Sobre eu, você e nossas coisas
5 Capítulo 5
Notas iniciais
2016
Depois que as férias passaram eu fiquei extasiada de saudades dos meus amigos! Não via a hora de voltar a passar o dia com eles. Bom... As coisas tinham mudado um pouco. O turno agora era o da manhã, o que pra mim era melhor, por que estudar a tarde me dava a sensação de que eu tinha perdido o dia. Os professores também tinham mudado. A gente agora tinha quinze anos e não quatorze e essa diferença mínima fazia a gente se sentir os mais fodões do colégio por exatamente motivo nenhum. E claro, agora éramos o 2°A!
Devo dizer que fui a primeira a chegar, primeiro por que A) eu sou meio ansiosa, B) a escola fica um pouco longe da minha casa, então por consequência, eu quase sempre chego antes e C) eu sou pontual pra caralho. Mas ficamos desapontados por que as mesas da sala do 2°A eram diferentes da do 1°A que estudamos! Calma, não é puro mimimi: as mesas no 1°A eram juntas, ou seja, ao invés das fileiras serem formadas por um aluno por mesa, ficavam três, quatro alunos em cada, justamente por que as mesas eram grandes demais para separar. Nessa época, eu sentava bem lá no fundo, o Martim encostado na parede, a Camila do lado dele e eu do lado do corredor e a gente metia o terror. Que época! Sentimos falta dessas mesas que os professores devidamente odiavam.
Ao chegar, escolhi um lugar estratégico pensando em todos os meus amigos e etc., enquanto o pessoal ia chegando. Chegavam os meninos funkeiros, os arruaceiros, o grupo da Ásia, o grupo da Nayara (agora sem a Nayara por que ela tinha repetido a série pela terceira vez) e os meus amigos, nada de chegar. Eu ja estava apreensiva. Abri o caderno na última folha e fui escrever qualquer coisa até que chegaram todos juntos e arrumados. Famosa arrumação do primeiro dia de aula, "primeira impressão é o que fica". Acho bom ressaltar que tanto nessa época, quanto em 2015, eu era a única com um relacionamento amoroso estável. A Renata tinha uns "peguetes" que moravam longe e ela dava uns amassos de vez em quando, mas sempre eram os amassos e isso era engraçado também por que ela é filha de pastor e chegava em casa cheia de chupão no pescoço, os pais dela ficavam putos da vida. A Bruna M. tinha um "namorado". Essas aspas estão aí por que eles terminavam de mês em mês, às vezes semana em semana, nesse intervalo pegavam outras pessoas, depois voltavam e ninguém gostava do namorado dela por que mesmo quando eles voltavam, ele traía ela, então a gente ficava meio "???" com a situação. Camila ainda era BV e nem sequer ficava pensando muito nisso, apesar de todo mundo botar pilha nela. Maria Julia dizia que era meio "assexuada", que não tinha vontade de sair pegando ninguém, que só queria jogar vôlei e tomar banho de sol (ela dizia "fazer fotossíntese") mas de vez em quando ela dava uns beijos em uns garotos. O Martim era um dilema, por que ele cresceu junto da Renata e sua família, ou seja, as famílias eram amigas. Consequentemente, ele cresceu dentro da igreja como ela, porém ele tinha um jeitinho afeminado que só quem conhece o Martim pra entender, mas ele era muito devoto a Deus e a gente achava impossível ele se "desviar" disso, até entender que o segundo ano do Ensino Médio é o ano de fazer merda.
Como assim o ano de fazer merda? Ah, eu te explico facinho! O primeiro ano é o ano de chegada do Ensino Médio, onde estamos na defensiva, estamos conhecendo a vida de adolescente, estamos entendendo as coisas. O segundo ano é a parte onde nós ja entendemos e aproveitamos para fazer tudo o que dá na telha... Já o "terceirão" é onde você ja fez a maioria das merdas da sua vida no Ensino Médio e você só quer que ele acabe por que ele esgota suas energias, sua paciência e seu sono. Basicamente, no terceiro ano você pensa "caralho, eu to cansado". Geralmente é assim. Enfim, vamos voltar pra história.
Todos nós nos abraçamos por um tempinho, era tão gostosa aquela saudade que a gente sentia sabendo que ia poder matar depois! Todo mundo estava um pouco diferente mas eu estava a mesma coisa de sempre, porque basicamente eu tenho uma cara de criança do caralho. Inclusive, toda vez que eu falo um palavrão alguém pensa "quem educou esse bebê?" e o foda é que eu falo palavrão pra caralho (pode-se perceber por esse parágrafo).
O assunto em pauta entre o nosso grupo de amigos foi: o que você fez nas férias? A Renata cuidou do irmão dela, o Martim não fez nada, a Bruna M. viajou pra uma ilha que tinha cobras em todo lugar e passou dias dormindo mal e sonhando com cobras, a Camila tinha viajado pro Pernambuco e contou das praias e da comida de lá, a Alice tinha voltado com o ex namorado dela mas já estava pensando em terminar de novo, a Maju tinha viajado pro lugar onde ela nasceu, Rio Grande do Sul, precisamente Santa Maria e disse que tinha ficado com um menino, o que deixou todo mundo curioso. Mas quem se tornou pauta ali fui eu, que apesar de não ter feito quase nada nas férias, passei um fim de semana na praia do Guarujá com meu namorado e a família dele.
— Ai, conta pra gente o que rolou!
— A casa era legal, tinha a praia perto e a piscina na casa, tipo a gente podia nadar nos dois, viado!
— Por favor, diz que você transou em algum lugar aí! — a Bruna M. disse.
— Porra, claro que não, eu tecnicamente sou virgem.
— Virgem?
— Virgem de penetração.
— Mas ele não ja colocou o dedo em você, miga? — a Renata soltou uma dessa e pensa em como eu fiquei vermelha e o Martim e a Alice começaram a rir pra cacete.
— Eu sou virgem de pinto na pepeca, de sexo que engravida, desses negócio. Ai, que vergonha!
— Que vergonha o quê, bichinha! — a Alice começou a falar (sempre bom lembrar que a Alice parecia uma adulta, ela perdeu a virgindade com doze anos e ja tinha feito mais sexo que a nossa sala inteira, nunca tinha engravidado, ja tinha tido uns três namorados, ja tinha feito sexo em locais públicos, ja tinha feito sexo anal, ja tinha feito tanta coisa que não dá nem pra listar) — Quem não gosta de um sexo de praia?
Todo mundo riu.
— Alice, ninguém nunca nem transou aqui, cala a boquinha, cala... — disse o Martim, quase infartando de rir.
— Eu já transei... — a Bruna M. disse.
— É o quê?? — todo mundo menos eu, Camila e Renata ficaram surpresos.
— Vocês não sabiam disso? — eu perguntei.
— Não amiga, como assim?
— Eu perdi com treze anos e foi muito ruim. Acho que por isso eu não contei. O cara tinha o pau fino e gozou com cinco minutos de sexo, eu fui pra casa frustrada achando que sexo era péssimo. Até eu transar de novo com outro menino.
— Nossa!!! Que experiente, ela! — disse a Maju.
— E eu aqui, BV com quinze anos. Tudo bem né galera, vou rir aqui mas é de nervoso... — Camila disse.
— Amiga, quando você for perder o BV tem que ser com alguém que você nunca mais veja na vida pra você não se apegar! — Renata falou.
— Qual o problema de se apegar, amore? — perguntei.
— Nenhum, porém vários!
E todo mundo riu. Foi um dia bobo e cheio de saudades loucas. Ainda bem que a gente sabia que tinha muito mais. Toda vez que tinha novidade era aquilo que a gente queria. Puta merda, como meus amigos eram maravilhosos. Na verdade, nunca deixaram de ser.
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