Sobre amor, amizade e confiança
14 Uma história precisa de conflito
Notas iniciais
Desde que Armin se entende como gente, ele conhece Eren e Mikasa. E desde sempre ele soube que eles eram feitos um para o outro. Apenas se os dois percebessem... Não que Armin fosse o maior expert em relações amorosas no mundo, mas ele acreditava que a transição entre amizade e namoro era sempre difícil. Especialmente quando se é jovem. Especialmente depois de Eren e Mikasa passarem por tudo o que passaram.
Armin torcia para que os amigos ficassem juntos. Ansiava, até. Porém, ele sabia que este tipo de coisa não poderia ser forçado. Armin tinha absoluta certeza que os dois, eventualmente, ficariam juntos. Você não pode separar o que o coração une.
Porém, se eles ficassem juntos mais cedo era o melhor. Armin eventualmente jogava algumas piadas para os dois. Era uma arte sutil. Se Armin fosse muito direto com um deles, eles ficariam putos e brigariam com ele. O segredo era jogar uma piada de modo que os dois gaguejassem ou corassem só um pouco. Às vezes, apenas um olhar era necessário.
Um dia, os três estavam assistindo um filme com o senhor e a senhora Hannes. Os três sentavam no chão, com Mikasa no meio. Ela segurava uma bacia com pipoca que a senhora Hannes havia feito. Armin foi pegar um punhado de pipoca quando viu a mão dos dois, quase entrelaçadas. Eles assistiam ao filme com tanta atenção que deixaram a mão repousando na bacia e estavam quase de mãos dadas. Armin suspeitou que nenhum dos dois sequer havia percebido.
Armin ficou olhando para os dois por um tempo até que um deles percebesse a posição. Eren foi quem notou o olhar do amigo e o olhou como se fizesse uma pergunta. Armin o encarou de volta por um instante, sorriu da maneira mais maliciosa que pôde e olhou para as mãos dele e de Mikasa. Eren lentamente acompanhou seu olhar e... derrubou o pote de pipoca com o susto, ao tirar a mão com velocidade.
“Eren!”, Mikasa reclamou.
“Ah, eu... foi mal, Mikasa. Desculpa. Pode deixar que eu limpo o chão, tia Hannes”, ele disse, corando. Mikasa e os outros até poderiam pensar que ele corou pela trapalhada, mas Armin sabia melhor.
“O que você fez, cara?”, Armin interrogou, a voz sem esconder dissimulação.
“Eu derrubei a pipoca, não está vendo?”
“Como você fez isso?”
“Eu, hã... fui pegar... a pipoca... e esbarrei no pote quando fui tirar a mão”, ele disse devagar, incerto.
“Nossa. Mas como você é desastrado, não é mesmo?”, Armin o olhou enviesado. “Parece até que você não tem controle das suas mãos!”.
Eren lhe dera um olhar enraivecido antes de entrar na cozinha. Armin apenas segurara o riso, enquanto Mikasa e os Hannes não pareciam entender. Eren não voltou a falar com Armin naquela noite, mas de manhã já havia esquecido. Ele era o tipo de pessoa que ficava rapidamente irritado, mas que se esquecia com facilidade também.
Dois dias depois do incidente com as pipocas, porém, aconteceu algo mais grave entre os dois. Armin não saberia dizer exatamente como começou, mas se ele tivesse que contar a história, seria pela prova de álgebra do professor Schultz.
Gunther Schultz, o Pinguim, surpreendeu a turma quando anunciou que a prova de álgebra seria em dupla. Mikasa e Eren, naturalmente, já haviam se juntado. Armin fizera sinal para Connie, que o olhou aliviado. Connie já havia melhorado bastante as suas notas em álgebra e geometria, mas fazendo a prova com Armin sua média subiria ainda mais. Porém, logo Gunther surpreendeu todo mundo pela segunda vez.
“Mas eu vou escolher as duplas”, disse Gunther. “Aleatoriamente. Para depois ninguém reclamar que carregou o outro nas costas ou que os melhores alunos ficaram juntos. Eu vou sortear quem vai ficar com quem tirando nomes desse pote aqui”.
“Professor, mas se a gente não puder escolher as duplas, porque fazer a prova em dupla então?”, Ymir perguntou ao levantar a mão.
“Porque eu quero corrigir menos coisa, mas não digam isso para a senhorita Ral”, ele disse. Petra, coordenadora pedagógica, estava no fundo da sala e deu um sorriso. Armin encarou Gunther. Era estranho ver o professor, sempre tão sério, fazendo brincadeiras.
“Então a primeira dupla será Armin Arlert”, ele disse ao tirar o primeiro papel. Toda a turma se virou para Armin. “E Franz Kefka”. O resto da turma suspirou. Franz se levantou e deu uma piscadela para sua namorada Hannah e começou a se dirigir para a direção de Armin. “Senhor Kefka, pode aguardar em seu lugar por instante. Eu vou arrumar a sala quando todas as turmas estiverem sorteadas”.
Armin prestou atenção no resto do sorteio. Connie acabou fazendo dupla com Krista e soltou um suspiro de alívio – Krista era uma boa aluna também. Eren foi sorteado para ficar em dupla com Annie. Ele se virou para a loira, mais ao fundo da sala, e fez um sinal de papo firme. Annie deu o mais sutil dos sorrisos. Armin, porém, não pode deixar de notar como Mikasa ficou rígida ao observar a interação entre os dois.
Sasha soltou um gritinho de comemoração ao ficar pareada com Marco. Mikasa só foi sorteada no final, sendo pareada com Jean Kirstein. Foi interessante observar a reação dela e de Eren. Armin viu Marco dando um empurrão brincalhão em Jean e ele dando um sorriso condescendente ao amigo. Mikasa sequer se virou para trás, manteve-se impassível. Eren, assim como Armin, virou-se para trás e viu a reação de Jean. Virou-se para frente rapidamente e tentou manter a expressão neutra. Armin, que o conhecia, sabia que ele estava incomodado. Eren e Jean tinham começado com o pé esquerdo, sim, mas se tornaram bons amigos. Porém, era óbvio que Jean gostava de Mikasa. Embora ela não parecesse sequer notar os sentimentos dele, Eren certamente percebia. E certamente não gostava ou aprovava, apesar de nunca ter falado nada contra.
Armin não pôde deixar de imaginar as repercussões dessas duplas. Afinal, suspeitava que Mikasa também tinha ciúmes de Annie. Quase certeza. Mikasa não era tão fácil de ler quanto Eren, mas ainda assim dava para perceber esse tipo de coisa. Ao menos para Armin, que a conhece tão bem.
“Muito bem, senhores”, disse Gunther. “Graças à presença da senhorita Ral no canto da sala, os olhos em vocês serão dobrados. Se vocês olharem para a prova de alguém além da sua dupla, levarão um zero. Quero que vocês fiquem apenas com lápis, borracha e calculadora em cima da mesa. Entendido?”
“Sim, senhor”, responderam algumas vozes, Armin incluso.
“Eu quero que aqui na frente se sente o senhor Arlert e o senhor Kefka. O senhor Bott e a senhorita Kline ficarão na primeira carteira da segunda fileira e a fileira do canto ficará com os senhores Zeramuski e Freudenberg na parte da frente”, ele disse. Logo, a turma estava toda arrumada. Eren e Annie sentaram nas últimas carteiras da fileira mais distante do professor. Ele parecia confiante e falava algo com a parceira, mas Armin não conseguia ver a reação dela de onde ele estava, mas ela parecia atenta as suas palavras. Jean e Mikasa estavam sentados atrás de Armin.
“Estudou, Mikasa?”, perguntou Jean, visivelmente nervoso. Poderia ser nervosismo por causa da prova, mas Armin arriscava dizer que este não era o motivo.
“Estudei”, Mikasa disse brandamente. “Álgebra é fácil”.
Jean deu um riso nervoso. “Bem, então essa prova em dupla é um pequeno milagre, porque eu estudei pra caramba e acho que não sei nada”.
“Eu não vou te carregar nas costas”.
“Ei, eu prometo que sou leve”, ele disse. Mikasa deu uma risadinha e Jean pareceu ficar bastante satisfeito. “Mas falando sério, eu estudei feito um louco e não estava muito confiante não. Estava torcendo para ser dupla com o Armin, mas ei, você é a segunda melhor opção”.
“Segunda melhor opção?”, Mikasa arquejou uma sobrancelha. “Você tem um jeito engraçado de elogiar para quem precisa ser carregado nas costas”.
“Além disso, Marco é a segunda melhor opção”, adicionou Armin. Mikasa lhe deu um tapa leve no ombro do amigo.
“Bem, todos estão em seus devidos lugares?” Franz deu um leve cutucão em Armin para chamar sua atenção antes do professor Gunther começar a falar. “Eu vou distribuir as provas. A regra é a mesma de sempre: desenvolvimento e cálculos podem ficar de lápis. Resposta final de caneta. E sejam organizados na hora de desenvolver a questão para que eu possa entender o que vocês estão fazendo em cada pergunta. Mesmo se a resposta estiver incorreta, pode ser que o desenvolvimento esteja correto e vocês ganhem alguns décimos. Silêncio e boa prova”.
O professor Gunther começou a distribuir as folhas para os seus alunos, começando por Armin e Franz. Armin assinou seu nome e passou para Franz assinar também. Como Armin tinha a letra mais feia dos dois, deixou que Franz copiasse a prova inteira. Em menos de meia hora, já tinham terminado tudo. “É impressão minha ou estava fácil demais?”, ele perguntou.
“Estava fácil”. Os dois foram os primeiros a terminar e esperaram na porta da quadra de basquete. O primeiro a aparecer foi Marco, mas ele não estava acompanhado de sua parceira, Ruth D. Kline.
“Como você foi, Marco?”, Franz perguntou, após checar o horário no celular. Certamente, estava ansioso para que Hannah terminasse a sua prova. Armin gostava dos dois, mas esperava que Eren e Mikasa não ficassem tão pegajosos quando finalmente ficassem juntos.
“Bem”, ele admitiu. “Mas eu fiz a prova quase toda sozinho”.
“Você fez com quem?”
“Ruth”.
“Quem?”
“Ruth Kline, que costuma sentar no canto com as outras meninas. Acho que elas não gostam de se misturar muito”.
“Não faço ideia de quem seja”, admitiu Franz. “Talvez Hannah saiba"
Os três compararam as respostas de suas provas. Apenas se Armin estivesse muito enganado, ele certamente tiraria a nota máxima na prova. Ficou no aguardo para saber como Eren e Mikasa haviam se saído, mas também esperou por Connie. Se ele fosse bem naquela prova, ficaria numa situação muito mais tranquila em relação a sua média final.
Aos poucos, seus amigos foram aparecendo. Todos pareciam bem animados com a prova. Gunther era um professor que cobrava bastante, de fato, mas que era muito capaz. Logo, Mikasa apareceu com Jean. Era estranho vê-la sem Eren. Mais estranho ainda era vê-la confortável sem Eren. Armin sorriu quando a viu falando com Jean e rindo de alguma coisa que ele dissera. Ela era uma boa pessoa que demorava a confiar em alguém, mas naquele ano ela havia progredido imensamente.
“Como foi?”, Armin perguntou quando ela se aproximou.
“Moleza”, ela disse. “Só demoramos mais porque esse daí” – ela apontou para Jean – “fez uma série de garranchos na prova e eu tive que apagar e reescrever quase tudo em uma letra legível”.
“Ei, não estava tão ruim assim”, protestou Jean.
“Jean, nem você entendeu os números que você escreveu no exercício cinco”.
“É que eu escrevo em hieróglifos”, ele disse, olhando de lado para observar a reação de Mikasa. Ficou visivelmente mais confiante quando ela riu de sua piada. “Mas você viu como acabou que eu não fui um peso morto? Eu saberia fazer quase um terço da prova”.
“Sério?”, Armin perguntou, incrédulo. Apenas um terço?
“Não, eu sabia tudo”, Jean admitiu. “Eu acho que só estava nervoso antes da prova e com um pouco de pânico”. Depois, Jean e Mikasa compararam brevemente as respostas com Armin – todas checavam. Armin já tinha certeza absoluta que iria tirar um dez.
Connie apareceu um pouco depois, um dos últimos a sair, junto com Krista. Pelo largo sorriso dele, a prova estava fácil. “Só tive dificuldade na primeira, mas a Krista conseguiu fazer essa”. Armin e Mikasa perguntaram quem estava faltando para terminar a prova. Eren era um aluno com boas notas, mas às vezes se deixava relaxar. Os dois estavam ansiosos para saber do amigo. “Faltam... Gordon e Hannah; aquela menina que eu não sei o nome e Samuel; e Eren e Annie”.
“Espero que o Eren se saia bem”, Mikasa disse baixinho, de modo que apenas Armin a escutou.
“Fica tranquila”, Armin fez um gesto desconsiderando que havia alguma chance dele ir mal. Hannah apareceu logo em seguida e, pouco antes do sinal bater, apareceu Samuel. Os dois lamentaram terem ido mal na prova. Armin considerou a possibilidade de mandar uma mensagem de texto para o amigo, mas acho melhor não. Poderia desconcentrá-lo. Além disso, Gunther poderia achar que ele estava colando.
Quando o sinal bateu, Armin já estava preocupado. Não era possível que Eren estivesse com tantas dificuldades naquela prova! Mesmo se estivesse, Annie era uma boa aluna. Certamente os dois juntos não teriam problemas. Armin olhou para Mikasa e ela disse: “talvez ele tenha ido direto para a aula do professor Pixis”.
Dito e feito. Quando chegaram na sala, o professor Dot estava apagando seu quadro enquanto Eren conversava com Annie, que estava sentada atrás dele. Ele tinha uma mochila e um estojo guardando lugar para Armin e Mikasa, um na carteira ao seu lado e o outro na sua frente. Armin sentou-se do seu lado, mas Mikasa passou direto e se sentou no outro lado de Armin, um pouco longe de Eren.
“Mikasa, ei”, ele chamou, confuso. “Eu guardei seu lugar”.
“Ah, eu estou bem aqui, Eren. Obrigada”, ela disse. Pela expressão de Eren, ele parecia mais perdido que caroço de azeitona na boca de banguela, como Hannes costumava dizer. Annie olhou de esguelha para Mikasa, que permanecia estoica, olhando para frente.
Armin, desta vez, não podia deixar de simpatizar com Eren – Mikasa era quem estava agindo irracionalmente. Desta vez. Pensou nas ocasiões em que eles tiveram pequenas brigas. Nunca algo muito sério, verdade.
Quando tinham seis ou sete anos, Eren empurrou um menino que estava conversando com Mikasa na escola. Isso já fora antes da tragédia que viria a moldar tão sombriamente a vida dos dois. Mikasa ajudou o menino a se levantar e então Eren puxou seu cabelo. Mikasa então lhe deu um empurrão. A professora, cujo nome fugiu para sempre da memória de Armin, fez os três se conciliarem. Segundo o que a tia Carla contara, Eren apertou a mão do garoto sem nem olhar para o seu rosto, mas dera um abraço apertado em Mikasa. A mãe de Eren era uma que costumava dizer que Mikasa se tornaria sua nora. Porém... bem, pensar naquilo deixava Armin triste. Que saudades da tia Carla...
Lembrou-se então de um caso que ele viu, de verdade. Pouco depois de Armin se mudar para a casa dos Yeager, os três estavam andando da escola. Eren e Armin mais a frente, com Mikasa os seguindo de uma pequena distância. Quando passaram em frente ao bar, um homem assobiou para Mikasa e lhe disse coisas não muito próprias. Mikasa não devia ter mais de onze anos. Armin viu Eren partir como um raio. Ele puxou Mikasa para trás de si e começou a xingar o homem. O problema é que o homem estava bêbado e era um grande filho da puta. Ele se ofendeu e ameaçou bater em Eren, colocando os três para correr. Ao contar a história para o pai de Eren, Grisha se alarmou e foi até o bar. Armin até hoje não sabe o que aconteceu exatamente então, mas nunca mais vira o sujeito pelo bairro. A mãe de Eren, porém, deu uma bronca daquelas no filho. “Um dia desses, você se mete numa confusão terrível e morre esfaqueado. Aí eu e Mikasa choramos sobre o seu corpo”.
“Mãe!”, Eren protestara impaciente. Carla gostava de dramatizar todas as situações, admitidamente.
Também se lembrou da vez que os três foram no cinema. Isso já fora depois de se mudar para a casa do Hannes. Eles estavam tentando se distrair dos terríveis acontecimentos recentes até que Eren fora até o banheiro, deixando Mikasa e Armin sozinhos. Quando ele voltou, os dois eram chamados para serem atendidos.
“Ah, é o primeiro encontro do casal?”, perguntara a moça do caixa, com um sorriso simpático. Armin demorara alguns segundos para notar que ela se referia aos dois. Antes que ele pudesse corrigi-la, escutou a voz de Eren por trás deles.
“Eles não são namorados!”, Eren quase gritara. “Somos só amigos!”, insistira. Então percebera que sua reação foi muito brusca e adicionou mais baixinho. “Só amigos...”
A caixa olhou alarmada para Mikasa e Armin. Mikasa estava corada e Armin estava se divertindo com a situação. Eren estava com ciúmes dele com Mikasa. Era hilário, na verdade. “Então tá”, ela disse, ao receber o dinheiro de Mikasa e começar a imprimir os ingressos dos três.
Algumas vezes esses ataques de ciúmes geravam discussões e brigas, mas nada muito sério chegou a acontecer alguma vez. Até então.
Claro, Mikasa também era capaz de agir por impulso em nome do Eren. Prova A: o modo como ela se comportava porque Eren conversou com Annie depois da prova e não com ela. Armin suspeitava que Annie gostava de Eren também. Era razoável acreditar que Mikasa tivesse percebido a mesma coisa. Porém, Eren era completamente abstraído quanto a isto.
Armin procurou se lembrar de outras situações em que Mikasa deixara seu ciúme transparecer. Lembrou-se da vez em que Eren, na sua festa de aniversário de... cinco anos? Quatro? Bem, os pais de Eren o fizeram tirar uma foto recebendo cada presente de cada convidado. Uma menina se aproximou de Eren e o abraçou na hora de tirar a foto. Mikasa correu para entregar o seu presente na mesma hora. Embora fosse pequeno, Armin realmente se lembrava daquele momento. Além disso, o tio Grisha filmara tudo. Desde que os pais de Eren morreram, nunca mais viram aqueles vídeos caseiros.
“Psiu”, Armin chamou Mikasa. “Algo de errado?”
“Não”, ela respondeu. Fria como uma geleira. Armin deu com os ombros e decidiu esquecer. Logo os dois esqueceriam também.
Ou ao menos ele pensou assim.
Inicialmente, tudo deu certo. Antes de terminar a aula de ciências políticas, Mikasa já voltou a falar com Eren depois que terminaram o exercício sobre os diversos modelos eleitorais postos à prova. Ela riu das piadas do amigo e, se permanecia chateada com ele ou Annie, não transpareceu.
Porém, quando a turma foi liberada para o almoço... Mikasa e Armin saíram com Eren, Annie e Reiner. Ao passar pela porta, Eren casualmente botou a mão no ombro de Annie e meio que passou a mão pelo braço da loira. Armin sabia que era um gesto inocente, casual. Apenas para que Annie passasse primeiro, já que estavam lado a lado. Mikasa, entretanto... Armin a ouviu respirar mais fundo.
Os dois passaram o resto do dia sem se falar. Na hora do almoço, Mikasa se sentou com Jean e Marco. E ela pareceu extremamente receptiva as piadas do primeiro. Armin não deixou de notar que Eren estava lívido com a cena. Ele tentou disfarçar e manter conversa com Annie, Reiner e Bertolt, mas Armin – que permanecia quieto – percebia que ele a olhava a cada risada que ela dava.
Os dois não sentaram juntos nas aulas de geografia, artes e história. Sem querer pegar lados, Armin se sentou na aula de artes perto de Mikasa e na aula de história perto de Eren. Na aula de geografia, apenas sentou entre Marlowe e Boris, distante dos dois tolinhos.
Armin se sentiu desconfortável demais. Nunca antes eles brigaram por algo tão bobo e a mágoa durou tanto tempo. Pensou se o papel dele seria intervir e finalmente fazer com que os dois percebessem que só tinham olhos um para os outros. Porém, quando tentou começar uma conversa com Mikasa, só recebeu respostas frias e curtas. Ela sequer fazia questão de olhá-lo, como se fosse culpa dele que Annie fosse interessada em Eren.
Melhor do que a reação de Eren, que lhe deu respostas rudes e impacientes. Armin se lembrou do poema que leram de Robert Frost. Eren era intenso como um incêndio, uma explosão. Mikasa era fria como uma nevasca, uma geleira. E, de algum modo, os dois combinavam perfeitamente.
No ônibus de volta para casa, Armin entrou rápido para pegar o lugar de sempre dos três e os chamou audivelmente, de modo que eles foram forçados a sentarem juntos. Porém, Eren empurrou Armin para o meio. Geralmente, era o moreno quem sentava entre os dois. E eles foram em silêncio durante toda a viagem, com Eren fingindo ouvir algo no fone de ouvido do celular e Mikasa fingindo que mexia no seu telefone. Armin estava começando a ficar impaciente.
Ao chegar no ponto de descida, Armin testemunhou uma das ações mais mesquinhas que os dois já fizeram. Ao saírem pelo ônibus, enquanto se despediam dos amigos que ainda não haviam descido, Mikasa deu uma meia-parada em frente a Jean. “Tchau, Jean”, ela disse, passando a mão de leve no seu ombro. A expressão de Eren foi assustadora e Armin pensou que o amigo fosse pular e atacar Jean. Até mesmo Jean e Marlowe – que estava ao lado – pareceram se assustar. Eren, porém, nada fez.
Até que chegaram na porta. Annie estava sentada lá, quieta. Armin percebeu que Eren iria fazer algo antes mesmo dele fazer. Ele virou para Annie e disse: “ei, Annie, eu te vejo amanhã, certo?”. E lhe deu uma piscadela. Mikasa virou para trás bem a tempo de ver a ação. Armin apenas balançou a cabeça, decepcionado com os dois. Bem que seu avô já falara sobre o que ele chamava de o lado feio do amor.
“Pequeno Armin”, uma vez o velho Artlert dissera. “Amar outra mulher é algo poderoso. O amor é uma força poderosa. Fazem pessoas se superarem, melhorarem e ficarem mais fortes. Mas também faz as pessoas agirem egoistamente, mesquinhamente e como idiotas. Já vi homens fazendo loucuras por uma mulher e se arruinando por causa disso. Já vi mulheres aceitarem absurdos do seu marido. Lembre-se disso, rapaz. Até o amor tem seu lado feio”.
Na época, Armin achou o discurso do avô meio fora do lugar. Ele já estava com a saúde debilitada na época. Agora, porém, Armin percebia que aquilo fazia muito sentido. O loiro estava quase com vontade de gritar com os dois amigos.
Ao chegarem em casa, encontraram Hannes sentado no sofá, esperando-os. “Então, crianças, como foi a escola hoje? E a prova de hoje?” Mikasa e Eren não responderam. Cada um foi para o seu quarto, batendo a porta depois de entrarem. Hannes olhou para Armin, confuso. “Estava difícil?”
“Não”, Armin colocou sua mochila no braço do sofá. “Eles estão com ciúmes um do outro e não estão se falando”.
“Ciúmes?”, Hannes pareceu desconcertado por um instante, mas então desatou a rir. “Eles conseguem ter a primeira briga do casal antes de serem um casal. Impressionante”. Armin balançou a cabeça em concordância, mas sem vontade de rir.
“Idiotas”, resmungou.
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