Notas iniciais
Neste capítulo há uma personagem que Erwin fala sobre, mas ela é inventada. Precisava de alguém para encaixar ali e ninguém no canon servia.

Erwin olhou fixamente para a tela do seu celular. A pergunta em sua cabeça era se devia ligar ou não. O número do telefone na tela era da sua ex-mulher. Numa mão estava o celular, na outra havia uma taça de vinho vazia. Suspirou pesada e vagarosamente. Jogou o celular para a outra ponta do sofá e cuidadosamente colocou a taça de vinha sob o porta-copo em cima da mesa. Levantou-se e foi dormir.

No dia seguinte, sequer teve tempo para remoer suas ações da noite anterior. Chegou ao colégio cedo, onde se reuniu com Petra, Nanaba e os outros da equipe pedagógica. Haviam conversado sobre como resolver a questão de Dennis, que estava agindo de maneira antiprofissional, pelo que ele investigou. Decidiu não levar a questão até o diretor Zackly, pois certamente isso resultaria na demissão de Eibringer. O professor já havia sido competente no passado. Poderia voltar a ser com o empurrão certo.

Petra, Nanaba, Keiji e os outros fariam inspeções nas aulas. Assistiriam do fundo da sala e tomariam notas sobre o desempenho de cada professor. Levi, que inicialmente sugerira a demissão por justa causa de Eibringer, foi quem veio com a ideia depois que Erwin recusou a demiti-lo.

“Eu ainda acho que você devia demiti-lo, mas confio no seu julgamento”, Levi dissera. “Se você acha que ele merece uma segunda chance... bem, você já acertou sobre isso no passado. Então eu tenho outra ideia: e se Petra e os outros fizessem inspeções regulares nas salas de aulas? Talvez ele perceba a pressão e volte aos eixos. Mas, é claro, vocês precisariam fazer inspeções regulares com outros professores também”.

“Não é uma má ideia”, disse Nanaba, “mesmo sem toda essa situação do professor Eibringer. Ao menos tranquilizaria a associação dos pais dos alunos”.

Erwin massageou sua têmpora. “Não me fale. Zackly insistiu que eles precisavam saber da questão de Eren Yeager e Mikasa Ackerman e desde então eles não param de querer me dizer como eu devo fazer meu trabalho”.

“Além disso, uma pressão leve é saudável ao ambiente de trabalho”, Levi disse indiferentemente. “Embora alguns professores possam não compartilhar minha opinião sobre o assunto”.

“Arrisco dizer que a maioria não vai compartilhar sua opinião”, Erwin ponderou. “Eu mesmo não sei se gosto, fica parecendo uma intromissão da coordenação”.

“Mas a ideia das inspeções vai ser colocada em prática?”

“Sim”, Erwin disse após um breve silêncio pensativo. Na posição de coordenador dos professores, sua autoridade sobre o pessoal de pedagogia (que era responsável direto pelos alunos) era razoável dentro da hierarquia da escola, porém havia certa obscuridade sobre quem mandava em quem. Com os últimos coordenadores, porém, o coordenador de professores passou a ter uma autoridade maior simplesmente pela questão da personalidade dos indivíduos. Keith, o antecessor, era um homem adepto a fazer coisas de seu jeito, enquanto Erwin era um líder natural.

“E vamos dizer o quê?”, Keiji perguntou. “Eu acho que os professores merecem receber uma satisfação, não acham?”

“Digam que a associação dos pais está cobrando isso”, Erwin falou com confiança. “O que não deixa de ser verdade. Bem, eu vou reunir os professores amanhã e dizer isso tudo a eles. Vocês também deveriam dizer o mesmo, eu sugiro, e começar a fazer essas inspeções já na quinta-feira. E procurem tomar notas com os alunos para saber se mais alguém além de Eibringer tem problemas parecidos”.

“Alguns alunos reclamam da Rico Brzenska, mas não pelo mesmo motivo”, Gelgar disse, com expressão despreocupada. “Eles reclamam que ela passa muita coisa no quadro e que é muito fria. Os alunos da turma 104 até colocaram um apelido nela, qual era mesmo, Nanaba?”

“Ricobô”, Nanaba falou um pouco desconfortável. “Ymir Valentine que me contou. Ela me disse que colocaram apelidos em todos os professores, alguns bem engraçados”.

“Alguns alunos já deixaram escapar esses apelidos para mim também”, disse Petra. “Eles chamam o Keith de Hartman, por causa daquele filme ‘Nascido para Matar’, eu imagino”. Ela deu uma breve pausa pontuada por uma leve risada. “Eu achei hilário”.

“Qual o meu?”, Erwin perguntou, interessado.

“Eu não sei”, Petra disse, com as bochechas vermelhas. “Só sei de alguns. Levi, o seu é-”.

“Leviatã”, ele disse, estoico como sempre. “Eu já os ouvi me chamando disso. É um apelido antigo, na realidade. Eu particularmente gosto, acho bem intimidador”. Todos apenas encararam Levi, como se decidissem se ele estava brincando ou falando sério. Com ele, nunca dava para saber.

“Enfim, essa é a reclamação sobre a Rico”, Gelgar disse após alguns segundos de silêncio. “Mas eu acho que eles estão apenas sendo preguiçosos”.

“Bem, eu não diria preguiçosos, mas enfim”, Erwin concluiu. “Então, vocês tomem notas. Se pegarem algo de errado, eu gostaria de participar da reunião que vocês fizerem com meu professor, se não tiver problema”.

“Sem problemas, Erwin”, Petra dissera com um sorriso.

Depois da reunião, Erwin e Levi caminhavam juntos em direção as suas respectivas salas. Levi, baixinho, olhava para cima ao falar com o amigo.

“Você quer saber qual o seu apelido?”, Levi perguntou quando chegaram à porta de sua sala. “O apelido que os alunos da 104 te colocaram, eu digo”.

“Como você sabe?”

“A Petra me contou outra, hã, noite. É meio embaraçoso, acho que ela ficou com vergonha de te dizer, mas prometo que não é algo muito pesado”.

“Então manda”.

“Sobrancelha”.

“Sobrancelha, sério?”

“Seríssimo”.

“Uau”, Erwin foi obrigado a rir. “Esse era meu apelido quando eu era uma criança”.

“Bem, parece que eles acertaram em cheio então, você realmente tem um par de sobrancelhas extraordinário”.

“Obrigado, Levi. Só lamento que seu apelido não faça referência a sua estatura, talvez sua reação a ele fosse diferente”.

“Sim, mas em vez disso eu peguei o apelido foda”, ele falou sem expressão.

“Infelizmente”, Erwin disse. “Bem, preciso ir, pequeno Ackerman”. Ele não se virou para ver a reação do amigo. Pequeno Ackerman era como alguns professores antigos se referiam a Levi quando ele era um estudante do colégio. Bem, isso e ‘delinquente’. Variava de professor para professor.

Era terça-feira, então o dia começaria com a turma do último ano avançada. Depois da turma 104, era a melhor turma que ele tinha. Naquele dia, porém, seria um teste valendo uma boa porcentagem da nota final. Erwin estava confiante de que eles iriam se sair bem. Começou a arrumar as carteiras da sua sala.

“EI, ERWIN, BOM DIA!”, gritou Hange ao passar pela sua porta. “Eu não tinha te visto hoje”.

“Eu estava em reunião com a pedagogia”, ele explicou. “Aliás, eu vou avisar mais tarde para todo mundo, mas amanhã teremos reunião antes da aula começar”, ele disse. “Depois dessa turma eu tenho tempo de coordenação até o almoço e vou passar de sala em sala entregando um papel avisando”.

“Ah, ok”, disse Hange, parecendo um pouco confusa. “E o Levi? Você o viu por acaso?”

“Ele foi para a sala dele”, Erwin disse, não querendo explicar que ele também fazia parte da reunião. Isso poderia gerar fofocas sobre favorecimento.

“Ah, certo. Ele não atende o celular, o filho da puta”, Hange disse, saindo apressadamente. Erwin ponderou por um instante porque Hange queria tanto falar com Levi. Erwin nunca entendeu exatamente qual era a relação entre os dois. Às vezes, eles pareciam tão íntimos... Porém, se fossem íntimos, qual seria a relação dele com Petra Ral?

Erwin deu com os ombros. Os três eram mais novos que Erwin, sabe-se lá como o conceito de relacionamento mudou. Ainda mais que Erwin esteve tanto tempo fora do mercado. Antes por ser casado, depois por estar amuado com o divórcio. Perguntou-se se deveria voltar a namorar. Ir aos bares, flertar com desconhecidas. Já havia perdido o jeito do negócio. Mike e Levi poderiam lhe dar algumas dicas, embora Mike recentemente tenha começado a namorar mais firme.

Porém, logo após pensar isso, Erwin se sentiu culpado. Ele ainda amava sua ex-mulher. Ele ainda estava disposto a perdoa-la. Era só ela pedir desculpas e Erwin a aceitaria de braços aberto. Ameaçou a pegar seu telefone celular no bolso, tentado a ligá-la mais uma vez. Porém, o som do sinal interrompeu seu movimento. Logo, os alunos estariam em sala.

Sempre que se sentia tentado a ligar para sua ex-mulher, Erwin Smith achava uma desculpa para não ligar. Ontem de noite, pensara sobre como bebera vinho demais e que só arruinaria tudo se falasse com ela. Uma parte de seu cérebro sabia que ele não tinha bebido nada além do normal, mas a desculpa funcionou para aquele momento. O problema era que estava cada vez mais difícil achar uma desculpa convincente.

Notas finais
Curiosidade: inicialmente esse capítulo seria escrito na visão de Darius Zackly, inclusive essa coisa da ex-mulher. Acabei decidindo que não gostava de escrever na visão dele e mudei pro Erwin na metade do caminho, tendo que reescrever tudo de novo.