Sobre eu, você e nossas coisas
2 Capítulo 2
Eu não sei explicar ao certo o que estava acontecendo com o passar do tempo, mas sei de uma coisa: não conseguia me encaixar em grupo nenhum. No fundo eu sabia que não havia erro algum em não fazer parte de um grupo de colegas de sala. Juro que entendia. Mas doía um pouco pro meu jeitinho ingênuo que sempre teve gente por perto entender que eu não era assim tão ajustável.
Eu passei pelo grupo dos desconhecidos que tinham acabado de entrar na escola, depois andei com os únicos que ninguém queria por perto: os arruaceiros. Entre eles, tinha um garoto que eu não sabia como me relacionar. O nome dele era Márcio. Eu juro que ele era simplesmente o cúmulo do insuportável, segurava minhas pernas, me virava de cabeça pra baixo e simplesmente saía andando como se eu fosse um saco de arroz sendo carregado. Me enchia a paciência a tarde inteira tirando os meus óculos do rosto e saindo correndo com eles... Eu não suportava isso! Mas ao mesmo tempo, ele era muito sozinho ali, simplesmente por não ser lá uma pessoa muito agradável. Acho que no fundo eu tinha um pouco de pena e nem percebia.
Certa vez, ele me chamou no aplicativo de mensagens...
Marcio diz: Oie!
Jessie diz: oi Marcio...
Marcio diz: Voce ta bem, garotona?
Jessie diz: uhum e você?
Marcio diz: Sim. Voce sabia que dia 17 é meu aniversário?
Jessie diz: hum, legal, você ja quer uma felicitação?
Marcio diz: Queria saber qual vai ser seu presente...
Jessie diz: nenhum, eu te conheci mês passado, Marcio...
Marcio diz: Bem que podia ser um beijo, fala aí
Jessie diz: estou ficando com um cara, ele chama Rogério e não vai gostar de saber disso.
Marcio diz: Vocês namoram?
Jessie diz: não, mas pretendemos.
Marcio diz: Você não sabe se ele pretende.
Jessie diz: olha Marcio, vou fazer a lição de inglês e você também devia ir fazer. boa noite.
Nossa... Depois disso, eu mal queria saber do Marcio perto de mim e finalmente entendi por que todos na sala tinham "negócinho" com ele. Ele não conseguia ter uma amizade sem dar em cima de ninguém... E depois disso, começou a se vitimizar, era inacreditável. Chegou em mim, com a maior cara de pau, dois dias depois dessas mensagens.
— Bom, eu queria falar com você, Jessie. — disse ele, enquanto arrumava a camiseta que estava desajustada.
— Espero que não seja outra das suas bobagens, já se tornaram cansativas.
Ele se virou pra mim com uma feição de quem não havia gostado nada do modo como eu o tinha respondido.
— Vou me mudar de escola. Sei que você nem deve querer saber o motivo mas vou dizer assim mesmo.
— Marcio... Qual é!
— Deixa eu terminar! Nunca gostei de alguém como estou gostando de você e quero ser sincero, se você está com outro cara e eu não vou poder mais morder suas bochechas...
— Aquilo machuca! — disse o interrompendo.
— Se não posso tentar te conquistar por que você certamente já está com alguém, eu prefiro sair dessa escola e ficar longe de você, caso contrário, eu me conheço e sei que não aguentaria, te beijaria de surpresa todos os dias até que você cansasse de me rejeitar!
— Isso é ridículo, pode ser facilmente configurado como assédio se você quer saber, principalmente por que eu não estaria permitindo uma situação assim.
Marcio não acreditava no fato de eu não ter me comovido com o seu joguinho sujo.
— Você não se importa que eu vá embora, não é? Você agradeceria como cada um desses otários do 1°A! São todos otários!
— Marcio... Menos, tá legal? Bem menos.
— Queria que você gostasse de mim.
— Queria que você entendesse que não é só por que eu te dei atenção quando cheguei na escola, por que me propus à conhecer você e não só o que todo mundo aqui diz de ti quando cheguei aqui que isso signifique que eu quis em algum momento beijar a sua boca. Sabe... Nem todo mundo ta interessado em beijar no ensino médio e eu sou uma dessas que "não é todo mundo".
Ao ouvir aquilo, ele só pegou sua mochila do chão, arrumou o boné na cabeça e gritou da forma mais ridícula:
— Foda-se!
E saiu. Não soube explicar se senti tristeza por confirmar que ele era exatamente o que todos diziam, um babaca ou se senti alívio por ele finalmente ter largado do meu pé.
Quando o Marcio (finalmente) foi embora, eu me aproximei da Letícia. Todo mundo na sala tinha um costume de chamar ela de Ásia... Ela tinha os olhinhos puxados e um jeito que lembrava uma pessoa oriental, mas não era nem sequer descendente. Eu gostava muito da Ásia. Ela era engraçada, divertida, gostava de músicas legais. Chegamos a passar uma aula vaga inteira cantando (muito mal) a Money on my mind do Sam Smith. A gente repetiu aquilo mil e uma vezes e não nos cansamos de cantar aquela música. Ela também gostava de ouvir músicas dos anos dois mil, começo da carreira da Beyoncé e essas coisas assim. Eu não minto que nessa época também gostava muito de ouvir e cantar essas músicas e quando estava sozinha, eu as dançava limpando a casa e fingindo ter no cabo da vassoura, um microfone. Quem nunca?
Mas a história com a Ásia (ou o começo dela) foi meio estranho. Ela tinha uma melhor amiga que eu nem lembro mais do nome. Uma garota bem loira, de olhos azuis, muitas pessoas a consideravam perfeita por isso. Eu não era uma dessas... Mas confesso que ela era, é, sei lá, muito bonita. A real é que eu me sentia um estepe para a Ásia... Sua amiga faltava várias vezes na semana e eu me sentia como uma amiga maravilhosa para ela mas quando sua amiga vinha, era simplesmente como se eu não existisse. Não gostava disso... Aos poucos fui me afastando da Ásia, da sua amiga, de outros colegas menos importantes na história. Fiz isso por que me sentia mal e sabia que tinha que estar com pessoas que me fizessem sentir bem.
Em seguida, me aproximei dos garotos do fundo. Todos escutavam funk em volume alto, viam vídeos com conteúdo que, pra eles era engraçado, mas pra mim não havia graça alguma, isso não era algo que atrapalhasse muito a nossa amizade ou sei lá, nosso "coleguismo". Eu era perfeitamente capaz de entendê-los e de conversar com eles tranquilamente, inclusive gostava da companhia deles, mas ainda assim, não tinha como me sentir parte de algo daquela maneira.
Eu fui me afundando nessas possibilidades, morrendo de medo de atrapalhar o grupo ao qual eu realmente queria me ligar. O grupo do canto. Camila, Renata, Bruna M., Alice, Martim e Maria Julia... Eu olhava pra eles e gostava deles e eu nem sequer os conhecia, só sentia que eles eram pessoas muito legais e queria me aproximar, mas sentia um certo frio na barriga. Sabe quando você tenta tantas vezes repetidamente uma coisa e erra, erra, erra... erra... Você simplesmente não vê mais saída, morre de medo de tentar. Eu me sentia assim olhando pra eles. Apesar de desde o início eu querer ter estado próxima, eles eram tão "só eles" que eu me senti uma intrusa sem nem menos me aproximar. Meu Deus. Quando eu lembro que me senti assim, me dá o mesmo frio na barriga. Mal sabia eu que ali estaria o restante do que fez valer o meu ensino médio...
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