Sobre a Armadura
12 O Primeiro Amanhecer Juntos
O amanhecer chegou sem pressa, como se o mundo também precisasse de tempo para aprender a existir depois da guerra.
A luz entrou suavemente pelo quarto, desenhando sombras longas nas paredes de pedra. A noite fora tranquila, interrompida apenas pela respiração calma do cavaleiro e pelo som distante do castelo a despertar. Pela primeira vez em muitos dias, não houve dor a acordá-lo.
Ela estava sentada perto da janela, envolta num manto claro, os cabelos soltos. Observava o céu a mudar de cor, do cinzento profundo para tons suaves de ouro pálido. Não se apercebeu de imediato de que ele acordara.
— Nunca gostei tanto do silêncio — disse ele, quebrando-o com uma voz ainda rouca, mas firme.
Ela virou-se, surpreendida, e sorriu.
— Nem eu — respondeu. — Antes, parecia sempre uma espera. Agora… é descanso.
Ele apoiou-se nos cotovelos, ainda com cuidado. O corpo continuava frágil, mas havia algo novo na forma como se movia — menos peso, menos medo.
— Pensei muito durante estas noites — disse ele. — Sobre quem sou quando não estou a lutar.
Ela aproximou-se da cama, sentando-se ao seu lado.
— E descobriste?
— Que sou mais do que uma armadura — respondeu. — E que quero escolher o que vem a seguir.
Ela baixou o olhar por um instante, sentindo o coração acelerar.
— Eu também — confessou. — Passei a vida a ser preparada para papéis que não escolhi. Pela primeira vez, quero decidir por mim.
Ele estendeu a mão, hesitante, dando-lhe espaço para recuar se quisesse. Ela não recuou. Pousou a sua mão na dele, firme.
— Não sei o que o futuro nos pede — disse ele. — Só sei o que desejo.
— Então começamos por aí — respondeu ela.
Não houve promessas grandiosas. Apenas a aceitação tranquila de que o caminho seria partilhado enquanto fosse possível. O primeiro toque mais demorado, o primeiro gesto que não precisava de ser escondido.
Lá fora, o castelo despertava por completo. Passos ecoavam nos corredores, vozes misturavam-se no pátio. O mundo seguia.
Mas ali, naquele quarto, algo tinha mudado.
Ela levantou-se e abriu a janela. O ar da manhã entrou fresco, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e da vida a recomeçar.
— É um novo dia — disse, com um sorriso contido.
Ele observou-a, sentindo algo que não se assemelhava à vitória nem à glória.
— E estamos aqui para o viver.
O sol subiu lentamente, iluminando-os por inteiro. Não como princesa e cavaleiro, não como dever e sacrifício, mas como duas pessoas que tinham sobrevivido ao silêncio, à guerra e a si próprias.
E naquele primeiro amanhecer juntos, souberam que, pela primeira vez, o futuro não lhes era imposto.
Era escolhido.
Fale com o autor