Sobre os amores verdadeiros que não são eternos
1 Capítulo Único
Notas iniciais
ELE
Você entra no restaurante calmamente, com sua serenidade característica, e algumas cabeças se voltam para observá-la de relance. Sorrio internamente. Você ainda é linda depois de todos esses anos. Ou por causa deles. Os olhos que se esgueiram nas órbitas para olhá-la um pouco mais sem serem notados podem admirar seu nariz bem formado, os lábios finos que se insinuam sob o batom coral, ou o cabelo castanho farto e reluzente. Mas eles não poderiam ter percebido como você fica charmosa distraída, com as pequenas marcas que surgem abaixo do nariz quando curva a boca para pensar, como está fazendo agora. E com certeza ninguém reparou que seu cabelo está levemente frisado porque foi lavado hoje, e que ele fica muito melhor assim, porque te dá um ar despreocupado e incrivelmente sexy. Talvez por isso eu leve alguns segundos para desviar os olhos e fazer um sinal para que o garçom venha anotar os pedidos, um instante antes de você alcançar a mesa. Você se senta à minha frente sem me dar um beijo, e eu estranho.
— Oi. — E seu sorriso inseguro. É tudo que recebo.
Eu não sei se esse tratamento monossilábico é natural à essa altura. Não parecia ser pra nós. Será que o tempo não passou só pra mim? Eu estou acostumado aos seus monólogos ou ao seu silêncio, mas não à vaguidão. Você tem sido muito vaga nos últimos meses.
— Oi. Tudo bem? Como foi seu dia? — Prefiro ser genérico.
— Hum... ahm, bem. Bom, quero dizer, bom.
Você parece nervosa, o que estranho, porque sempre admirei o quanto sempre parece à vontade na própria pele. É o que admiro em você. Gostava de pensar que, apesar de tão completa, de alguma forma você precisava de mim. Mas no fundo sei que não precisa. Eu preciso.
— Tá tudo bem mesmo? Você tá meio estranha...
— Nós precisamos conversar. — Você me corta.
Essa frase. Que assombra muitos maridos, mas nunca a mim. Você nunca a usa. Nunca fala que precisa falar. Apenas diz.
— Hã... sim. Qual o problema?
— Eu quero o divórcio. — Rápida, ansiosa, sem jeito, decidida.
— Quê? — Dou um meio sorriso, como um idiota, como se tivesse ouvido uma piada que não consigo entender.
— Eu quero o divórcio. — Simplesmente, embora mais seguro dessa vez.
Muitas devem ser as reações esperadas, afinal, é infinita a carga de significados e sentimentos que essa informação carrega. Mas não consigo dizer nada. Não é que minha garganta esteja entalada, é que minha mente está vazia. Talvez fizesse mais sentido se minha cabeça estivesse cheia de imagens dos nossos momentos felizes, tentando entender o que faltou, ou dos momentos problemáticos, tentando entender o que fiz de errado. Mas ela estava em silêncio. Nada a ser processado.
— Não vai dizer nada?
— Acho que é você que tem algo a dizer.
...
ELA
Ando devagar pela calçada, olhando os prédios antigos que conheço bem e não me impressionam, ao não ser agora, quando não há pressa de chegar ao meu destino. Ensaiei as palavras na minha cabeça, mas elas não soam certas. Queria fazê-lo entender, mas receio que não possa. Apenas faz todo o sentido na minha cabeça. Talvez eu aprendesse as palavras certas quando o visse. Depois de tanto tempo juntos, a compreensão devia ser uma tarefa fácil.
Mas eu estou assustada, porque não quero machucá-lo, mas isso não é possível. Queria te desprender disso, mas sei que está envolvido como no primeiro encontro. No fundo eu desejava me sentir da mesma forma. Mas eu me sinto livre de uma maneira estranha e incompreensível, e já não posso ficar. Eu queria que você entendesse.
Os prédios vão ficando mais novos e luxuosos, e numa fração de minuto eu estou de frente do local marcado. Observo-o pela porta de vidro limpa e perfeitamente transparente. Você está olhando para os lados, curioso, inquieto, característico. Não conseguiu me esperar e já está tomando um café. Os fios grisalhos e sua expressão cansada poderiam fazer errar uns três anos sua verdadeira idade. Mas o seu olhar atento é o mesmo de sempre. É a única parte do seu corpo que parece agitada. De resto, você está imóvel com seu livro sobre a história de alguma guerra antiga nas mãos. Eu fecho os olhos por um segundo e então entro.
— Oi. — Parece que desaprendi a cumprimentar decentemente.
Você sorri de uma forma um pouco confusa. Acho que esperava que eu te beijasse. Pergunta como foi meu dia. É ironicamente banal, considerando o que tenho a dizer.
— Tá tudo bem mesmo? Você tá meio estranha...
— Nós precisamos conversar. — Mas as palavras certas estranhamente não chegaram ainda.
Então eu digo da última forma que deveria ser dito: simplesmente. E você está calado. Me pergunto onde está a efusão esperada. Os porquê?, quando?, quem?. Mas não há nada. Então eu despejo tudo o que se passou na minha cabeça nas últimas semanas. Não há razões; há sentimentos. Minha voz às vezes assume um tom um pouco suplicante, como se eu tentasse me explicar. Eu sei que não devia, mas não resisto. Eu te amo, não quero te machucar.
Você pergunta se eu tenho certeza. Lembra que ainda me ama. Que temos uma história. Mas às vezes muito não é suficiente. A conversa é intensa, mas não muito alta, há pessoas por perto. O silêncio de casa seria sufocante demais para essa conversa. Talvez isso não fosse justo com você, mas nada parecia ser. Não ficamos muito, você não argumenta demais. Conhece as minhas decisões.
— E agora?
Dou de ombros.
— Agora, a vida.
...
NÓS
— Então, você acredita em amor verdadeiro?
Estamos numa mesa de canto numa lanchonete, você comendo seu hambúrguer sem inibição alguma, sua boca suja de molho. Tento adivinhar mentalmente sua idade, mas não tenho material para muito. Você parece jovem, mas também parece mulher. Provavelmente está na faculdade. Talvez faça história da arte, ou publicidade. Acabamos de nos conhecer numa festa na casa de um amigo. De alguma forma, eu consegui convencer a garota bonita e interessante que a maioria dos caras estava tentando levar para 'um lugar mais reservado' a sair e comer comigo. E o assunto não acabou ainda. Parecíamos estar indo bem.
— O que quer dizer?
— O que não foi claro na pergunta?
— Tudo. O que quer dizer com "amor verdadeiro"? Todo mundo fala sobre isso, mas não acho que alguém saiba do que está falando.
— E isso quer dizer...
Vamos pegar uma batata ao mesmo tempo e nos esbarramos. Você não tem pressa de tirar a mão, e isso de alguma forma traz uma sensação ao meu estômago.
— É um conceito completamente vazio. Vago. Dê-me uma definição e eu lhe dou uma resposta.
— Hmm... Eu não sei, um amor que dure a vida toda, talvez?
— Então precisa ser eterno se for verdadeiro? É um pré-requisito? Então não saberemos se é amor até acabar um dia?
— E que tal almas gêmeas? Aquela única pessoa que te completa.
— Todas pessoas com quem estive me acrescentaram algo. Não estaria com elas se não fosse assim.
— Acho que você não acredita em amor verdadeiro.
— Você deve estar achando que eu sou algum tipo de cética que rechaça o amor romântico tradicional e se orgulha de ser pragmática, não? Talvez pense que eu vim de uma família desestruturada, o que justificaria. Mas não é nada disso. Eu só acho que não há razão para negar que nos apaixonamos diversas vezes ao longo da vida. E cada uma delas é válida à sua maneira. Não é motivo para tristeza, muito pelo contrário. Sempre há outro amor esperando.
Reflito sobre o que disse. Paro e presto atenção no seu rosto. Lindo, suave, os olhos pequenos e levemente puxados. O batom vermelho intenso insinuante. Existe algo magnético na sua atitude, no seu sorriso. Me pergunto qual monológo faria se eu perguntasse se acredita em amor à primeira vista.
— É uma forma interessante de pensar. Mas não funciona para os solitários. Acho que inventaram o amor eterno por medo da solidão dos interlúdios.
— A vida tem muito mais pra se fazer do que viver em função de outro, não acha?
— Estamos de acordo.
Pego meu copo de refrigerante de plástico e levanto.
— Um brinde aos amores verdadeiros passageiros.
Você ri e faz o mesmo.
— E agora? — Pergunto.
— Agora, você me dá carona até em casa. E depois, talvez, um beijo de boa noite.
Nós sorrimos. Você, divertida e provocativa. Eu, ansioso e incerto. Sinto que algo acabou de começar.
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