Sobre gatos, lobos e amizade
6 [V] cotidiano
Notas iniciais
Hyeju sentiu um sorriso se formando antes mesmo de estar plenamente acordada. Enquanto dormiam, em algum momento tinha abraçado Chaewon, e a garota se aconchegara em seu peito, se encaixando muito bem contra seu corpo. Seus irmãos estavam certos, era aquele calor da proximidade que faltava para que sua casa se tornasse realmente seu lugar. Mesmo quando de fato despertou, ainda permaneceu ali – até porque, se seu despertador ainda não tinha tocado, não estava atrasada –, apreciando o momento.
Como se pensar naquilo atraísse, em dois segundos seu celular começou a tocar, anunciando que seu momento de quietude tinha acabado. E realmente acabou, pois, assim que a mais velha acordou, ela se apressou em se afastar de seus braços – e talvez Hyeju tivesse externado sua tristeza com isso, mas a amiga não percebeu, ou fingiu não ter visto.
—Ah, bom dia! – a voz dela saiu meio animada demais, como se estivesse forçando normalidade – Desculpa ter te feito dormir aqui...
—Tudo bem, esse sofá é confortável. – disse, mesmo que aquela fosse a última coisa que pudesse lhe preocupar – Você dormiu bem?
Chaewon assentiu, assegurando que não tivera mais pesadelos, e se apressou a seguir para a cozinha. A mais nova logo foi atrás – nem tanto por outros motivos, mas aquela garota era um perigo na cozinha e nunca deveria ser deixada sem supervisão para nada além de esquentar água –, sem conseguir ignorar como a proximidade que tinha conseguido conquistar já estava escapando de suas mãos.
O sol estava em seu ponto mais alto no céu quando Yunho decidiu dar sua pausa para almoço. Desde que aprendeu a dirigir, sua parte no comércio dos pais tinha virado ser responsável pelas entregas, então passava seu dia dirigindo pela cidade e às vezes até fora dela. Era um tanto cansativo, mas gostava de como sempre estava em contato com pessoas, e talvez até atrasasse uma entrega ou outra porque se distraíra conversando.
Apesar do horário movimentado, conseguiu estacionar o carro razoavelmente próximo do restaurante que geralmente frequentava em sua rota de trabalho. Nem estava prestando atenção no caminho, já caminhara por aquelas ruas tantas vezes que não precisaria disso para acabar no lugar certo, mas então uma silhueta lhe puxou o foco. Alguns diriam que o cabelo rosa-chiclete seria impossível de não ser notado, outros apontariam que híbridos nunca passavam despercebidos, mas Yunho sabia que aquela presença era como um imã para seu olhar independente de qualquer fator visual.
—Será que posso fazer companhia para esse garoto tão bonito? – indagou despretensiosamente, se colocando logo ao lado de onde San estava sentado, e ganhou aquele adorável sorriso de covinhas como primeira resposta
—Precisa não, to esperando meu namorado. – ele entrou na brincadeira
—Ah, jura? – abraçou o mais novo pelas costas antes de completar – Ele deve ser alguém de muita sorte.
O híbrido esfregou o rosto no seu, em um gesto tão felino e principalmente tão característico dele, que isso nunca deixava de esquentar seu peito.
—Não mais que eu. – ele falou quase ronronando, em seguida dando um beijo na bochecha do recém-chegado
Yunho poderia dar corda para aquela discussão até o fim dos dias, porque sempre pensava como o destino tinha sorrido para ele ao lhe dar um companheiro como San. Aquela presença era uma constante em sua vida desde que se lembrava por gente, porque suas famílias eram vizinhas quando ambos nasceram, e assim continuaram por boa parte da infância deles. Mesmo quando uma delas se mudou, os dois nunca cessaram contato, porque tinham se tornado melhores amigos. Conheciam os gostos, as manias, os hábitos um do outro melhor do que a si mesmos às vezes – o que era engraçado de pensar quando lembrava como nunca suspeitara que o híbrido tinha se apaixonado por ele, mas, bem, também não tinha decifrado os próprios sentimentos até ser bem impossível não encará-los. Quando San decidiu sair da casa dos pais ao ingressar na faculdade, ele logo propôs que morassem juntos, porque já tinha certeza que queria passar o resto da vida compartilhando seu dia-a-dia com aquele garoto.
—Achei que você ia ficar o dia inteiro na faculdade hoje? – comentou
—As aulas da tarde foram canceladas. – o mais novo respondeu, se levantando e segurando sua mão – E sei que você geralmente almoça por aqui, então vim te esperar pra gente almoçar junto.
Yunho não deixou de sorrir com aquilo, puxando o namorado para um rápido beijo antes que começassem a caminhar e comentar o que tinha acontecido em suas respectivas manhãs.
O barulho de trovões ainda ecoava pelo jardim ao que Hongjoong se jogou na grama, e ele sabia que não precisava se preocupar com uma chuva repentina. Esgotado como estava, era óbvio que aquele clima não duraria muito mais, e de qualquer jeito não estava com sua mente focada nisso.
Na maioria das vezes em que treinava com Yerim e Hyunjin, as duas ficavam contra ele, e podia contar nos dedos quantas vezes tinha ganhado. Não só por serem muito habilidosas, mas a sintonia que as irmãs tinham não deixava fácil para ninguém derrubá-las. Então, quando naquela tarde decidiram inovar e fez dupla com Yerim, chegou a acreditar que teria uma chance melhor... Mas a sintonia não desapareceu, e, pelo contrário, foi usada contra eles.
—Não foi uma derrota tão feia, vai... – comentou sua parceira, se sentando ao seu lado
—Fale por você! Você entregou o jogo todo pra Hyun! – ambas soaram surpresas pela acusação, então Hongjoong se justificou – Olha como ela sabia exatamente o que você faria, e ainda conseguiu te achar fácil!
As duas se entreolharam, e foi Hyunjin quem chegou a uma conclusão primeiro.
—Pelo visto, não foi muito boa ideia colocar gêmeas uma contra a outra.
Ele chegou a abrir a boca para reclamar, mas percebeu que havia certa lógica naquela linha de pensamento. Sempre ouviu que irmãos gêmeos tinham uma ligação forte o bastante para vez ou outra tomarem as mesmas ações sem se dar conta, então fazia sentido que elas entendessem bem como funcionavam. Além disso, crescer juntas e ter o mesmo treinamento também levava a uma chance maior de terem técnicas e estratégias similares. E ambas devem ter percebido que ele desistira de argumentar, porque riram de sua reação, e logo Hyunjin estava sentada ao seu lado também.
—Aliás, ó, falando das nossas geminialidades... – começou Yerim – Sabe que mês que vem é nosso aniversário, né?
—Já tá planejando a festa? – indagou o ruivo
—Sabe como nossa irmã é. – riu a outra – Então já estamos te convidando. Reserva seu 4 de Junho pra gente!
—Verei na minha agenda. – respondeu, mesmo que soubesse que não tinha nada planejado, além do quê com certeza faria o possível para ir
—Ah, desculpa, senhor artista famoso! – provocou Yerim – Vai ter outra exposição?
—Duvido. – desdenhou Hongjoong, ainda que com um sorriso orgulhoso – Foi uma experiência legal. Mas nem sei se vou expor de novo...
—Considerando que você ficou amigo dos donos da galeria, acho que não vai ter escolha. – apontou Hyunjin
O garoto riu com elas, sabendo que era verdade. Pela maneira como aqueles dois deram apoio para sua arte e mesmo para mantê-lo próximo do trabalho da galeria, não duvidava nada que em alguns meses perguntariam se tinha algo novo. O curioso era como isso não o incomodava – aquela perspectiva não soava como pressão, mas como incentivo. Conhecia ambos há tão pouco, mas se sentia confortável em estar com eles.
—Adoro quando abro as portas da minha casa para alunos dedicados treinarem e eles fazem isso em vez de ficar jogando conversa fora.
A voz fez o trio se colocar de pé na mesma hora, se deparando com uma Handong de braços cruzados e sorriso irônico no rosto.
—Reclame com elas que estão armando contra mim. – replicou Hongjoong, ganhando contestações acaloradas das gêmeas
—Okay então. – a mais velha cortou a discussão sem precisar de mais palavras – Que tal vocês três contra mim?
Eles sabiam muito bem que não tinham muita chance de ganhar, mesmo em equipe, mas também sabiam que a tutora não os deixaria recuar, então apenas acataram.
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