Sobre amor, amizade e confiança
5 Interlúdio (um pouquinho de estudo)
Notas iniciais
Armin ajudava Connie. Depois do almoço às quintas, eles tinham o único tempo vago da semana. Geralmente, Armin usava esse tempo para adiantar algum exercício, ler seja lá qual livro Levi tenha passado para a quinzena ou apenas conversar com os amigos. Agora, ele explicava para Connie o básico de equações de primeiro grau e o ajudava a se lembrar das fórmulas para área e perímetro de figuras geométricas bidimensionais.
Armin não ligava, porém. Sentia-se feliz por ser útil. Embora Eren tivesse um jeito de cabeça de vento, ele era no mínimo um aluno competente quando tinha foco. Mikasa, então, Armin sinceramente achava que ela era boa em tudo que já havia tentado. ‘Menos se declarar para o Eren’, pensou amargamente, ‘embora possa se argumentar que ela ainda não tenha tentado’. Então nenhum dos dois vinha precisando de muita ajuda com os deveres.
Connie pedira ajuda mais cedo, depois que Gunther entregou os resultados de um exame que valia nota. Na verdade, fora ideia de Sasha. Armin, Eren e Mikasa se sentaram nas mesas que eles costumavam dividir desde que se enturmaram. As mochilas da maioria já estavam lá, guardando lugar, mas apenas Connie, Sasha e Mina Carolina haviam chegado. Sasha quase sempre era a primeira a chegar à fila do almoço.
“Connie, aproveita e pergunta para o Armin agora!”, Sasha dissera. Connie estava encabulado e chateado, passando o garfo casualmente na comida, sem realmente comê-la.
“Perguntar o quê?”, Armin devolvera com curiosidade.
“Eu... Hã.... Nada...”, ele dissera baixinho. Geralmente, Connie era um dos mais barulhentos, sempre na alma da conversa, como dizia Levi.
“Como assim nada? A gente estava falando sobre isso agora? Vai amarelar?”
“Amarelar? Não é isso, Sasha...”
“Então o que é?”
“É que... é meio humilhante, sabe? Ter que pedir ajuda por ser burro demais para entender a matéria”, ele dissera, com desgosto transparecendo na voz.
“Ei, isso não é humilhação nenhuma”, Mina intervira. “Aliás, eu acho que é muito digno da sua parte querer buscar alguém para te ajudar estudar”.
“Obrigado, Mina. E você não é burro”, Sasha adicionara. “Todo mundo tem dificuldade para alguma coisa”.
“Do que vocês estão falando, exatamente?”, Eren indagara.
“Connie precisa de ajuda em matemática”, Sasha explicara enquanto Connie se mantivera em silêncio. “Ele recebeu as notas daquele trabalho de álgebra e não foram nada boas”.
“Ei, cara, se liga”, Eren encorajara. “O Armin é um excelente professor e me ajuda direto. Ele e Mikasa. Se eu ficasse com vergonha de pedir ajuda para estudar, acho que já teria largado a escola”. Ele deu um empurrão leve com o ombro em Mikasa e depois em Armin. O loiro apenas sorriu, lisonjeado. Mikasa lhe deu um tapinha no ombro.
“Se você quiser, hoje tem o tempo vago depois do almoço e a gente pode ir para a biblioteca dar uma estudada”, Armin ofereceu.
“Ei, você não se importaria?”, Connie perguntou. A gratidão óbvia em seus olhos.
“Claro que não”, Armin dissera. E, de fato, lá estavam os dois.
Armin começou refazendo com ele cada um dos exercícios que Gunther passara no último trabalho. Connie parecia entender o conceito básico de funções, mas tinha dificuldades em ler os gráficos. Em geometria, o problema era menor – apenas não decorara as fórmulas direito. Além disso, Armin percebera, ele era muito desorganizado na hora de resolver um problema matemático.
“Aqui, você precisa arrumar melhor suas informações. Olhe esse exercício aqui, por exemplo. Ele diz que quer descobrir o valor ‘a’ e ‘b’ de uma função de primeiro grau e apenas dá duas informações. Diz que quando o valor de ‘x’ é igual a quatro, o valor de ‘y’ é igual a um negativo. E diz que o valor de ‘y’ será igual a um positivo quando o valor de ‘x’ for igual a oito”, Armin disse. Pausou e olhou para Connie. “Certo?”
Connie demorou um pouco para responder, relendo o enunciado da questão. Apenas depois confirmou. “S-sim, é isso mesmo”.
“O que você faz primeiro, então?”
“Um gráfico?”, arriscou.
“Não é necessário nessa. A primeira é organizar os valores que você conhece. Veja só como eu faço”, disse Armin, começando a escrever. “Ele dá dois pontos, certo? Quando ‘x’ for igual a quatro e igual a oito. Então vamos chamar esses pontos de P1 e P2”.
Armin então anotou:
P1 = (4, -1)
P2 = (8, 1)
a = ?
b = ?
ax + b = y
“Essas são as informações que a gente tem”, Armin repetiu. “Os dois pontos que nos são dados, que procuramos os valores de ‘a’ e ‘b’ que o problema nos pede e a fórmula da equação de primeiro grau que a gente já sabe. Certo até aqui?”
“Certo”, ele disse com confiança.
“Então a gente tem dois números que a gente não conhece e dois pontos. Então é daí que a gente trabalha”, Armin prosseguiu. “O valor de ‘x’ e ‘y’ são variáveis enquanto ‘a’ e ‘b’ são fixos. Então se a gente substituir o valor dos pontos duas vezes, a gente chega em duas equações, entendeu?”
“Acho que sim”.
“Então substitui aí e confere”, Armin lhe entregou a caneta. Connie a segurou incerto e lentamente começou a escrever.
“Assim?”, ele perguntou. Armin conferiu.
4a + b = -1
8a + b = 1
“Isso”, Armin disse excitado. “Agora é só resolver o sistema”. Connie deu um sorriso quase infantil diante de sua conquista e prosseguiu.
8a + b = 1
—4a — b = 1
4a = 2
Ele olhou para Armin, procurando uma confirmação de que estava fazendo tudo certo. Ele usara o método da subtração. Pegou uma equação e subtraiu por outra, eliminando assim o valor de ‘b’ e deixando o caminho livre para achar o valor de ‘a’. Depois era só substituir ‘a’ em uma delas e achar ‘b’. Armin confirmou com cabeça, orgulho.
“Então o valor de ‘a’ é meio e o valor de ‘b’ é... três? Não, espera aí. Menos três. Acertei?”
“Acertou”, Armin sorriu. “Se eu fosse você, tentava fazer o exercício de forma mais organizada. Assim fica fácil de lembrar o que está acontecendo e até mesmo entender o enunciado. O jeito que você fez no trabalho é muito caótico e você acaba se perdendo. Além de dificultar para o professor corrigir...”
“Ei, essa é uma boa dica, Armin, valeu!”, ele agradeceu. Armin sorriu. Eren tinha o mesmo problema: pouca organização e muito caos.
Depois que terminaram, foram procurar os amigos, que estavam no pátio dos fundos do colégio. Eren conversava animadamente com Annie, Reiner e Bertolt, enquanto Mikasa estava junto com Krista, Sasha e Marco falando com a coordenadora pedagógica, Petra Ral. Connie foi em direção ao segundo grupo e Armin o seguiu.
“Ei, Connie, como foi o estudo com Armin?”
“Hardcore”, Connie disse, fazendo um sinal de joia.
“Estudando?”, Petra perguntou.
“Armin estava ajudando Connie com exercícios de matemática, senhorita Ral”, explicou Mikasa. “Eles estavam na biblioteca”.
“Está com problemas em matemática, senhor Springer?”, perguntou Petra, que começara a folhear as folhas presas numa prancheta discretamente. Armin ainda achava engraçadas as formalidades entre os professores e alunos daquele colégio. Entre si, os alunos costumavam a se referir aos professores pelo primeiro nome ou por apelidos. Mas, na relação entre alunos e professores, eram sempre senhor ou senhora.
“Sim, mas o Armin disse que vai me ajudar”, ele confirmou.
“Ah, muito gentil de sua parte, senhor Arlert”, Petra sorriu. “Bem que os professores estavam me dizendo que essa era uma turma bastante unida”.
“Os professores disseram isso?”, perguntou Sasha.
“Mencionaram uma vez ou outra”, Petra comentou. “Vocês tem até um apelido oficial, mas eu não vou dizer qual”.
“Apelido? Bom ou ruim? Pelo menos dá uma dica”.
“Neutro”, Petra sorriu enigmática. “Eles também sempre comentam sobre como há vários casais na turma, com receio de que isso possa distrair vocês em sala de aula”.
“Casais?”, Krista falou. “Vários? Acho que só Franz e a Hannah namoram”.
Armin observou atentamente a reação da senhorita Ral. “É mesmo?”, ela disse com um toque de cinismo. “Que engraçado. Quase todos os professores mencionaram ao menos mais três”.
“Quais, quais, quais?”, Sasha quase atacou a coordenadora, curiosa.
“Acho que é melhor que vocês descobrirem sozinhos”, Petra riu. “Mas, vejam bem, vocês se surpreenderiam com as coisas que os professores percebem sobre os alunos”.
“Aposto que eu sei quem é um dos casais que eles falaram”, Sasha disse, olhando com o canto de olho para Mikasa. A outra fingiu não notar, enquanto Connie e Armin seguraram o riso. Krista olhou para Sasha com reprimenda nos olhos.
“Bem, eu preciso ir”, Petra disse ao olhar no relógio. “Senhorita Blouse, senhorita Ackerman e senhor Bott, em caso de alguma dúvida vocês podem falar comigo”.
“Então”, Sasha disse, “quem vocês acham que ela se referiu com os três casais? O que acha, Mikasa?”
“Eu não sei”, Mikasa disse simplesmente. Armin riu, mas não de Mikasa. Ele tinha certeza que o outro casal referido por Petra envolvia a própria Sasha. Com Connie. “Talvez seja você e as batatas, Sasha”.
“Ahhh, essa história de novo!”, Sasha protestou enquanto os outros riam. Sasha não aguentava as zoações com a história da batata, que atingira um nível de quase mitologia entre os alunos do colégio.
Um pouco depois, o sinal tocou e a turma foi até a sala de Eld Jinn, ter uma divertida aula de filosofia. Depois, tiveram a aula de Dennis Eibringer de geografia, onde ele mandou os alunos lerem umas páginas do livro e depois responder alguns exercícios, enquanto ele mexia em seu celular.
“Mas que surpresa”, Eren resmungou baixinho. Armin era obrigado a concordar com o amigo. Depois de uma aula em que poucos alunos se deram ao trabalho de fazer os exercícios e conversaram mais entre si, era hora de ir para casa. Enquanto esperavam o ônibus, Armin se separara do grupo para beber água até ser interpelado por Sasha.
“Armin, ei”.
“Hã, algum problema, Sasha?”
“Ah, eu só queria agradecer por você ajudar o Connie. Não parece, mas ele é meio tímido com essas coisas”, ela disse. “Mas não era nem isso que eu queria te falar”.
“Oh?”
“Você é amigo de Eren e Mikasa há bastante tempo, não é?”
“Sou”, Armin disse. “Crescemos praticamente juntos”, o loiro explicou com cautela. Eles foram propositalmente vagos ao se referir ao passado do trio. Não contaram que viviam de favor com Hannes, nem das tragédias que os levaram até ali.
“Você sabe que eles se gostam, não sabe?”
“Eu...”, Armin hesitou, levemente desconcertado. Claro que ela percebeu. “Sim, qualquer um pode ver. Menos os dois, aparentemente”.
“Por que eles não ficam juntos, então? Na hora do almoço eu fiz aquelas piadas de casal com a Mikasa e acho que ela ficou chateada comigo. Mas eu não fiz na maldade. É só que... porra, é tão óbvio que um cego pode ver”.
“Relaxa, Mikasa não guarda rancor”, Armin a tranquilizou, mas depois adicionou: “por um motivo como esse”. Depois, escolheu bem as palavras para continuar. “O motivo que eles não ficaram juntos ainda é que... bem, eles são amigos há muito tempo. Acho que o salto de amizade para namoro é sempre difícil, não acha? Além disso... bem, é meio complicado, sabe? Eles passaram... por certas coisas... difíceis”.
“Entendi”, Sasha assentiu lentamente, embora sua expressão fosse de quem não tinha realmente entendido. “Dá pra ver que eles se gostam bastante”.
“É, dá pra ver mesmo”, Armin concordou, mal reconhecendo a imensa tristeza que saía em sua voz. Se ao menos as circunstâncias fossem diferentes... Eren e Mikasa poderiam ter uma vida mais normal. Juntos.
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