Sobre flores, ganhos e lágrimas
1 Um ombro para chorar
Notas iniciais
Ele era um rapaz feito de flores.
Ou foi o que Jean-Jacques achava até conhece-lo pessoalmente.
Não que houvessem mentido quanto à sua beleza ou os trejeitos delicados, mas ele era literalmente uma flor no que se tratava de personalidade: silencioso e contido, as emoções nunca eram realmente expressadas a não ser o descontentamento por não se identificar com nenhum dos patinadores daquela competição. No fundo o canadense achava que todos os asiáticos eram como aquele coreano, mas então teve um vislumbre do Chulanont e viu que sua visão era estereotipada demais (assim como a visão que as pessoas tinham de si, sem acreditar que ele nasceu em um país tão airoso).
Então finalmente o conheceu: Seung Gil Lee, o competidor da Coréia do Sul, aquele que chamou a atenção de muitos com seu mambo no programa curto, e certamente atrairia mais atenção por seu charme no programa livre.
De início não foram com a cara um do outro: Jean era uma explosão de raios solares e Seung Gil era o reflexo da luz da lua, eram opostos que não tinham nem assunto para começar uma conversa. Entretanto, no último dia de competição, quando Leroy conseguiu se classificar em primeiro lugar e voltou para o hotel após longas entrevistas tanto oficiais como com suas fãs, acabou por esbarrar com o coreano no elevador.
Esperou uma reação irritada, como observou o outro ter com a maior parte das pessoas. Ao contrário, o rapaz apenas entrou em silêncio, como uma planta que se enrosca na outra e depois se retrai, pedindo desculpas internamente enquanto na parte externa finge não estar perturbada.
— Ei, Lee. – O canadense chamou, de novo esperando alguma feição incomodada. Sua surpresa foi encontrar as bordas avermelhadas em torno daquelas pálpebras pequenas, os lábios ainda vibrando, expondo que o tempo que passou sozinho não foi suficiente para colocar para fora todo o desapontamento de não ter sido classificado para a final.
Jean podia não aparentar, mas ele conseguia ser empático nos momentos que precisasse, e aquele era um momento importante. O que significava que ele estava se preocupando um pouco acima do normal com aquele homem um ano mais velho ostentando uma pose rígida ao mesmo tempo que seu interior estava desabando.
— Quer um abraço que não seja do Katsuki? – Perguntou, seu típico sorriso aparecendo no rosto ligeiramente moreno de sol. Com somente um passo, estava perto o bastante para esticar os braços e envolver aquele corpo esguio em um abraço que poderia espantar todos os maus pensamentos (ou ao menos era o que as pessoas que ele havia abraçado disseram).
— Que? – O espanto era evidente no rosto pálido do outro, o mar que inundava seus olhos temporariamente esquecido enquanto seu cérebro decodificava a pergunta. Cedo demais a razão voltou a reinar por sua face, o vermelho podia ser quase esquecido devido à expressão indignada que se formou ali. – O que está dizendo, JJ?
— Se você precisa de um ombro para chorar, estou no 603. – Ignorando o veneno que Seung Gil havia colocado na ponta da língua ao dizer seu apelido, Leroy manteve sua postura piscando para o outro e então saindo quando o elevador chegou no seu andar. Sem encarar qualquer emoção que o coreano estivesse exibindo ainda dentro daquele cubículo, seguiu direto para seu quarto e se jogou na cama retirando os sapatos com os próprios pés e checando o celular para ver onde seus técnicos haviam ido.
“Descanse bem, JJ, estamos orgulhosos de você ^^
Vamos ficar um tempo a mais no bar para comemorar!”
A mensagem dizia, mas antes de ler o ponto de exclamação o patinador representante do Canadá já havia coberto os olhos com o braço e afundado naquele colchão macio. Ele devia ter cochilado com as mesmas roupas, já que acordou com a campainha do quarto apitando e um vento frio que chegava da janela, fazendo seus cabelos se arrepiarem no topo da cabeça.
Jean deixou a pessoa esperando por mais uns trinta segundos enquanto jogava suas roupas esportivas de qualquer jeito dentro da mala e colocava um moletom em tempo recorde. Murmurando que já estava indo, quase pulou para trás quando finalmente abriu a porta e deu de cara com a mesma pessoa com quem havia trombado no elevador horas antes.
— B-Boa noite? – Ele gaguejou, observando o coreano erguer as sobrancelhas com o cumprimento de certo modo desnecessário. – Não achei que viria mesmo. – O canadense deu um passo para trás para deixar o outro entrar no recinto, notando segundos depois que ele segurava uma sacola na mão que não estava enterrada no bolso do cardigã.
— Eu tinha que ser educado e dar um parabéns adequado. – Seung Gil retrucou, parando no meio do quarto e se virando para o outro. – Já jantou, JJ? – Diferentemente de outrora, o apelido vinha mais como um nome que uma ofensa.
— Pode chamar de Jean, e acabei de acordar.
— Então vamos comer. – Se Leroy não achasse que seus olhos estavam lhe pregando peças, pensaria que viu a sombra de um sorriso cruzar os lábios do coreano.
Sem saber ao certo como chegaram àquele ponto, já haviam juntado as camas, guardado as sacolas de comida na lixeira e sentados em meio a um ninho de cobertores que os protegia do frio que insistia em invadir o quarto mesmo com a janela trancada.
— Então, Seung Gil. – O mais novo chamou após um longo bocejo. A refeição estava deliciosa, mas ele já havia dormido antes, e com uma visita tão intrigante não havia motivos para seu corpo ficar tão relaxado de repente. – Por que decidiu vir?
— Eu disse que precisava dar um parabéns apropriado, não?
— Na verdade não precisava. – Aquela desculpa era bem esfarrapada, e por mais que o canadense pudesse dar corda a ela, preferiu insistir um pouco e conhecer uma outra faceta daquela flor congelada. – Se precisar estou aqui caso queira desabafar—
— Você deve ser achar bastante, não? – Os olhos cinzentos se abriram de surpresa, ele não esperava que aquela expressão irritada voltasse de um jeito tão súbito. – Não pense que sou tão fraco a ponto de ficar irreparável após uma derrota, ainda terão muitas competições para participar.
Leroy assentiu, não parecia sábio falar qualquer coisa naquele momento. Ele nunca havia pensado que ouviria tantas palavras saindo daquela boca fina que normalmente se fechava quando estavam nos bastidores. Até mesmo nas entrevistas e coletivas de imprensa o coreano era reservado, uma velha árvore preservando suas raízes de se misturarem com plantas distintas.
— Mesmo assim, parece que todo o meu esforço não é suficiente. Eu calculo cada erro, eu imagino todas as situações possíveis e me preparo tanto... para que pessoas que seguem o fluxo aleatoriamente como você fiquem no pódio. – Jean sabia que deveria se ofender, mas o rapaz parecia tão vulnerável, observando as palmas das mãos abertas com os olhos escuros, aquela vermelhidão ameaçando voltar à medida que as palavras escapuliam com ou sem consentimento. – Eu não sei o que fiz de errado, juro que não sei, parece que tudo foi um sonho ruim...
Então, sem mais nem menos, Jean-Jacques Leroy abraçou a flor que almejava tanto conhecer.
Foi como abraçar um caule frágil, mas que possuía pequenos espinhos toda vez que se sentia ameaçado. Naquela hora, apesar dos espinhos tomarem a forma de socos sem força em seus braços ou no abdômen, pedindo que o caule fosse solto, no fundo tudo o que aquele rapaz precisava era de um abraço para que pudesse deslocar todas as suas dores.
Por isso Jean deixou que aquele homem chorasse, que ele mostrasse uma face íntima daquelas para um estranho que – se assim desejasse o Destino – ele não voltaria a ver. Jean deixou que seus braços circundassem aquele torso e deixou seu próprio torso servir de apoio para quem precisasse, deixou que os ombros carregassem um pouco daquelas lágrimas e procurou desligar os ouvidos das frases desconexas que saíam dos lábios trêmulos.
Pode ter passado cinco minutos ou meia hora, uma hora inteira, nenhum dos dois mudou de posição, continuaram ali, enroscados entre os cobertores, travesseiros, braços, pernas e cabelos até que os soluços passaram e as fungadas se desvaneceram em uma sonolência estranha que o coreano não sabia ainda ser capaz de sentir. O conforto era grande, mas sua mente raciocinou logo que aquela posição era deveras embaraçosa tanto para si quanto para o patinador que o cobria.
— Leroy? – Ele chamou, a voz um pouco fraca, mas ainda assim audível devido à proximidade. Assim que ouviu um ruído, continuou. – Pode me soltar agora.
Sua resposta foi um aperto mais forte, que prendeu seus braços ao lado do corpo e provocou uma onda por sua coluna, uma sensação de proteção que fazia tempo que não sentia. Sutilmente, deixou um sorriso se formar em seus lábios, contudo levou as mãos aos antebraços do outro e forçou-os para que o libertassem.
Seung Gil estava a ponto de agradecer quando seus olhos se encontraram com o mar cinzento do outro. Uma infinidade de palavras poderia descrever esse encontro, mas nada realmente teria a profundidade do entendimento que aqueles dois tiveram. Talvez poderia ser chamado de insight, talvez deixar sem um nome certo seja melhor. Um olhar apenas e após segundos desviaram o rosto sem saber como mantê-lo.
Eles se separaram em silêncio, cada um com seus pensamentos, voltaram as camas e os lençóis para onde eles estavam anteriormente e andaram os poucos passos até a porta numa concordância muda de que estava bastante tarde e teriam que ir para o aeroporto no outro dia.
— Acho que isso é uma despedida? – Leroy perguntou escorado no batente da porta.
— Talvez. – Seung Gil respondeu em frente à entrada do apartamento. A expressão em branco de sempre voltou ao seu rosto, mas logo foi arruinada por um sorriso embaraçado, como se não soubesse direito o que fazer com os músculos faciais. – Obrigado.
O canadense quase recuou devido ao choque de finalmente ver um sorriso genuíno. Foram muitas emoções para um dia só: o apoio de todos, a apresentação, a classificação em primeiro para a final do Grand Prix e ainda aquele encontro nem um pouco usual. Se ele fosse comparar, seria quase o choque de um jardineiro ao passear por seu jardim após um longo tempo e ver suas sementes tão crescidas.
Nenhuma delas se assemelharia ao olhar inocente que o coreano exibia ao encarar o rosto do outro, porém, era tão adorável que Jean nem sabia como nunca havia ouvido falar daquele homem antes.
— Disponha, pode salvar meu número se quiser. – Sem se conter, acabou sorrindo junto, e salvou o número no celular dele antes mesmo que o outro pudesse reagir. – Isso significa que somos amigos?
— Somos conhecidos que se conhecem um pouco demais. – Seung Gil disse, agora um rubor mais adorável ainda se espalhava por suas maçãs do rosto.
— Amigos, então.
— Ei, você me ouviu? – Antes que mudasse completamente de expressão, foi envolvido em outro abraço, dessa vez com o rosto do canadense afundando na curva do seu ombro, a diferença de altura aumentando a sensação de encaixe de seus corpos.
— Ouvi. – A respiração de Leroy não devia fazer sua pele se arrepiar, mas isso poderia muito bem ser atribuído ao frio. Estavam na Rússia, afinal, a culpa de tudo poderia ser do clima. – E farei meu melhor para conservar essa relação.
O silêncio parecia a melhor resposta, então tanto Seung Gil quanto Jean-Jacques o aceitaram. Depois de se despedirem com um aceno e o canadense observar as portas do elevador se fecharem, o jovem Lee agarrou seu peito e constatou surpreso que o peso que segurava nos ombros havia sumido completamente. Não pôde evitar deixar que as borboletas revoassem em seu interior, nem mesmo tropeçar na mala ao lado de sua cama sem querer enquanto colocava o pijama, indo deitar ainda inundado pela sensação de que algo havia valido a pena nessa competição mesmo com essa pequena derrota.
Andares abaixo, Leroy adormeceu mais feliz do que havia estado no início daquela tarde, sentindo que seu dia não poderia ter sido melhor. Havia conhecido diversas facetas daquele rapaz que não era feito de flores, mas era uma flor por completo, e nada seria mais prazeroso que desvendar todas as cores que ela seria capaz de florescer.
Notas finais
Espero que tenha sido do seu agrado, até ♥
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