Sobre um amor estranho
2 Sobre o que vem da boca
Notas iniciais
Foi com os lábios dele que tomei gosto pelo beijo. Antes era apenas um agrado para alcançar um objetivo, aquelas coisas que se faz porque é preciso fazer. Automático o suficiente para não ficar na memória.
Esperei mais do mesmo quando eles tocaram os meus. O primeiro passo para o sexo que não aconteceu aquela noite. A vontade tinha se prendido ali e não importava o que ele queria, eu apenas desejava usar sua boca.
O poço de obscenidades que chama o meu nome tem seus dias de sabedoria. Na fúria ou na calma, meus ouvidos estão sempre abertos às suas palavras. E elas os alcançam, macias, firmes, quentes. Incisivas como a língua que explora o meu corpo. Conversando com ele e comigo, derretendo o gelo na minha pele, lambendo a água que escorrega para a virilha. Alcança-a e se afoga. Interrompe meu prazer para dar espaço a um sorriso. "Idiota!" A raiva passa e logo é como se eu nunca a tivesse sentido.
Diferente do que me provocam as frases lançadas no ar, parecem um delírio de quem não ouviu bem, mas quase posso ter certeza de que as vi tomando forma naqueles lábios. Não que eu queira ouvir aquela dupla boba de palavras ou quaisquer outras que as confirme. Apenas que tudo o que vem daquela boca me interessa, principalmente se ela me sopra algo de amor.
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