Sobre o Abismo

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Oi. Prazer, chamo-me Marco, mas aqui atuo sob o pseudônimo de "WriterM", assim como faço no Spirit e Wattpad. É a minha primeira vez postando no Nyah, embora já tenha usado o site para ler há alguns anos. Espero poder contar com o apoio de todos :)

Desejo-lhes uma excelente leitura! xD

Quando abriu os olhos, não havia nada para olhar. Sentia o mundo cair vertiginosamente sob os seus pés, o infinito vácuo negro engolindo o espaço; e a cabeça girava loucamente, acompanhada por uma tontura nauseante. Vento gélido soprava, concedendo-lhe à pele a mais arrepiante das carícias. Para onde quer que olhasse, tudo o que o jovem rapaz encontrava era o vazio, vasto e solitário, e uma densa e pálida névoa cinzenta que desprendia-se das profundezas como fumaça de um vulcão. A princípio, estava desnorteado demais para sentir qualquer coisa. Então, subitamente, o medo golpeou-o com tanta força que fez as suas pernas fraquejarem. O equilíbrio abandonou-o por um momento. Vou cair, pensou, aterrorizado, quando a escuridão lá embaixo começou a arrastá-lo para junto dela. Soltou um grito esganiçado, um dos pés ergueu-se debilmente e os braços giraram. Oh, Deus, eu vou cair. Vou cair e me afundar naquele abismo.

Já preparava-se para a queda iminente quando o questionamento veio. Mas por que eu estou caindo, afinal? Ainda há pouco tinha firmeza o suficiente nos membros inferiores para manter-se de pé em meio ao nada. Sendo assim, por que estava caindo? Por nada, percebeu o garoto, não posso cair por nada. Tenho que ficar de pé. Fechou os olhos esbugalhados pelo susto e respirou fundo, parando de girar os braços e inclinando-se para frente. O pé levantado abaixou-se e voltou a tocar a superfície estreita e instável em que antes se apoiava. Ele permitiu-se suspirar aliviado ao sentir-se novamente em equilíbrio, mas o sentimento foi efêmero. Ficou novamente espantado no momento em que viu onde estava se apoiando. Debaixo das solas desnudas de seus pés, uma única corda o separava da queda. Prendeu a respiração, sentindo os pelos da nuca se eriçarem. O rapaz imediatamente compreendeu: cair seria o seu fim. Tinha de permanecer em pé, ou tudo estaria perdido para ele.

De onde vem essa corda? Olhou por cima dos ombros, mas a mesma estendia-se para muito além de sua vista, desaparecendo no meio da névoa. Para onde ela vai? Em frente, a corda seguia seu trajeto, impassível, até sumir. Ótimo. Não sei de onde vim e menos ainda para onde vou, e estou parado no meio do caminho. Havia pior situação do que aquela? Estava no meio do nada, com frio, perdido e sozinho, e como se não bastasse, necessitava ficar de pé a qualquer custo. O que eu faço? Questionou-se, assustado. O que eu devo fazer?

Tentou ficar calmo e avaliar as opções que tinha à sua disposição. Não eram muitas. Às suas costas só existia névoa fantasmagórica e mais nada. O mesmo à frente; nada abaixo de si. Olhou para frente e para trás, indeciso. O vento calmo esfriava mais a cada segundo, enchendo-o de calafrios. Suas pernas voltaram a tremer. Faça logo uma escolha, ou o medo lhe deixará acorrentado no mesmo lugar. Inspirou profundamente e tomou uma decisão. Girou o corpo cautelosamente e pôs-se na direção contrária.

Hesitou antes do primeiro passo. Mal conseguia enxergar um palmo à sua frente com toda aquela névoa, que parecia tornar-se mais e mais espessa sempre que olhava para ela. Refletiu se aquilo era mesmo o certo a se fazer. Para onde voltarei se for por ali? O que eu espero encontrar lá? Então olhou em volta e encontrou a sua resposta.

Nada. Teve a certeza de que não podia voltar.

Relutantemente, voltou à posição inicial, e, pé ante pé, arriscou ir adiante, lutando para se manter equilibrado. Não era uma tarefa fácil. A corda era assustadoramente estreita, seus passos pareciam pesar uma tonelada cada, e não fazia a mínima ideia de para onde estava indo. E havia o abismo. Esta era a pior parte. O garoto sentia-se pequeno e impotente sempre que olhava para baixo. Vou cair, pensava em desespero, mas então lembrava-se: Não, não vou. Preciso continuar seguindo em frente. Era uma imensidão escura e gelada a que o esperava se se permitisse despencar. Por vezes, tinha a sensação que ela tentava derrubá-lo, e isso enchia-o de um medo tão terrível que expulsava o ar dos seus pulmões e lhe congelava as pernas; e então precisava parar e recuperar os ânimos. Depois, voltava a andar, um pé depois do outro, sempre tomando cuidado para não ceder ao abismo. Preciso seguir em frente, lembrava-se o tempo todo, preciso seguir em frente. Continuou caminhando; um minuto, uma hora, um dia, uma semana. O tempo não era mais que uma memória distante, tão irreal quanto podia ser. As solas dos pés do garoto estavam doloridas e sangrando, mas ele perdurava. Um passo e depois mais outro, e mais outro, e outro depois deste. Nunca parava de seguir adiante, mesmo sentindo-se fatigado e temendo a queda que o espreitava a todo instante. Preciso seguir em frente.

Em algum momento, depois de muito bambolear, enxergou uma luz tênue cintilar em meio a névoa. Estaria alucinando? Não sabia quanto tempo passara naquele lugar, labutando na árdua tarefa de equilibrar-se e avançar por sobre a corda bamba; talvez estivesse começando a delirar devido ao esforço. Não, é real demais. A luz brilhava com mais força a cada novo passo, deslumbrante, quente e convidativa. A luminescência incitou-o a acelerar e o garoto andou mais depressa. Todavia, isso logo mostrou-se ser um grande erro. A pressa fizera-o dar um passo em falso, tirou-lhe o pouco equilíbrio que tinha e quase fê-lo cair no abismo. Passou pelos piores instantes de sua vida enquanto tentava recuperar a postura. Não vai funcionar assim, pensou, meio aborrecido, meio aliviado. Melhor ir com calma. Um passo de cada vez.

Ao voltar a prosseguir, começou a sentir a luz tornar-se maior, mais calorosa, mais viva. Ela está me chamando para junto dela, como o abismo. Mas o abismo queria engoli-lo, ao passo que a luz prometia aconchego. Era a recompensa no fim da jornada, o prêmio por todo o trabalho duro que tivera para chegar até ali. A ideia o animou. Pegou-se imaginando quanto tempo mais levaria para alcançá-la. A perna direita esticou-se e desceu, depois, a esquerda a imitou. Ele repetiu o processo, de novo e de novo. Leve o tempo que for, eu vou chegar lá. O medo de cair no abismo não era – e nem podia ser – maior que o desejo de alcançar o objetivo. Não pensou em mais nada. Seguiu em frente.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Até a próxima! xD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!