Sobre os 19 anos depois
27 Epílogo
POV Harry
—Paaaaai, acorda!
Ouvi uma voz animada entrar correndo no quarto e se jogar em cima de mim e de Gina, que resmungou.
—Quantas vezes já disse pra bater na porta, Al?
—Desculpa mamãe, mas temos que ir, é hoje!
Eu abri os olhos e vi meu filho ajoelhado na cama, entre as minhas pernas e as da mãe, com o semblante empolgado típico de quem vai fazer algo extraordinário e já completamente vestido para a viagem. Não havia como ficar bravo nem nada do tipo, eu mesmo ficava em êxtase quando ia para Hogwarts.
—Thiago e Lilian já acordaram? — Perguntei ainda meio sonolento e rindo um pouco.
—Não.
—Então vá chamá-los enquanto nos vestimos. Mas não entre gritando assim, você sabe como eles são. — Alertei e ele saltou imediatamente da cama, já indo em direção ao corredor. — E da próxima vez bata antes de entrar.
—Ta bom! — Respondeu já fechando a porta ao sair.
Assim que a porta se fechou Gina me abraçou, jogou uma de suas pernas por cima de mim, como sempre fazia e deu alguns beijos carinhosos no meu pescoço enquanto eu acariciava sua coxa.
—Bom dia, amor. — Me cumprimentou sonolenta e um pouco manhosa.
—Bom dia. — Respondi dando um beijo no seu rosto. — É melhor levantarmos antes que Al volte aqui e nos tire a força da cama. Ele é igualzinho você.
Ela riu com meu comentário e começou a se levantar, para em seguida se encaminhar ao banheiro. Vestimos-nos com roupas simples, como normalmente usávamos aos fins de semana ou nos dias em que não íamos ao trabalho e descemos, encontrando nossos três monstrinhos tomando café enquanto Monstro os servia.
—Bom dia Sr. e Sra. Potter. — O elfo nos cumprimentou e ficou um pouco envergonhado quando respondemos, aparentemente ele nunca se acostumaria a ser bem tratado.
Dei um beijo no rosto de cada uma das crianças (Thiago ficou um pouco envergonhado, porque ele já se achava grande para ser beijado por outro homem), e me detive um pouco mais em Lili, que estava com cara de manha.
—O que é essa cara feia, florzinha? — Perguntei fazendo carinho em seus cabelos vermelhos, iguais os da mãe.
—Eu queria ir também! — Respondeu emburrada.
Gina e eu rimos e explicamos mais uma vez que ela ainda não tinha idade para ir à escola.
Tomamos café juntos, como todos os finais de semana, em meio a conversas e brincadeiras das crianças, que contavam o que tinham feito em casa durante a semana e faziam planos mirabolantes para o futuro. Desde que Alvo havia recebido sua carta o irmão o vinha importunando com histórias sobre Hogwarts que o deixavam com medo, inclusive a possibilidade de que ele fosse para a Sonserina.
—Thiago, pare de brincar com seu irmão desse jeito. — Gina o repreendeu e ele se calou, mantendo apenas o sorriso de canto que eu vi no rosto do meu pai quando invadi os pensamentos de Snape.
—Os malões já estão arrumados? — Minha esposa perguntou e os dois confirmaram. — Então vão se vestir, temos que sair daqui a pouco.
—Eu já estou arrumado, vou só ver se a gaiola continua limpa. — Al falou orgulhoso, correndo em direção às escadas.
Thiago levantou rápido da mesa e foi atrás, gritando:
—Ele está ansioso para chegar logo na sala comunal da Sonserina.
—Eu não vou pra Sonserina! — Foi a resposta de Alvo, igualmente alta.
Minha esposa e eu nos olhamos e rimos, eles nunca seriam diferentes. Ela soltou nossas mãos, que estavam entrelaçadas e se levantou.
—Coloca as coisas dos meninos no carro? Vou arrumar a Lili. — Pediu convidando nossa pequena e subindo com ela, de mãos dadas.
Era bem impressionante como as duas se davam bem. Lili abria mão de qualquer diversão para passar um tempo só com a mãe, principalmente nos dias em que elas brincavam de se maquiar e arrumar os cabelos, do mesmo jeito que Thiago dispensava qualquer programa para jogar Quadribol comigo. Desde que Gina e eu os levamos para um dos jogos que ela cobriu para o jornal ele não fala em outra coisa que não em ser jogador profissional, e parecia querer usar cada minuto do nosso tempo livre para treinar.
Alvo era o mais dengoso dos três, embora Lili fizesse mais manha que ele. Ele sempre foi muito apegado a nós, e eu não sei dizer se ele se dava melhor comigo ou com a mãe. Na maioria das vezes que os irmãos iam dormir na casa dos avós ou de algum dos tios ele preferia ficar em casa e dormir entre nós dois, coisa que só permitíamos raramente.
Os malões já estavam todos dentro do carro, junto com as gaiolas e as mochilas e toda a bagagem que eles levariam. Eu achei que esse momento seria mais fácil, já que a primeira despedida havia sido no ano anterior com Thiago, mas não, e provavelmente todos os anos eu me sentiria aflito ao vê-los partir.
Da sala eu pude ouvir Gina apressando os dois e logo descer as escadas de mãos dadas com Lili, ambas já arrumadas e sorrindo uma para outra de alguma coisa de garotas (era isso que Lili justificava quando eu perguntava sobre o que estavam conversando e ela não me contava). Os meninos desceram logo atrás, cada um carregando sua gaiola.
—Vamos logo, já são dez horas. — Informei apressando-os.
Durante todo o caminho até a estação Thiago e Alvo brigaram, parando somente quando Gina e eu ralhamos com o mais velho para que ele parasse de perturbar o irmão, e Lili voltou a fazer manha querendo ir junto com os dois.
Assim que descemos em King Cross Alvo ficou quieto demais, e assim permaneceu até pouco antes de embarcar no trem. Eu não o forcei a falar, mas fiquei um pouco orgulhoso que ele tivesse escolhido desabafar comigo. Gina ouviu tudo sem nos interromper, como se não estivesse escutando, mas eu sabia que ela também ficava orgulhosa com a nossa relação.
Ao ver o trem começar a andar foi inevitável a sensação de perda que se abateu sobre mim, vendo os dois se distanciarem. Eu continuei acenando até que já não era mais possível ver a locomotiva vermelha.
—Ele ficará bem. — Gina comentou ao meu lado.
Olhei para ela e distraidamente baixei minha mão, tocando a cicatriz em forma de raio em minha testa.
—Eu sei que ficará.
A cicatriz não doía há dezenove anos. Tudo estava bem.
—Papai, mamãe! — Lili gritou e nos viramos instintivamente para ela, que corria em nossa direção sorrindo com Hugo ao seu lado. — Posso ir para a casa do Tio Rony?
Rony e Hermione vinham logo atrás e se juntaram a nós.
—Você já perguntou se Tio Ron e Tia Mione podem te receber hoje? — Gina perguntou colocando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
—Fomos nós que a convidamos. — Hermione interveio. — Deixe-a dormir em casa hoje e amanhã ela vai conosco quando formos para o almoço.
Gina me olhou pedindo minha opinião e eu assenti.
—Então pode ir Lili, mas comporte-se. — Falou para nossa filha e ela concordou, já sorrindo. — E nada de ficar acordados até tarde, vocês dois. — Dirigiu-se agora também ao Hugo. — Quando estão juntos parecem que não se cansam.
Ron e Mione riram concordando e nos viramos para retornar pela parede que nos levaria à Estação de King Cross, as crianças na frente conversando e rindo enquanto olhavam maravilhadas para os artefatos trouxas à nossa volta, e nós quatro um pouco mais devagar, eu e Gina de mãos dadas e os outros dois abraçados, observando-os e rindo de alguma coisa engraçada que faziam.
—Ela está cada vez mais parecida com você, Gi. — Mione comentou fazendo minha esposa sorrir satisfeita.
—Coitada da menina, amor, não fale assim! — Ron provocou rindo e ganhou um tapa da irmã.
Nós quatro rimos da reação dela.
—Então amanhã na casa de vocês, às onze está bom? — Mione perguntou quando chegamos à calçada.
—Está ótimo. Mais tarde mando uma coruja com a roupa de dormir da Lili. — Gina respondeu já se despedindo da cunhada com um abraço.
—Tchau, cara, até amanhã. — Ron se despediu de mim com um aperto de mão e depois deu um beijo na irmã. — Tchau cabeçuda.
Me despedi de Hermione também com um beijo e depois retribui o abraço de Lili, que estava agarrada à minha cintura.
—Tchau, florzinha. Se comporte e obedeça seus tios. — Orientei dando um beijo em seu rosto.
—Tchau, meu amor. — Gina também se despediu dela.
Hugo deu um beijo em cada um de nós e correu junto com a prima para o carro. Depois que eles já estavam acomodados no banco traseiro do veículo Gina e eu seguimos, sem pressa e de mãos dadas, até onde nosso carro estava estacionado.
—Eles estão crescendo muito rápido, não acha? — Refleti quando já estávamos perto de casa.
—Demais. Já pensou que daqui uns anos seremos só nós dois novamente? — Ela comentou com a mão apoiada na minha perna, com um leve carinho.
—Eu não quero pensar nisso por enquanto. — Respondi como um bom pai coruja e ela soltou uma daquelas risadas gostosas que eu sempre achava linda.
Estacionei o carro em frente nossa casa e entramos abraçados. Quando abrimos a porta Monstro estava em pé na sala para nos receber e perguntar se queríamos comer algo.
—Não queremos, Monstro, obrigada. — Gina respondeu. — Pode ir descansar, tire o resto do dia de folga.
A reverência continuava tão exagerada quanto a dezenove anos.
—A senhora é muito gentil com Monstro, Sra. Potter. — Ele falou antes de se virar e sair para a cozinha.
—Vamos aproveitar que estamos sozinhos e deitar um pouco em silencio, sem preocupação, sem crianças explodindo a casa nem caindo da vassoura? — Convidou com a mão estendida para mim.
Eu ri antes de segurar a mão que ela me oferecia e acompanhá-la escada acima, em direção ao nosso quarto. Mesmo estando sozinhos a porta foi fechada, porque isso precisa ser um hábito recorrente quando se tem três filhos muito espontâneos que as vezes se esquecem de bater antes de entrar e te flagram em situações constrangedoras. E o flagra não é a pior parte, mas sim explicar o que você estava fazendo sem estragar a infância deles.
Assim que fechei a porta Gina tirou o vestido que estava usando e o deixou em cima da poltrona, enquanto eu tirava minha camiseta ela se livrou do sutiã e estendeu a mão, como que pedindo algo. Não precisava mais perguntar para compreender que ela estava pedindo a peça que eu havia acabado de tirar, porque ela sempre fazia isso quando dormimos no meio da tarde.
Nos deitamos na grande cama, cada um do seu lado habitual, eu só de cueca e ela só de calcinha e com a minha camiseta. Quase automaticamente eu a puxei mais para perto e me deitei parcialmente sobre ela, sem realmente deixar que ela sentisse todo meu peso, e subi minha camiseta o suficiente para deixar à mostra sua calcinha preta e a barriga.
Ela não era mais tão magrinha nem tinha o mesmo corpo de quando começamos a namorar, afinal tivemos três filhos e é natural que ela ganhasse alguns quilinhos depois disso, no entanto aos meus olhos ela sempre pareceu mais linda, a cada dia. Eu a olhava hoje, muitos anos depois, com o mesmo carinho, amor e desejo do nosso primeiro dia de casados, enquanto ela fazia o mesmo por mim.
Os últimos dezessete anos da minha vida foram, sem nenhuma duvida, os melhores. É claro que brigamos muitas vezes, mas principalmente nos divertimos muito e aprendemos a nos amar, independente do momento difícil, do que os outros pensavam e das intrigas que esporadicamente apareciam contra nós. Aprendemos a viver um pelo outro, e de alguns anos para cá por nossos filhos, que eram tão parecidos conosco que às vezes eu tinha medo.
Eu pedi a ela uma família e foi o que ganhei, sem nenhuma ressalva, com todos os momentos bons e todas as intrigas, todos os almoços de domingo e todas as festas barulhentas. Eu ganhei uma esposa linda e três filhos maravilhosos, extremamente bagunceiros, mas ainda assim as melhores crianças que alguém poderia ter.
—Em que está pensando? — Ela me perguntou, interrompendo meus devaneios.
—Em como nossa vida é perfeita. — Respondi desviando meu olhar distante do seu corpo e fitando seus olhos, que mantinham o mesmo brilho.
—Eu também acho isso. Nossa vida é perfeita, nossa família é perfeita, você é perfeito...
—Você é perfeita. — Finalizei sua frase e ela riu carinhosa para mim, acariciando meu rosto. — E eu tenho muita sorte em ter você.
—E eu sou sua, você sabe.
—Minha? — Perguntei já sabendo a resposta e empregando um pouco mais de malícia às minhas caricias.
—Sim, só sua! Exatamente como há dezenove anos, e sempre. — Finalizou me puxando pelo pescoço para um beijo que certamente as crianças questionariam se vissem.
E fomos juntos, mais uma vez, para o paraíso que era só nosso e conhecíamos muito bem.
Fale com o autor