Ellen:

Ouvi o telefone fixo tocar e fiquei furiosa por não estar com ele próximo a mim. Como a base ficava na sala, desci as escadas e ele parou de tocar, Liam havia atendido. Ele falava animosamente com a pessoa do outro lado, corri para pegar o telefone da mão dele numa esperança vazia de ser Alex.

—Alô?!

—Ellen? É sua mãe, aquela velha que você ignora.

—Ah, oi mãe, tudo bem por aí?

—Comigo e com seu pai está. Você mal das notícias de como vocês estão com tudo isso. Não quis que fôssemos aí te ajudar com as crianças. – Como se ela gostasse de me visitar.

—Nós estamos bem... Dentro do possível.

—Alguma novidade da Alex?

—Não. Só o que vocês já sabem.

—Essa policia não faz nada, são uns inúteis.

—Eles fazem o que podem mãe. Ninguém viu ela aquele dia, fizemos tudo. Cartazes, post na internet, grupo de buscas. Não tem o que fazer, apenas esperar.

—Sei.

Respirei fundo.

—E como está o tempo aí?

—Quente. E Joan?

—Está bem.

—Ela nos contou que largou a faculdade. Tal mãe tal filha. Ela agora vai brincar de fazer artesanato também?

—Ok mãe, sempre bom falar com você. Vou passar para Liam.

—A vovó está louca para saber sobre os novos jogos que ganhou de aniversario, conte cada detalhe depois repita tudo para o vovô ok?

—Sim. – Ele sorria e balançava a cabeça ansioso.

Enquanto Liam enchia meus pais de um falatório interminável de videogames subi de volta ao quarto. Havia uma pilha de roupas para serem guardadas. Normalmente eu as colocaria em qualquer lugar, mas eu tinha tempo livre. Reorganizei todas nossas roupas e após por fim naquela bagunça descobri uma caixa um pouco empoeirada no fundo do armário. Puxei e não poderia ter ficado mais surpresa. Eu não mexia nela desde a mudança para essa casa, talvez antes.

Eram papeis de rascunho. Por cima de um deles havia um sol pintado a dedo com uma nuvem feia. Em outro, uma tentativa de desenhar um coração em tinta vermelha e rosa. Todos pintados em cima de rascunhos de desenhos que eu fazia do Carl ou de nós dois. Eu podia ler a data de um deles, foi o primeiro rascunho que fiz de Carl e dei para ele de presente. Houve um tempo que Joan pegava qualquer coisa para usar como tela, isso incluía as telas e papeis já usados que ficavam espalhados pela casa. Totalmente arruinado pensei. Depois refleti melhor, lembrei porquê de ter guardado. Não estava arruinado. Estava renovado. Um amor em cima de outro. Mas não deixava de ser um pouco frustrante.

Joan foi frustrante em vários aspectos. Não por culpa dela, eu não sabia o que esperar da maternidade e inventava coisas. Aliás nem estava nos planos ser mãe. Nem era oficialmente casada quando engravidei dela. Eu não tive irmãos mais novos para treinar, nem primos, nem algo do tipo. Muito menos paciência e habilidade de brincar de bonecas. E de repente eu me vi num quarto de hospital com uma enfermeira me entregando uma bonequinha quente e que não parava de chorar. E eu não sabia porquê, mas eu a amei desde o primeiro instante. Mesmo quando ela me tirava do sério.

Ela devia ter não mais que quatro ou cinco anos e fez um escândalo por uma caixa de giz de cera. Eu comprei. E comprei um pacote de folhas em branco. Organizei tudo em uma mesinha na frente dela e aguardei para ver o que sairia da sua cabeça infantil. Então um a um, ela começou a quebrar distraidamente cada giz de cera enquanto assistia algum desenho irritante. Pensei em jogar uma almofada na cara dela. Então lembrei das surras que eu ganhava dos meus pais e quis ser diferente. Sai da sala enquanto Carl ficava vermelho de tanto rir. Logo depois disso, ela ‘repintou’ meus rascunhos.

Continuei revirando a caixa. Encontrei mais rascunhos, dessa vez intocados. Ele estava deitado na cama dormindo nu. Nessa época eu me preocupava em ser precisa nos traços. Estava bem parecido com ele. Vi a data. Janeiro de 1991. Provavelmente na época que saímos da casa dos pais dele e começamos a ter privacidade. Eu estava apaixonada. Muito mais do que achei que ficaria depois de tanto tempo de namoro.

Carl:

Tinha mandado Liam para o banho fazia quase 40 minutos. Onde ele estava? O encontrei mergulhado na banheira brincando, com os dedos enrugados e os lábios tremendo.

—Essa água está gelada, por que ainda está aí?

—Brincando. – Ele me olhou de uma forma muito parecida com a que fez na primeira vez que o vi. Ele também estava na banheira.

Quando Ellen engravidou pela terceira vez, ela entrou em umas ideias muito modernas sobre parto e criação. Enfiou na cabeça que o bebê novo nasceria na casa nova e que não descobriríamos o sexo até o nascimento. Ellen ficou muito estranha naquela época. E agora de novo. Bom, a possibilidade número um é que ela sempre foi estranha, eu apenas decidi ignorar. Mas o mais provável é que ela esteja chateada com a situação de Joan. O que não faz sentido. Ajudei Liam a se secar e a se preparar para dormir.

—Por que está fazendo isso?

—Te colocando para dormir?

—Sim.

—Acha ruim?

—Eu gosto.

—Aqui entre nós, quem você prefere, eu ou a mamãe te colocando para dormir?

—A Alex. -Me senti como um balão furado. Murchando rapidamente. – Ela volta quando?

—Eu não sei. Mas eu juro que se soubesse te contaria. Ela te colocava na cama de um jeito mais legal?

—Sim. – Ficamos nos olhando, eu esperava que ele falasse mais alguma coisa, o que não aconteceu. E eu não saberia como perguntar algo sobre ela sem parecer forçado. Principalmente a ele, que passava tanto tempo junto com Alex. Mais tempo do que eu.

Quando ele se acomodou na cama eu apaguei a luz e sai, incomodado com as coisas que ele disse. Entrei no quarto e encontrei Ellen sentada na cama lendo. Ela fingiu que não me viu entrar.

—Sobre o que está lendo? – Perguntei enquanto fazia carinho em seu pé.

—Nada de importante. – Ela o puxou.

—Você está estranha Ellen. Não fala comigo direito há dias.

—E você não faz ideia do motivo. – Ela não tirava os olhos do livro.

—Me fale você.

—Se você não sabe ainda, eu que não vou falar.

—É com Joan?

—Não. Não é SÓ com Joan. É com Joan e com VOCÊ. PRINCIPALMENTE com você. – Ela fechou o livro e me lançou um olhar raivoso.

—Por que?

—Eu estou aos pedaços Carl e você me trata desse jeito. Eu não consigo viver um dia sem essa dor dilacerante de não saber onde minha filha está. E o MÍNIMO que eu esperava da minha família é que entendessem minha dor, não simplesmente me jogassem para um lado como se de repente eu não tivesse valor algum. Faz ideia de como eu me senti? Não é claro que você não sabe.

—Me explique como exatamente eu consegui te magoar tanto por ter buscado a Joan.

—Olha o que você fez. Sumiu durante todo aquele sábado, sequer se deu o trabalho de me avisar e quando volta, volta com Joan que largou a faculdade assim do nada e você a deixa voltar sem uma conversa. Como se o nosso dinheiro fosse lixo.

—Ela já tinha decidido, queria que eu a obrigasse a ficar? Igual seus pais fizeram?

—Você poderia ao menos ter a consideração, se não fosse pedir muito, de me avisar que estava com ela e que estava a trazendo de volta. Mas não, pelo visto eu não mereço ser avisada de coisas assim. Eu sou apenas sua esposa, mãe dos seus filhos, que paga metade da faculdade. Para que se dar o trabalho não é mesmo? Eu estou triste Carl, não cega, muito menos louca. Comece a me tratar como tal.

Alex:

Cheguei em casa. Eu estava pingando e ofegante. Eu sentia que andar era como em câmera lenta. Fui em direção a sala. Meu pai sorriu. Depois vi minha mãe que vinha em minha direção com os braços abertos. Avistei Liam, sorri. Porém ele abraçava as pernas chorando como se estivesse muito magoado. Tentei me aproximar dele, mas parecia que eu estava presa ao chão. Joan gritava: “ela está morta!” e senti como se o chão sumisse e então eu comecei a flutuar. “cai” acordada e ainda amarrada. Uma terrível coceira na cabeça. Não conseguia coçar com aquele couro/tecido, seja lá o que for cobrindo ela. Talvez eu tenha chorado um pouco de frustração. Ótimo. Mais desidratação. Eu gostaria de saber a quanto tempo eu estava aqui. Era pedir muito? Porque eu não tinha quase nada. Na verdade, eu sentia que queriam me matar aos poucos. Porque não consigo ser precisa em dizer se eu ganho um copo de água por dia, a cada 12 horas, ou a cada 20 minutos. Eu sei que parece absurdo, mas eu realmente tenho me sentido deslocada nesse quesito. Eu me sentia como naquelas histórias que o personagem tem que entrar em um lugar mágico que distorce o tempo. Onde 15 min na verdade significavam dias e assim por diante mas que ninguém ligava porque o lugar era divertido, ou emocionante. porém eu não estava em um lugar mágico. Eu sentia um profundo tédio e ao contrário dos personagens das histórias, o que eu mais queria era sair daqui.

Antes eu contava. Contava até cansar e aí continuava contando. Meu máximo foi 13.876 desde que recebi água. Se considerar que eu contei um número por segundo, isso significa que contei durante... muito tempo. Já havia torrado neurônios demais contando. Não ia gastar energia fazendo divisões. E durante todo esse tempo eu fiquei sozinha. Bom, isso eu julgo, porquê ninguém interagiu comigo durante a contagem. Eu insisti em contar mais algumas vezes para manter uma espécie de controle, mas achei que poderia ser mais vantajoso dormir e tentar esquecer do que ter dados cruéis e descobrir, por exemplo, que eu estava aguentando até 2 dias sem comer e sem beber. Era melhor dar o benefício da dúvida ao meu corpo.