Sobre amor, tartarugas e novas chances
31 Capítulo XXXI
Notas iniciais
'Você fez o quê?' Maura colocou as mãos na cintura e o tom de voz a uma oitava acima entregava a indignação e reprovação da ação da morena.
'Eu fui ver Paddy.' A morena suspirou e apoiou as mãos na bancada da cozinha. 'Maura, me deixa explicar.' Ela levantou uma mão como se pedisse calma, mas a loira balançou a cabeça irritada. Ela sabia que essa seria a reação. Maura sempre entrava em conflito com seus sentimentos quando Paddy interferia na vida dela de alguma forma. 'Eu fui ver ele porque não me restava nada mais a fazer.'
A voz de derrota chamou a atenção da loira e ela dobrou os braços na frente do corpo e com olhos atentos estudou Jane. 'O que você quer dizer?'
'Você tinha razão.' Ela pesou as palavras antes de dizê-las. 'Sobre o ataque, eu quero dizer. E se mandassem alguém de novo? E se tentassem mais uma vez?' Jane balançou a cabeça em negativo. 'Nós não temos nada do assassinato da mãe de Harriet, Maura. E você sabe porquê? A máfia atrás disso é tão boa como nós somos no nosso trabalho. Você sabe que levamos anos para prender Paddy, e foi praticamente uma questão de sorte.'
'Então você estava escondendo algo.' Maura afirmou. Não tinha sido necessariamente uma acusação, mas o tom magoado acertou em cheio o coração de Jane.
'Não é como... Eu queria te contar. Maura, escuta.' Ela andou até a loira e segurou as mãos. 'Você lembra que me disse de que como aquele homem era familiar para você?'
A loira ergueu os olhos e balançou a cabeça em sim.
'Ele estava no mercado. Da vez que sua mãe esteve aqui, logo depois que Harriet tinha sido levada. Ele falou comigo Maura. Ele provavelmente viu todas nós lá, e obviamente tava espreitando, esperando a oportunidade para sequestrar ela de nós.'
A loira arregalou os olhos e soltou as mãos da morena. 'Desde quando você sabe disso? E por que não me contou antes?'
'Não vem ao caso.'
'Vem, vem sim.' Ela rebatou. 'O que mais você sabe que eu não sei?'
Jane sabia que ela estava ficando mais brava, e felizmente não havia mais nada além disso. 'Isso é tudo, eu juro. Isso e a visita ao Paddy.'
'Eu não me importo quando você visita ele por questões de trabalho, mas eu realmente gostaria de saber quando isso acontece porque está relacionado a mim.' Ela disse secamente.
'Você teria tentado me impedir.' Jane murmurou.
'É claro que eu teria, Jane. Eu não quero ele na minha vida, não quero nada que venha dele.'
Jane fechou os olhos. A teimosia e resistência de Maura em relação ao laço afetivo que ela tinha com Paddy — ainda que a loira negasse completamente — desconsertava a detetive. 'Ele vai nos manter salvas, Maura. Eu não quero você e Harriet correndo riscos. Eu não quero essa sensação de que algo ruim pode nos acontecer. Ele pode resolver isso, e ele vai.' Ela colocou as mãos nos bolsos da calça.
'Eu não quero a proteção dele. Nós estamos bem sem ela até agora.'
'Até agora! Maura você não entende? Nós prendemos um, ele foi morto. Outro veio atrás de vocês!'
'Jane, você sabe como ele lida com isso. Ele provavelmente vai mandar matar alguém!' Ela disse clinicamente.
'Que grande perda para o mundo. Um sequestrador de crianças.' E foi tão frio quanto pôde. A loira ergueu os olhos para ela, a expressão de incredulidade no rosto. 'Se ele fizer isso, eu espero que a mensagem seja bem clara. Espero que eles entendam que ninguém deve mexer com você, com Harriet. Eu prefiro ter vocês a salvo. Eu definitivamente não vou lamentar por alguém que teria traficado uma criança e abusado de você.'
Maura encostou na geladeira, o vidro da porta gelando suas costas. Ou talvez fosse só o tom da voz de Jane. Sombria, carregada de verdades que não deveriam ser ditas em voz altas tão repugnantes poderiam ser.
'Eu sei que você não aprova. E você sabe que eu não aprovo o que ele faz, Maura. Mas acredite, eu não faria isso se achasse que isso é mais um assassinato corriqueiro. Tudo indica o oposto. É algo que eu... eu não posso enfrentar, Maura. Uma máfia inteira? Não, não eu. Só uma pessoa da mesma posição de poder pode resolver isso. E você deveria estar aliviada porque ele se dispôs a ajudar. Você é filha dele, e ele sempre manteve um olho em você.'
'Eu não quero carregar isso. Não quero carregar essa... herança dele.' Ela cruzou os braços na frente do corpo em proteção. A voz vacilou diante da confissão.
Jane entendia. Maura se sentiria envolvida como própria parte da máfia do pai, uma herança que ela carregaria escolhesse ou não. A morena caminhou até ela e segurou sua cintura. 'Maur, nós não podemos escolher de quem viemos, onde viemos. Mas você e ele são completamente diferentes. Aceitar ajuda dele não significa que você aprova as ações e meios, nem que você faz parte disso. Não é você que está atacando alguém, Maur. Alguém está tentando machucar você. Tudo bem se defender.' Ela apertou a cintura da loira levemente e, sem levantar os olhos, a mulher jogou a cabeça para o lado, em pensamento.
'Mamãe?' A voz de Harriet veio atrás de Jane e ela se virou sorrindo.
'Ei, tartaruga.' Jane esticou os braços para ela e a menina andou para frente.
'Fome!' Ela bateu a pequena mão na barriga.
'Certo. Vamos encher você de rúcula!' Ela disse enquanto erguia a menina nos braços.
'Nãaaoo!' Ela protestou, rindo.
'Tartarugas comem rúculas, não comem?' Jane perguntou inocentemente.
'Não! Elas comem cookies!' Ela disse alegremente.
'Que tipo de tartaruga come isso?' Jane franziu o cenho.
'As raras.' E a resposta foi tão rápida quanto o piscar dos olhos azuis.
A morena riu e beijou a bochecha da menina, depois se virou para Maura. A médica tinha um leve sorriso no rosto enquanto assistia as duas. Jane se aproximou dela novamente e lançou um olhar significativo, depois depositou um beijo em sua bochecha. 'Foi para preservar o que me importa mais.'
...
'Esse chá não vai se tomar sozinho.' Jane disse enquanto se sentava no sofá, logo depois de ter colocado Harriet para dormir. Por longos minutos ela observara a loira de longe, mexendo pensativamente a caneca nas mãos. A princípio a morena julgou que a ação era apenas para esfriar o líquido, mas depois de cinco minutos ela desconfiava que não havia sequer mais calor ali dentro.
A loira olhou para ela e abaixou os olhos para o conteúdo dentro da caneca. De fato, ela não beberia aquilo. Ela tão pouco respondeu a observação de Jane. Ela estava... Irritada? Não, não era isso. A não-anunciada ida da mulher até a prisão tinha revirado seu estômago — seus sentidos. Se ela soubesse o que a detetive estava prestes a fazer antes de sair de casa, ela teria tentado a todo custo impedi-la. Ela odiava a idéia de depender de alguma forma de Paddy, de dever alguma coisa ao seu pai biológico. O pai que a tirara de sua mãe no dia em que nascera; aquele que a fez acreditar durante toda a vida de que ela tinha sido abandonada, não querida. Ela odiava Paddy. Era graças à ele que ela se perguntava quando criança se era parecida com ele, ou com a mãe biológica. Se ela tinha irmãos em outro lugar do mundo — e se eles poderiam ter sido a tão desejada companhia enquanto mais nova. Ele havia destruído Hope, proporcionado o tipo de dor e senso de perda que Maura não desejava a nenhuma mulher — ela mesmo havia passado por isso, e não conseguia imaginar como alguém pudesse cometer esse ato meditado com outra pessoa. Como Paddy podia ter olhado para um bebê, sua própria filha, e ter simplesmente doado-a para alguém? Ele era assim tão frio? Não. E o fato de saber que havia algo de bom nele — ela pôde identificar logo da primeira vez que se encontraram — a desconsertava. A confundia. Aquele era um homem que tirava a vida de outras pessoas. Aquele um que, entretanto, sem seu conhecimento estivera em importantes eventos de sua vida — alguns do quais ela provavelmente não sabia.
'Maura?' Ela ouviu Jane a chamar, mas não registrou o som. Ela suspirou e se inclinou para frente, pousando a caneca delicadamente em cima da mesa, se encostando no sofá novamente em seguida. Toda vez que Paddy aparecia, ela se sentia como agora. Confusa. Em conflito com sentimentos opostos, alguns ambíguos. Por que Paddy tinha que parecer tão calmo e pacífico quando se tratava dela? Por que ele tinha que dar a impressão de querer cuidar dela? De saber genuinamente se ela estava bem e de se retrair e respeitá-la quando a loira exigia que ele se afastasse? E todas as vezes ela sempre jogava duro, colocava uma barreira entre os dois. Para a Doutora Maura Isles, não havia piedade para assassinos frios; ela lidava com a morte todos os dias, e não desejava aquilo para ninguém. Para Maura, aquela que só Jane conhecia muito bem, havia uma brecha, um sinal que ela classificara como fraqueza e hediondamente incorreto: havia bondade nele, ela sabia, apenas relutava em reconhecer.
'Maura, você sabe que em algum ponto você vai ter que conversar comigo. Mesmo que seja para gritar.' Jane interpretou o silêncio da loira como irritação e se preparou para a briga que ela previa acontecer.
Finalmente, tirada de seus pensamentos pela insistência da morena, Maura a encarou com olhos bem abertos, como se tivesse ouvido o maior absurdo. 'O que? Eu não grito com as pessoas.' Ela se defendeu.
É claro que não, ela era educada demais para isso. Jane levantou as mãos em sinal de paz e depois as depositou em seu colo. 'No que você está pensando, Maur?'
Ela suspirou e entrelaçou os dedos. 'O que... O que vocês conversaram?'
Não era nenhuma surpresa para Jane que a loira fosse perguntar por isso novamente, afinal de contas elas não tinham encerrado a conversa mais cedo. 'Eu contei para ele sobre Harriet. Sobre a mãe dela ter sido friamente assassinada.'
A loira ergueu as sobrancelhas como um sinal para Jane continuar.
'Ele não pareceu interessado a princípio...' Ela encolheu os ombros. Pensando agora, fazia sentido. Ele não tinha nada a ver com aquilo, a criança era uma completa estranha para ele. 'Então eu disse que ela é nossa. Que nós a adotamos.' Ela fez uma pausa para esperar a reação de Maura, esperando ser repreendida. A loira apenas estreitou os olhos e franziu o cenho. Ela estava curiosa, Jane sabia.
'E só isso o convenceu?' Ela rebateu, parecendo incrédula.
'Não... Não foi bem assim.' A morena suspirou e passou a mão pelo cabelo. 'Ele pareceu surpreso ao ouvir isso. Eu não sei, quem é que sabe o que se passa na cabeça dele? Mas pelo menos ele me deu ouvidos.'
'O que mais ele disse?' Ela se remexeu no sofá, agora mais confortável.
'Que eu deveria ter cuidado melhor de você.' Ela disse honestamente, mesmo sabendo que...
'Jane.' A loira rebateu firmemente. 'Ele não tá em posição de dizer isso. E eu espero, honestamente, que você não tenha dado ouvidos à isso.'
'Eu sei, eu sei. E foi exatamente o que eu disse à ele. Que ele não tem idéia...' Ela suspirou enquanto se lembrava da conversa que tivera com o homem. 'Eu meio que perdi o controle e eu posso ter... gritado com ele.' Ela se permitiu um riso quando a loira riu de leve e balançou a cabeça. 'Eu tenho que dizer, ele sabe que botão apertar para tirar as pessoas do sério.'
Maura resistiu a urgência de revirar os olhos. Como se Jane, por ela mesma, não perdesse a calma tão facilmente.
'Onde eu parei? Certo. Na parte que perdi o controle. O que foi bom, eu acho. Na verdade, agora que eu tô pensando aquele filho da...'
'Jane!' Maura censurou antes que ela pudesse xingar.
'Tenho quase certeza de que ele fez de propósito, Maur, para me testar, saber se ainda podia confiar você à mim. Ele se importa com você, Maur.'
A loira se encolheu no sofá diante das palavras de Jane. Esse era o ponto da conversa que ela esperava evitar, simplesmente por não saber lidar com isso ainda. Ela inclinou a cabeça para um lado e considerou o pensamento.
'Você é uma policial, Jane. Como você pôde fazer isso? Aceitar que ele tome controle dessa situação pelos meios dele?' As palavras saíram inseguras e Jane entendeu imediatamente que não era uma acusação. Ela queria entender, porque possivelmente era a via que ela procurava se encontrar para poder viver em paz com aquilo.
Jane colocou uma mão nas costas da mulher e acariciou levemente. 'Querida... A policial em mim acredita em justiça. Nós somos boas pessoas, Maura. Você e eu colocamos os caras ruins atrás das grades. Nós trazemos paz para famílias. Nós fazemos assassinos pagarem pelo crime que cometeram. Nós fazemos justiça. Mas você espera, Maur, que eu realmente acredite que tenho que esperar alguém sequestrar Harriet e vendê-la para alguém que provavelmente abusaria dela, ou que alguém tenha que machucar você para... para só então agir? Para só depois clamar por justiça?'
'Jane, eu acho que...' Mas a morena a cortou.
'Não é justo viver sob medo. Não é justo que eu saia de casa pensando se vou encontrar você bem quando eu voltar. Eu não acredito que justiça só pode ser clamada depois de ter sofrido um ato de agressão tão terrível.' A morena segurou a mão da loira para chamar sua atenção, que agora tinha os olhos fixos no colo, processando as palavras. 'Ele disse, Maura. Ele mesmo disse que outra pessoa viria atrás de nós. Ele mandou um aviso, e eu não ligo a mínima que pode ter sido um blefe. Eu prefiro não correr esse risco.' Ela não precisava esclarecer que por 'ele' ela se referia a Farris.
'Eu não quero ser a filha de um mafioso, Jane.' A loira murmurou, as palavras correram para revelar a fragilidade diante da confissão.
Jane a envolveu nos braços e beijou sua cabeça. 'É como eu disse, Maur. Nós fazemos justiça. Há maldade lá fora, e Paddy só a impede que ela chegue até nós. Nós não estamos machucando ninguém, estamos?' A cabeça da loira se moveu lentamente em seu peito. 'Exato. É o que nós fazemos. No trabalho nós tratamos de trazer paz e justiça. Aqui, em casa, nós nos tratamos com amor e respeito. Nós somos boas pessoas.'
'Nós somos.' A loira concordou.
'E Maura?' Ela esperou até que a médica erguesse a cabeça para ela. 'Ele ama você, eu sei porque...'
'Porque você é uma boa julgadora de caráter?' Ela provocou, mas no fundo era verdade.
Jane riu. 'É. E quer saber? Tudo bem se isso te afeta de alguma forma. Aceitar o que ele sente, e o que você sente... não vai mudar quem você é. Você pode ser qualquer coisa, Maur, menos o reflexo dele. Você é a pessoa que Constance e Richard te criaram para ser.'
A loira curvou os lábios num bico que significava apenas uma coisa: ela estava prestes a chorar. Mas antes que o fizesse, Jane inclinou o corpo e beijou a boca da mulher, num ato repentino que a fez rir. Maura laçou seu pescoço, apenas para garantir que não fosse cair do sofá. Quando a morena se afastou, ela colocou uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha da mulher e acariciou seu rosto. 'Você é esse ser humano perfeito com quem eu me casei. E até onde eu sei, o único crime que você cometeu foi ser tãaao lerda ao ceder aos meus encantos.' Um tapa soou alto no seu braço.
'Acho que você acabou de inverter os papéis aqui.' A médica estreitou os olhos.
Jane estreitou os olhos também, em pensamento. 'Pode ser que seja verdade.' Ela admitiu e depois riu. 'Me deixa eu te levar para cama e te lembrar todos os motivos pelos quais eu amo você?' Ela beijou mais uma vez os lábios da loira e sentiu braços apertando em sua cintura.
'O que aconteceu com 'o sofá é perfeitamente confortável para nós duas'?' Ela provocou a detetive que em várias ocasiões defendia as sonecas (de noite inteira, Maura a lembrava) no sofá.
A detetive pensou por um segundo. 'Certo.' Ela sorriu, e se inclinando deitou parte do seu peso sobre o corpo da loira. Maura poderia precisar de mais tempo para resolver os sentimentos conflitantes em relação à Paddy, mas Jane jamais permitiria que ela se sentisse mal, que duvidasse da pessoa adorável, carinhosa e honesta que ela era. Sim, Jane a lembraria todos os dias, se fosse necessário e se ela pudesse explicar, as razões pelas quais Maura havia virado sinônimo de amor.
...
'Guerra! Guerra! Guerra!' A menina gritou quando a campainha da porta tocou, empolgada com a ideia de receber Frankie e convidá-lo a brincar com ela. Ela havia ganhado um conjunto de armas que atiravam bolas de tênis, e para o desespero de Maura a criança atirava bolas em todas as direções — acertando qualquer objeto que estivesse na frente.
'Nem pensar, tartaruga.' A loira disse quando segura a pequena cintura da menina e a ergueu do chão. 'Eu atendo a porta. Ninguém vai ficar muito feliz ao ser recebido com tiros.' Ela colocou a menina na posição contrária de que estava indo.
'É de mentira, não dói.' A menina replicou enquanto se virava de novo, em poucos segundos estando aos pés da loira.
'Não é educado.' Maura pontuou. Para seu alívio, tão logo ela abriu a porta, revelando uma pessoa que não era Frankie, Harriet pareceu desinteressada e correu para a cozinha novamente, onde Jane estava.
'Maura Rizzoli-Isles?' O carteiro perguntou, segurando uma caixa que Maura tinha certeza de ser sua mais nova aquisição — um par de sapatos.
'Eu mesma.' Ela sorriu educadamente e assinou o papel, e felizmente recebeu a caixa nos braços.
'Isso também é para a senhora.' Ele colocou o envelope branco em cima da caixa.
Senhora. Maura franziu o rosto com a formalidade. Apesar de ser por educação, ela sempre se sentia velha. 'Obrigada.'
O homem sorriu, acenou com a cabeça e se virou. Maura fechou a porta com o pé e se dirigiu até a cozinha. 'Harriet!' Ela repreendeu a menina que tinha acabado de atirar uma bola em Jane, mas que na verdade tinha acertado o pequeno vaso em cima da mesa.
'Sem danos!' A menina se defendeu e correu longe do alcance dela.
'Eu odeio você.' A loira lançou um olhar afiado para Jane. Fora a detetive quem dera o brinquedo para Harriet, claro. 'Ela vai destruir a casa inteira.'
'Tudo bem, nós podemos comprar uma casa na outra costa. O que você acha? Fugir desse inverno rigoroso.' A morena sorriu angelicalmente para ela, e Maura revirou os olhos.
'Por favor, me consulte antes de comprar brinquedos para ela.' Ela depositou a caixa em cima da mesa e pegou o envelope na mão. 'Você tem certeza de que é assim que se faz essa massa? Você poderia ligar para sua mãe, é o que eu acho.' Ela provocou Jane sobre a massa de ravioli que ela estava fazendo, apenas porque queria se vingar do descaso de Jane em relação às suas esculturas e telas que corriam o risco de ser danificadas por causa da arma que ela dera a menina.
A morena fingiu estar ofendida e colocou a mão no peito. 'Maura! Saiba você que essa receita é de família, passada de geração a geração, e eu aprendi a fazê-la aos meus onze anos. Fui o orgulho da minha avó.'
Maura riu com a voz forçada e a mentira da morena. 'Então eu estou enganada de achar que essa é a sua primeira tentativa?' Ela levantou a sobrancelha e segurou o riso.
Jane levantou as dela, abaixou o queixo e continuou mexendo na massa enquanto a encarava. Instantes depois as duas começaram a rir. Maura chacoalhou a cabeça e finalmente abriu o envelope que tinha nas mãos. Lentamente ela puxou o conteúdo para fora. Era uma única folha. Um única foto. Ela cerrou o cenho e estudou a imagem. Era uma foto tirada do dia em que ela, Jane e Harriet haviam saído para almoçar num restaurante italiano, confortável e afastado do centro da cidade. Elas tinham escolhido um lugar perto das janelas, e na foto Harriet segurava o garfo na direção de Jane, e a morena tinha a boca aberta e Maura colocava a mão em baixo do garfo para impedir que o conteúdo caísse na mesa. Tinha sido um momento familiar agradável, leve, e as três estavam visivelmente felizes. Um momento apenas delas. Que havia parado naquele pedaço de papel. Com uma arfada ela soltou a foto. Quem havia mandado aquilo?
'Jane.' Ela chamou com a voz tremida, sem desgrudar os olhos da imagem.
'O que foi?' A morena se aproximou, preocupada. Ela perguntou sem entender porque de um segundo para o outro a mulher tinha passado de contente para assombrada.
A loira apontou o dedo para a foto, lançando um olhar assustado para a detetive. Jane se colocou ao lado dela, ombro no ombro, e estudou a imagem de rosto franzido. Os olhos negros se ergueram para Maura em confusão e medo. Quem havia mandando aquilo? Ela pegou um guardanapo e cuidadosamente virou a foto. No canto inferior direito havia duas letras escritas. P.D.
A mensagem não podia ser mais clara. Com um suspiro de alívio, ela levou a mão nas costas da loira e acariciou. 'Ele manteve a promessa.' Ela disse com a voz controlada. O dedo indicador pousou ao lado das letras e ela olhou para Maura. 'Paddy. Ele mandou uma mensagem para dizer que... Nós estamos sendo cuidadas.'
Maura pegou a foto, dessa vez com mais segurança. Ela leu as iniciais e suspirou. A sensação, agora que sabia de quem aquilo vinha, não era de todo tão ruim. De alguma forma ela se sentiu segura. Incomodada com o fato de que possivelmente, nesse momento, homens de Paddy estavam rondando sua vizinhança, apenas para garantir de que elas estavam salvas. Mas elas estavam seguras, e era isso o que mais importava. O fato de a mensagem ter vindo por uma simples via, uma foto de um momento agradável, carregava valores que ela precisava reconhecer que Paddy tinha. Diferente da outra vez em que o homem enfiara um picador de gelo no peito de um homem, deixando claro que qualquer agressão para com sua família seria combatida com agressão da parte dele, a mensagem dessa vez tinha sido diferente.
A foto emitia serenidade e harmonia, e tomada por um sentimento de ternura Maura correu o polegar por cima do papel. Paddy sabia se expressar bem. Ele tinha mandado aquele recado porque era exatamente o tipo de coisa que queria dizer: que elas vivessem a vida exatamente do jeito que estavam vivendo naquele momento em que a foto fora tirada. Com a companhia uma da outra, a calmaria de um almoço comum no meio da semana, a afeição que claramente conectavam as três. Despreocupadas. Felizes.
A loira deslizou a foto para dentro do envelope e o depositou em cima da mesa de novo. Jane tinha razão. Paddy a amava. O fato de ele ser um mafioso, ou de tê-la tirado de Hope não fazia dele, exatamente, um péssimo pai. Se ela fosse considerar, o afastamento dela e da mãe fora em primeiro lugar para segurança das duas. O homem tinha fotos de toda a sua vida, de momentos que ela nem soube que ele estava lá. Era natural que ele quisesse protegê-la depois de ter nascido, mas ele não tinha que ter acompanhado seu desenvolvimento. Se ele não tivesse se importado, ele simplesmente não teria aquelas fotos.
'Maura?' A voz de Jane penetrou seus pensamentos.
A loira ergueu as sobrancelhas lentamente e olhou para ela.
'Nós estamos bem.' Ela acariciou a bochecha da mulher menor.
'Sim, nós estamos.' A médica sorriu para ela e apertou de leve sua mão. Estava tudo bem. Ela podia sentir a calmaria finalmente se estabelecendo em seu peito, como numa lufada de ar leve e fresco em dia quente, que chega de mansinho e arrepia o corpo todo. Paddy garantiria aquele serenidade.
Jane sorriu para ela e segurou sua cintura, depois se inclinou e lentamente beijou seus lábios. 'Nada mais vai nos perturbar, Maur.' Ela acariciou o rosto da loira com o polegar, sorrindo. A sensação de alívio ao saber de que a loira e Harriet estariam completamente sob vigia dos homens de Paddy encerrava, de uma vez por todas, a fase de desconfianças e aflições. Elas estavam seguras. Elas estavam juntas, vivendo tudo aquilo que tinham aspirado antes. Um casamento, uma criança. Elas estavam tão bem. A morena beijou novamente os lábios da médica, dessa vez mais demorado. Até que algo duro acertou com força sua cabeça.
'Ouch!' Ela se afastou assustada e olhou para trás, escandalizada. Harriet abriu a boca e deu uma gargalhada alta que, Jane desconfiou, poderia ser ouvida do outro quarteirão.
Certo, elas ficaram bem. Contanto que Harriet nunca mais segurasse aquele brinquedo de novo.
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