Sobre Ruivas e Loiros

3 Capítulo três: o fim do começo


Notas iniciais
Faaala aí, povo bonito, aqui quem fala é a Male- NÃO, PERA JSKASJAKSA Meus chuchus, como vão vocês? Bem? Mal? Horríveis e sofrendo por causa desse calor dos infernos? (quem está assim também levanta a mão). Aqui em São Paulo tá fazendo um calor devastador, minha gente, cês não fazem ideia ;-; Primeiro de tudo, quero agradecer imensamente à Sarinha pela recomendação maravilhosa! Obrigada, querida, fiquei super feliz por ela, haha! *w* Segundo, tô meio bolada ainda com o fim de GG, aí vem o fim de SRL, aí não dá, né? çuç Enfim, tô com muitos projetos divertidos em mente, não vejo a hora de mostrá-los a vocês, haha! xD Este capítulo está um amorzinho, devo dizer. Pedro está uma delicinha nele, HAHAH! Espero mesmo que vocês curtam, Boa Leitura!

"Na minha memória — tão congestionada — e no meu coração — tão cheio de marcas e poços — você ocupa um dos lugares mais bonitos."

– Caio Fernando de Abreu

Katrina sentou-se com as pernas cruzadas na escada de mármore de sua escola. Acomodou-se num cantinho, sozinha, desembrulhando do papel alumínio seu humilde lanchinho de queijo, alface e presunto. Ela tinha a mania irritante de tiras as bordas do pão enquanto comia, pousando-as em cima do papel esticado em suas pernas, para comê-las depois de ter devorado o pão.

O que a garota não percebia era que estava sendo observada. Quero dizer, observada ela sempre estava. Sua aparência era um imã para pensamentos depravados, os cabelos fogo em brasa sempre chamativos demais, atraindo olhares até dos mais castos. Seus olhos estreitos e sempre atentos a lembravam um felino, prontos para devorar quem ousasse se aproximar.

Mas, naquela ocasião, a garota não era olhada com luxúria, como era olhada semana passada pelo ‘bonitão do colégio’ — que foi, inesperadamente falando, rejeitado na frente de uma plateia gloriosa; Katrina não era do tipo que se interessava pelos acéfalos nojentos que só se interessavam em tê-la como um troféu. Era olhada com ciúme, inveja e fúria.

Amanda não conseguia entender como uma garota tão sádica atraía a atenção tão facilmente sem ao menos falar. Katrina Dias era uma grande pedra no seu sapato; era a etiqueta que coçava, o grande incômodo eterno de sua vida. Já cansou-se de pensar em diferentes formas para conseguir chamar mais atenção que ela.

Pintou algumas mechas de vermelho, já esnobou três garotos do time de futebol, já até mesmo colocara meias em seus sutiãs! Mas nada — nadinha! — dera resultado. Não conseguia ser tão agressiva quanto ela, suas amigas eram importantes demais a ela para simplesmente largá-las por um simples chamar de atenção.

Estava cansada de Katrina Dias. Estava cansada daquela expressão impassível, das respostas sempre certas nas aulas de matemática, dos sorrisos debochados e superiores que dava quando vencia com um chocolate os treinos de queima. Estava cansada dela. Can-sa-da.

Queria que a garota sumisse, desaparecesse, evaporasse no ar como fumaça, deixando seu caminho lindo e cheio de vida livre.

O ódio de Amanda por Katrina era, no mínimo, bizarro. Ambas nunca trocaram uma única palavra. Na realidade, a ruiva achava-a normal. Uma garota com sonhos tolos, vivendo alto, louca por atenção. Mas não é como se ela tivesse algo contra, na realidade — muitas pessoas eram assim. Por isso estranhou muito quando Amanda sentou-se ao seu lado na escada.

Ergueu uma sobrancelha, mastigando lentamente a casca do pãozinho, encarando a garota como se ela fosse uma doença contagiosa. Amanda aproximou-se, invadindo o espaço pessoal da megera, que não gostou nada da ideia.

– O que você quer? — Perguntou ríspida, cortante, ácida.

– Você tá se achando demais ultimamente, não? — Amanda sorriu, perversa.

Katrina olhou-a como se a garota fosse um pedaço de queijo suíço gigante cumprimentando-a. Não evitou; era tão ridícula aquela situação: sempre estava na dela, evitou bofetear a cara das pessoas até agora… Não achava motivos bons o suficiente para a garota pensar isso dela de fato. Decidiu ignorar a situação com um grande sorriso cínico.

– Não falo com loucas — respondeu-a, levantando-se da escada enquanto amassava o papel alumínio, pronta para encaminhar-se ao lixo e jogá-lo ali.

Mas fora impedida de seguir por uma mão precisa, segurando-a pelo cotovelo.

– Eu ouvi boatos sobre você, Katrina Dias — disse Amanda com orgulho de suas palavras, um humor sádico, pronta para ferir com sentenças. — Só porque não é mais virgem, pensa que pode vangloriar-se disso e pisar nos outros! Você não passa de uma putinha barata…

Katrina inspirou fundo, disposta a ignorá-la. “Ela não sabe de nada.” pensou com firmeza, tentando se convencer disso. Forçou o braço, olhando-a com aquelas orbes de lince por cima do ombro. Mas Amanda não estava disposta a deixá-la ir.

– Igual a sua mãe… — Terminou, um sorriso convencido nascendo nos lábios rosados.

Dizer aquilo era a mesma coisa que se jogar em frente a Hitler e alegar ser judeu. A ruiva virou-se num movimento rápido, assustando Amanda, que foi prensada fortemente contra a parede, soltando uma lamúria de dor ao ter sua cabeça chocada tão fortemente aos tijolos. Katrina nem a deu chances de dizer uma palavra quando suas mãos finas, delgadas, porém fortíssimas, beirando ao maciço, circundaram o pescoço alvo da garota com brusquidão.

Foi um caos total. As pessoas que presenciavam a cena gritaram em ajuda, em principal as cúmplices de Amanda, seus rostos estampando o choque. Katrina só forçava a apertava mais e mais o pescoço da garota, que já enxergava embaçado, revirando os olhos, os dedos inutilmente tentando agarrar-se às mãos de aço da ruiva.

– Vai, mexe essa boca, despeja esse ódio sem noção! — Gritou, pensamentos homicidas escorrendo em seu sangue. — Me xinga agora! Quero ouvir esse seu discurso imundo! Esse seu discurso sem nexo, sem provas! — Apertou mais suas mãos, já sentindo pessoas atrás de si.

Foi afastada abruptamente de Amanda, que caiu de joelhos na escada, as costas apoiando-se à parede, envolvendo suas próprias mãos ao pescoço, respirando com dificuldade e alívio, sentindo lágrimas brotarem de seus olhos. Ela pensou que iria morrer — de verdade. Começou a chorar desesperadamente em seguida, tapando a boca, sendo envolvida pelos abraços de suas amigas, que olhavam com medo para Katrina.

A ruiva estava sendo segurada por um monitor, que praticamente lutava com ela para podê-la manter parada. A coordenadora veio ao pátio praticamente correndo, encarando aquela cena com descrença. Ao ver as marcas de dedos no pescoço de Amanda, seu rosto se tornou mais vermelho que os fios de Katrina.

– O que estava pensando?! — Ela ralhou, gritando como uma desesperada. — Em matá-la?

– E SE FOSSE?! — Urrou, a voz grave, imponente, enchendo o pátio, que, antes cheio de burburinhos, calou-se. Todos estavam com os olhos pregados naquela figura assombrosa. A garota praticamente disse que poderia matá-la assim, sem desculpas. Até a coordenadora assustou-se com o tom de voz usado e na expressão homicida da garota.

– V-Você… — A coordenadora perdeu o fio da meada, dando um passo para trás. Mas, ao perceber que ela não a feriria, endireitou a postura, tentando mostrar-se relevante. — Direção, agora. — Decidiu que a melhor maneira de acabar com aquilo seria na presença da diretora.

Katrina suspirou, extremamente decepcionada consigo mesma. “Era para eu estar fora de problemas, ficar na minha… E não estrangular uma garota num pátio lotado… Sua idiota, por que não deixou para fazer isso num local mais reservado?” pensou, levemente arrependida, sua expressão mudando drasticamente.

As pessoas em volta encaravam aquilo de diferentes formas. Uns tinham as pernas bambas, principalmente os pobres nerds, indefesos. Aquela garota tinha o fator de batalha nível doze, o mais alto de todos, ponderaram. Alguns outros ficavam embasbacados, sem reações. Outros não se importavam. E alguns poucos… No máximo três… Achavam aquilo um máximo. Amavam uma treta verdadeira, com direito a sangue e morte.

Katrina apenas respirou fundo ao ser levada pelas escadas, só querendo deitar em sua cama e nunca mais se levantar.

*

Pedro e Derek entraram numa lojinha que vendia dispositivos eletrônicos. O moreno precisava de fones novos, já que um lado do seu parara de funcionar — odiava com todas as forças quando isso acontecia e se recusava a escutar daquela maneira.

Voltavam da escola, cansados e suados, como sempre saíam naquele verão infernal. Derek tirara sua camiseta, deixando-a sobre o ombro; se a vendedora se incomodasse de alguma forma (o que nunca iria acontecer, sejamos sinceros; nem uma moça de vinte e sete anos tatuada e com cara de nervosa resiste a um “tanquinho” jovem e suado), iria colocá-la sem contestar.

Pedro esperou o moreno pagar pelos fones da marca desejada antes de sair da lojinha, ambos andando lado a lado.

– Aaah, agora sim! — Derek exclamou com animação, enfiando seu novo xodó na mochila. — Ninguém merece ouvir com apenas cinquenta por cento da potência a maravilha que é “música” — disse sonhador.

Pedro não prestou muita atenção; estava lembrando-se do episódio há quatro dias, quando socou um garoto na escola e levou sua primeira punição. Suspirou, sentindo um grande aperto no peito. Então isso era amor não correspondido… Tinha vontade de se enfiar no quarto e ler poesias depressivas.

– Eu sou grande idiota… — Resmungou para si mesmo. Derek olhou-o por um instante.

– Diga-me o que te aflige — inquiriu, poético.

Pedro decidiu, então, parar de andar e olhar para Derek. O italiano estava numa grande confusão mental, sentimental e física.

– Por que as pessoas gastam tanto tempo de suas vidas gostando de quem não gostam delas? — Perguntou de repente, coçando a cabeça. — Por que elas se dão ao trabalho de serem corroídas por dentro por este sentimento de rejeição? Por que as pessoas que amam não conseguem parar de pensar na pessoa amada? Por que eu estou me dando ao trabalho de amar uma garota tão… — Ele não conseguia achar uma palavra para definir Katrina Dias. — INDEFINÍVEL?!– Extravasou, ali no meio da rua, carros passando e encarando o jovem louco que gritava. — Por que, Derek? — Ele agarrou os ombros escorregadios do amigo.

Derek estava com um pouco de vergonha alheia. Encarou aquelas orbes contaminadas por adrenalina. Olhou rapidamente para os lados, com medo de responder e levar uma bofetada.

– Hã… — Começou, pedindo ajuda ao seu lado poeta (que era mais requisitado para escolher suas cantadas). — Talvez porque… Uhm, essas pessoas tenham achado um motivo no qual lutar, mesmo sabendo que sairiam feridas em batalha — disse. — Você é um bom exemplo. Não me disse que as pessoas que mais negam aproximação são as que mais precisam? Talvez você tenha lido a alma dela, ou visto algum ponto bom naquela víbora de três cabeças… — Grunhiu a última parte, duvidando de suas próprias palavras.

Mas aquilo pareceu ter aliviado o estresse mental de Pedro, que relaxou os ombros e encarou o amigo com orgulho, como se duvidasse que Derek pudesse dizer coisas tão legais.

– Você está certo… — Suspirou, dando tapinhas no ombro do amigo.

Começaram a andar novamente, desta vez falando sobre coisas aleatórias que adolescentes de quinze anos falariam. Quando viraram uma quadra, Pedro notou uma certa aproximação. Virou a cabeça rápido, deparando-se com um cara meio estranho. Provavelmente era alguns anos mais velho, o cabelo castanho, curtinho e espetado; vestia uma camiseta cinza, jeans pretos e óculos escuros. Era do tipo de pessoa que não queria chamar atenção.

Pedro voltou-se para frente outra vez, notando que dois rapazes do mesmo estilo saíam de um beco, acompanhando-os com o olhar e começando a segui-los.

– Mas que… — Derek também havia notado. Olhou para trás, receoso, vendo aqueles três caras esquisitos seguindo-os. Aquela parte do caminho era terrivelmente deserta, tendo pouco comércio. — Seria uma boa se corrêssemos — sussurrou, parando de andar abruptamente junto com o italiano.

Dois homens, obviamente muito mais velhos, estavam parados no caminho, encarando-os. Eles também tinham o mesmo naipe que os três atrás deles. Vestiam camisetas claras e calças escuras, discretos. Pedro e Derek estavam encurralados. O loiro apertou com força a alça de sua mochila, olhando para trás repetidas vezes, pronto para socar alguém caso necessário.

– Queremos passar — Derek começou a dizer, encarando com as sobrancelhas juntas os rapazes a frente. Eles sorriram, amistosos.

– Um dos garotos viu você lutar há um tempo — um homem disse, aproximando-se de Pedro e dando tapinhas sutis no ombro dele. — Tem um ótimo soco de direita. — Elogiou, erguendo as sobrancelhas. — E você, eu suponho… — Ele apontou para Derek. — Não é você quem faz muay thai?

O moreno se entreolhou com Pedro; parara de fazer esse tipo de atividade há muito tempo, simplesmente por preguiça. Era muito trabalhoso ter de tomar dois banhos ao dia por conta do suor. Mas não é como se aquilo interessasse àquele cara que nunca vira antes na vida.

E, na realidade, não se lembrava de contar a mais alguém além de Pedro que exercia esse tipo de atividade.

O homem a frente deles tocou o ombro de cada um, arreganhando mais ainda seu sorriso amistoso.

– Vocês não me parecem o tipo de garotos que ficam muito tempo sem nada para fazer! — Exclamou, olhando-os com orgulho. — Ouvi dizer que está tendo problemas com garotas, Pedro… Escute, o que está acontecendo é que você pensa demais… Talvez, dar um tempo ao tempo é ideal… Que tal, vocês, garotos, juntarem-se a nós?

Derek afastou-se com brusquidão, olhando-o quase ácido.

– Escute, só queremos passar– ralhou, tricando os dentes. — Não queremos nos juntar a você-sei-lá-quem e sua boyband.

O homem riu, divertindo-se com a falta de respeito do garoto. Se soubesse quem ele era e o que ele já havia feito, provavelmente colocaria o rabinho entre as pernas e correria para bem longe.

– É claro, que falta de respeito a minha… — Ele estendeu a mão para Derek — sou Thiago, três anos mais velho que vocês, garotos… Escutem, a minha “boyband” está bem fraca ultimamente… Precisamos de garotos cheios de energia para gastar e pensamentos para esquecer como vocês– decidiu apontar para eles quando viu que o moreno não iria apertar sua mão.

Pedro tinha uma má impressão sobre aquele cara. Sua voz era mansa, melodiosa e simpática. Mas tinha uma coisa muito errada sobre ele. Entreolhou Derek, que tinha o mesmo pensamento estampado em eu rosto agressivo, de sobrancelhas apertadas.

– Só queremos passar — o italiano reforçou a ideia, tomando um passo a frente. O homem de fala mansa ergueu uma sobrancelha, percebendo que naquele momento, não iria conseguir novos betas para seu “grupo”. Eles estavam realmente sendo ameaçados ultimamente, nada como bons jovenzinhos cheios de energia e com um bons socos para ajudá-los a resolver o problema.

Mas ele sabia que aquele papo sempre dava certo. Mais cedo ou mais tarde iria encontrar novamente com Pedro e Derek e, quando o fizesse, iria tê-los em sua boyband.

– Tudo bem — cedeu, dando passos ao lado e sinalizando para que um de seus companheiros também fosse para o lado. Sorriu quando os garotos começaram a andar, receosos — nos vemos por aí, Pedro e Derek… — Despediu-se.

Ambos começaram a andar rápido, se entreolhando às vezes, perguntando-se internamente o que diabos acabara de acontecer. Quando viraram uma esquina, já corriam como loucos.

Chegaram à casa do italiano completamente acabados, apoiando-se à parede, ofegantes. Pedro não tinha coragem nem para abrir a porta.

– O… O que você acha… — Começou, a respiração pesada. — Que eram… Aqueles caras?

– Pessoas que… — Derek começou a responder, o corpo mole por causa da corrida, sentando-se, acabado. — Deveríamos… Evitar… — Terminou, passando o braço na testa umedecida. — Abre… Essa porta, pelo am- — nem terminou de dizer quando o italiano tirou coragens de um lugar próximo a Nárnia e abriu a porta, fazendo o moreno cair para trás, as costas batendo no piso gelado dos Marconni. — Ai — exclamou desgostoso, ficando naquela posição por um tempo, observando Pedro jogar sua mochila no chão e começar a subir as escadas.

Pedro sentia-se como um cocô. Precisava urgentemente de um banho para, principalmente, livrar-se dos pensamentos que nublavam sua cabeça. “Você precisa dar um tempo ao tempo” lembrou-se, mordendo os lábios quase que recriminando-se por se recordar, retirando sua camiseta ensopa de suor e jogando-a num canto do quarto. Entrou ao saltos no banheiro, chutando para longe seus tênis e tentando retirar a calça que grudava. “Precisamos de garotos cheios de energia para gastar e pensamentos para esquecer”.

“Esquecer… É exatamente isso o que eu preciso fazer neste instante!” pensou, ligando o chuveiro e entrando de cabeça, logo arrependendo-se amargamente ao sentir a água gélida escorrendo por seu corpo.

*

Serena Dias gemeu de dor pela décima vez em quinze minutos. Estava deitada em posição fetal no sofá, a mão pressionada contra o abdome, sentindo cólicas devastadoras rasgando-lhe os órgãos. Suspirou em alívio ao ouvir a voz de seu filhote ao entrar em casa, erguendo a cabeça para observá-la por cima do encosto do sofá.

Mas logo bateu as vistas naquela expressão que Katrina sempre fazia quando havia feito algum tipo de merda. Gemeu outra vez, desta vez de desgosto quando a filha lhe mostrou o papel rosa. Afundou a cara no sofá, não acreditando que Katrina levara uma suspensão.

– Quantos dias? — Perguntou aborrecida, sem forças para aplicar aquele sermão.

– Cinco — resmungou. Ficara feliz internamente; não havia recebido gritos e nem sermões. — Algo errado? — Era estranho demais, na realidade.

– Tô com cólica — Serena respondeu, manhosa, deitando-se no sofá outra vez. — Vai tomar um banho, troca essa roupa suada e vai comprar um remedinho para a mãe, vai? — Pediu; sabia que merecia, já que Katrina havia se comportado extremamente mal. — Ah, aproveita e me traz bombons do bar do Louise. Só no bar dele tem aqueles com licor. — Falou, remexendo-se, sentindo como se seu útero estivesse sambando em meio à uma guerra sangrenta.

Katrina suspirou. Resmungou um ‘tá bom’ e marchou em direção ao seu quarto. Pegou uma calcinha limpa e uma muda de roupas, indo direto ao banheiro. O banho foi longo, retirando dela todo seu estresse acumulado no dia, suor e canseira. Saiu do banheiro sentindo-se vinte e sete mil anos mais jovem, as roupas folgadas e confortáveis causando-na uma sensação de prazer.

Pescou o dinheiro em cima da mureta, avisando a sua mãe que iria buscar o que foi mandada, recebendo permissão. O Sol ainda estava ardido aquele horário, mas enfrentou-o por uma boa causa. Atravessou a rua para andar nas sombras, não evitando e dando uma olhada na casa dos Marconni.

Os esbarrões com Pedro estavam cada vez menos frequentes, e ela agradeceu muito por isso. Só o vira uma vez em quatro dias depois do episódio do toddy. Abriu um sorriso largo com essa observação. Era bom evitá-lo.

Ela não gostava dele. “Não dele, dele, necessariamente…” devaneou, atravessando a rua imersa em pensamentos. “Talvez em sua forma como lida com as coisas. Ele é um chiclete, qual é, que pessoa é assim? Tentei afastá-lo há tempos e só agora ele vem de fato desaparecendo.” Parou na faixa de pedestres, olhando fixamente para a avenida e para a farmácia do outro lado. Por que tudo isso?

Katrina sentia, mesmo que nunca admitisse, estranha perto do chato do mercadinho. Não estranha, estranha, como se sua personalidade chegasse a mudar perto dele, e sim estranha como se cavalos pisassem em seu estômago e como se uma parte de seu cérebro apitasse “DANGER! DANGER!” quando ele aparecia.

Afastou esses pensamentos estranhos e atravessou quando o sinal apitou em verde. A farmácia não era grande coisa. Katrina nem sabia se os produtos que ali vendiam eram legais. Pediu um remédio “anti-satanás-comendo-seus-ovários” para a balconista, que logo compreendeu que era um remedinho para cólica.

A megera saiu do estabelecimento com a sacolinha verde e pequenina batendo nos joelhos. Ainda tinha que ir comprar os malditos bombons com licor. Suspirou, sentindo a pele arder. Mas, mesmo a contragosto, atravessou novamente a avenida, caminhando lentamente pela rua, subindo os degraus do bar de Louise quando finalmente chegou.

Aquele não era “O” bar, mas sempre tinha movimento. Um velhinho pelancudo tomava uma dose mais afastado da entrada, os olhos quase pulando para fora quando viu aquela moça ruivinha entrando tão desprotegidamente. Katrina sentou-se num banquinho alto com a almofada rasgada, balançando as pernocas. Botou a sacolinha em cima do balcão, batucando a madeira, pigarreando.

– Louise! — Gritou o nome do barman sem paciência. A porta que dava para um compartimento cheio de bebidas alcoólicas abriu-se de repente, o homem com barba estilo Hitler saindo de lá em passos rápidos, emocionado pela voz de seu docinho de coco.

Sorriu largamente ao ver a garota ali.

– Katrina! — Exclamou animado, pegando as mãos da garota. — Que bom lhe ver! Serena está bem? — Perguntou com um ar de preocupação.

– Na medida do possível — respondeu, dando de ombros. — Falando nisso, cê tem aqueles bombons com licor ainda?

– Claro! — Louise respondeu prontamente, largando das mãos da garota e vasculhando um pote atrás de si, retirando de lá três bombons embrulhados num plástico vermelho. — Aqui, querida, por minha conta.

Katrina sorriu, feliz por não ter que pagar. Enfiou os bombons no bolso do short de malha e acenou para o barman, recebendo um beijo indesejável na testa antes de sair do bar.

Quase teve uma síncope quando viu, no outro lado da calçada, o dono de seus pensamentos, digo, o chato do mercadinho, Pedro Marconni. O jovem estava sem camisa, o tórax brilhante por conta do suor que escorria por seu corpo. Vestia uma bermuda jeans camuflada e tinha em mãos uma pipa.

Tomara que morra de melanoma e me deixe em paz” ela grunhiu, seca e sentindo uma parte de seu corpo esquentar com a visão. Olhou em volta, à procura do vagabundo que ele chamava de amigo. Indagou-se internamente do porquê dele estar sozinho na avenida empinando uma pipa.

Afastou esses pensamentos da cabeça, dizendo a ela mesma que não se interessava, e começou a atravessar normalmente, como se nada estivesse errado. O italiano notou a presença de Katrina quando ela estava bem próxima, andando com aquela pose de rainha do mundo. Sorriu, feliz por poder vê-la tão bela como estava logo no início da tarde.

Amarrou a linha da pipa nas mãos e mordeu os lábios.

Buongiorno, bella — cumprimentou-a enquanto Katrina passava por ele, caprichando no sotaque.

A Dias parou de repente, sentindo um arrepio lhe descer a coluna. Virou-se de súbito, trincando os dentes, não querendo cumprimentá-lo. Seria tão fácil se ele fingisse que não a conhecia…

– Oi — grunhiu, não conseguindo conter a língua e acabando por dizer: — vai morrer de melanoma se estiver tão exposto ao Sol desse jeito.

Pedro ergueu as sobrancelhas, um “oh” escapando, matreiro.

– Preocupada? — Perguntou, aproximando-se.

– Quê?! — Katrina exaltou-se, massacrando-se por conta de como sua frase havia saído. — É claro que não! Por mim você poderia muito bem queimar no inferno!

Pedro soltou uma risada gostosa, realmente divertindo-se com a linha de expressão que se formou na testa da garota. Estava ali, distraído, arrumando a linha de sua pipa porque cansou-se de fazer aquilo com Derek e seu irmão caçula, Rodrigo, na pracinha ali perto. Nem mesmo o protetor solar o salvava da sensação de queimação nos ombros.

Coçou o bíceps, meio constrangido por estar seminu na frente da garota que gostava. Katrina tinha um olhar meio feroz no rosto, gotinhas de suor salpicando em seu rosto já marcado por aquelas coisinhas adoráveis que Pedro tanto gostava.

Levou um susto quando a megera, do nada, começou a andar, ignorando-o. Correu atrás dela, como um cachorrinho adestrado, balançando o rabinho animadamente. Tentou puxar assunto, perguntando se ela tinha algum tipo de mania ou, entre os risos, qualidades.

Katrina apenas respirava fundo, revirando os olhos, muda. Pararam em frente à faixa de pedestres, esperando obedientemente o sinal. A megera podia sentir os olhares femininos em cima de Pedro, e até notou algumas senhorinhas de idade secando-o ferrenhamente.

O garoto não parecia muito incomodado. Pelo contrário, parecia apreciar.

O sinal apitou em verde. Pedro começou a atravessar, distraído, pensando em o quanto o Sol podia castigar num simples dia.

Foi quando aconteceu. Um carro cinza saiu do inferno, numa velocidade extremamente acima do permitido, avançando o sinal vermelho brilhantemente. O carro buzinou, querendo o italiano fora de seu caminho. Pedro pareceu acordar de um transe quando a máquina já estava próxima demais, impossibilitando-o de sair do caminho a tempo.

Engoliu em sufoco, os olhos arregalados.

Katrina se jogou em cima do Pedro, gentil como um cavalo. Seu ombro bateu violentamente nas costas do italiano, afundando-se levemente na tez suada e avermelhada do garoto. Pedro grunhiu por alguns motivos; entre eles, de susto e de dor.

Ambos caíram com um baque surdo na calçada, o garoto recebendo todo o atrito da queda, caindo por baixo. Katrina se ergueu, rápida como um relâmpago, pegando uma pedra da calçada e atacando-a em direção ao carro.

– FILHO DA PUTA! — Urrou, mostrando o punho — MISERÁVEL! VOLTA AQUI E DEIXA EU ARRANCAR SUAS TRIPAS, FILHO DE UMA ÉGUA!

É claro que a garota se jogou por uma questão de princípios. Cansou-se de ver gente morta e com órgãos fora do corpo, vítimas de atropelamento. Não fez por ele. Fez por ela. E-L-A.

Quem gostaria de dormir com imagens tão perturbadoras na cabeça? Katrina não. E se ela tivesse a habilidade de evitar isso… Por que não?

Já Pedro não via da mesma forma… É claro, gente apaixonada gosta de criar ilusões o tempo todo. Passou os dedos pelo tórax forte e suado, sentindo o machucado ardido que se formou ali. Pensou que preferia, sem pensar duas vezes, aquele machucado do que ser atropelado. Ver a garota gritando para o carro cinza ferrenhamente, sem se importar com as crianças que passavam e ouviam aquelas imundices vindas daquela boca perfeita o fez sentir uma queimação na altura do rosto.

– Porra, Pedro! — Katrina ralhou, virando-se para ele. “Eita…” o garoto pensou, tenso. — Fica aí, deitando como uma deusa no chão, no meio da rua, corado, enquanto podia estar mandando-o tomar no cu como eu estou fazendo agora! Levanta daí! — Exigiu, resmungando.

Pedro se ligou da sua situação e dos olhares dos motoristas. Ergueu-se num pulo, limpando a bermuda, olhando em volta.

– Não estou corado, é o Sol… — Usou a desculpa mais plausível que viera a sua mente. Katrina ainda resmungava, pisando firme enquanto andava de um lado para o outro na calçada. Ela estava irada, obviamente.

Mas nem ela mesma sabia o porquê.

– Por que será que as pessoas só aparecem para atrapalhar minha vida? — Ela resmungava, irritadiça. O que ela queria era pegar a cabeça do motorista e chocá-la contra o crânio do seu vizinho idiota até eles morrerem de hemorragia. — MALDITOOO! — Urrou do nada, assustando Pedro, que deu um pulo, olhando-a de rabo de olho.

O garoto ia dizer alguma coisa, mas sua garganta ficou seca quando viu um carro cinza fazer um desvio, diminuindo a velocidade e estacionando uns cinco metros deles. Era o mesmo carro que quase o atropelou. Katrina virou-se para onde Pedro olhava, vidrado, soltando um grunhido de satisfação.

Iria acabar com a raça daquele desgraçado ali mesmo, e com os dentes!

Quando a megera deu um passo, viu a porta do máquina se abrir, revelando um moço mal encarado, de óculos escuros, alto, tatuado e com uma… Arma na mão.

Era como se os dois tivessem suas mentes ligadas por alguma força cósmica. Chegava a ser cômico, na realidade. O fato era: quando aquele monstro armado saiu do carro, ambos agarraram uma parte do corpo do outro. Pedro agarrou o cotovelo da megera, puxando-a, enquanto ela se virava, agarrando seu antebraço.

Tinham a mesma expressão no rosto: olhos arregalados e a boca aberta para gritar. Correram como leopardos esfomeados pelas ruas, um atropelando o outro, seja com pernas ou braços, mas nunca sem se desgrudarem. Katrina podia muito bem aguentar uma luta corpo a corpo, mas aguentar uma arma de fogo não dava.

Decidiu por a culpa no homem: covarde sem coração que gosta de zoar com adolescentes.

Os dois desmontaram quando chegaram na calçada da residência dos Marconni. Se sentaram, ofegantes, suados, grudentos, um pouco horrorizados (mesmo que Katrina nunca admita), na calçada, encostando suas costas no muro, quase mortos.

As pernas do garoto doíam de tantas corridas sofridas. Katrina quase caía no chão, a respiração chegava a arder. Limpou a testa com a mão, livrando o rosto dos cabelos desordenados. Fechou os olhos com força, tentando normalizar sua respiração. Os dois ficaram ali, sentadinhos lado a lado, por um bom tempo.

– Eu esqueci de te agradecer pelo o que você fez agora — Pedro iniciou a conversa, vendo Katrina olhá-lo. — Obrigado.

– Tá — ela respondeu, respirando fundo e encostando sua cabeça no muro, sem forças para se levantar. — Chama o guindaste porque sozinha eu não saio daqui.

O garoto riu, divertido. Levantou-se devagar, querendo tomar o segundo banho do dia. Ah, era tão fácil quando morava na Itália…

Esticou a mão para a garota, que aceitou-a sem muita relutância. Contrariando todas as expectativas de Pedro, Katrina Dias era pesada. Mas não simplesmente ‘pesada’, e sim “pesada para cacete”.

Isso é peso de mulher” pensou, puxando-a de uma vez só quando a primeira tentativa falhou. A garota assustou-se com a impetuosidade do puxão, dando um encontrão no italiano, que sorriu.

– Tudo bem? — Ele perguntou, rindo, quando a garota afastou-se, um pouco constrangida pelo contato.

– Sim — grunhiu em resposta, nervosa por conta da diferença de altura. A cabeça dela batia na boca dele. Mal sabia que, quando completasse dezesseis, a diferença de altura de ambos seria de cinco centímetros. — Ah, então, eu vou para casa — avisou num tom meio seco.

Surpreendentemente, nenhum deles se moveu. Pedro não largou da mão dela, encarando-a intensamente, seus olhos chegando a brilhar.

– Tudo bem — ele disse, mas, novamente, nenhum deles se mexeu. Então ele decidiu se arriscar: — você realmente bateria naquele cara? Digo, se ele fosse mais baixo, menos tatuado, menos portador de armas e menos ilegal…

Pedro quase teve uma síncope ao ouvir a risada de Katrina Dias. Aquela risada era tão perfeita, tão rara, tão causadora de batimentos cardíacos acelerados, tão linda… Pedro decidiu que poderia ouvi-la por uma eternidade, sem intervalos, se possível.

Katrina botou a mão na boca, impedindo-se de continuar a rir tão deliberadamente como estava. Por algum motivo, achou aquilo que o Pedro havia lhe dito extremamente engraçado. Retirou sua mão da dele com agilidade, sentindo seus dedos ficarem quentes com o contato.

Katrina olhou-o, desta vez mostrando uma de suas facetas até então desconhecidas para seu vizinho: sorria, amigável e um pouco constrangida.

– Tchau, Pedro — disse, ríspida; daquela vez ela se moveu, andando até sua casa rapidamente.

O garoto apenas ficou encarando-a enquanto ela se ia, incapaz de dizer alguma palavra. A única coisa que fez foi acabar por sorrir também, feliz por ter despertado em seu affair um sorriso e uma risada tão perfeitos.

Suspirou, sonhador, começando a caminhar em direção a sua própria casa.

Não irá ser fácil, afinal…” pensou, mas não desanimou nem um pouco.

Katrina Dias era alguém que valia a pena lutar.

Notas finais
Não posso dizer que isso é um fim teoricamente dito, posso? o_o É meio bug essa história! AOJAOJOAJJAJOAJOAOJ AAAH, meus anjos, uma coisa que eu esqueci de falar para vocês: o Pedro, em GG, adorava quando a Kat usava rabo-de-cavalo, certo? Se lembram disso? Enfim, eis o porquê: toda a vez que ele a vê desse jeito, ele se lembra da vez em que se conheceram, e de que foi assim que ele se apaixonou por ela *w* Fofinho, né? HAHAH! (eu deveria ter dito isso em GG, mas me esqueci completamente - tenho uma memória horrível, me processem). O.k., é isso. Obrigada, de verdade, a todos que acompanharam essa jornada! Vocês são super importantes para mim, acreditem ;) Espero que tenham gostado desse fim-começo-bug-cerebral! Qualquer errinho, por favor, me avisem! Beijos! :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!