Sobre o amor.

4 Eu sinto muito.


Notas iniciais
Esse veio maior, mas o próximo será o último.

— PODE PARAR AI MESMO UCHIHA. – A voz de Naruto veio alterada. – EU VI SEU CARRO E NEM VENHA COM UMA CONVERSA MOLE.

Hinata bateu na porta mesmo após o grito dele. A música parou e os passos vieram até a porta, porém ela não foi aberta, o barulho que se seguiu a fez ter certeza de que ele estava encostado na porta de madeira.

— Por favor Sasuke. – A voz saiu baixa e chorosa. – Não peça pra pisar lá. Quando ela for embora eu volto. Eu te juro que vou ficar bem, eu só quero ficar podre de bêbado e sonhar que eu posso voltar ao passado e não ser tão idiota. – Ele respirou fundo. – Gomem Sasuke eu não sou forte como Hinata foi. Eu não suportaria vê-la amando outra pessoa. Eu não suporto isso. Eu a amo. – Ele deu uma risada alta e Hinata tapou a própria boca escondendo o choro que seguia em si. – Eu sempre a amei não é? Por isso odiava qualquer um que chegasse perto dela, mas ela era perfeita demais pra mim não era? Sempre doce, sempre me amando e eu fui um idiota. Eu não a mereço, nunca merecerei, mas sou egoísta demais pra aceitar isso. – Outra risada abafada, dessa vez a morena conseguiu ouvir também quando ele se engasgou com o choro. – Ela vai se casar amanhã teme e não é comigo. Acho que ela não deve me amar. Mas quando ela ri... – Hinata mordeu o lábio ansiosa. – Teme quando ela ri eu quero morar no sorriso dela e ela ri pra mim, do mesmo jeito que ria antigamente e ela cora. – Ele riu novamente. – Ela cora quando eu a olho com desejo. Por Kami Uchiha me deixe sofrer. Eu mereço. Eu mereço essa solidão e talvez um dia eu deixe de amá-la. Mas não hoje teme. Hoje eu a amo demais.

Hinata escutava calada e sentiu o peito apertar. Como era egoísta. Não queria que ele deixasse de ama-la, não queria que ele a esquecesse, porque ela não conseguiu fazer isso com ele. Por quatro anos repetia a si mesma que não o amava, mas bastou olhar nos olhos do Uzumaki pra sentir o chão lhe faltar, sentir como se todo o universo se concentrasse apenas nele. O silêncio era cortado apenas pelo barulho de pequenos insetos na noite escura, o interior da cabana ainda iluminado não mostrava nenhum sinal de movimento, a Hyuuga deu a volta a cabana e encontrou a porta da cozinha aberta, sorriu consigo mesma constatando que algumas coisas nunca mudavam, entrou em silencio encontrando algumas garrafas de sakê na cozinha, a maior parte vazia. A sala estava organizada tirando por Naruto encostado na porta de madeira enquanto dormia com uma garrafa de sakê ainda pela metade ao seu lado. A morena sorriu caminhando até ele, abaixou-se e passou a mão por seu rosto em um carinho mudo. O amava, amava tanto que sentia como se todas as suas células dependessem da presença dele e ali naquela cabana longe de todos parecia mais viva do que em qualquer lugar em que estivera nos últimos anos, o Uzumaki resmungou e ela sorriu o encarando. Casar-se-ia com Toneri e devia reprimir aquele amor dentro de si, deveria esquecer-se de Naruto.

— Hina. – Ele falou entre o sono e ela sorriu novamente enquanto lágrimas desciam por seu rosto. Levantou-se e pegou um cobertor que estava na cama desarrumada onde o cheiro de Naruto predominava em cada canto, voltou ao loiro ainda sentado e em silêncio recolheu a garrafa, colocou o cobertor sobre as pernas do Uzumaki e sentou-se a frente dele recostada na parede do corredor, deu um grande gole na garrafa de sakê bebendo do gargalo, fez uma careta quando o líquido desceu queimando a garganta e riu sozinha limpando a boca, o sono chegou devagar entre alguns outros goles do líquido claro.

Pessoas são complicadas, mas Hyuuga Hinata era uma pessoa simples, fácil de entender até. Não precisava de grandes coisas pra ser feliz, tinha um futuro traçado por seu pai para si, se casaria com Toneri, um homem gentil e que a amava, mas que não era amado de volta pela morena. Pessoas simples muitas vezes tem a vida complicada e era assim a vida de Hinata, amava o loiro que agora dormia embriagado e que a amava de volta, sonhara desde pequena com uma família grande e que fosse ele ao seu lado.

Hinata sempre fora uma pessoa simples que amava um garoto invisível enquanto era invisível também, mas amar nunca se tratou de simplicidade não é mesmo? E agora ela não podia voltar atrás de suas escolhas, estava ali pois não existia nenhum outro lugar onde quisesse estar mais, colocou a garrafa de lado e engatinhou até o lado do loiro enfiando-se debaixo do cobertor com ele e aconchegando-se sobre o peitoral do Uzumaki deixou-se dormir e sonhar pela ultima vez com as coisas simples que sempre quis.

Naruto sentia a bunda doer e o estômago parecia vazio, mas o calor no corpo era aconchegante e ele respirou fundo abrindo os olhos aos poucos, a cabeleira azulada foi a primeira coisa que viu, ficou imóvel. Hinata dormia tranquilamente meio sentada meio deitada, como ele próprio, porém ela estava recostada em seu peito. Sentiu o coração acelerar, não se lembrava da Hyuuga ter ido a cabana consigo, apenas havia bebido e bebido e bebido novamente, apenas queria esquecer que ela existia no mundo e que ele não poderia toca-la e agora ela estava ali, cheirando a lavanda e dormindo junto a ele. Sorriu sozinho com essa ironia. Afinal, ela se casaria dentro de poucas horas, passou a mão pelos cabelos da morena que apenas se mexeu no sono, contornou o rosto fino com as pontas dos dedos e continuou com o carinho mesmo após ela ter aberto os olhos sonolenta, a morena não se assustou, lembrava-se do que havia acontecido, apenas ficou quieta recebendo o carinho do homem que não voltaria a ver, permaneceram em silêncio algum tempo enquanto o dia nascia ali fora, o barulho ao redor daquele pequeno pedaço de chão era apenas das árvores, pássaros e mesmo alguns animais que viviam ali ao redor.

— Vou fazer o café. – Ela falou doce quebrando o silêncio e ele apenas assentiu, quando a Hyuuga se levantou ele teve vontade de puxa-la de volta, de abraça-la e sequestra-la ali naquele pequeno casebre, levantou-se em seguida sentindo o corpo resmungar por ter dormido naquele lugar, caminhou ao quarto e pegou uma muda de roupas e voltou a sala.

— São de Ino. – Ele falou quando Hinata o encarou. – Ela passou um tempo aqui comigo. — Hinata não perguntou, pois suspeitava que se tratava dos momentos que Sakura havia comentado, quando o loiro sumia por muito tempo.

Quando Naruto saiu do quarto já vestido a casa estava organizada e o cheiro de café predominava sobre o cheiro de álcool que estava anteriormente, sentou-se a pequena mesa e encarou o nada, era um homem feito com o coração partido. Nada mais justo.

— Fiz um pouco mais forte, acho que precisamos. – A voz doce invadiu o cômodo e ele a observou entrar na sala vestindo um short de malha e uma regata, os cabelos presos em um nó no alto da cabeça e um sorriso tímido nos lábios, ele a achou mais linda do que sempre. Tomaram café e Naruto acabou comendo algumas bolachas com geleia que Hinata havia encontrado e deixado sobre a mesa. Quando acabaram com o café de maneira lenta e em completo silêncio o Uzumaki se levantou e organizou a cozinha lavando as vasilhas em seguida, ela já havia preparado o café e organizado a bagunça que ele havia deixado em seu desespero, nada mais justo que ele continuar com a arrumação por conta própria.

Hinata estava de pé quando ele entrou novamente na sala, os olhos se encontraram e eles sabiam que deveriam falar, mas nenhum queria se despedir.

— Você não foi a reunião. – Hinata falou e ele levou a mão na nuca com um sorriso.

— Tive uns dias ruins. – Respondeu sincero e ela assentiu. – Tenho algo pra você. – Hinata o olhou enquanto ele abria um armário de madeira e retirava um envelope pardo, virou-se pra morena. – Por favor só abra quando sair daqui. – Ela assentiu sentindo o coração acelerado, o bolo em sua garganta apenas aumentava enquanto as lágrimas borravam sua visão. – Eu quero muito beija-la Hinata, mas seria injusto com você e sei que se culparia quando olhasse pro seu... – Naruto fechou os olhos respirando fundo. – Eu sinto muito.

Hinata entendia, por mais que queria que ele a beijasse com total entrega, entendia que ele não podia pressiona-la e que se ela usasse a culpa como desculpa pra ficar com ele seria injusto com os dois. Pegou o envelope das mãos do loiro e sorriu antes de abraça-lo, o Uzumaki escondeu o rosto na curva de seu pescoço e ela fechou os olhos desejando que o mundo acabasse naquele abraço quente. Ele foi o primeiro a se afastar e ela apertou o envelope em suas mãos como ele havia feito a quatro anos atrás.

A Hyuuga caminhou em silêncio até o carro de Sasuke que ainda estava lá fora.

— Sakura. – Ela falou respondendo a clara pergunta nos olhos azuis e Naruto apenas assentiu calado, enquanto o carro ia pela estrada o loiro sentia cada pedaço de seu coração se partir caquinhos pequenos. Quando ela havia ido embora da última vez por mais que soubesse que a amava não tinha consciência de seus sentimentos e ainda esperava que ela voltasse, porém não dessa vez. A Hyuuga não voltaria e ele sabia que a amava com tudo o que era.

Hinata apertava forte o volante enquanto o choro tomava conta de si, os nós dos dedos ficavam brancos devido a força que colocava, encostou o carro ainda na estrada e pegou o envelope abrindo-o em seguida, a folha branca dobrada em quatro partes mostrava uma caligrafia típica de Naruto, elegante e torta ao mesmo tempo, coisa que Hinata o havia ajudado ainda no colegial.

“Eu te amo,

Jeito estranho de começar uma carta, mas eu sinceramente não sei mais o que posso dizer. Você disse que o nosso tempo acabou e senti como se não tivesse mais lugar pra mim no mundo, meu lugar é ao seu lado. Eu não sei o que foi pra você quando me amava com seu silêncio e eu era o idiota tagarela, mas eu sei que não sou forte como você Hinata. Não consigo ver você amar outra pessoa, não consigo saber que qualquer outra pessoa foi capaz de te fazer feliz quando queria que apenas eu pudesse te fazer sorrir, não consigo te olhar e não desejar ser eu a te beijar e poder te tocar quando eu quisesse e eu quero sempre, mesmo quando está longe eu quero você e não passou um dia em que eu não tivesse vontade de ir até a Inglaterra te falar como eu sentia sua falta, mas eu ainda era o garoto invisível que foi amado pela menina perfeita e não se deu conta e isso era pouco demais pra você Hina, era pouco porquê eu não podia dar a você nada, então eu trabalhei e me dediquei, fiz meu nome e você começou a namorar, por Kami Hinata aquilo acabou comigo e eu não tinha o direito de acabar com sua felicidade novamente, mas quando você voltou eu quis te ver, eu quis poder te olhar nos olhos e mesmo que você pertença a outra pessoa, você ainda me ama, eu sei pois eu vejo nos seus olhos e sei que você pode ver o mesmo nos meus, porquê é a única verdade que conheço. Eu vou estar aqui quando precisar Hinata e sei que eu vou te amar não importa quanto tempo passe, desejo que seja feliz, mas por enquanto eu prefiro não ver essa felicidade pois me machuca. Me perdoe por não ter retribuído seus sentimentos quando ainda havia tempo, mas eu não acho que o nosso tempo acabou, nunca vai ter acabado enquanto ainda nos amarmos. Obrigado por ter me dado além do que eu merecia, você me ensinou a amar Hinata e peço a Kami que me deixe retribuir te amando pra sempre.

Sempre seu,

Namikaze Uzumaki Naruto.”

O choro de Hinata era ainda maior e todo o corpo tremia, o coração acelerado parecia prestes a entrar em colapso, mas ela não se importava apenas queria colocar todo aquele sentimento pra fora de si, queria que a angústia e a dor saíssem, mas sabia que não era possível, sabia que tudo em si o amaria. Chegou à cidade quase uma hora depois de ter saído da cabana o que normalmente duraria pouco mais de vinte minutos, parou o carro na calçada da casa em que crescera e viu o carro alugado na entrada da garagem, o que indicava que Toneri já estava ali, desceu do carro de Sasuke e parou na porta da casa tentando organizar os fios que ficaram bagunçados devido a forte crise de choro, os olhos vermelhos e inchados não havia como dar jeito e como se para confirmar seu desespero Toneri saiu na porta a olhando, um pequeno sorriso se formou no rosto do albino que apenas abriu os braços enquanto a Hyuuga o abraçava e chorava novamente sendo amparada pelo noivo.

— Tudo bem hime. – A voz de Toneri era suave e forte. – Estou aqui agora, vai ficar tudo bem.

O choro não cessou nem quando a Hyuuga entrou, mas abrandou enquanto ela falava calmamente com o Otsusuki, as lágrimas ainda desciam, mas o corpo parecia mais leve e quando Toneri a abraçou um pouco antes do horário marcado pra cerimônia do casamento a morena sentiu como se as coisas ainda pudessem dar certo, como se ainda houvesse um lugar pra si no mundo e sorriu sentindo o albino lhe beijar a testa com carinho.