Sobre amor, amizade e confiança

11 Re: Ymir (ou Krista, o padre, a mulher cega e ventríloquo)


Notas iniciais
(vamos fingir que parte deste capítulo não é quase autobiográfico rs)

Ymir estava sentada com Krista, Reiner, Bertolt, Marco e Ruth. Era aula de sociologia com Nile Dok, o Sinistro, mas naquele dia em particular eles não fizeram muita coisa. Ele separou a turma em grupos de seis e passou um trabalho na semana anterior. Naquele dia, deixou todo mundo sentar junto para adiantar o trabalho. Por sorte, Marco era do seu grupo. Seu relatório sobre Durkheim estava praticamente pronto.

O problema era que aquilo deixava todos eles livres para conversar. Ruth era do grupo de garotas que não costumava se entrosar muito com a turma, então mexia no seu celular sem realmente participar da conversa. O problema era que Marco, Reiner e Bertolt estavam praticamente comendo Krista viva. Ela contava uma história sobre uma viagem que fizera com o pai durante o verão e como ficaram presos no elevador com um ventríloquo, uma mulher cega e um padre. Parecia um começo de uma piada. Os rapazes estavam atentos a história da loira. Krista não percebia os efeitos que ela causava nas pessoas em volta dela.

Ymir olhou com raiva para os três após eles rirem de uma piada dela. Sabia que estava sendo injusta com eles. O trio não tinha culpa de se sentir atraído por Krista. Afinal, se aquilo fosse um crime, Ymir também seria presa. Porém... era tão fácil para eles. Reiner poderia muito bem virar para Krista e chama-la para sair e os dois namorarem, casarem e terem filhos. Ymir não poderia fazer o mesmo.

Era muito difícil ser gay quando se é adolescente. Ymir só se descobriu homossexual quando conheceu Krista. Ela nem pensava em algo romântico na época, só tinha dez anos. Percebeu que só queria ficar perto da amiga. Logo, Mina e Sasha começaram a falar dos meninos da sala de um jeito diferente. Foi quando Ymir notou. O modo que elas falavam dos meninos da sala era igual ao modo que ela pensava de Krista.

Ymir tentou se afastar. Ela pensou que aquilo não era normal, que ela era uma aberração. Seus pais sentiriam vergonha se soubesse. Ela era uma pecadora. Uma pessoa ruim. Krista, porém, estranhou e tentava se aproximar. Ymir acabou ficando agressiva. Respondia aos amigos de maneira rude. Metera-se em briga com os colegas de escola.

Eventualmente, ela não aguentava mais manter segredo. Precisava contar para alguém, uma pessoa que fosse. Sequer cogitou contar algo para Krista, porém. Não aguentaria uma rejeição dela. Não contaria para nenhuma amiga também. Tinha medo de ficar sozinha. Seus pais? Nem fodendo. Pensou em contar para algum professor. Mas quem?

Decidiu, então, contar para Nanaba. Ela não era uma professora, mas servia. Ela era quase como uma psicóloga para os alunos, assim como Petra. Ymir escolheu Nanaba por assumir que ela também fosse... lésbica. Na época, até pensar na palavra ‘lésbica’ causava estranheza e desconforto. Isto fora no ano anterior. Curiosamente, ela depois descobriu que Nanaba tinha um namorado, Gelgar. Ele também trabalhava na escola como pedagogo.

Nanaba, porém, foi bastante compreensiva. Fez Ymir se sentir como uma pessoa normal. Assegurou que era comum que adolescentes se descobrissem naquela fase e que não era algo errado. “Eu já vi dezenas de adolescentes sentados aí onde você está sentada”, ela dissera, “com as mesmas preocupações. Ymir, eu te garanto, amar não é errado”.

Aquilo foi quando? Em algum momento do ano anterior?

Ymir passou a conversar frequentemente com ela. A garota começou a entender mais de sua sexualidade. Descobriu que não existe apenas ser gay ou hétero, o mundo não era somente preto e branco. Afinal, uma vez ou outra ela já se pegou apreciando a aparência de Reiner ou Eren. Além de frequentemente notar as outras meninas da sala, como Hitch ou Sandra. Algo normal para adolescentes, Nanaba afirmou, apenas que no caso de Ymir (e muitos outros) a maioria das pessoas que ela se sentia atraída eram meninas.

Ymir se sentia em paz nesse aspecto. Aprendeu a aceitar que ela não era heterossexual. Não era fácil, claro, mas já fez progressos. Ninguém da escola sabia além de Nanaba, embora alguns certamente desconfiassem. Ela já ouviu algumas piadas. Seus pais já sabiam e foram surpreendentemente gentis quando ela contou tudo. Ymir tinha muitas queixas dos seus pais, mas ao menos eles o aceitaram. “Guria, a gente já sabia quando você tinha cinco anos”, seu pai lhe dissera.

O que realmente partia seu coração era não poder ser franca sobre seus sentimentos por Krista. Com ninguém, nem com ela. Ela gostaria de poder ficar de mãos dadas com ela. De ir para o cinema como um casal em vez de um grande grupo de amigos. De poder beijá-la. Ymir nunca beijara ninguém.

Krista já beijou um rapaz.

Ymir voltou sua atenção à história da amiga. “Então a gente descobriu que o elevador já estava funcionando fazia quinze minutos”, Krista disse, resultando em diversas risadas de Marco, Reiner e Bert. Reiner escondia o rosto, tentando não rir alto. Marco parecia quase chorar de tanto rir. Bert era um pouco mais discreto. Ymir começou a rir também, embora já conhecesse a história.

“Eu vou te falar algo, Krista, se você tivesse inventado isso não teria sido tão bizarro”, Marco comentou. Krista também ria, de modo que apenas balançou a cabeça concordando.

“Espero que vocês tenham terminado”, disse a voz do Sinistro por trás de Ymir. Ela se virou rápido, alarmada. “Porque eu estava vendo vocês e, sinto em dizer, sociologia não é tão divertida como vocês estão fazendo parecer”.

“A gente adiantou tudo durante a semana, professor”, Reiner disse, com voz formal. “O Marco aqui não deixou ninguém protelar, sabe como ele é, não é?”

“Espero que isso não signifique que ele fez todo o trabalho, porque eu sou bom em descobrir essas coisas”.

“Não, todo mundo ajudou”, Marco disse. “Cada um pesquisou uma parte e a gente já juntou tudo. Só falta o Bertolt dar uma revisada no trabalho, mas está no pen drive dele”.

“Ah, muito bem. Aguardo ansioso pelas suas apresentações”, Nile disse, virando-se para o grupo em que Eren, Jean e Connie discutiam sobre citações aparentemente contraditórias nos livros em que eles liam.

“Cara, ele é realmente um professor assustador”, sussurrou Marco após ele se afastar. “Sinistro é um apelido perfeito para ele”.

“Sinistro?”, Ruth perguntou, tirando os olhos do celular.

“É”, Reiner explicou. “Nós colocamos apelidos para todos os professores. Foi durante uma aula de geografia particularmente preguiçosa”.

“Ahem”, disse Ymir. “Se eu me lembro bem da história, tudo começou quando eu, Nac Tias e Eren estávamos comparando o professor Shadis com um personagem do cinema”.

“Sim, mas a gente só fez a lista de apelidos completa depois, na aula do Pimentinha”, Reiner concluiu com um sorriso honesto.

“Por falar em aula de geografia”, Marco olhou para seu relógio de pulso, “o sinal bate em cinco minutos”.

“Vai ser um saco”, sacramentou Reiner. Dito e feito. Logo no começo da aula, Dennis começou a passar matéria no quadro e não parou de escrever e falar até quase o fim da aula. Ymir era acostumada a copiar rápido, então logo depois terminou de colocar tudo em seu caderno. Olhou para os lados enquanto estalava seus dedos, todos pareciam concentrados em copiar. Pegou o celular e casualmente mandou uma mensagem para Krista.

[Eu quase sinto saudades de quando ele era preguiçoso]

Krista tirou o celular de seu estojo e olhou a mensagem. Seus olhos procuraram os de Ymir e a loira sorriu. Ela tinha o sorriso mais lindo que Ymir já vira. Oh, como ela queria que aquele sorriso lhe pertencesse! Como ela queria tocar aqueles lábios com os seus! Mas a vida não era assim, tão fácil. Infelizmente.

[Pediu? Agora aguenta rs], foi o que a sua amada respondeu. Ymir suspirou. Era ruim não poder abrir o jogo para ela, sim. Mas de todas as pessoas que ela poderia amar, homens ou mulheres, ela não trocaria Krista por ninguém. Por ninguém.

Notas finais
É estranho, teve momentos que "Krista" (vamos chamá-la assim) e Ymir me irritaram muito no mangá. Ymir tomou uma decisão incompreensível para mim e Krista se mostrou bem egoísta em alguns momento, sem que ninguém a chamasse atenção por isso. Ainda assim, amo as duas juntas. Não é todo dia que tem um casal lésbico que não é apenas fanservice.