que ele estava.

Sirius estava logo atrás dele e não esperou mais nenhum segundo antes de tirar as folhas das mãos do amigo e franzir a testa.

− Lily? Por acaso tem o seu contrato de aluguel? − perguntou.

− Sim − Lily respondeu franzindo a testa, a face um pouco menos avermelhada. − Por que?

− Talvez seja nada, mas… Posso dar uma olhada? − o Black perguntou.

Ainda sem entender, a ruiva foi em direção ao corredor e voltou segundos depois com o contrato em mãos. E estava ali: o mesmo endereço, assinado no mesmo dia. Como isso era possível?

− Aparentemente vocês são colegas de apartamento − Sirius disse parecendo feliz demais do ponto de vista dos outros dois.

− O que?! − Lily exclamou lendo ela mesma as páginas.

− Como isso é possível?

Sirius apenas deu de ombros antes de decidir que já estava tarde e ele iria trabalhar no dia seguinte.

− James, venha dormir no meu apartamento esta noite. Amanhã você e Lily resolvem isso.

E então os dois homens saíram, deixando uma Lily confusa com dois contratos para trás. Faltavam semanas para o fim do verão e Lily nunca desejou tanto estar numa praia há milhões de quilômetros dali.

***

− Então você vai morar com ele? − Marlene perguntou enquanto dava um gole em seu café, parecendo feliz demais na opinião de Lily.

Dias haviam se passado desde o ocorrido, mas as coisas não terminaram como a Evans gostaria. James ficou dividindo o apartamento com Sirius enquanto eles iam a imobiliária resolver o problema do contrato e acionavam os advogados, mas no fim do dia apenas uma coisa ficou clara: o contrato era legal. Ambos haviam assinado papéis que informavam que dividiriam o apartamento com outra pessoa e essa era a razão do aluguel ser tão barato. Animados como estavam, a informação passou batida para os dois e a imobiliária não fez questão de repetir ao perceber que finalmente alguém tinha aceitado essa loucura.

A empresa disse que se eles quisessem, poderiam decidir entre si quem ficaria com o imóvel e então um novo contrato seria feito, levando em consideração os acontecimentos. Mas fazer com que Lily e James concordassem em algo era tão ou mais difícil do que dizer a Remus que ele não poderia comer chocolate: simplesmente algo impossível e uma total perda de tempo.

Lily não entendia por que James não poderia continuar dividindo a morada com Sirius, afinal de contas fez isso por uma semana. Já James não podia entender por que ela não abria mão, afinal de contas pode desfrutar do apartamento a primavera inteira e agora era a vez dele.

Então sim, devido ao fato de que eles não conseguiam chegar à um acordo iriam dividir o apartamento.

− Algo assim − Lily disse com um ar derrotado enquanto mexia seu café que já deveria estar frio.

Ambas estavam na cafeteria Slytherin sozinhas uma vez que Remus tinha ido visitar a namorada e não pode comparecer. Mais um sinal de que o mundo já não era o mesmo.

− Isso não é ruim, certo? − Lene falou tentando melhorar o humor da amiga. − Quer dizer, ele é o seu ídolo! Pense em quantas coisas pode aprender com ele, nas experiências que podem trocar! Sem falar que ele não é uma visão ruim, hum?

Nem mesmo o levantar de sobrancelhas cheio de segundas intenções da McKinnon pode melhorar o humor de Lily. James claramente não acreditava que ela era uma chef de cozinha e a forma como a tratou quando Sirius o disse comprava isso. Sem contar que ele já era muito metido sem saber que num tempo muito distante Lily o admirava. Não, James não precisava saber disso para ter seu ego ainda mais inflado. Evan suspirou.

− Marlene eu estou dizendo. Se eu não matar James Potter até o final do mês irei direto pro céu.

O verão estava em seus últimos dias e o calor já não era tão forte, mas Lily nunca havia se sentido tanto no próprio inferno.

Outono

As folhas caiam secas e murchas das árvores, tal qual o humor de Lily Evans. As semanas de convivência forçada com James somadas a pressão no trabalho eram a receita perfeita para fazer com que a ruiva desejasse se jogar num monte de folhas na esperança de alguém recolhe-la e jogá-la num saco de lixo. Seria apropriado levando em consideração como ela se sentia.

− Você sabe que toda essa energia negativa afeta a comida, certo? − Alice perguntou enquanto colocava na bancada ao lado de Lily uma travessa com carne temperada.

− Está dizendo que a culpa é minha dos bolos não crescerem?

− Talvez? − a mulher disse brincalhona. − Sei que está difícil cuidar da cozinha sem a Molly aqui, mas você é ótima, Lily! Não estaria aqui se não fosse.

Ela era ótima? Então por que não se sentia assim? Por que nas últimas semanas se sentia apenas um ser humano ruim e difícil de conviver? Talvez fosse porque Sirius comentou nem tão sutilmente que James disse algo nesse sentido. Que ele não se sentia confortável para ficar os finais de semana dentro da própria casa. Bem! Ela também não se sentia desde que passou a imaginar que o fato de estar deitada em seu sofá significava que Potter estaria perambulando na rua. Sendo assediado por fãs e pessoas querendo contratá-lo. Coitadinho.

Lily bufou e revirou os olhos, amassando a massa de pão talvez um pouco mais do que o necessário. Talvez ela não fosse um poço de alegria ultimamente, mas era difícil manter-se positiva quando todos os seus sonhos pareciam estar dando errado um após o outro.

Sim, ela ainda tinha o seu apartamento perto do trabalho, mas agora era obrigada a dividi-lo com um estranho que se achava o maior chef gastronômico do mundo. O fato dele não deixar Lily chegar perto da cozinha quando ele está em casa, como se ela fosse envenenar a comida dele ou algo assim era ultrajante! Talvez ele fizesse isso devido às críticas que A Toca vinha recebendo ultimamente. É, a comida ainda é boa e os clientes voltam quase todas as semanas, mas as matérias não param de dizer que “falta algo, falta emoção, falta sentimento”. Eles querem sentimento? Pois então que comam esse pão amassado na força do ódio.

− Muito bem! − Alice disse com sua voz de sinos, afastando delicadamente as mãos da Lily da massa. − Por que você não vai amassar algumas carnes? Ou ir para casa mais cedo? Remus e eu sabemos o quanto você tem trabalhado, podemos tomar conta de tudo por uma noite.

Evans suspirou. O fato da sua vida estar uma droga não era motivo para jogar tudo para o alto. Alice está grávida e Lily se sentiria péssima por fazê-la trabalhar mais do que já trabalha. Após respirar fundo e jogar uma água no rosto, ela voltou ao trabalho. Tal qual uma abóbora que ninguém quer, mas que no fim do mês de outubro vira a alma da festa Lily pegaria sua raiva e frustração e as canalizaria para algo produtivo.

***

James estava… Preocupado? Talvez esse fosse um termo muito forte. Talvez o certo fosse apreensivo. É.

James estava apreensivo. Ele sabia que morar com Lily não seria a melhor decisão, principalmente levando em conta como eles começaram. Sirius lhe disse várias vezes que ela não havia gostado do ar crítico que James lhe dera quando se conheceram ou do fato de que ele insistia em morar num apartamento que era mais dela do que dele.

Bom, não se pode dizer que ele também estava feliz. A pressão da emissora responsável por seu programa de TV era esmagadora, assim como a de fazer o Hufflepuff ter ainda mais sucesso do que já possuía somados ao fato de Lily provavelmente odiá-lo o deixavam com vontade de gritar até perder a voz.

Mas por incrível que pareça, o que mais incomodava o homem era o olhar frio da mulher com quem dividia o aluguel. James a entendia, é claro. Não deveria ser fácil viver com um estranho depois de estar acostumado a passar meses sozinho. Principalmente quando o estranho em questão não era nem sequer esperado. Sirius também havia comentado que era o primeiro trabalho de Lily como sub-chef e a essa função havia se somado o cargo de chef, algo que James sabia por experiência própria ser estressante.

Enfim, ele sabia que a vida da ruiva não estava fácil no momento, por isso tentava fazer com que a sua presença fosse o menor fardo possível. Por esta razão ele fazia questão de chegar do trabalho antes dela e acordar mais cedo para cozinhar e tentar limpar a casa, sem entrar no quarto de Lily, é claro. Mesmo assim, ela geralmente lançava um olhar de raiva ou frustração para a comida feita por ele e o Potter não sabia dizer se era pela escolha do prato ou por que a mulher não gostava do seu tempero.

Porém, algo mudou naquela manhã no final de outubro. O Halloween estava próximo, mas nem ele nem Lily comentaram sobre alguma festa: estavam cansados demais e provavelmente usariam o evento para dormirem até tarde. Ainda assim, no dia que as abóboras ficam sorridentes, James levantou no horário de costume por força do hábito e porque não queria que sua companheira de apartamento tivesse que cozinhar em seu dia de folga.

Cortando uma abóbora que lhe lembrava a cor do cabelo de Lily, James fez uma torta e passou café mesmo que não entendesse o amor dela pela bebida. Estava tirando a comida do forno quando ouviu a porta do quarto da ruiva se abrir e passos indo em direção ao banheiro.

O cozinheiro logo se apressou para cortar uma fatia do doce e colocá-lo num prato ao lado da xícara de Lily que estava na ilha da cozinha, só naquele momento percebendo que não sabia se ela gostava da fruta, mas torcendo para que sim. James tratou de terminar de lavar a louça enquanto a mulher se aproximava com passos arrastados.

Ela parou na entrada da cozinha e olhou a torta no prato ao lado da sua xícara antes de levantar uma sobrancelha e perguntar num tom sonolento:

− É para mim?

James assentiu com a cabeça secando as mãos num pano ao passo que Lily se sentava na banqueta e se servia de café. O homem logo tratou de se sentar de frente para ela e se servir, ambos comendo em silêncio. Após alguns minutos, raspando as migalhas do prato, os olhos verdes dela se encontraram com os seus escuros.

− Obrigada − Lily disse num tom um pouco mais desperto e James não pode conter o pensamento de que mesmo com as olheiras e a expressão cansada, ela era linda. − Sua torta estava deliciosa.

− Obrigado − ele disse acenando com a cabeça. − É uma receita da minha mãe.

Lily sorriu para ele, talvez pela primeira vez, depositando a louça suja na pia.

− Ela deve se orgulhar de você.

E então começou a lavar os pratos como se não tivesse feito o coração dele disparar.

Afinal de contas, talvez ela não odiasse ele ou sua comida. Talvez apenas não gostasse de seus pratos salgados e preferia os doces. Bem, ele iria descobrir.

Inverno

A neve caía do lado de fora e Lily não saberia dizer se era isso que a deprimia, mas podia apostar suas fichas que o mau humor era devido ao seu fracasso. O bolo ópera não deveria ser tão difícil, mas ela sempre teve problemas com doces.

Por algum motivo totalmente desconhecido para a ruiva, Molly decidira que durante o mês de dezembro A Toca serviria a sobremesa e para isso, Lily deveria saber fazê-la. Afinal de contas, como corrigiria os outros se nem ela mesma conseguia acertar? Remus, que conhecia o histórico complicado da amiga com as guloseimas, tentou ajudar, mas a facilidade com que ele fazia o bolo apenas deixava Lily ainda mais irritada por não conseguir acertar algo tão simples quanto o ponto da massa!

Marlene tentou outra abordagem ao levá-la para comer o melhor bolo ópera da cidade, na Confeitaria Ravenclaw, e por mais que a Evans tenha se deliciado e revirado os olhos de prazer, saber que provavelmente não conseguiria chegar naquele nível e decepcionaria Molly e a equipe a deixou ainda mais triste.

Era por isso que ela estava numa sexta à noite em casa. Pela primeira vez em meses pediu o dia de folga e dedicou-se a fazer o bolo ou morrer tentando. Sirius, que passou pelo apartamento mais cedo para conferir se a fofoca de Lene era verdadeira e a ruiva havia mesmo tirado o dia de folga, nem se impressionou ao encontrá-la com farinha nas bochechas e um olhar irritado de quem havia deixado a primeira fornada passar do ponto.

Mas horas haviam se passado desde que o Black foi para o seu próprio apartamento. Na verdade, era tão tarde que James tinha acabado de voltar após um dia longo de trabalho e ficou surpreso ao encontrar a mulher em casa antes dele acompanhada de um cheiro de queimado.

Não era a primeira vez que ela cozinhava, pois por mais que tentasse, às vezes ela acordava antes dele ou adiantava o expediente de modo que ao homem restava nada ao não ser aceitar de bom grado a deliciosa comida que ela havia preparado. Por isso, franziu a testa ao fechar a porta do apartamento e colocar suas coisas sobre a mesa de jantar, imaginando o que poderia ser tão difícil para alguém como Lily.

− Maldito seja quem inventou essa droga de doce − ela resmungou alheia ao fato de que não estava mais sozinha e se assustando quando James riu pelo nariz.

− Desculpe − ele disse rápido diante dos olhos verdes arregalados e o palavrão que ela soltou.

− Há quanto tempo está aí?

− Uns cinco minutos?

A mulher pareceu surpresa com essa informação, mas não teve muito tempo para pensar nisso porque o forno estava apitando dizendo que mais uma vez algo estava passando do ponto ali dentro. James aproveitou que ela estava ocupada para olhar o livro de receitas aberto sobre a mesa e entender qual era a fonte de todo aquele caos, ficando sem saber como agir ao ter sua resposta.

Esses segundos de indecisão foram suficientes para que Lily jogasse outra forma de bolo no lixo e olhasse para ao homem parado não muito longe, parecendo sofrer uma batalha interna.

− O que foi? − perguntou suspirando e pensando em talvez aceitar o fracasso, afinal de contas passava da meia noite.

− Qual seria a sua reação se eu dissesse que posso te ajudar?

Lily ficou surpresa com o questionamento, mas respondeu com outra pergunta.

− Você sabe fazer o bolo ópera?

Ele deu de ombros como se fosse nada demais e logo fez uma careta de arrependimento para por fim dizer:

− Sim.

Lily inclinou a cabeça para o lado avaliando não a resposta dele, mas sua atitude e tentando entender por que ele estava agindo de forma tão estranha. E a resposta veio rápida como um tapa em seu rosto: ele estava com medo da reação dela. Lily Evans havia sido tão horrível nos últimos meses com seu mau humor e ar carrancudo, por vezes descontando em James que não tinha nada haver com a situação e muito menos obrigação de aguentá-la, que agora o homem simplesmente não sabia como agir. Ele poderia ajudá-la, mas será que ela explodiria diante disso achando que ele está agindo por piedade ou algo assim?

Merlin, ela iria direto para o inferno.

− Desculpe − sussurrou olhando fundo nos olhos dele.

Foi a vez de James inclinar a cabeça para o lado, sem quebrar o contato visual.

− Pelo o que?

− Imagino que eu não tenha sido a melhor pessoa do mundo esses últimos tempos. Não soube lidar com a minha frustração e estresse e acho que acabei descontando em você.

Para a sua surpresa, o homem quase dois palmos mais alto parado em sua frente sorriu de lado ao dizer:

− Suponho que receber no meio da madrugada a notícia de que teria um colega de apartamento indesejado não ajudou no seu humor.

Lily riu.

− Foi a cereja em cima de um bolo muito ruim − comentou dando de ombros. − Mesmo assim não é justificativa para eu ter te tratado como tratei. Você não desconta seus problemas em mim e o mínimo que eu poderia fazer era retribuir isso da mesma forma.

− Aceito suas desculpas se aceitar a minha ajuda − James disse dando um passo para frente e sorrindo ainda mais para ela.

Lily retribuiu o sorriso e também andou para frente antes de responder:

− Espero que saiba o que está fazendo.

E então pelas próximas horas eles cozinharam juntos. James deu dicas preciosas para Lily que estava se sentindo mais leve e de alguma forma isso afetou a sua forma de cozinhar. Perto das três da manhã ambos estavam comendo o bolo feito por ela com a ajuda dele, rindo e conversando como velhos amigos.

E por mais que estivesse frio, ventando e nevando do lado de fora, Lily e James se sentiam aquecidos e com a sensação de finalmente estarem em casa.

Por isso, não foi surpresa para nenhum dos dois quando uma semana depois ambos estavam dormindo juntos, usando o sucesso de Lily n’A Toca ao conseguir ter feito um bolo perfeito e a vitória de James com a audiência do seu programa como desculpa para toda a tensão sexual entre os dois.

Primavera − 8 anos depois

Lily Evans estava saltitante. Não apenas porque a sua estação preferida havia começado florindo novamente o mundo, mas porque ela finalmente esvaziou a última caixa da mudança. Era isto! Estava definitivamente e devidamente instalada na sua casa que não era maravilhosa apenas porque fica a beira mar, mas também porque está localizado na rua do seu trabalho.

O trabalho de Lily era seu sonho de infância que tornou-se realidade! Após uma graduação em Gastronomia e dez longos anos trabalhando ao lado de chefs renomados, cursos técnicos e mil livros de receitas lidos, somados a alguns anos como Sous Chef ao lado de sua amiga, Molly Weasley, ela finalmente deu o passo que mudaria sua vida para sempre! O seu restaurante estava aberto há apenas alguns meses e já era sucesso não apenas na cidade, como no país inteiro!

O imóvel a beira mar se destaca dos demais porque ao contrário do que se espera não serve frutos do mar. O Bistrô Godric's Hollow é sazonal, como o nome já diz, ou seja, seu cardápio muda de acordo com as estações do ano. Isso somado ao charme do ambiente e o fato de que a renomada chef de cozinha, Lily Evans, é dona do local e sua equipe conta com ninguém menos que Remus Lupin e Alice Longbottom, é claro, ajudam na divulgação.

Resumindo, a vida não poderia estar melhor para Lily. Ela tem sua casa a beira mar assim como seu bistrô, trabalha ao lado de grandes amigos e sempre pode contar com Sirius como cliente e Marlene com sua opinião sincera e críticas positivas.

E é claro, para colocar a cereja no bolo, seu marido James Potter chegará de viagem dali poucas horas. Após meses viajando o mundo, gravando episódios para o seu programa Conheça o mundo com James Potter, onde o ex-chef de cozinha mostra práticos típicos e curiosidades culinárias ao redor do mundo, além de, é claro, colocar a mão na massa, o moreno está finalmente voltando para a sua linda esposa que está grávida do primeiro filho deles.

James só espera que os hormônios não transformem sua amável esposa na mulher mal humorada que ele conheceu há tanto tempo. Mas talvez pedir isso seja demais.

Fim

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!