Notas iniciais
boa leitura!

Desde que Hyeju se mudara, ela mantinha o hábito de visitá-los nos finais de semana. Nem sempre podia, mas se esforçava para pelo menos no domingo estar junto com eles. Contudo, naquela sexta, a mais nova tinha mandado uma mensagem pela manhã avisando que iria direto do trabalho para a residência deles. Seonghwa não deixou de estranhar, visto que geralmente depois da lua cheia ela se contentava com uma tarde com eles, então provavelmente algo no trabalho a tinha estressado. De qualquer maneira, a presença dela era motivo de alegria, e sempre tentava fazer algo diferente para a refeição compartilhada com ela. Pegou o celular para buscar uma receita que tinha encontrado alguns dias atrás, e foi assim que viu a notificação de Hongjoong.

Quem diria que aquela mensagem improvisada teria dado tão certo? O garoto respondera seu primeiro contato menos de uma hora depois que mandara, o que o ajudou a não ter perdido o pouquinho de coragem que tinha juntado, e vinham se falando desde então. No caso, aquela conta realmente era dedicada para a parte artista do mais novo – inclusive aprendera que ele se contentava em só postar na internet, mas uma amiga próxima o convenceu a tentar ao menos uma exposição –, e logo foi direcionado para sua conta pessoal. Tinha bem mais tweets ali, e gostava de ver os pequenos insights sobre a vida de seu novo... contato.

(não era essa a palavra que ele queria usar, sabia muito bem, até porque ela definitivamente não encaixava com a sensação que Hongjoong lhe deixava de que tudo podia ser fácil e simples, mas era a mais segura, e gostava – precisava – de segurança se queria fazer aquilo funcionar)

Estava o atualizando sobre a visita da irmã, até para explicar que não demoraria muito na aba de mensagens – coincidentemente, ele também tinha algum compromisso à noite porque mencionou também precisar sair, mas não entrou muito em detalhes. E Seonghwa não resistiu a perguntar por que o atual nome de seu perfil estava como “brabuleta”, e se divertiu muito com a longa explicação de como ele tinha amigos péssimos que faziam apostas bestas, que dessa vez tinha infelizmente perdido. E Hongjoong também falou da escola, quando conhecera o amigo em questão, e de como gostava muito de borboletas, e também muito de flores, e Seonghwa também adorava falar de flores, e mencionou as preferidas dele mesmo e de suas irmãs.

Nem assimilou o barulho da chave girando, e mal registrou o som de passos até ver Siyeon parada na porta de seu quarto.

—Oi, Si! Chegou cedo hoje?

—Anh, não? – ela parecia estar se divertindo com seu desligamento

Foi só então que pensou em olhar para a hora no canto da tela de seu celular.

Estrela Jedi

MDS A JANTA

preciso mesmo sair, a hye deve chegar daqui a pouco :cry:

brabuleta

já tá tão tarde assim??

.........mds tá

é hoje que a handong me mata

O híbrido nem leu direito as mensagens, apesar de o chat ter ficado aberto, pulando da cama e seguindo direto para a cozinha. A mais velha ainda estava achando o momento engraçado, talvez curioso, mas se prontificou a ajudar com o que pudesse adiantar – “eu ainda consigo fatiar ingredientes sem colocar fogo na cozinha, tá?”. E ela também funcionava muito bem como suporte emocional, o fazendo respirar e lembrando que a irmã não veria problema se o jantar saísse um pouco atrasado. Ia zombar dele um pouco, é verdade, mas nada além disso.

—Quem nunca se distraiu na internet, né... – continuou ela – Caiu no buraco negro de vídeos fofos de novo?

—Ah, não... – hesitou um pouco em admitir, mas sabia que não conseguiria mentir – Tava conversando com o Hongjoong, nem vi a hora passar...

Siyeon deixou escapar um “ah” bem contente, e conseguia sentir as várias palavras prontas dela de como era bom ter contato com alguém novo, mas elas não vieram. Talvez ela guardasse para depois que a refeição estivesse pronta, e decidiu focar no que cozinhava em vez de antecipar aquela conversa em sua cabeça.

Por costume, depois de um dia cheio de reuniões cansativas como aquele, Hyeju permaneceria no carro por alguns minutos para respirar fundo. Contudo, estava no lugar onde recuperava suas energias, então a garota se apressou a pegar sua bolsa e sair do veículo. Entrou no prédio sem nem cogitar esperar o elevador alcançar o térreo – até porque, sempre tinha energia física de sobra de qualquer jeito –, seguindo pelas escadas. No corredor do quinto andar, bateu na terceira porta à esquerda, e não demorou a ser atendida.

—Hye! – sua irmã exclamou, sempre animada, a recebendo com um abraço apertado

Por mais que gostasse de seu próprio apartamento ou de qualquer outro lugar que pudesse morar, nunca deixaria de se sentir em casa naqueles braços.

—Alguém teve um dia cansativo. – Siyeon comentou após alguns minutos, a conhecendo bem o bastante para saber que já teria se soltado antes em dias casuais

—Que dia de reunião não é? Ainda mais as depois dos meus “dias de recesso”. – resmungou ela, entrando na sala e se jogando no sofá – Aqueles velhos sempre acham que sabem mais do que eu. Por que mesmo eu ainda dirijo essa empresa?

—Porque você gosta quando prova que está certa. – apontou a mais velha, e não poderia discordar, e ela ainda adicionou em tom de brincadeira – E você tem que bancar sua irmã preferida.

Uma risada lhe escapou, mas o som foi abafado por um protesto vindo de algum outro cômodo.

—Hey!

—Eu disse irmã, você é o irmão preferido. – argumentou Siyeon, elevando a voz

—Acho bom. – ele respondeu, fazendo ambas rirem

—Mas tá com perigo de perder o lugar, você ainda nem me deu um abraço! – Hyeju não resistiu em adicionar, fazendo com que Seonghwa aparecesse na entrada da cozinha, segurando uma vasilha apoiada em seu tórax

—É pela sua sobremesa, sabia?

A mais nova adorava provocar o irmão, porque ele era sempre transparente demais. Estava em todos os detalhes de sua expressão a tristeza pela “rejeição”, sentimento ecoado por suas orelhas felinas abaixadas.

—Vou te devolver uns pontos então. – replicou, e seu sorriso entregou a brincadeira, o fazendo sorrir também antes de voltar para a cozinha

Ainda assim, não demorou muito para que a massa fosse para o forno, e então Seonghwa estava livre para se jogar na recém-chegada. E, mesmo quando a liberou de seu abraço, o garoto deitou a cabeça no colo de Hyeju, sem cortar o contato.

—Às vezes, eu me pergunto quem de nós realmente é o mais novo. – provocou ela

—Eu, claro. – devolveu ele, sem hesitar, fazendo as irmãs rirem – Eu fui o último a ser adicionado na família, então sou eu.

—Gatinho bobo. – sussurrou a caçula, começando a acarinhar uma de suas orelhas felinas no lugar exato que sempre o agradava, o que o fez automaticamente começar a ronronar

—Mas, Hye... – começou a mais velha, com um sorriso entregando que viria uma fofoca das boas – Você reparou que o Hwa sempre já tá com tudo pronto quando você chega?

—Pois é! – provocou – Vou ter que descontar uns pontos, ein?

—Ah, mas você vai gostar do motivo! – Siyeon foi mais rápida que o pedido de desculpas dele, até porque ele tinha se deixado levar pelo carinho – Ele tava distraído conversando com um amigo.

—Mentira! – exclamou Hyeju, verdadeiramente alegre, mas claro que o irmão já começara a contestar, até se colocando sentado para isso

—Para! Ele não é meu amigo, a gente só tem conversado esses dias...

—Isso já é um baita avanço, você não conversa com ninguém fora da alcateia!

—A Haseul? – tentou ele, ao que a mais nova revirou os olhos

—Dizer bom dia pra funcionária da galeria nas raras vezes que você vai lá não configura uma conversa. – argumentou – Mas fala, quem é?

—O artista dessa exposição mais recente.

—As pinturas legais ou aquelas nada a ver?

Pela expressão de Siyeon, ela já estava agendando um sermão sobre a importância e a criatividade de arte abstrata – a esse ponto, a mais nova até apreciava alguns quadros, mas não perderia a chance de zoar a nerd da arte –, mas decidiu deixar o debate para depois devido à prioridade da conversa do momento.

—As que você chama de legais. As fotografias também.

—Nossa, eu adorei aquelas fotografias! – não pode deixar de comentar

—Sim! – o híbrido prontamente concordou com o elogio, e tentou disfarçar a animação nisso – Tá vendo, foi só isso, eu tava elogiando o trabalho dele...

—Há mais de uma semana todo dia? – rebateu Siyeon, com um sorriso vitorioso

—Okay, a gente falou sobre algumas outras coisas... – admitiu o garoto, de repente com uma expressão tão frágil – Eu não sei explicar, mas conversar com ele sempre parece tão fácil...

Hyeju assentiu até sem perceber, porque aquela sensação cada vez mais tocava seus dias. Contudo, tinha que focar no irmão naquele momento, porque via como ele estava tentado a dar uma chance para essa amizade florescer, mas o medo ainda lhe acorrentava.

—Isso é ótimo, Hwa. – disse, em uma voz gentil – Você deveria mesmo tentar.

—Você não tem ideia como foi bom chegar aqui hoje e te ver sorrindo e descobrir que era por uma conversa. – a mais velha emendou – A gente brinca muito com isso, mas você realmente precisa começar a ter sua própria vida, sabe? Ter amigos seus, projetos seus, algo que não seja apenas a gente e a alcateia.

—Assim até parece que vocês se cansaram de mim. – Seonghwa tentou desconversar, como sempre fazia, mas tudo o que conseguiu foi levar um tapa na nuca

—Não fala besteira. – repreendeu Siyeon – Nunca me cansaria de você. E é exatamente por te achar incrível que sei que você deveria alcançar muito mais!

—O mundo lá fora nem sempre vai te machucar. – concluiu a mais nova – E, quando machucar, a gente bate de volta.

Ela fez o movimento de um soco, e o híbrido riu com isso.

—Tenho certeza que sim.

De qualquer maneira, o timer do forno tocou, fazendo o garoto se levantar para voltar à cozinha. As irmãs acabaram o seguindo, ajudando a colocar a mesa para o jantar. Mesmo que tivesse feito a comida correndo segundo as informações dadas pela mais velha, Seonghwa continuava um exímio cozinheiro, e não deixou de elogiá-lo. Poderia também perturbá-lo mais quanto ao novo amigo, mas preferiu não provocá-lo – até porque, foi curioso ver como ele já começava a integrar esse novo pedaço de sua rotina à conversa sem nem perceber, vez ou outra mencionando algo sobre o tal artista. Estava tão acostumada com seu irmãozinho tímido e quieto que estava surpresa de ver como ele realmente tinha conversado todos os dias de uma semana inteira com alguém, mas era uma ótima surpresa. E também não podia estranhar, algumas pessoas simplesmente combinavam, bastava que o impulso inicial fosse dado – e Hyeju bem sabia disso.

Ao que concluíram a refeição, a mais nova foi direto para um longo banho, deixando para trás sua roupa de trabalho e colocando um confortável pijama para aproveitar a noite com os irmãos. Os dois também logo estavam com suas roupas de dormir, e abriram um futon no chão da sala para que ficassem juntos enquanto viam tv, e porque obviamente dormiriam juntos também. No momento, os mais velhos discutiam o que iriam ver, mas a visitante se contentava em estar ali. Até se Siyeon colocasse um daquele esquema de pirâmide em forma de filme – como sempre se referia à franquia cinematográfica da Marvel, só para ver a irmã ficar toda na defensiva, e porque era verdade também – ela se daria por contente. Estava recostada no braço de Siyeon, e seu pé brincava com a cauda de Seonghwa, e aquele simples momento já lhe fazia muito bem.

—Sinto falta de vocês. – acabou deixando escapar

A discussão parou no mesmo momento, e ambos se voltaram para ela com um olhar terno.

—Eu também. – a mais velha depositou um beijo no topo da sua cabeça – Mas eu também to feliz de você estar seguindo seu caminho.

—Mas você não parece tão feliz na sua nova casa... – adicionou o híbrido, e queria poder replicar, mas realmente não estava

—Ah, cara, eu não sei o que tem de errado! – suspirou, exasperada – Eu mesma escolhi e decorei o apartamento, e eu gosto de lá, mas toda vez que eu chego em casa, parece...

—Vazio? – arriscou Siyeon, e originalmente ia completar com “errado”, mas aquela palavra era bem mais precisa – É porque você é um lobo, Hyeju. Você não foi feita pra morar sozinha.

Tinha algumas suspeitas de que poderia ser essa a resposta, mas ainda assim bufou quando ouviu ela pronunciada. Até porque, como ia solucionar aquilo? Chamar os irmãos para viver com ela e perder todo o propósito em ter se mudado?

—Aí, por que você não chama a Chaewon pra morar contigo? – sugeriu Seonghwa

Não pode conter a alegria que invadiu seu peito com aquela possibilidade, e quase nem ouviu o “boa, Hwa!” que sua irmã emitiu. A ideia de ter ela mais próxima era ótima, e queria isso, porque os dois meses que tinham passado a conversar mais mostravam que tinham mais em comum do que imaginaram de primeira. Contudo, se imaginar perguntando a ela sobre aquilo fez a realidade lhe puxar de volta.

—Eu... não sei se ia dar certo...

—Como não? Ela vai topar na hora! – argumentou a mais velha – Você já comentou que ela tava procurando uma casa mais perto do trabalho, e ela literalmente ganharia uma carona diária contigo, e vocês teriam um lugar pra conversar sobre a alcateia longe de humanos podendo escutar...

—Mas e se ela entender errado? – rebateu, admitindo o que realmente lhe incomodava – Sabe, muita gente acha que querer morar junto implica... outras coisas que não só uma oferta amigável. Até por como a gente tem andado muito junta, eu até já ouvi alguns comentários na empresa que... ugh.

—Eles não desrespeitaram você ou a Chae, né?

—Claro que não, se não já tavam na rua. – ralhou Hyeju – Mas tecnicamente dizer que sua chefe deve estar com crush na novata porque passa o intervalo conversando com ela ainda não é considerado justa causa.

E não deveria ser, admitia, mas aqueles comentários sempre a incomodavam. Esperava muito que o reverso não ocorresse, porque definitivamente não era verdade de sua parte. Só se aproximara de Chaewon porque era sua responsabilidade guiá-la como loba, e depois isso foi ganhando maior extensão por perceber como funcionavam tão bem juntas. Era uma amizade nova, mas que já aprendera a prezar muito, e não queria perdê-la por algo como um mal entendido ou um sentimento que não corresponderia.

—Bem, Hye... – começou seu irmão – Acho que você tem que ser sincera. É uma oportunidade boa pra ela, e você quer oferecer isso como amiga. Como parceira de alcateia.

—Se ela entender errado, não vai ser culpa sua. – Siyeon o acompanhou

Não poderia discordar deles, então deixou o assunto por ali mesmo, se decidindo por tentar. Logo estavam de volta a discutir o que iriam assistir, e, quando a irmã começou a enumerar alguns desenhos, se lembrou de que estava atrasada na segunda temporada de The Owl House, então se decidiram por maratonar o show. Os irmãos até avisaram que ela terminaria a noite chorando, mas desdenhou daqueles manteigas derretidas, só para quebrar a cara e se acabar de chorar. Depois de discutir teorias, ver a irmã revirando seu twitter para buscar as fanarts que queria mostrar e obviamente xingar a Disney pelo corte da próxima temporada, o sono começou a tocar seus sentidos. Ao que Seonghwa percebeu seus primeiros bocejos, não demorou a abraçá-la e começar a ronronar, sabendo que o barulho sempre a relaxava.

—Golpe baixo. – murmurou, ou talvez tenha só pensado em murmurar, porque não estava mais totalmente consciente

Provavelmente tinha mesmo falado, porque viu os irmãos rindo, mas logo o trio estava muito bem aconchegado um no outro, e Hyeju sabia que aquilo sempre seria seu lar.

Notas finais
to achando que essa história não vai se dar muito bem por aqui, mas vou tentar pelo menos mais alguns capítulos enfim! os irmãozinhos! o friendly pining! eu gosto muito de tudo que tá aqui, de verdade *^*