Sobre a Armadura
4 A Marca
A primeira vez que viu a marca foi por acaso.
Não devia ter acontecido. Nada naquele percurso devia permitir desvios, nem distrações. Ainda assim, foi a febre que quebrou a rotina, silenciosa e implacável. A princesa adoecera durante a noite, e pela manhã mal conseguia manter-se de pé. As damas agitavam-se em murmúrios aflitos, incapazes de decidir o que fazer sem ordens claras.
Ele aproximou-se apenas quando lhe foi pedido.
Ajudou-a a sentar-se junto ao fogo, com movimentos cuidadosos, como se o corpo dela fosse feito de algo frágil demais para existir fora do protocolo. Ela tremia, o rosto pálido, os lábios cerrados numa tentativa vã de manter controlo.
— Não é nada — disse, quando percebeu o olhar dele. — Já passa.
Não acreditou.
Quando lhe ofereceu água, a mão dela escorregou do copo, os dedos fracos demais para o segurar. Foi nesse momento, ao ampará-la instintivamente, que o manto se afastou ligeiramente.
E a marca revelou-se.
Cortava-lhe o rosto desde a têmpora até à linha do maxilar, uma cicatriz antiga, clara contra a pele. Não era recente. Não era violenta. Era permanente. Um traço que não tentava esconder o que fora, mas que o mundo insistia em lembrar-lhe.
Ele desviou o olhar de imediato. Não por repulsa. Por respeito.
— Peço desculpa — murmurou ela, quase num reflexo, como se a presença da cicatriz exigisse desculpas.
A palavra atingiu-o com mais força do que qualquer golpe.
— Não tens de pedir — respondeu, a voz mais firme do que sentia.
Ela ficou em silêncio. Depois, riu-se brevemente, um som sem alegria.
— Sempre me dizem isso — confessou. — Mas continuam a olhar.
Ele ergueu os olhos devagar, encontrando os dela.
— Eu não.
Era verdade. Não precisava de esforço. A cicatriz não lhe mudava o rosto. Mudava apenas a história que os outros insistiam em escrever por cima dela.
Mais tarde, quando a febre baixou e as damas se afastaram, ela falou sem o encarar, como se estivesse a falar consigo própria.
— Foi quando era criança. Um acidente. Disseram que sobrevivi por milagre. O meu pai nunca gostou de milagres incompletos.
Ele sentiu a raiva subir-lhe pelo peito, quente e súbita. Conteve-a. O dever ensinara-lhe isso.
— Ainda assim, tornas-te princesa — disse, sabendo que a frase soava vazia.
— Tornei-me um problema — corrigiu ela. — Algo que precisava de ser resolvido.
O silêncio voltou a instalar-se, mas diferente. Não pesado. Partilhado.
Quando a ajudou a levantar-se, fê-lo com mais cuidado do que antes. Não por causa da febre, mas porque agora sabia o que aquela marca carregava. Não era apenas uma cicatriz. Era uma sentença silenciosa.
Nessa noite, ao montar a guarda, percebeu que algo tinha mudado. A armadura parecia-lhe mais justa, como se o aço tivesse aprendido a pressionar exactamente onde doía.
A marca não estava no rosto dela.
Estava na forma como o mundo a tinha ensinado a pedir desculpa por existir.
E, sem o dizer a ninguém, ele decidiu que, enquanto fosse possível, ninguém lhe faria pedir perdão outra vez.
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