Sobre amor, tartarugas e novas chances
13 Capítulo XIII
Notas do capítulo: Antes de ler o capítulo, leia isso, por favor. Coloquei aqui o que escrevi no facebook, porque não faz sentido eu escrever a mesma coisa de modo diferente. rs Aí vai, minhas/meus leitoras(es) lindas(os)! Vocês me deixaram sem palavras com os comentários — o que é bem irônico considerando o tanto que eu escrevo rs. Eu nem sei o que dizer, senão um 'obrigada.' É simples, mas fico muito sensibilizada e contente de saber de que isso de alguma forma faz sentido pra vocês. Recebi um review pelo site que me fez tremer as pernas, e alguém — que não sei se posso dizer quem =O — me mandou uma mensagem de voz cho-ran-do. E todos esses comentários no facebook ♥ Eu não tinha idéia de que o que eu considero tão bobo e imperfeito significa tanto pra vocês a ponto de arrancar lágrimas. Toda essa demonstração só me deixa mais determinada a escrever melhor. E espero não decepcionar vocês nos próximos capítulos. Muito obrigada novamente, agora, aproveitem a leitura! Vocês são os melhores!
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8:37
Subindo.
Descendo.
Constantemente, igualmente. Jane estudava o peito da loira subir e descer conforme respirava, numa padrão regular, calmo. Ela tinha a cabeça da médica em seu ombro, o corpo virado parcialmente para o outro lado. Maura iria acordar com uma tremenda dor no pescoço se continuasse deitada daquele jeito. Mas, contraditoriamente, ela parecia confortável demais ali. Jane não queria acordá-la. Então, ela virou-se de lado e lentamente ajeitou a cabeça da loira numa posição mais reta. A proximidade continuava a mesma: corpo colado em corpo, o rosto da loira a mais baixo nível do que o de Jane, mas sua boca ainda tão próxima da testa de Maura que ela não conseguiu evitar o beijo que estava colocando ali agora.
Doce. Maura era doce. Desde seu perfume até em seus gestos. Seu sorriso. O modo como durante o sono pressionava os dedos na barriga de Jane, como se certificando de que a morena estivesse ali. De uma coisa a detetive sabia: se ela saísse do lado de Maura enquanto a loira dormisse, principalmente em dias como esse em que estava tão sensível, não demoraria muito para acordar em seguida, procurando por ela. Então Jane ficaria ali, até que a loira acordasse de seu sono, sem ter a necessidade de perturbá-lo, de sentir sua falta.
Ela encarou a TV — que ficara ligada, já que as duas caíram no sono rapidamente — e franziu as sobrancelhas ao perceber que havia outro documentário passando. Golfinhos. Bom, melhor do que algas marinhas, certamente. Pelo menos eles eram bonitinhos. E viviam no mar. Junto com as tartarugas.
Ela engoliu seco. Esqueça sobre as malditas tartarugas, Jane. Ela soltou um suspiro irritada consigo mesma e sentiu Maura se remexer do seu lado. Ela baixou os olhos para checar a médica. Ainda dormindo. Talvez sonhando. Jane levou o dedo indicador até o nariz da médica para afastar um pequeno pedaço de linha que havia se soltado do cobertor e parado ali. Jane afastou-o de lá e viu a loira franzir o nariz ao contato de seu dedo, numa expressão engraçada e fofa. Jane queria ver de novo. Sorrindo, ela mordeu os lábios e passou levemente a ponta do dedo no nariz de Maura, e de novo a loira encolheu o nariz e apertou levemente os olhos. Jane riu, sem fazer barulho. Era absolutamente fofo. Ela queria beijar Maura agora. Mas como uma criança que descobre algo novo e prazeroso e incansavelmente quer experimentá-lo de novo e de novo, mais uma vez ela deslizou o dedo no nariz da loira. Dessa vez, além do do habitual encolher de nariz e olhos, Maura tentou mexer a cabeça, um gesto que morreu pela metade por conta da preguiça, e em seu sono ela murmurou 'Jane', uma advertência que se não cumprida, lhe causaria problemas mais tarde.
Jane sorriu mostrando os dentes. Doce, adorável. Minha Maura. Ela puxou a mulher para si, colando sua cabeça no seu peito e acariciando a bochecha com outra mão.
'Shhh. Dorme, meu amor.' Ela disse baixinho, esperando que as batidas de seu coração ninassem a mulher de volta ao sono profundo.
...
10:58
Jane tinha finalmente encontrado o controle remoto em cima do encosto do sofá e colocado a TV no mudo — e mudado de canal, é claro. Um jogo de baseball matinha sua atenção fixa ali. Maura dormia profundamente, aninhada em seus braços. Em certa altura, ela mesmo tinha se virado de lado e escondido o rosto no peito de Jane. Um braço estava jogado em cima de sua cintura e ela tinha enroscado os dedos longos e finos no cabelo da morena. Agora a detetive tinha um braço em volta de sua cintura, a mão aberta em suas costas num gesto de proteção e sentia a respiração quente da loira atingindo-lhe a pele. Tinha sido o único movimento de Maura — virar-se de lado e enroscar seu cabelo — desde muitos minutos. Ela permanecia quieta, entregue ao sono, entregue a mulher.
Era tarde, Jane sabia porque acabara de conferir na TV. Maura nunca dormir até tão tarde, o que só podia significar uma coisa: ela estava certa em seu palpite. Maura estava exausta. Entre um aborto, horas de trabalho, problemas com Hope e Doyle, mais trabalho e agora Harriet... Era o suficiente. Ela estava considerando a proposta de Maura. Elas mereciam férias. Há quanto tempo elas não tiravam férias, de qualquer jeito? Dois anos? Cavanaugh não iria negar, de fato, ele ficaria aliviado. Ele não precisava de servidores quase mortos por exaustão, como iriam fazer o trabalho direito se ficassem assim? Elas iriam viajar. Para as montanhas, talvez para California. Maura tinha dito que queria ir para California um tempo atrás.
Ela estudou o corpo da mulher novamente. Nós vamos viajar, Maur. Eu e você. E eu vou te contar isso quando você acordar. Ela sorriu e beijou a cabeça da loira — que nem se mexeu. Graças a Deus ninguém tinha ligado para incomodar. E nem mesmo sua mãe tinha aparecido ali antes de ir ao trabalho — agora que ela pensou nisso, ela sentiu a bochecha arder, sua mãe poderia ter entrado em casa enquanto elas... .Deus. Ela fechou os olhos e dispensou o pensamento. Óbvio que isso não tinha acontecido, sua mãe era barulhenta demais para não ser notada caso tivesse entrado.
Maura se remexeu em seus braços e Jane pensou por um minuto que seus pensamentos barulhentos haviam acordado a mulher, mas diferente do que imaginava, a loira suspirava alegremente em seu sono. Quando se acomodou novamente, Jane acariciou suas costas e assistia enquanto um jogador perdia um arremesso.
'Idiota.' Ela murmurou baixinho.
A campainha tocou.
Merda! Jane espremeu os olhos irritada. Quanta inconveniência. Vá embora. Ela pensou com toda força, o que não resolveu nada. Ela resolveu esperar, rezando que quem quer que fosse desistisse da ideia de encontrar alguém em casa.
A campainha tocou de novo. Maura se remexeu sugestivamente. Não, você não vai acordar sem necessidade.
Jane se desenroscou da mulher lentamente, primeiro colocando seu braço na frente de seu corpo, depois removendo cuidadosamente seu braço e colocando uma almofada em baixo de sua cabeça, e finalmente passando as longas pernas por cima da outra e saindo do sofá. Antes dar a oportunidade para que o apertassem a campainha de novo, ela correu até a porta não se importando com seu estado e abriu-a de uma vez.
Ah, não.
...
'Constance.' Ela disse pega de surpresa. Desde quando a mulher estava na cidade? Maura iria pirar. Toda sua mania de organização e limpeza começava dias antes da chegada da mãe — quando ela sabia da chegada! Era para ser um dia leve e calmo, sem estresse. Meu Deus, Maura iria perder a cabeça. A começar pelo ponto de que ela ainda estava dormindo. Na sala. Depois de fazer amor com Jane. Meu Deus. Maura estava nua? Não, não estava. Espera, o Kimono, Jane tinha exposto seu corpo, ela tinha arrumado isso antes de ir dormir? Tinha. Não tinha? Jane começou a sentir aquela sensação de inquietação dentro de si. Era assim que Maura se sentia? Era assim que parecia ser filha dessa mulher?
'Olá, Jane.' A mãe de Maura sorriu educadamente para ela e ergueu as sobrancelhas de um jeito sugestivo quando estudou a roupa amassada da morena.
'Oi, Constance.' Ela murmurou. 'Eu, ahn... Acabei de acordar.' Ela disse como se devesse uma explicação.
'Isso eu posso ver, detetive Rizzoli.'
Jane revirou os olhos. 'Qual é, eu sou casada com sua filha, quantas vezes preciso dizer para você me chamar de Jane?' E de qualquer forma, agora é Rizzoli-Isles.
Ela balançou a cabeça. 'É só costume, eu imagino.' Ela disse com um sorriso sincero e Jane reconheceu a delicadeza de Maura vinda dessa mulher.
E de repente Jane se lembrou da educação. 'Entra, por favor.' Ela gesticulou e deu passagem para Constance. Antes de adentrarem a casa, Jane fechou a porta e quase sem graça, falou em voz baixa. 'Maura ainda tá dormindo. No sofá.' Ela disse enquanto esfregava as mãos no shorts. Ela estava nervosa. Mais do que de costume, porque havia tanta coisa que Constance ainda não sabia que Jane sentia como se estivesse mentindo para a mulher.
'Oh.' Ela disse e pareceu preocupada, talvez porque Jane parecesse preocupada. 'Eu sinto muito por aparecer aqui tão inesperadamente. Eu não tinha muito o que fazer nessa semana e achei que poderia, você sabe, fazer uma surpresa para Maura.'
'Tenho certeza que ela vai adorar sua estadia aqui, Constance. Anunciada ou não.' Jane ofereceu seu melhor sorriso, porque era verdade. Ela gesticulou com a mão como fazia com os colegas da BPD, um gesto que sua mãe reprovaria — onde estão seus modos, Jane? — e andou até a sala.
Constance a seguiu e observou Maura com afeição. Ela parecia a pequena garotinha que colocara na cama — não muitas vezes — no passado, dormindo confortavelmente ali. Maura havia se tornado, com toda certeza, a mulher que ela esperava que ela se tornasse. Melhor, até. E agora que a filha estava tão distante de si — e não só fisicamente — Constance se arrependia de não ter passado tanto tempo com ela. Era lamentável, mas agora para tentar compensar o tempo perdido, ela organizava sua programação de exposições e aulas da melhor forma possível, de modo que acabasse com alguns dias livres — como esse — para visitar a filha.
'Eu vou acordá-la.' Jane anunciou, tirando a mulher de seus pensamentos.
Ela balançou a cabeça em entendimento.
Jane contornou o sofá e colocou a mão em cima do ombro de Maura, mas quando foi chamá-la algo fechou sua garganta. Era para ser um dia leve. Ela engoliu com dificuldade. E tentou de novo. Tudo o que saiu de sua boca foi ar. Merda. Ela levantou os olhos para Constance, que agora a estava encarando sabendo que havia um problema ali. Ela franziu o cenho e antes de mais nada, Jane retirou a mão do corpo da mulher e se levantou, fazendo sinal com a cabeça para que a mulher mais velha a seguisse.
'Eu tenho algo para te contar.' Ela murmurou enquanto passava por Constance.
As duas andaram até o escritório de Maura, o lugar mais seguro para se conversar sem serem ouvidas, sem acordar a médica.
Jane fechou a porta atrás de si e suspirou. Por onde ela começaria?
'Constance. Ontem não foi um dia bom.' Ela disse olhando para o chão. Quando a mulher não acrescentou nada, Jane sentiu-se obrigada a encará-la. O que ela encontrou foram olhos preocupados. Ela achou melhor continuar. 'Maura e eu... Nós...' Ela limpou a garganta. 'O que você precisa saber, antes de tudo, e por favor não se esqueça disso durante o decorrer do dia, é que Maura tá muito sensível.' Ela coçou a cabeça se sentindo inconfortável.
'O que aconteceu?' A mulher perguntou quase num sussurro, temendo que a situação fosse pior do que ela esperava — seja lá o que fosse que ela tivesse esperando. Tanta coisa passou pela cabeça dela. Alguém tinha ameaçado Maura? Alguém tinha machucado sua filha? Tentado algo contra ela? Ela não tinha visto nenhum machucado, tinha?
'Meu Deus.' Jane esfregou os olhos. Tire o curativo de uma vez, Rizzoli, dói menos. 'É uma longa história, e eu sinto muito por não ter dito antes, mas é que.. Maura teve um aborto alguns meses atrás.' Ela disse de uma vez, numa voz baixa, desejando não ter sido ouvida. Desejando também, que estivesse tendo um pesadelo. Merda, por que Maura decidiu segurar a notícia por tanto tempo enquanto estava grávida? Por que não tinha simplesmente ligado para a mãe e dado a notícia? Agora Jane tava ali, lhe contando a boa e a má notícia de uma vez só: você é avó, opa, não mais. Ridículo. Maura precisava melhorar ainda mais essa relação com a mãe dela, e parar de enfiar Jane em situações assim.
'Perdão?' E não era como se ela não tivesse entendido.
Jane sentiu pena da mulher. 'Eu sinto muito. Não é justo, eu sei. Ela deveria, nós deveríamos ter contado antes.'
'Oh, Deus.' A mulher suspirou decepcionada, triste, levando a mão no coração. 'Eu sinto muito, detet... Jane.'
A morena balançou a cabeça em sim e murmurou um 'obrigada'. Infelizmente a história não acabava por aí.
'Tem mais.' Ela disse depois de se recompor. 'Ontem a noite...' Ela suspirou, a garganta fechando novamente. 'Ontem a noite.' Ela tentou de novo enquanto se lembrava dos olhos azuis de Harriet piscando para ela. Agora a garganta queimava. Ela limpou e... suas mãos estavam tremendo?
'Ontem a noite... Aconteceu de novo?' A mulher deu um passo a frente, o coração pulando dolorosamente no peito, mas Jane a parou com a mão.
'O que? Não. Não.' Ela disse firmemente entendendo a suposição. Maura não tinha sofrido outro... Ela fechou os olhos não terminando a frase. Só a suposição lhe dava náuseas.
'Não.' Ela disse depois de se estabilizar novamente. 'Não foi isso. Nós estamos trabalhando num caso e tinha essa garotinha. Maura a trouxe para casa porque... Ela queria ajudá-la, Constance. E a menina deveria ir embora hoje, e foi levada ontem.'
Constance balançou a cabeça entendendo a situação. Ela cruzou o braço em frente do peito enquanto Jane continuava a falar.
'E ela era... Perfeita, acho que posso dizer. E ela e Maura se conectaram de uma forma que, eu juro por Deus, nunca vi Maura assim com uma criança antes.' Ela soltou um suspiro tremido. Ela estava prestes a chorar, que droga. 'E como você deve imaginar, isso reabriu algumas feridas.' A imagem de Harriet partindo e Maura na noite anterior, chorando, cruzou sua cabeça de novo e ela se sentiu fraca. 'E...' Agora as lágrimas caíram. Ela estava chorando na frente da mãe de Maura. Maravilha, Rizzoli. 'Eu sabia que ela ia embora hoje, e Maura sabia também. E era pra ser hoje e não ontem.' Ela disse com a voz tremida, como uma criança extremamente triste e magoada. 'E você conhece Maura, ela tá sensível e...' Ela balançou a cabeça, tentando se livrar do choro. Foi então que ela se deu conta de que ela não tinha chorado com a partida de Harriet, e que por isso estava chorando agora. Cada coisa em seu tempo.
'Jane.' Constance disse numa voz cuidadosa, entendendo toda a situação. 'Você cuida muito bem da minha filha, eu vejo.'
A morena apenas balançou a cabeça, não confiando na própria voz.
'Você deixa ela tomar conta de você da mesma forma?'
A pergunta surpreendeu Jane. É claro que uma tomava conta da outra, mas era quase obrigação Jane deixar claro para Constance que ela cuidava bem de sua filha, ela nunca considerou que a artista se preocupasse com ela.
'Eu... É claro.'
'Ela sabe que você se sente assim?'
'Constance, nós...' Ela limpou o rosto. 'Eu preciso ser forte por ela hoje, ok? Ela tá muito...'
'Sensível, eu sei. Você disse umas três vezes.' Ela pontuou. E quando Jane notou a mulher estava mais perto dela do que em qualquer outro momento que se encontraram. 'E parece que você está tão sensível quanto ela, querida.'
A mão de Constance em seu rosto a fez arregalar os olhos. Essa afeição da parte da mulher era algo que ela definitivamente nunca esperou, nem imaginou. E por mais estranho que fosse, o gesto tinha acalmado seu coração. Estranhamente, a mão de Constance era mais quente e fofa do que se esperava. E inesperadamente, Jane começou a chorar por conta do toque gentil.
'Eu...' Jane tentou falar alguma coisa, e ela se sentia extremamente frágil e menor do que a mulher em sua frente. Constance tinha uma forte presença. Jane tinha certeza de que ela mesma poderia quebrar um suspeito numa sala de interrogação. Se ela não fosse fina demais para isso.
'Jane, a julgar pelo modo como me recebeu mais cedo, eu diria que não tinha sido uma boa ideia vir sem avisar. Agora, considerando tudo o que você me contou e vendo como você está — porque ainda não tive a oportunidade de falar com Maura — julgo que não poderia ter vindo em hora melhor.'
'Constance...' Jane murmurou em uma voz carregada, agradecida.
A mulher sorriu e piscou os olhos, do mesmo jeito que Maura fazia. 'O que? Você acha que não sei bancar o papel de mãe?' Ela disse brincando, o que arrancou um sorriso dos lábios de Jane. 'Fique sabendo, Detetive', lá estava o título de novo, Jane revirou os olhos, 'que sei muito bem do que minha filha precisa. E posso não saber o que você precisa, mas eu aprendo rápido.' Ela piscou os olhos sinalizando o fim da conversa.
'Obrigada', ela disse firmemente, agradecida. 'Você me deixaria... eu me recompor? Antes de acordá-la?'
'Certamente. Não quero que Maura pense que te fiz chorar.' Ela ergueu as sobrancelhas de forma autoritária, e Jane riu de novo. E quando se deu conta revirou os olhos. O que havia com esse dia? Ela rindo com Constance?
...
Trinta minutos. Foi o tempo que Jane precisou para parar de chorar e parecer novamente aceitável. Nesse meio tempo, ela ofereceu chá para Constance e as duas mulheres trocavam palavras baixas na cozinha, os olhos de Jane nunca abandonando o corpo de Maura no sofá. E então, quando Jane se sentiu finalmente pronta, ela balançou a cabeça para Constance e antes de caminhar até a loira, explicou.
'Não liga se... ela se desesperar um pouco no começo. Você sabe como ela é auto-crítica quando se trata de... você.' Ela disse quase se desculpando. Constance balançou a cabeça em compreensão.
E então lá estava ela de novo, prestes a acordar Maura — que agora dormia com a mão em baixo do rosto.
'Maur?' Ela chamou calmamente, balançando de leve seu ombro. 'Ei, querida.' A loira se moveu mas não disse nada, não abriu os olhos. 'Maur, sua mãe tá aqui.' Jane lambeu os lábios e esperou. A loira murmurou.
'Nada engraçado.' Ela tirou a mão de Jane do ombro dela e se virou de barriga para cima.
'Ahn... Maur? É sério.' Ela disse, quase desesperada. Ela viu um sorriso se formar no rosto da loira.
'Engraçado.' Ela disse, mudando de ideia. Jane se perguntou se ela ainda estava dormindo, ou só debochando dela. Ela olhou para Constance e fez um gesto com a cabeça.
'Maura? Querida?' Constance chamou e Jane viu o terror se instalar no rosto da mulher antes mesmo de abrir os olhos.
'Jane?' Ela perguntou num sussurro, os olhos arregalados. A morena balançou a cabeça em positivo. Maura se sentou na hora, desorientada, sentindo o coração bater rápido demais para quem tinha acabado de se levantar. Isso não era saudável. 'Mãe?' Ela perguntou numa voz mais aguda do que de costume, e assistiu enquanto a mulher caminhava até o meio da sala.
'Olá, querida.'
Maura olhou para Jane.
Jane olhou para Constance.
Constance sorriu e encarou Maura. 'Me desculpe por não anunciar minha visita. Entretanto, Jane me garantiu de que você ficaria feliz.'
'Você sabia que ela vinha?' Maura perguntou acusatoriamente e Jane arregalou os olhos.
A detetive considerou fugir de Maura nesse momento. Ainda bem que a ideia não tinha sido dela. 'Não!' Eu acabei de saber, assim como você.'
'Ah meu Deus.' Ela levou as mãos na cabeça e olhou ao redor. Ela estava dormindo na sala, vestida num kimono que a essa altura não estava nada apresentável. Ela não estava apresentável. Seu rosto, seu cabelo. O que diabos ela estava pensando em dormir ali? E a casa não tinha sido limpa adequadamente em dias! A cozinha. Cheia de desenhos na geladeira, e lápis espalhados no chão.
Maura quis chorar. Ela teria chorado se não estivesse tentando concentrar toda sua atenção na respiração. Tava difícil respirar.
'Maur, ei.' Jane chamou, mas ela balançou a cabeça enquanto franzia o rosto. Ela ia desmaiar, Jane sabia que ela ia desmaiar se não fizesse alguma coisa.
'Maura, querida.' Constance se aproximou e se sentou ao lado dela, segurando-lhe as mãos. Um olhar acolhedor. Ela não tinha ideia de que causava isso em Maura; bem, quando criança, sim, mas ela esperava que isso tivesse sumido depois de Maura se tornar adulta. Em partes, seu coração se partiu — mais uma vez em menos de uma hora. Ela levou a mão na nuca de Maura e segurou, e quase assustada a loira olhou para ela. 'Maura, você pode respirar?' Ela perguntou calmamente enquanto acariciava a nuca da loira.
Maura olhou para Jane, sem compreender a ação — se sentindo mais calma de qualquer forma — e uma vez que a morena ergueu as sobrancelhas e sorriu para ela, a loira voltou o olhar para Constance e balançou a cabeça em sim. 'Melhor.' Ela disse.
'Ótimo. Não há razão para se sentir assim.' Constance disse a apertou sua mão, reafirmando as palavras.
Maura balançou a cabeça. 'Eu sinto muito, mãe. Eu não sabia que você viria. Eu poderia... ter me organizado.' Ela abaixou a cabeça com vergonha. 'Preparado a casa para sua visita, e bem, olha para mim. Isso não são condições de receber um convidado, você me ensinou muito bem.' O sofá poderia engolir seu corpo, ela não se importaria.
'Maura. Eu não sou uma convidada. Você é minha filha, e pouco me importa se você me recebe usando um pijama ou um Valentino.'
Nomes de vestidos, hora de se mandar Rizzoli. Ela se levantou e sumiu de vista.
'Não?' Ela perguntou ingenuamente.
'Não!' Constance disse como se fosse a pergunta mais boba a ser respondida.
Maura piscou os olhos, confusa demais. Isso estava acontecendo? 'Eu...' Olhos verdes procuravam pela mentira, mas Maura nunca a encontrou. 'Mãe, eu...'
'Maura', Constance a cortou, ainda que não fosse de seu feitio, 'talvez eu tenha te cobrado demais. E talvez você se cobre demais por conta disso.' Ela acariciou a nuca de Maura de novo. 'Isso não é necessário, querida.'
E algo dolorido tinha sumido dentro da médica quando ela se deu conta de que a mulher estava sendo sincera. Agora ela se sentia mais confortável, e emocionada ela tentou evitar que as lágrimas chegassem aos seus olhos. 'Obrigada.' Ela disse. Maura tinha tantas coisas que gostaria de dividir com a mulher. Ela se perguntou se esse seria o momento ideal. Quando a mão de Constance abandonou sua nuca, Maura se deu conta de que esse era um gesto de que a mulher fazia quando ela ainda era criança e estava com medo ou triste. Considerando o silêncio que agora pairava entre elas, Maura decidiu que ela deveria oferecer alguma coisa. Mas o que saiu de sua boca foram outras palavras.
'Eu gostaria de te contar algo.'
E notando os olhos marejados da loira, Constance sabia do que se tratava, e estava disposta a receber e lidar com a dor de sua filha.
...
'Aberração.' Jane murmurou para o cágado enquanto colocava morangos à sua disposição. Ela sempre tivera uma implicância com o bicho, mas no fundo ela gostava dele. Insultar o animal, na verdade, tinha se tornado um hábito porque ela adorava irritar Maura. A loira sempre lhe devolvia um tapa, ou um beliscão quando ela o fazia. Da última vez — Jane parou de mexer com o bicho por um tempo — ela havia pintado um smile branco no casco dele. Com esmalte. Maura ficou verdadeiramente brava. Jane se desculpou, mas o olhar de Maura dizia que ela iria pagar muito caro por aquilo. Resultado: uma semana sem sexo, e Maura nem estava naqueles dias. Foi crueldade com ela — com Jane, e não com a tartaruga. Desde então tinha sido insultos apenas por palavras, e sempre longe de Maura — afinal, ela precisa de um tempo até que a médica lhe perdoasse pela provocação anterior. Jane era esperta.
Não querendo incomodar as duas mulheres no andar de baixo, Jane resolveu tomar um banho. Maura precisava de um tempo para conversar com a mãe, para se abrir — o que ela esperava que estivesse fazendo agora — e atualizá-la sobre tudo. Ela suspirou enquanto abriu o chuveiro e torceu para que a loira estivesse mais calma. Era pra ser um dia supostamente calmo. A morena encostou a cabeça na parede se sentindo um tanto quanto cansada e refletiu sobre a atitude de Constance mais cedo, quando estavam a sós. Ela não era tão ruim quanto aparentava. Certamente tinha algo de maternal nela, e era uma pena que Maura conhecesse tão pouco esse lado da mulher.
Concentrada, ela se lavou e enxaguou, num banho que considerou demorado demais. Talvez tivessem se passado trinta minutos, entre a hora que saiu da sala até agora. Talvez fosse suficiente. Talvez as duas já estivessem conversando sobre bolsas e sapatos — credo! — e talvez estivessem até rindo. Quem sabe? Ela se arrumou — uma calça jeans e uma camiseta vermelha de algodão — e enrolou o cabelo na toalha, só para soltar depois, mais seco. Olhando no espelho, ela ergueu as sobrancelhas e deu de ombros. Ela estava aceitável, não parecia ter passado por um turbilhão de emoções. Talvez parecia ter sido atropelada por alguma delas, no máximo. Ela resmungou alguma coisa e deixou o quarto, partindo para sala novamente.
A cena diante dos olhos aqueceu seu coração: Constance estava abraçando Maura de um modo acolhedor, do mesmo jeito que sua mãe a abraçava quando estava realmente chateada, e agora a mulher segurava Maura nos braços durante todo o tempo em que Jane permaneceu em pé, assistindo a cena. Ela não queria atrapalhar, não queria se intrometer. E demorou até que a mulher mais velha soltasse a filha, e as duas limparam os olhos e Constance acariciou a cabeça de Maura e sussurrou algo para ela. A loira sorriu timidamente. E quando Maura olhou para baixo, Jane sabia que ela estava rodando a aliança no dedo — a morena passou o dedo pela sua sem notar — e depois ela viu a esposa acenando a cabeça em sim, e Constance acariciando seu rosto.
Maura sorria. Parecia aliviada. Parecia... renovada. Sua postura tinha melhorado e o rosado das bochechas tinham voltado, e Jane se perguntou se era por causa do que Constance havia sussurrado à ela ou se, simplesmente, porque a mulher tinha conseguido trazer um pouco mais de vida para a filha.
Jane sorriu. Leveza. Era isso o que ela estava esperando pelo dia. Ninguém iria estregá-lo, ela não permitiria. Ela mesma se sentia melhor agora. Ela bom ver algo dando certo, só para variar. Ela estava sorrindo e ficou sem graça quando o olhar de Maura encontrou com o dela. Ela não queria ser pega espiando. Entretanto...
'Jane.' Maura disse, e sorriu ainda mais em sua direção.
'Ei.' Ela sorriu de volta e colocou as mãos no bolso da calça.
Constance sorriu para ela. Ela acenou com a cabeça.
As duas mulheres se levantaram do sofá e Jane viu o momento em que a artista apertou carinhosamente o ombro da filha. Ela se retirou para a cozinha enquanto Maura caminhou para Jane.
'Tudo bem?' A morena perguntou mesmo já sabendo a resposta.
'Tudo bem.' Os olhos de Maura brilharam. Maura depositou um beijo em seus lábios, e ela riu, pega de surpresa.
'Bem, Dr Isles, vejo que você está de bom humor.' Ela segurou a loira pela cintura e puxou-a para si, e antes de beijar-lhe conferiu para ver se Constance não observava as duas — ela se sentia inconfortável beijando Maura na frente da mãe. Quando não viu sinal da mulher, encostou os lábios no de Maura e a beijou carinhosamente. E quando se afastou... 'Maur?'
'Hum?' A loira disse, demorando para abrir os olhos, como se ainda saboreando o beijo.
Jane esperou até que ela a encarasse, e quando seus grandes olhos verdes a questionaram ela abriu um sorriso grande. Maura pareceu intrigada — e a expressão foi tão fofa que Jane queria beijá-la de novo, mas primeiro: 'Lembra daquela viagem, que você falou?'
Maura balançou a cabeça em sim.
'Você escolhe o lugar e a data de partida.'
'Sério?' Os olhos brilharam para ela em expectativa.
'Sério. Só não faça eu me arrepender, por favor.' E Jane riu com o tapa que recebeu da loira. 'Ouch!' Ela exclamou, mas logo se calou quando Maura colou seus lábios no dela de novo, num beijo demorado e cheio de promessas.
'Você não vai.' Ela sussurrou e sorriu maliciosamente, fazendo a barriga de Jane se contorcer.
Ela suspirou. 'Eu... acredito.' Ela confirmou as palavras com a cabeça. Maura riu.
'Eu preciso de um banho.' Ela disse se soltando de Jane.
'Precisa mesmo.' E Jane não previu o soco que lhe atingiu o ombro. 'Maura!' Ela protestou. 'Sem mais aulas de defesa pessoal para você!' Ela disse enquanto a mulher ria e andava para o banheiro.
Em passos leves.
Sorriso sincero.
O cabelo balançando a medida que andava e se virava de costas para Jane, mechas flutuando no ar.
A leveza de Maura refletindo na própria leveza de Jane.
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