Sobre amor, amizade e confiança

9 A triste história da torturada mente de Jean Kirstein, o adolescente com rosto equino


Notas iniciais
Eu adoro como esse capítulo ficou, começando pelo título.

Chovia.

Era quarta-feira, primeiro horário, aula de química. Mike Zacharias estava usando peças de isopor para explicar cadeias carbônicas. Jean mal conseguia registrar o que o professor falava. Após algum tempo, ele se pegava olhando pela janela, olhando a chuva e fingindo estar num clipe triste de música pop.

A razão era Eren Yeager. Eles começaram com o pé esquerdo, é verdade, mas Jean admitiu que estava errado em tê-lo xingado e se desculpou. Até aí, tudo bem. Agora sempre tinha um ar meio estranho quando ele conversava com Eren, porém. Com Armin ou Mikasa, Jean nunca sentia isso.

Não que eles tenham brigado mais alguma vez. Era apenas algo que incomodava Jean. Apenas discussões normais, quase infantis, mas nada capaz de fazer nota. O modo como Eren olhava, às vezes, parecia meio... estranho. Havia algo de agressivo no olhar dele que deixava Jean desconfortável. Será que imaginava essas coisas? Achava que não.

Porém, não era isso que estava deixando Jean triste e disperso.

No começo da aula, Mike Zacharias separou a turma em grupos de quatro, dizendo que depois passaria um trabalho aos grupos, algo relacionado com as bolinhas de isopor. Jean não prestara realmente atenção à explicação do Narigudo. Mikasa e Armin, naturalmente, ficaram no grupo de Eren. Os três eram inseparáveis. Insuportavelmente inseparáveis.

Veja bem, Jean tinha uma quedinha por Mikasa. Ela era bonita e inteligente. Tinha um jeito sério, mas quando sorria era capaz de iluminar uma sala. Ela tinha um olhar forte, maduro. Belos lábios e um corpo que, bem... Deu para entender, já. Jean estivera extremamente cativado por ela desde a primeira vez que a notou, quando Eren o agarrara pelo colarinho e ela apartara a briga. E, verdade seja dita, Jean só se desculpou com Eren depois porque a garota parecera chateada na ocasião.

Jean não sabia dizer se Mikasa gostava de Eren ou não. Ele achava que não. Já ouvira seus amigos brincando dizendo que eles eram um casal, mas que ambos estavam cegos demais para ver. Jean não entendera na hora. Conversara sobre isso com Marco.

“Ackerman”, ele falara num final de semana. Marco estava na sua casa para lhe ajudar com física. “O que acha?”

“Excelente professor”, Marco respondera animado. “Consegue deixar a aula animada e participativa, sem relaxar com a matéria. Exige muito do aluno, mas ajuda todos a chegarem ao seu máximo. Eu só gostaria que ele seguisse mais o cronograma com os livros que passasse, mas enfim”.

“Não, Marco. Não o Leviatã. Mikasa Ackerman”.

“O que tem ela?”

“O que você acha dela?”

“Ela é legal. Meio calada, mas legal”, Marco então o olhara torto. “Por quê?”

“Nada”, Jean respondera rápido. Hesitou por um instante antes de continuar. “É que a gente estava falando sobre Franz e Hannah e as nossas reações quando eles disseram que estavam namorando...”

“Aquilo foi hilário”, rira Marco.

“E o Connie disse que a gente deveria fazer a mesma coisa quando Mikasa e Eren ficassem juntos. Eu estranhei, nunca tinha notado que eles pareciam um casal”.

“Você nunca notou?”, Marco perguntara abismado.

“Não. Você já?”

“Já”, Marco dissera com simplicidade. “Mas eles não namoram. Eu já perguntei ao Armin. Quando perguntei se tinha algum motivo para eles não namorarem, ele apenas deu um sorriso sem graça e disse que era complicado”.

“Entendi”, Jean dissera, tentando manter o rosto neutro.

“Você gosta da Mikasa?”, Marco perguntara. Jean não respondera, mas sabia que nem precisava. O amigo já tinha notado tudo.

Jean tentou prestar mais atenção nos dois. Talvez ele estivesse vendo o que queria ver antes da conversa com Marco, mas depois notou que realmente era muito óbvio. Ou era uma amizade absurdamente intensa, ou era um amor extremamente reprimido. E aquilo geralmente deixava Jean puto da vida.

Mas não era aquele o motivo de Jean estar olhando para chuva, chateado. O motivo era a quarta pessoa no grupo de Eren Yeager – Annie Leonhart. Ela se aproximou com rapidez dos três, deixando Bert e Reiner para trás, e se juntou ao trio. Depois, ela fora até Reiner e Bertolt, que ficaram com o próprio Jean e Marco, pedindo desculpas.

“Eu queria ficar no grupo do Armin porque estou me saindo mal em química e ele é muito bom”, ela dissera inexpressivamente. “Foi mal deixar vocês para trás”.

“Não esquenta, Annie”, Reiner sorrira calorosamente. “E nós ficamos com o Marco aqui, então a gente também se deu bem”. Ele então deu uma piscada para Marco, que sorriu sem graça.

“Bert?”, ela olhara para o rapaz, depois dele se manter em silêncio.

“Relaxa, Annie, não tem problema algum”, ele dissera, dando um sorriso tranquilizador. Annie então voltara para o seu lugar.

“Armin, né?”, Jean resmungara. “Sei”.

Jean tinha a nítida impressão que ela também estava afim de Eren. Maldito seja Yeager, Jean achava que ele sequer sabia que as garotas prestavam atenção nele. Jean já ouvira Krista, Mina e Ymir falando que Eren era, nas palavras delas, bonitinho. Até Ymir! Hitch também já falou que ele e Reiner eram os mais bonitos da sala na frente de todos. Reiner rira ruidosamente, mas Eren apenas parecera desconfortável e agradecera baixinho. As meninas das outras turmas, algumas mais novas e outras mais velhas, também gostavam dele. Jean as ouvira no corredor. O maldito sortudo!

E ninguém gostava de Jean.

Era por isso que ele estava olhando para a chuva. Jean se achava, modéstia à parte, um rapaz bonitão e charmoso. Porém, nenhuma garota tinha mostrado interesse nele. Connie já namorou uma garota antes e agora estava próximo de Sasha; Marco tem uma namorada que ele conheceu no verão – Jean já viu a foto dela no ‘Facebook’ –; Franz tinha Hannah como namorada; Reiner e Bertolt saiam com garotas mais velhas – talvez por parecerem mais velhos; e assim por diante. Apenas Jean não tinha ninguém.

Avaliando sua situação, sabia que não seria tão fácil arranjar alguém. Jean não conhecia muitas meninas da sala de aula e as da sua turma tinham situações complicadas: Mikasa, a que ele realmente gostava, só tinha olhos para Eren. Parte da vontade de Jean em arranjar uma namorada era para que se esquecesse dela e seguisse em frente. No resto... Sasha parecia gostar de Connie; Hannah namorava Franz; Mina não tinha muita proximidade com Jean; Hitch parecia se interessar apenas em rapazes mais velhos; Ruth, Sandra e as outras não se misturavam muito com o resto da turma. Assim sendo, sobravam Ymir, Krista e Annie.

Ymir assustava um pouco, então era carta fora do baralho. Krista era areia demais para o caminhãozinho de Jean, ele mesmo era obrigado a admitir (e o fato dela achar Eren bonito era apenas jogar sal na ferida). Annie era sua melhor opção. E foi Jean prestar mais atenção na loira que ele percebeu que ela se sentia atraída por Eren.

Sortezinha filha da puta.

“Talvez eu devesse chamar Krista para o cinema”, ele pensou alto, avaliando sua situação.

“Você disse algo, Jean?”, perguntou Marco, que estava absorto em suas notas no caderno.

“Esquece”.

O resto da aula se passou devagar, com Jean em um clima melancólico, distraído. Passou o almoço calado e ficou durante as aulas fingindo prestar atenção. Apenas no final do dia que voltou a falar.

“E então, Jean, você vai?”, perguntou Reiner, dando-lhe um tapinha nas costas.

“Vou? Aonde?”

“No cinema”.

“Cinema? Fazer o que lá?”

“Estudar para o teste de álgebra. Ver o filme, porra. Você vai?”

“Que filme?”

“Nossa, cara”, riu Connie. “Você tá esquisito hoje. A gente estava conversando sobre ele agora, você até acenou com a cabeça confirmando”.

“Hã, eu estava distraído”.

“Hum”, Reiner coçou o queixo. Seu sorriso era malicioso. “Acho que alguém está apaixonado”.

“Cala a boca”, Jean trocou o pé de apoio do esquerdo para o direito, enquanto colocava seus livros no armário. “Qual filme?”

“Velozes e Furiosos. Seis? Sete? Bem, um número aí, não importa qual”, respondeu Reiner. “Você vai?”

“Quem mais vai?”, Jean perguntou.

“Além de nós dois”, Reiner apontou para si e para Connie, “irão Sasha, Annie, Armin, Krista, Eren, Mikasa, Ymir... e acho que Franz e Hannah”.

“Só?”

“O resto odeia se divertir e arranjaram uma desculpa”, Reiner fez uma careta. “Você vai?”

“Acho que não”.

“Cara, se você for, terá o mesmo número de garotas e garotos”, Reiner sorriu. Connie protestou ao seu lado.

“E daí?”

“E daí que pode sobrar alguém pra você”, Reiner sorriu. “Connie vai ficar com a Sasha”.

“Cala a boca”.

“Você tem chances, Connie! Você deveria arriscar! Bem, Franz e Hannah já são um casal se eles forem. Eren e Mikasa quase são. Fica sobrando eu, você e o Armin para a Annie, Ymir e Krista”.

Jean sabia que era estúpido, mas mesmo assim ficou interessado. “E quem ficaria com quem?”

Reiner sorriu, sabendo que Jean já estava garantido. “A gente vê na hora. Eu me disponho a ficar com quem sobrar, mas se eu pudesse escolher, eu iria ficar com a Ymir”.

“Ymir? Por quê?”

“Eu sou alto, ela é alta... Sei lá, acho que dá jogo. Embora a Krista seja admitidamente uma princesa da Disney”.

“Bem, eu precisaria de um banquinho para olhar nos olhos da Ymir”, Connie riu. “Mas vocês ficam falando isso e no fim ninguém vai ficar com ninguém. Talvez só Franz e Hannah”.

“Ei, tudo pode acontecer”, Reiner disse. “Então, você vai, Jean?”

“Eu só vou mandar uma mensagem para minha mãe e partir”, ele disse, muito mais animado do que no resto do dia. O grupo se encontrou em frente à escola, onde foram à pé até o shopping. Franz e Hannah decidiram não ir ao cinema, de modo que os dez foram andando em um grande grupo.

Jean tentou puxar papo com Krista desajeitadamente. Ela era muito educada, de modo que a conversa acabou fluindo, embora Ymir insistisse em caçoar de Jean por ele ter tropeçado e quase caído no caminho.

Antes de irem ao cinema, decidiram lanchar juntos. Foi aí que a coisa degringolou.

Jean não vira acontecer, mas pelo que ele entendeu foi o seguinte. Eren, Ymir e Krista escolheram lanchar no ‘Subway’ e foram para a fila. Lá, um grupo de rapazes mexeu com Krista. Agressivamente. Ymir explicara que alguém até a agarrou pelo pulso enquanto dizia obscenidades. E, quando perceberam, Eren e Ymir já estavam partindo para cima.

Pouco depois, Jean aguardava na sala de espera da segurança do shopping, enquanto Eren e Ymir estavam lá dentro falando com os guardas de segurança. O outro grupo correu quando viram os seguranças se aproximarem, não antes de levarem alguns sopapos de Eren e Ymir. Jean pode ver os dois no final da briga e, sinceramente, ele não sabia dizer quem dava mais medo dos dois.

“Eu vou te contar, ele adora se meter em confusão”, Mikasa bufou.

“Ele estava indo tão bem...”, lamentou Armin.

“Vocês estão falando do Eren?”, Krista perguntou, com a voz frágil. “Não foi culpa dele, eu já expliquei. Não foi ele que começou. Os caras que foram imbecis. Disseram um monte de absurdo para mim”.

“Mas o Eren não precisava chegar metendo porrada”, Armin insistiu. “Agora os caras fugiram e o Eren que está encrencado”. Armin abaixou a cabeça e passou a mão no rosto. “Imagina quando a gente chegar em casa...”

“Bem, eu não acho que a violência seja a resposta, mas me sinto agradecida por Eren e Ymir estarem lá”.

“Krista, mesmo assim”, Mikasa interferiu. “O Eren tem a mania de resolver os problemas dele do jeito menos... diplomático”.

“Bem, pelo que a Krista disse, se eu estivesse lá... Eu faria a mesma coisa”, disse Connie, que estava no canto com os braços cruzados.

“Você partiria para a briga?”, Sasha perguntou incrédula.

“Eu também”, Reiner respondeu. “Não é querendo fingir ser um cavaleiro numa armadura de ouro e nem nada, mas esses caras passaram do limite. Paciência e conversa só resolve até um certo ponto. Nós, homens, achamos que podemos falar qualquer coisa para as mulheres. E mesmo assim, a gente tem treze anos! Falar essas coisas para uma menina de treze anos é bem doentio”.

“Então é bom que vocês não estivessem perto, porque senão também estariam com problemas”, Sasha concluiu. Jean grunhiu. Ele não sabia o que faria, não era exatamente a pessoa mais corajosa do mundo.

Um pouco depois, saíram Ymir e Eren. Os dois deram um sorriso discreto para o grupo, enquanto um segurança extremamente alto os acompanhava.

“E então?”, Mikasa se levantara.

“Bem, seus amigos não terão problemas, mas por pura sorte. Conhecemos o grupo que assediou a senhorita Lenz, não é a primeira vez que aprontam. Duvidamos que eles prestem queixa, mas se o fizerem, eu quero que me procurem. Mas, na próxima vez, chamem um segurança e se afastem deles, entendido?”

O grupo agradeceu o segurança e saíram da sala rapidamente, como se estivessem com medo de que ele mudasse de ideia. Eren e Ymir começaram a detalhar como foi a conversa com os seguranças. Jean já sabia qual seria o assunto mais falado na escola no dia seguinte.

“Você pode tirar esse seu sorrisinho do rosto, Eren”, Mikasa ralhou. “Você poderia ter se metido num problema sério, sabia? E se eles prestarem queixa?”

“Ou vocês dois poderiam ter se machucado”, Sasha adicionou. “Eles poderiam ser perigosos”.

“Aqueles babacas? Pfff...”, Ymir fez um gesto de desprezo.

“Talvez eles fossem perigosos. Mas eu”, Eren então abaixou o tom de sua voz, “sou mais”. Jean arregalou os olhos. Algo no modo que ele falara aquilo lhe arrepiara. Lembrou-se do incidente no corredor, onde Eren o agarrara pelo colarinho. Começara a pensar que escapara de levar uma surra daquelas. Olhou enviesado para Eren, que levou um tapinha displicente de Mikasa no ombro.

Depois foram assistir o filme, mas ninguém ficou com ninguém. Jean, porém, não ficou amuado com isto ao menos daquela vez. Seus pensamentos ficaram em Eren Yeager e no que seja lá que ele realmente era.

Odiava admitir, mas temia o colega.

Notas finais
Ser mulher não é fácil. Desde quando eu era nova até hoje, eu já ouvi cada absurdo... Enfim... Eu particularmente não gosto muito do Jean, especialmente no começo (lá pelo capítulo 40 e pouco do mangá ele começa a ficar menos chato pra mim). Então, eu me esforcei para que ele não ficasse como saco de pancadas, mas ainda mantendo esse aspecto de perdedor que eu acho que ele tem.