Sobre amor, tartarugas e novas chances
5 Capítulo V
'Harriet,' Jane sentou-se ao lado da garotinha, agora de volta à estação de polícia, 'eu posso te perguntar uma coisa?
'Claro.' Ela respondeu cooperativa, piscando seus olhos azuis inocentemente para Jane.
'Essa é a sua mãe?' Ela mostrou-lhe uma foto. Jane tinha certeza, mas ela tinha que perguntar de qualquer maneira.
'É ela!' Ela respondeu e colocou o dedo indicador em cima da mulher. 'Minha mãe, sim.'
'Ela é linda, assim como você.' Jane deu um sorriso que só Maura pôde interpretar como triste.
'Valeu!' Ela sorriu mostrando os dentes.
'Agora, olha só, Frost está chamando você de novo. Por que você não ensina algo de bom para ele? Como pokemons, aposto que ele vai gostar de saber tudo o que você sabe.'
'Legal! Vou contar tudo para ele, Jane!' Ela desceu da cadeira num pulo e correu até o outro homem. Jane fez um sinal para ele com a cabeça.
'Você mentiu para mim.' Foi a primeira coisa Maura disse a ela quando Harriet estava fora de vista.
'Maura, eu tive que mentir. Se a menina te perguntasse alguma coisa... Você não pode mentir. E eu preciso que ela fale antes de começar a chorar.' Jane encolheu os ombros num pedido de desculpas.
'Oh, Deus...' Maura balançou a cabeça de um lado para o outro, lamentando a situação.
'Sinto muito. Eu sei que não soa gentil, mas Maura...' Jane segurou os ombros da loira.
'Eu entendo, Jane.'
'Eu sei que sim, obrigada.'
Maura deu um suspiro e apertou os lábios numa linha fina antes de perguntar, 'O que aconteceu?'
'Um único tiro, direto no coração.'
'Frio... Não parece pessoal, não é?'
'Não.'
'Ela merece saber, Jane.' A loira inclinou a cabeça na direção em que Harriet tinha corrido.
'Ela merece. Você falou com ela?'
'Sim. Ela disse que sua mãe pediu-lhe para vir aqui porque era um lugar seguro, e que ela iria encontrá-la aqui. Ela desceu as escadas, saiu do prédio, atravessou as ruas. Nada demais. Ela é inteligente, você sabe.'
'Sim. Espera... Ela sabia que aqui era uma delegacia de polícia?'
'Aparentemente, sim. Sua mãe lhe ensinou sobre pontos importantes perto de sua casa: A sede, The Dirty Robber, a sorveteria no bloco atrás deste, e a biblioteca do outro lado da rua.'
'Por que você acha que ela ensinou isso?'
'Pontos de referência? Ela disse que é nova aqui. Acho que desde que ela gosta de andar sozinha sua mãe deu-lhe instruções.'
'No caso de se perder.' Jane disse pensativa.
'Sim, é o que imagino.'
'Sim, talvez seja isso. Susie pediu para trazerem o corpo. Eu pedi para ela fazer a autópsia. É o seu dia de folga. Não protesta, Maura. Ela é capaz.'
'Eu sei que ela é. Eu só... quero ajudar.'
Jane sorriu para ela. Ela sempre queria, ela colocava o trabalho em primeiro lugar assim como Jane, mas ultimamente ela estava trabalhando tão duro que a detetive não queria pressioná-la ainda mais.
'Ok, olha... Primeiro eu preciso dizer a ela, ok?'
'Não, deixa que eu digo. Passei o dia inteiro com ela, acho que ela vai precisar de alguém que ela confia.'
'Você... Você tem certeza?' Jane franziu a testa.
'Tenho.' Maura assentiu e segurou o olhar dela.
'Não é fácil, Maura. Ela vai chorar.' Jane estava tentando avisá-la, trabalhar com crianças era algo que sempre tinha perturbado seu emocional.
'Eu sei.'
Ela não sabia, porque até onde Jane sabia, Maura nunca tinha trabalhado com as crianças antes.
...
Ambas estavam em pé na porta do necrotério agora. Maura tinha a mão de Harriet na dela, e ela sentiu o frio que emanava de dentro do quarto. Esse lugar nunca pareceu mais frio do que agora. A médica e a menina tinham caminhado em silêncio ao longo do corredor, então Maura parara na porta por um momento para limpar sua mente e se concentrar. Ela só percebeu que uma quantidade considerável de segundos haviam se passado quando os olhos azuis piscaram para ela.
'Você tá bem, Maura?' A menina perguntou quase num sussurro.
'Eu... Sim.' Não exatamente. Ela estava hesitando. Ela havia passado o texto repetidamente, e em sua mente parecia ser impecável. Bem, agora que ela estava a um passo de dizê-lo, ela estava sentindo que estava faltando em alguma coisa. Talvez ele devesse ser diferente, talvez essas não deveriam ser as linhas a serem ditas para uma criança. Maura olhou pelo vidro e viu a mãe de Harriet em cima da mesa. Susie havia coberto o corpo e colocado um travesseiro sob a cabeça dela, como ela havia pedido. Agora parecia que a mulher morta estava apenas dormindo.
Eu preciso fazer isso. Ela limpou a garganta e olhou para baixo para a menina baixinha.
'Harriet? Eu preciso te dizer uma coisa.'
'É sobre a minha mãe.' Era quase, mas não necessariamente, uma questão. 'Você encontrou ela?'
'Sim. Nós encontramos.'
'Onde está ela?' Seus olhos brilharam. Maura sentiu algo agarrando seu coração e despedaçando-o. Ela estava prestes a ver esse brilho desaparecer.
'Ela está aqui, dentro desta sala.'
'Então eu quero ver ela!'
'Você está indo ver. Mas olha... Aconteceu algo, Harriet.' Maura se agachou ao seu nível.
'O quê?' Ela perguntou com os olhos arregalados.
Diga para ela. Diga. Não mascare. Ela vai chegar a uma conclusão de qualquer maneira e vai ser tão doloroso como pode ser.
'Ela...' Maura hesitou novamente e mordeu o lábio. Ela respirou fundo e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
'Maura?' A menina pressionou, a voz não mais alta do que um sussurro.
'Sua mãe é uma heroína, Harriet.' Segundo a teoria de Jane, a mãe a tinha enviado para a delegacia de polícia para protegê-la, era a explicação mais plausível até agora. 'Você sabe disso?'
'Sim, ela é minha heroína. Posso vê-la agora?'
Maura ignorou a pergunta. Ela estava ficando ansiosa. 'Infelizmente, querida... Ela foi encontrada morta.' Ela disse quase num sussurro. Para sua surpresa, a menina só piscou para ela.
'Ela está ali? Posso ver ela agora?' A menina apontou para a porta.
'Bem, eu...' Isso definitivamente não era a reação que ela estava esperando. Ela franziu a testa. 'Sim, você pode.'
Maura segurou a mão dela e abriu a porta. A menina era muito pequena para ver sua mãe sobre seus próprios pés, então Maura teve que levantá-la. Uma vez que ela fez isso, pernas finas se apertaram em volta de sua cintura. Ela aproximou-se da mesa e a menina inclinou-se para ver sua mãe.
Ela franziu a testa a princípio. Sua mãe estava deitada sobre uma mesa, um lugar muito estranho para tirar um cochilo. Depois de uma melhor olhada, ela percebeu que a mãe dela estava pálida (uma palavra que ela tinha escutado apenas duas ou três vezes). Ela estava confusa. Ela gostaria de perguntar a sua mãe o porquê, ela sempre tinha explicado as coisas para ela. Como atravessar a rua, como escovar os dentes, como amarrar o cadarço (ela ainda estava trabalhando nisso). Ela iria explicar isso também, não é?
'Mamãe?' Ela tentou. 'Mamãe!' Ela disse mais uma vez quando a mulher não respondeu. Em seguida, ela estendeu a mão e tocou-lhe o rosto. Nenhum movimento novamente. Sua mãe estava lá, mas ao mesmo tempo ela não estava. Era confuso e ela não entendia porque Maura tinha dito a ela que sua mãe era uma heroína se ela estava morta. Ela não entendia o que a palavra 'morta' significava.
'O que aconteceu com ela? Ela tá congelada?' Olhos carregados de confusão e medo encararam a médica.
Pela primeira vez Maura mentiu e não sentiu qualquer tipo de culpa ou mal-estar sobre isso.
'Não, querida, ela não está congelada. Ela ficou doente de repente, Harriet. Isso acontece muito frequentemente.'
'Então ela não vai mais acordar?' Ela perguntou, uma fagulha de esperança em sua voz.
'Eu temo que não.'
'Você tentou salvá-la? Você é uma médica, você tentou? Você não pode fazer nada, Maura?'
A menina piscou seus os olhos nos de Maura e a loira viu conflito lá. Ela estava implorando por algo mais palpável, por reconhecimento, e também... Ela estava em negação. Ela queria que Maura dissesse a ela que sua mãe estava bem, mas Maura sabia que não era bem assim. A realidade vai quebrar em pedacinhos nossas almas em algum momento. Aprendemos isso desde crianças: quando você cai pela primeira vez e machuca os joelhos; quando aquele sorvete acaba caindo no chão minutos depois que você o comprou; quando o seu primeiro animal de estimação morre; quando o plano de acampamento passa a ser apenas planos porque está chovendo no fim de semana. Quando você é queimado pelo sol. A vida é cruel com as pessoas. Sempre foi. E era tão terrível e doloroso ser a pessoa a ter que mostrar isso a uma criança que por um segundo Maura quase desistiu.
Ela pensou em ligar para Jane e pedir-lhe para explicar, para dizer para a menina a coisa horrível sobre a vida: um dia todos irão morrer; um dia você vai perder alguém que você ama. E ela não queria ser quem iria dizer-lhe isso. Ela não queria fazê-la chorar, quebrar seu coração. Mas ela própria tinha se oferecido, não tinha? Ela tinha dito a Jane que poderia lidar com isso. Ela pegou a menina nos braços e apresentou-a para a morte. E agora era ela que por obrigação iria cumprir com seu dever.
'Harriet...' Sua voz tremeu. A menina olhou atentamente para ela. Maura respirou para firmar a voz e continuou. 'Lembra que você me disse hoje cedo que tinha um pássaro?'
'Uhum.'
'Você entende que desde que você o soltou, você nunca mais vai vê-lo de novo?
'Sim.'
Ela entendia o que significava a perda, era um começo.
'Eu sinto muito em te dizer, Harriet, mas...' Maura reuniu toda a coragem que ela precisava dizer as próximas palavras, mas sua voz falhou de qualquer maneira, 'Você não irá vê-la novamente, garotinha.'
'Mas eu não quero que ela vá embora! Eu não quero!' Ela protestou. 'Dá pra arrumar isso, Maura? Você pode me ajudar?' Ela colocou as mãos sobre o ombro de Maura, implorando dessa vez.
Maura estava tremendo tanto que ela pensou que ela iria despencar no chão. Ela não estava sentindo as pernas e Harriet em seu colo não estava ajudando a situação. Não que a garota fosse pesada. Não. Ela era, na verdade, bastante leve, mas a coisa é que, se Maura tinha pensado que dizer à menina o que ela tinha acabado de dizer seria a coisa mais difícil naquela tarde, ela estava completamente enganada. Dizer algumas palavras pode ser difícil, mas lidar com as consequências era a pior parte.
'Querida, você não fez nada de errado. Ninguém escolhe este tipo de coisa. Entede? Simplesmente acontece. E eu temo que não há mais nada a ser feito.'
Os lábios de Harriet tremeram e Maura sabia que ela estava prestes a chorar. Ela engoliu em seco.
'Eu não vou vê-la novamente?'
'Não. Não como você costumava ver. Eu te trouxe aqui para você dizer adeus.'
E aí ela começou a chorar. 'Ela me disse para esperar aqui, Maura! Por que ela não veio me buscar?'
'Harriet, eu sinto muito.'
'Ela me disse...e-ela não... M-Maura?' Ela olhou para a loira, desolada, suas palavras abafadas pelo choro. 'E-ela me deixou... E-eu não quero que ela vá embora.'
'Eu sei, eu sei. Venha aqui, querida.' Maura colocou o braço em torno de Harriet, segurando-a com força contra ela. O gesto pareceu quebrar qualquer controle que a menina tinha sobre si mesma e ela começou a chorar alto e mover os braços nas costas de Maura, como se ela estivesse se afogando em tristeza e Maura fosse de alguma forma o conforto que ela precisava e estava tentando desesperadamente tê-lo. Os soluços ecoavam dolorosamente no peito de Maura, a voz abafada por sua pele quase ultrapassava seu corpo, disparada numa tentativa de fracassada de fugir de tamanha tristeza. A voz, os soluços, todos morriam ali, todos na curva de seu pescoço onde Harriet havia escondido o rosto, onde lágrimas quentes caíam de encontro com sua pele. Maura teve que inspirar e expirar lentamente para manter suas próprias emoções em controle.
Uma criança não deveria conhecer tamanha dor. Uma criança não deveria sentir tanta desolação, medo, tristeza. A loira abraçou Harriet um pouco mais forte desejando que o sofrimento sumisse, que ela pudesse fazer algo a respeito, mas sabendo frustradamente que nada naquele momento iria fazê-la se sentir melhor. Mas em algum ponto ela sabia que isso diminuiria. Então, Maura disse a ela que a dor iria, sim, embora e que ela iria ficar bem. Ela disse tudo o que ela presumiu que iria acalmá-la, mas a menina estava chorando por muito tempo agora. Ela não sabia como lidar com isso, senão chorando toda a tristeza que estava sentindo. As crianças não têm todas as ferramentas e habilidades para lidar com a dor como os adultos têm. Adultos escondem as emoções e fingem comportamentos. As crianças são mais honestas quando se trata de sentimentos, elas estão mais propensas a dizer se gostam de você ou não, a sorrir quando estão felizes e chorar quando estão tristes. Era bastante simples lê-los porque eles mostravam qualquer sentimento. Foi a primeira vez que ela tinha dito a uma criança que seu parente estava morto. Não era uma coisa fácil de dizer aos adultos também, mas se tivesse que escolher, ela escolheria eles.
Depois de uma hora, quando a menina finalmente acalmou, Maura tentou movê-la, mas a ela apertou os braços em volta de seu pescoço novamente.
'Não' Ela murmurou.
'Harriet...' Ela tentou novamente. Depois de passar tanto tempo em pé com a menina nos braços, suas costas a estavam matando.
'N-não!' Agora as pernas de Harriet envolveram em torno de sua cintura.
'Você não quer dizer adeus?' Ela perguntou em voz baixa. Ela levou a menina lá porque ela acreditava que seria melhor para ela entender a perda, mesmo sabendo que ela iria negá-la em primeiro lugar. Era cruel, mas Maura não podia fazer outra coisa, senão ajudá-la a passar por isso. Ela teria que aceitá-la em primeiro lugar, a fase mais dolorosa de sofrimento, para depois passar pelas outras. Maura estava disposta a ajudá-la tanto quanto ela poderia.
A menina suspirou profundamente, ainda chorando.
'Ok, menininha. Vou levá-la comigo para o meu escritório, certo?'
Ela balançou a cabeça que sim.
'Você pode olhar para mim?' Ela perguntou enquanto se dirigia para o escritório.
Nenhuma resposta. Somente dedinhos dançando através de seu cabelo.
'Sabe... esta manhã, quando você me disse que gostava de tartarugas? Algo passou pela minha cabeça.'
Ela estava à espera de uma resposta, mas, mais uma vez, não veio nenhuma. Ela abriu a porta, caminhou até o sofá e antes de sentar-se lá ela tirou os sapatos de salto alto. Deus, suas costas estavam doendo muito. Foi um alívio quando ela finalmente descansou contra o encosto do sofá.
'Sabe que há uma tartaruga famosa na Austrália? Bem, é um cágado, na verdade.'
A menina se mexeu no colo de Maura. Sua testa estava perto do queixo da loira, mas ela se recusou a olhar para cima, e Maura não iria invadir seu espaço.
'Adivinha o nome dela.'
'Hum...'
Maura sorriu, ela estava trazendo a menina de volta para ela. Ela pegou seu celular e digitou uma mensagem para Jane: Disse a ela. Seu coração está quebrado.
'Não sei.' A menina fungou.
'Eu tenho certeza que você pode pensar em alguma coisa.'
O texto voltou em poucos segundos. 'Vc tá bem? Eu disse que não é fácil.'
'Bob?'
'Não. É um nome feminino.' Maura respondeu a mensagem: Eu estou bem. Ela me abraçou e não me solta. Eu não sei o que fazer.
'Hm ... Elizabeth?'
'Não. É um nome bonito, mas não.'
A mensagem de Jane veio de novo: Eu também não. Tenho certeza de que vc pode lidar com isso.
Maura digitou: Eu espero que sim. Você encontrou alguma coisa?
'Hm...' Ela suspirou. 'Tô cansada.'
'Oh, querida...' Ela acariciou as costas de Harriet.
'Maura? A menina chamou, sua voz era apenas um sussurro perdido em um pântano de tristeza.
'Sim?'
'Você vai embora, também?' Ela olhou para cima e encontrou os olhos de Maura. Seus olhos estavam inchados e seu rosto estava uma bagunça, mas Maura não se importava.
A loira sentiu algo quente dentro dela. A questão só poderia significar que a menina gostava dela o suficiente para temer a sua ausência. Ela gentilmente segurou o rosto de Harriet e lhe disse: 'Não. Eu não vou a lugar nenhum. Eu vou ficar bem aqui.' Ela colocou os braços ao redor da garota novamente, tranquilizando-a. A menina encostou a cabeça na clavícula de Maura, e só agora a loira percebeu como ela estava fria. Eles passaram um longo tempo no necrotério, e esse lugar era o mais frio do edifício por uma razão. Preocupada, ela passou as mãos nos braços de Harriet, tentando aquecê-la. Ela estava usando um vestido roxo e um Converse branco, Maura não tinha idéia do porquê, considerando que o tempo lá fora não estava um dos mais quentes também. O outono estava chegando e este ano o frio prometia ser mais intenso do que no ano anterior.
'Harriet, você está gelada. Será que você deixa eu colocar meu casaco em torno de você?' Maura segurou a cintura pequenininha da menina e ela se afastou.
'Uhum.'
'Bom. Mas eu preciso que você me solte — só por um momento.' Ela acrescentou quando a menina hesitou.
'Tá.'
Maura ajudou a menina a sair de seu colo, em seguida, de pé, ela tirou o casaco, colocou-o em torno do corpo de Harriet e ajudou-a com as mangas.
'Prontinho. É um pouco grande, mas você pode ficar com ele por enquanto.'
'É quentinho.'
'Sim, é.' Maura suspirou e sentou-se novamente. Seu corpo estava dolorido. Seria por causa do gasto de energia?
Harriet observou enquanto Maura estava sentado, em seguida, ela colocou as mãos — agora praticamente cobertas pelas mangas — sobre os joelhos de Maura. Era fofinho quão pequena ela parecia engolida pelo casaco, e Maura teve que resistir, mas não por muito tempo, à urgência de querer pegá-la em seus braços novamente e cuidar dela.
'Maura?'
'Sim?'
'Qual é o nome do cágado?'
Maura sorriu. A menina tomou isso como um convite para subir no seu colo novamente e fez seu caminho até lá. 'Eu disse a você que é um nome feminino. Eu vou te dar essa dica: começa com H.'
'A mesma letra do meu nome!' Ela exclamou.
'De Fato.' Maura arqueou as sobrancelhas incentivando-a a continuar.
De repente, a boca da menina caiu aberta em realização. 'É Harriet, não é?'
'Sim, é.' Maura riu porque a expressão em seu rosto era impagável.
'Minha mãe me deu o nome de uma tartaruga!'
Maura não teve coragem de dizer que isso seria improvável porque a menina estava sorrindo novamente.
'Está na internet. Eu posso te mostrar mais tarde, se você quiser.'
'Eu quero.'
Maura sorriu para ela e a menina segurou seu olhar por um momento. Maura podia ler sua alma, e ela tinha certeza de que Harriet podia ler a dela também. É como aquele momento em que você encontra alguém que você tem certeza absoluta de que você conheceu em outra vida. Maura não acreditava em outra vida, é claro, mas o sentimento estava lá. A intensidade daquele olhar conectava-las de alguma forma, como se seus olhos fossem espelhos que Maura podia cruzar, dar uma olhada dentro daquele universo e, em seguida, voltar novamente. Nenhum dano feito, apenas reconhecimento. Mas, em seguida, aquela intensidade foi lentamente substituída pela desolação novamente.
'Você acha que pode arrumar isso?'
Maura acariciou suas costas, para cima e para baixo. 'Acho que podemos trabalhar nas coisas de agora em diante.'
Ela fez beicinho e descansou a testa contra o peito de Maura. A loira pensou que ela iria começar a chorar de novo, mas ela permaneceu quieta por alguns minutos.
'Por que você não tira um cochilo, querida? Você parece tão cansada.'
'Não vai embora?'
'Não.'
'Me conta sobre a tartaruga?' A menina murmurou perto do seu ouvido, a voz carregada pelo sono e pela canseira.
'Cágado.' Maura corrigiu.
'Sim. Me conta?' Ela pediu enquanto ela passeava os dedos pelo cabelo de Maura, devagar e delicadamente.
'Bem, ela tem 175 anos de idade. Dá para acreditar? Ela vive na Austrália agora, mas ela foi recolhida por Charles Darwin. Você o conhece?
'Não.'
'Eu imaginei que não, mas um dia você vai ouvir dele. Bem... A tartaruga vive num zoológico da Austrália, eu nunca a visitei antes, eu só li sobre ela, mas parece que ela gosta da atenção dos seres humanos, e gosta de ter seu casco acariciado.'
Maura se remexeu para arrumar seu peso e a menina suspirou. Se ela não estava dormindo, ela estava prestes. De qualquer forma, Maura continuou a falar.
'Dizem que ela é de boa-natureza, entende? Mas ela é preguiçosa, ela passa o tempo todo dormindo. O que mais? Oh, sua comida favorita é hibisco. Você sabe que tipo de planta é?'
A menina não respondeu. Maura esperou mais alguns minutos para ter certeza de que ela tinha adormecido. Cuidadosamente, Maura tirou o Converse, colocando-o de lado, sabendo que dormir sem sapatos seria mais confortável. Em seguida, ela conseguiu mudar a posição da menina, deixando-a descansar de lado contra o seu próprio corpo. Maura acariciou sua bochecha e colocou um fio de cabelo ao lado de sua orelha. Ela parecia dormir tão calma, serena, como se nada de ruim pudesse acontecer a ela.
Depois de plantar um beijo em sua testa, Maura pegou o celular de novo e leu a mensagem mais recente de Jane:
Não, mas eu já chamei a assistente social.
Um número considerável de meses havia se passado desde a última vez que Maura tinha se sentido enjoada, mas depois de ler a mensagem de Jane pela segunda vez, seu estômago torceu de tal maneira que ela tinha certeza de que iria vomitar.
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