Sobre cores e horas
3 Capitulo 3
Carl:
Encontraram uma sacola suspeita na estrada que sai da cidade. Lá dentro estavam as roupas da Alex. Eu tinha certeza que eram dela por que lembro de vê-la usando pela manhã e porquê eu havia comprado junto com ela no dia que Alex e Liam me arrastaram até a loja de esportes na tentativa de me tirar do sedentarismo.
—Como você vai correr se nem tênis para isso você tem?
—Você realmente acredita que é por isso que eu não me exercito? Eu trabalho muito.
—A gente sabe que você tem preguiça papai. -Liam falou enquanto olhava as opções de calçados.
—Por que estou sozinho aqui? Por que não arrastaram sua mãe também?
—Por que ela não está com pressão alta e com um abdome saliente.
—É meu charme. Sua mãe gosta.
—Vai gostar mais ainda se você ficar saradão. – Liam apontava para os homens sem camisa com músculos definidos nos pôsteres.
Após ouvir muito papo de vendedor sobre os melhores tênis de corrida do mercado, levei o mais barato para tristeza do rapaz.
—O que acha desse? Qual cor fica melhor? -Perguntei a ela.
—Está bom pra começar. Pegue o preto. Vou levar essas camisetas.
—Escolhi duas para você. – Disse Liam. – E duas para mim.
—Não viemos exclusivamente pelo tênis?
—Mas é sempre bom dar uma olhada nas novidades.
—Me deixe ver. Por que são tão caras?
—São especiais para corrida, tem proteção solar UVA e...
—Tá bom, vamos levar e aí vocês param de me atordoar com esse assunto.
Naquela manhã os dois estavam usando as roupas. Mas Liam já havia derramado achocolatado nela. Fiquei me perguntando por que aceitei comprar uma roupa desse tipo para ele sujar com chocolate e areia do parquinho. Mas agora eu só penso o motivo dela ter se livrado das roupas, todas elas, inclusive a roupa intima. Fiquei transtornado. Eles disseram que pode ser um sinal que ela está por perto. Por que então não ligaram pedindo um resgate? O que estão esperando?
Ellen:
Após tanto tempo de espera, aquela não era o tipo de notícia que eu estava buscando ouvir. Depois de saber fiquei achando que teria sido melhor não saber. Eu só queria ficar na cama e dormir por alguns dias, semanas, meses, ou até a volta dela. Meus planos foram interrompidos quando fui obrigada a me levantar pelo barulho incessante da campainha.
—Tony? O que faz aqui?
Tony era meu assistente. Diferente de mim, era formado em artes plásticas. Me procurou para um estágio e não demorou muito para que o contratasse.
—Não atende minhas ligações, eu fui obrigado a vir até aqui.
—Não ouvi nenhuma ligação. Entre.
—Preciso saber o que vamos fazer com a loja. Está cheia de encomendas. Algumas em atraso.
—Eu nem lembrava disso. Desculpe.
—Eu nem posso imaginar o que você está passando. Tem alguma novidade?
—Não quero falar sobre isso por favor.
—Certo... – Ao menos tem conseguido trabalhar em algo?
—Na verdade não. Nem entrei no estúdio. Quer ver onde parei?
—Sim por favor.
—Parecem prontas para mim.
—Falta alguns passar o verniz nessas e colar as peças nessas ali do canto.
—Mas elas estão praticamente prontas. Por que não me chamou? Eu teria vindo.
—Eu sei, mas esqueci delas completamente.
—É que elas estão atrasadas. O cliente pediu até um desconto por causa disso.
Suspirei.
— De a ele o desconto que ele quiser.
—Mas quando serão entregues?
—Você quer terminar?
—Tem certeza? – Seus olhos brilharam.
—Seria um alivio.
—Tem alguma recomendação? Algum modo correto de fazer?
Pensei por um instante. Normalmente eu ficaria para supervisionar, ter certeza que sairia exatamente como eu havia planejado, inclusive o modo de finalização. Mas eu não tinha vontade sequer de estar ali.
—Não. Faça da maneira que achar melhor. Pode finalizar todas. Se precisar de mim estarei na cozinha. Quer beber algo?
—Não, obrigada.
Deixar Tony trabalhando com as obras foi um imenso alívio. Pelo menos um problema resolvido. Encontrei Liam sentado na mesa da cozinha com um prato gigante de cereais. Os cabelos em pé, de pijama e vestindo uma meia de cada pé balançante. Havia leite e alguns pedaços de sucrilhos pela bancada.
—O que faz de pijama até essa hora?
—Acordei agora. Você também está de pijama.
Ele estava certo. E eu também deveria estar com os cabelos bagunçados. Talvez em pior estado que ele.
—Está quase na hora do almoço. Não deveria se entupir de cereais. Não vai ter fome. Onde está Joan?
—Esse é meu almoço. Ela saiu.
—Você está em fase de crescimento, precisa comer alguma coisa decente.
—Mas não tem mais nada para comer.
—Como não? Carl foi ao mercado esses dias...
Ao abrir a geladeira, para minha surpresa ela estava praticamente vazia.
—Papai foi ao mercado duas semanas atrás.
Abri os armários e não havia muito mais coisa do que na geladeira, exceto enlatados que só Carl gostava. Tentei lembrar o que eu havia comido todas essas semanas. Nenhuma comida em particular me vinha a mente.
—Termine de comer e se arrume, vamos as compras.
—Posso escrever a lista?
—Não precisamos de lista se não tem nada.
Fiquei enojada ao perceber que não tomava banho há alguns dias e que o pijama que eu vestia estava deplorável e foi desse jeito que recebi Tony. Logo ele que sempre me vê impecável. Onde anda minha cabeça? E onde está Carl que não me alertou sobre esse tipo de coisa? Após o banho busquei alguma roupa confortável e enquanto me vestia percebi que faltavam muitas peças.
—Está pronta mamãe?
Liam também não estava com mais sorte que eu no seu guarda roupa. Estava vestindo uma camiseta visivelmente pequena e puída, e uma bermuda com um bolso descosturado e manchado de alguma coisa. E continuava despenteado. Ao menos os tênis foram amarrados corretamente.
—Não tem nada melhor para vestir?
—Não...
Ao entrar na lavanderia tomo um susto com a quantidade absurda de roupas sujas no cesto e fora dele. Por que ninguém simplesmente colocou as roupas para lavar? Dei uma breve olhada um pouco mais atenta a casa, estava imunda.
—Por que as moças da limpeza não vieram essa semana e nem semana passada?
—Você gritou com elas, mandou elas embora.
—Ah sim. – Ele tinha razão, elas queriam limpar o quarto de Alex. Olhei de novo para Liam e suas roupas. Respirei fundo.
—Paciência, vamos do jeito que dá. Mas antes vou colocar um pouco dessa roupa para lavar. E passar uma escova em você.
—Eu ajudo.
—Você já fez isso alguma vez?
—Não. Mas eu gosto de ajudar.
Chamei uma equipe de limpeza depois de explicar minha situação. Limparam tudo, exceto o quarto dela. Ter um pouco de ordem na casa e com as obras entregues me trouxe uma suave sensação de estabilidade e paz. Isso me estimulou a entrar naquele quarto depois de quase 3 semanas. Segurei a maçaneta por alguns segundos antes de ter coragem de abrir. Estava mais bagunçado depois da visita da polícia. Não encontraram nada. Talvez não houvesse nada para encontrar. Talvez ela só tenha tido algum surto adolescente no meio da corrida e resolveu sair por aí. Acontece mais do que se imagina eles disseram. Alimentei essa esperança por algumas semanas. Ela se despedindo. Saindo pela porta. Dobrando a esquina e correndo por aí até o carro de um cara e aí pegar a estrada. Sem carteira. Sem documento. Sem mochila. Agora sabemos que até mesmo sem as roupas. Talvez ela já tivesse arranjado tudo, e feito documentos falsos. Olhei ao redor lentamente, buscando absorver qualquer vestígio dela. Não sei por que eu tentava me convencer de uma coisa tão estúpida como aquilo. Ela deixou TUDO para trás. Não existia a menor possibilidade de ela ter ido por conta própria. Chega de tentar me convencer do contrário.
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