Sobre amor, tartarugas e novas chances
11 Capítulo XI
Notas iniciais
Primeiro ela focou no som da chuva. As gotas grossas batiam contra a janela duramente e o som de cada gota se espatifando no vidro quase penetrava seu coração. E quando seu olhar estudou a superfície plana, foi quando ela notou as marcas da água lá. Os pingos na janela. Eles refletiam as luzes da cidade: vermelha, azul, amarela. Eles escorriam para baixo, traçando um padrão de linhas verticais, um tanto quanto tortas, incertas, indo para baixo, sempre para baixo, se perdendo em algum lugar além da claridade das luzes, repousando na escuridão, num vazio desconhecido, ignorado pela luz — assim como aquele dia.
Harriet tinha partido. Maura estava ciente de que isso viria a acontecer, é claro que estava, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Para ser honesta, não havia nada de fácil em separações, em partidas. Ela soltou um suspiro tremido enquanto firmava as mãos na beirada da janela. As gotas insistiam em se chocar contra a janela e cair para o vazio.
A insistência.
O vazio.
Isso enfurecia Maura. Por que as gotas não podiam permanecer coloridas enquanto escorriam para baixo? Aliás, porque elas escorriam para baixo?
Agora você não está fazendo nenhum sentido, Maura. Ela se pontuou. É a gravidade. Uma das leis regentes do universo. Nada a inverte, ninguém a domina. Incontrolável.
Ela se surpreendeu quando sentiu uma lágrima pingar no dorso de sua mão. Ela estava chorando? Sim, ela estava. E desde quando? Parecia tão estranho porque, assim como existia um vazio sugando a chuva, existia um outro vazio sugando-a por completo: o vazio dentro de si, a ausência de um sentimento que ela pudesse nomear. Ou ela estava só evitando? Ela fechou os olhos novamente e olhou para trás, e quase escandalizada se deu conta de mais um vazio: o lugar que estava. O quarto que seria de seu bebe jazia sem mobília, sem cor -as paredes brancas pioravam seu estado de espírito e Maura balançou a cabeça tentando negar a situação, tentando pedir que não, por favor, não faça isso comigo essa noite de novo.
Ela tornou a olhar para a janela, sem esperança nenhuma de que as as gotas permaneceriam coloridas. Ela tentou olhar além do vidro e só viu um borrão dentro da escuridão. Ela repousou a mão no vidro gelado, o frio invadindo seus dedos como aço, mas não removeu-os dali. Frio, frio como naquela noite que chegou ao hospital. Ela não se lembrava de muita coisa, apenas de ser carregada por Jane, com frio. Ainda que estivessem no verão ela se sentia gelada. E o resto da noite foi de um borrão para a escuridão. Até o amanhecer do dia, onde as luzes claras deveriam trazer boas notícias.
Não, Maura. Não.
Mas ela não conseguiu evitar a memória.
'Jay?' Ela tinha murmurado enquanto focava na esposa. Ela estava cansada, se sentindo fraca. O que tinha acontecido afinal? Ela estava no hospital. Ela lembrava disso.
Jane alcançou sua mão e acariciou. Nenhum sorriso. Nenhuma demonstração de afeto por palavras ou gesto, tirando o carinho em sua mão. Nada. 'Maur.' Ela finalmente sussurrou, mas o silêncio recaiu entre elas e Maura se tornava mais e mais nervosa com o passar dos segundos. Ela queria sentar, mas o cansaço era grande demais. Quando ela começou a ficar inquieta, Jane levantou-se e colocou as mãos em seus ombros, pressionando-a levemente para baixo.
'Shhh.' A morena advertiu. 'Não, Maur. Você... Você tá... bem.' Ela disse, mas o tom de voz traiu a certeza — ou a falta dela.
Aterrorizada, Maura arregalou os olhos enquanto a respiração se tornava forte e rápida. 'O que acont-aconteceu?' Ela segurou os punhos de Jane para que a morena não se afastasse, fixando seu olhar com o dela. Ela exigia uma resposta. E quando ela viu o olhar desapontado de Jane, antes de dizer as palavras que qualquer gestante mais temia, seu coração parou de bater por um momento. E as palavras seguintes não amenizaram a dor.
'Eu sinto muito, Maur.' Jane desviou o olhar do dela, e passou a olhar para um lugar que poderia ser seu pescoço, mas Maura sabia que ela estava enxergando através da loira, muito além, em algum outro lugar.
'Não...' As palavras haviam escapado seus lábios e ela se ouviu dizer o 'não' mais doloroso de sua vida. Doía, doía como ela nunca tinha experimentado antes. Doía em seu corpo, em sua mente — em seu coração. Era agonizante, era sufocante, e o fato de ela não conseguir se mover naturalmente a deixava mais desesperada. Era por isso que se sentia tão fraca. Era por isso que os músculos da coluna protestavam a cada tentativa de se sentar, de abraçar Jane. Era essa a razão da febre na noite anterior. Estava tudo bem, supostamente estava tudo bem. Ela não previu isso, porque em sua ultima consulta a médica lhe dissera que ela estava forte, o feto estava se desenvolvendo. O que tinha dado de errado, então?
'Eu sinto muito.' Jane tinha repetido e pousado a testa na dela. Era difícil respirar. Um beijo foi plantado delicadamente em seus lábios. Maura não correspondeu porque registrou o ato muito depois, só quando Jane se afastou para olhar para ela. O olhar da morena foi a segunda coisa que mais a atormentou naquele dia. Ela analisou uma mistura entre decepção, dor, cansaço e consternação. Algumas lágrimas incontidas cortavam o rosto da morena e Maura secou-as com o polegar, algo apertando terrivelmente seu peito. E ela se deu conta de que seu próprio rosto estava molhado — mas as lágrimas tinham sido as de Jane, e não dela. Ela não chorou, seu cérebro estava ocupado demais tentando analisar os fatos e chegar a uma conclusão. Lógica seria a única coisa que a salvaria de tamanha melancolia.
Ou então foi o que ela pensou.
Porque naquele dia ela estava controlada até o momento em que voltou para a casa. Até o momento em que Jane a ajudou a sair do carro, até o momento em que ela conseguiu andar, ainda que com a ajuda de Jane, para dentro de sua sala.
E então Jane havia saído para pegar o resto de suas coisas no carro. E, sem aviso prévio, o mundo desabou em cima dela. A casa parecia sufocante demais, e era como se as paredes a encurralassem, levando embora o ar novo, a iluminação, prendendo-a dentro de si mesma, numa tentativa inútil e fracassada de escape. E como se não fosse suficiente, algo a puxava para baixo, prendendo os pés ao chão, dificultando os passos em direção ao sofá — era aquilo, ela já sabia: gravidade. E parecia muito difícil se mover, e muito difícil respirar, e ela se perguntou o que tinha feito de errado para que o cosmo pudesse castigá-la tão cruelmente, dissipando até mesmo as partículas de oxigênio, impedindo-as de chegarem aos seus pulmões. E ela deu um passo mais a frente e se sentiu tonta, e precisou fechar os olhos para recuperar o equilíbrio. Oh sim, talvez a gravidade quisesse levá-la ao chão como todas as outras coisas, impiedosamente.
Tremendo, ela colocou as duas mãos na barriga para se certificar de que algum ar estava entrando dentro de si, mas o gesto somente a deixou mais sensível. E então era demais, e ela começou a chorar, o corpo termendo violentamente enquanto ela tentava abafar os soluços. E foi graças aos braços de Jane em cima dos dela em seguida, segurando-a com força, que ela se manteve em pé. Embora o abraço lhe desse sustentação de certa forma, ela perdeu o controle de si, sobre a agonia que a estava dominando, sobre os soluços que escapavam de sua boca sem consentimento. E ela já não controlava mais nada. Mas 'não' ela protestou entre o choro, porque ela se recusava a se curvar diante a gravidade. 'Não.' Ela disse firmemente porque ela e Jane estavam flutuando até dois dias atrás e, porque agora estavam caindo? Ela não admitiria a se aproximar do chão, muito menos encostar nele. E decididamente 'não', porque ela não queria ser tão fraca, egoísta, se perder em seu próprio sofrimento enquanto tudo aquilo tinha lógica, tinha alguma explicação coerente, a qual ela só não tinha encontrado, ainda.
'Maura, você é humana.' Jane disse como se pudesse ler seus pensamentos. 'É agora que você precisa chorar, querida.' Jane a balançou lentamente de um lado para outro, mas quando ela ia perdendo suas forças por segurar Maura por tanto tempo, as duas acabaram sentadas no sofá — Jane atrás, apoiando Maura em seu peito, agora sentada entre suas pernas, encolhida em posição fetal.
E Maura chorou muito, muito além de quando os soluços se acabaram, por muito mais tempo do que ela poderia notar. O dia havia se transformado em noite, e ela continuava contra o peito de Jane, depois de um tempo apenas respirando, sem dizer uma palavra, cansada o suficiente para dormir ali mesmo. Ela estava exausta, e Jane também, ela sabia. Mas a morena não iria simplesmente esperar para que Maura sugerisse algo. Ela sempre tomava conta de tudo, e não é como se a loira também não o fizesse, mas naquele dia... Ela preferiu ignorar o resto do mundo. Então quando Jane finalmente a movimentou foi apenas para deitá-la no sofá. Jane beijou-lhe delicadamente a testa e agasalhou-lhe com uma manta fina, dizendo que iria preparar algo para ela comer. Ela não estava com fome, e se recusou três vezes até que Jane lhe disse, duramente, que caso ela não comesse iria ligar para Constance. A chantagem funcionou perfeitamente pelos dois dias seguintes, e quando perdeu a credibilidade, Jane chamou Angela para obrigá-la a se alimentar direito.
A primeira semana tinha sido terrível. Nenhuma das duas tinha dormido bem na primeira noite, e na terceira Maura teve uma febre alta, o que Jane acreditava ser efeito de somatização — algo que a própria loira tinha ajudado ela a identificar, meses antes. E então Jane passou o dia seguinte checando ela a todo momento, rondando, especulando. Maura não falava — apenas o necessário, ficava um tempo no sofá assistindo documentários, deitada com a cabeça no colo de Jane que devotadamente cuidava de suas necessidades. 'Mais água? Suco? Lasanha? Ah, que tal salada?' E toda a atenção a fez se sentir culpada, e quando os olhos encheram de água ela escondeu o rosto na barriga de Jane e chorou. A detetive não disse nada, ela não queria pressionar Maura a falar, ela sabia que a loira tinha seu próprio tempo, e ela respeitava isso.
Uns dias depois, quando Jane voltada do trabalho, encontrou Maura sentada no sofá, os joelhos encolhidos contra o peito, encarando a televisão desligada, mordendo levemente o lábio inferior, perdida em pensamento.
'Maur?' A morena chamou, a cena seria fofa, se ela não soubesse o estado de Maur no momento. Olhos verdes olharam para cima, encontrando com os dela. Jane caminhou até ela e beijou-lhe a bochecha. 'Hey.' Ela disse abrindo um meio sorriso, esperando que fosse de alguma forma reconfortante.
'Hey.' Ela respondeu, mas não ofereceu mais nada.
Jane sentou-se do seu lado e passando os braços em suas costas, trouxe-a perto de si. Ela estudou a roupa de Maura e perguntou esperançosamente, 'Fez yoga hoje?'
A loira ergueu a cabeça para olhá-la e balançou a cabeça em não.
Mau sinal.
Jane suspirou. 'Maur... Vamos dar uma volta?' Era quase um apelo. Ela não podia ficar tanto tempo dentro de casa sozinha. Não era certo, nem saudável. Mas braços apertaram em torno de sua cintura e Maura mexeu a cabeça em não.
'Qual é, Maur. Você sabe que não pode fazer isso.'
'Uma menina.'
'O que?' Jane perguntou se sentindo perdida. Talvez ela tivesse deixado de escutar algo antes.
'A médica ligou, Jane. E eu... perguntei.' Elas não tinham certeza se queriam saber o sexo do bebê, então nunca tinha sido dito à elas. Maura olhou para Jane, a loira não estava mais chorando, havia um dia, mas seu olhar ainda estava perdido. 'Uma menina.' Ela repetiu em voz baixa, enquanto a recordação da voz de Jane, uns meses atrás, corria pela cabeça dela. Uma cópia de você correndo pela casa, isso me faria muito feliz.
Jane engoliu seco e franziu as sobrancelhas. Sem mini Maura correndo pela casa.
'Maur...' Ela levou a mão ao rostos da loira. 'E-eu...' Maura balançou a cabeça em entendimento. Ela mesma não tinha mais palavras e outra vez ela foi atingida pela culpa de ter perdido algo que Jane queria tanto.
E aquela sensação de ter decepcionado sua mulher, ficou durando por um tempo, e se desgastando, até que...
Quando ela se deu conta, era tarde de mais. Ela tinha perdido seu bebe, e ela estava ficando bem — ela estava ficando. E então ela teve a grande idéia de trazer Harriet para casa, porque tão bem intencionada ela era, queria ajudar a menina de alguma forma. Do mesmo jeito que ela queria ter sido ajudada quando pequena. Mas ela sempre fora independente demais para isso, e talvez por conta dessa característica, os pais nunca imaginaram que em algum momento de sua vida ela precisasse deles — do mesmo jeito que ela imaginou que Harriet precisava dela. Do jeito que Harriet tinha pedido a ela para não ir embora também. Mas no final, eram sempre as pessoas que iam embora da vida dela. Exceto Jane. E, como uma maldição, como crueldade do destino, ela tinha decepcionado Jane. Outra vez.
Ela tinha sido egoísta. Ela havia pensando em Harriet, havia pensado nela, mas não havia considerado Jane nisso tudo. Ela sabia que a mulher tinha passado por isso antes — na tarde em que pediu para trazer a garotinha para casa, Jane tinha dito várias vezes que sua experiência com isso não tinha sido boa. Talvez tivesse sido um pedido mascarado para não envolvê-la de novo. Mas Maura colocou o sofrimento de outra criança na frente, e sua vontade de ajuda-la em seguida. E agora Harriet tinha ido embora, e ela estava em pedaços, e Jane estava em pedaços por causa dela — de novo — apesar de todos os avisos anteriores.
Ela respirou fundo e inclinou a cabeça para baixo, a consciência pesando terrivelmente. Ela queria fazer algo de bom e acabou estragando tudo, deixando tudo pior. Ela deveria ter sido mais esperta. Ela deveria. Agora ela conseguia ver melhor, mas era tarde demais para evitar a dor. Ela fechou os olhos com força, tentando conter uma nova onda de lágrimas mas parecia impossível. As mãos apertaram firmemente o parapeito da janela e passando despercebidas no barulho da chuva, as lágrimas caíram silenciosamente no chão.
'Maura.' A voz de Jane atrás dela a sobressaltou. Ela deu um pulo com o susto e se virou antes de limpar o rosto — ela não queria ser pega chorando. Tarde demais. Cautelosa, Jane deu um passo à frente. 'O que você tá fazendo aqui?'
E ela sabia a implicância com a palavra aqui. No quarto do bebê. 'É só que...' Ela abaixou a cabeça, incerta de como começar.
Jane suspirou fundo e olhou para o lado, balançando a cabeça. 'Eu sabia que iria acabar assim.' Ela disse mais para ela do que para Maura. 'Eu tentei te avisar que não é fácil.'
'Não é.' Maura assentiu enquanto lágrimas escorriam pelo rosto. Ela deixou.
Jane andou até a janela, com as mãos nos bolsos e olhou para fora. Maura se colocou no lado dela, cruzando os braços no peito em proteção.
'Esse quarto precisa ser preenchido.' Jane murmurou, os olhos escuros combinando com o céu noturno e chuvoso — exceto pela parte do molhado. Ela não estava chorando.
'Jane.' Maura disse num sussurro, chamando a atenção da mulher mais alta.
'Hum?' Os pares de olhos se encontraram.
'Me desculpa.' Ela disse e abaixou os olhos para o chão. Parecia que tudo o que iria fazer aquela noite era chorar.
'O que? Por que?' Jane segurou seus ombros numa tentativa de fazê-la olhar para ela novamente. A loira balançou a cabeça.
'Me desculpa.' Ela disse mais alto, mais firme. 'Por te fazer passar por isso de novo.'
'Maura, eu sei que eu te disse tinha sido difícil pra mim, mas eu posso lidar com isso, ok? Eu posso.' Ela assegurou, mas a loira balançou a cabeça de novo.
'Eu fui tão egoísta.'
'Maura, não. Não.' Agora doía em Jane porque ela sabia que Maura só queria ajudar a garotinha, e não tinha nenhuma má intenção atrás disso. Ela abraçou a mulher, mas a loira se afastou rapidamente.
Como se eu merecesse, ela pensou. 'Eu sinto muito por ter te decepcionado.' Ela replicou, parecendo culpada demais para Jane. O que estava acontecendo?
'Maura, do que você tá falando?' Jane colocou as mãos na cintura e Maura se sentiu uma das pessoas interrogadas por ela, e agora mais do que nunca, menor do que Jane.
'Eu trouxe Harriet e ela foi embora. E... antes disso, o bebê.'
Jane abriu a boca em perplexidade. O que Maura estava falando? Eu fui tão egoísta. Eu sinto muito por ter te decepcionado. Então o quebra-cabeça fez sentido. A vinda de Harriet para casa com elas tinha reaberto uma ferida, desencadeando essa reação em Maura. Era ruim porque tinha levado tanto tempo, e certamente vinha sufocando Maura de algum modo, e era bom, porque assim poderiam resolver agora.
'Maura. Você por acaso acha que você me decepcionou porque... perdeu o bebê?'
Silêncio. Cabeça baixa.
'Maura, sendo quem você é, não tem a mínima chance de você me decepcionar.' Jane colocou os braços em volta dela e Maura se retraiu. 'E não foi sua culpa, Maura. Eu deveria ter dito isso antes, mas eu não sabia que você se sentia assim.'
Maura estava lutando com suas emoções. Ela queria dizer algo, mas não encontrava a ordem das palavras.
'Sério, Maur. Eu sabia que a garota ia embora, e eu poderia ter negado, você sabe. É verdade que eu não queria no começo, mas qual é, ela é adorável. Minha única preocupação era você.' E eu estava tão certa.
'Jane', ela começou, tentando organizar os pensamentos sem obter nenhum sucesso.
'Maur, você nunca fez nada que me machucasse. Eu juro. E você sabe tão bem quanto eu que abortos assim acontecem.' Maura encostou a cabeça no ombro de Jane e descansou, tentando limpar a mente.
'Poderia ter sido a pequena miniatura de mim.' Ela murmurou, ainda se desculpando.
Jane pousou um beijo em sua cabeça. 'Qualquer miniatura que te chame de mamãe vai me fazer feliz, Maur. Se ela parecer com você, ponto extra. É claro que você sempre pode comprar vestidinhos rosa para ela e ensinar a falar difícil, caso ela não se pareça fisicamente. Quer dizer... Qual é a razão de pirar com isso?'
A risada de Maura ressoou na garganta de Jane, o sentimento de culpa indo embora.
'Eu quero uma criança com você, Maur. E sabe de uma coisa?'
'Hum?' Maura passou os braços em volta de Jane e reajustou a cabeça seu peito.
'Esses dias com a Tartaruga foram... decisivos. Ela é ótima, e você foi ótima com ela.'
'É Harriet, Jane.' Maura a corrigiu. 'E você também.'
Jane riu. Uma idéia cruzou sua mente. 'Você quer uma criança, mas não quer engravidar agora.' Ela falou pensativa.
'Uhum.'
'E se... E se agente adotasse, Maur?'
A loira respirou fundo. Os dias com Harriet tinham sido ótimos — no mínimo. Maura mordeu os lábios, adoção era definitivamente uma opção. Antes de responder a mulher, uma lembrança cruzou a mente de Maura.
Ela estava sentada no sofá e Jane tinha acabado de chegar em casa com dois sacos de papel do mercado. 'Hey, baby.' Ela disse enquanto Maura se levantava para acompanhá-la até a cozinha, sentindo falta morena depois de ter ficado o dia inteiro em casa sozinha. E então, um passo antes de alcançar o balcão, um dos sacos se partiu, o fundo soltando todos as coisas de dentro no chão. Jane amaldiçoou, Maura reprimiu o palavrão. Rapidamente Jane colocou o outro saco marrom em cima do balcão e quando se abaixou para pegar o conteúdo do chão, o de cima tombou para o lado, derrubando metade da compra em cima dela, e depois no chão. Ela estava prestes a xingar novamente, mas então escutou a risada alta de Maura, e comemorando o som que não ouvia em tanto tempo, ela mesma riu da situação. Sim, a gravidade sempre puxando as coisas para si, para baixo. Maura agachou-se ao lado de Jane a ajudou a recuperar as latas e compras do chão. Quando terminaram, Jane levantou-se e esticou a mão para a loira, Maura a tomou agradecida e se pôs em pé.
Uma sorriu para a outra.
A gravidade funcionava do seu próprio jeito, trazendo a densidade dos corpos para baixo. Nada lhe escapava. Nada, senão o amor: algo tão abstrato, inalcançável e desconhecido por ela, vindo de outra dimensão.
Enquanto Maura tivesse Jane ao seu lado, elas poderiam levantar tudo novamente. Poderiam se reerguer.
Elas poderiam fazer isso.
Juntas.
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