Sobre Nós Dois
14 Inocentes
Barcelona, 19 de julho de 2016
No fim de tarde muito quente, Carlos e Lara desciam morosamente o Montejuïc, depois de visitar o parque e o castelo, apreciando a vista lá de cima. Acalorada, Lara levantou os cabelos e os prendeu, de forma improvisada. Carlos limpou o suor da testa, pegou a derradeira garrafa de água, tomou um gole, em seguida, ofereceu a ela.
— Assim, saberei de todos os seus segredos – Lara brincou, tomando um longo gole e fechando os olhos. – Deixe me ver o lado escuro do seu coração.
— Meu coração é mais puro do que as asas de um anjo – Carlos rebateu, em um tom falsamente inocente.
— Então, você não tem segredos?
Silêncio, quebrado pelo farfalhar das folhas das árvores e seus passos na calçada.
— Não.
— Um homem de alma pura e límpida, isso é realmente muito raro – Lara falou, com ironia.
— E você, o que esconde no lado sombrio do seu coração, Lara?
— O que deve permanecer nas sombras, para onde eu o empurrei, com muita determinação.
— Sendo assim, deixaremos nossos segredos onde estão, na escuridão, pois eles pertencem a outra existência.
— Será que um dia, esses nossos segredos pularão das sombras para nos assombrar.
— Tenha um pouco de fé, mulher!
Valverde, 22 de março de 2017
Já passavam dos primeiros minutos do novo dia, quando o carro de Regis se afastou, antes de Lara de entrar em casa, no entanto, ela se voltou ao ouvir o barulho de outro carro parando. Reconheceu imediatamente de quem seria. Deveria ter continuado seu trajeto, entrado em casa, trancado a porta e ido dormir, porém, fez o caminho inverso e foi em direção do veículo e bateu no vidro da janela de motorista, que abaixou, de imediato.
— O que está fazendo aqui, Ricardo? – Ela não disfarçou sua irritação.
— Só queria ver você – ele falou do mesmo jeito manso de sempre, quase sedutor.
— Você me viu a noite toda.
— Mas, não pude falar com você direito.
— Você não devia ter vindo aqui. Alguém pode vê-lo, daí surgirão fofocas dos vizinhos.
— Não tem ninguém acordado a essa hora da noite nessa cidade, podemos conversar aqui ou você vem comigo?
Lara olhou ao redor em dúvida do que fazer, mas preferia não correr um risco ainda maior, deu a volta e entrou pela porta do carona. Prontamente, Ricardo deu partida, saíram noite adentro.
— O que quer comigo, Ricardo? – Lara perguntou, depois de algum tempo em silêncio, encarando a escuridão lá fora.
— Quero ficar com você. Casar com você.
Ela riu de um jeito debochado.
— Você já é casado.
— Posso me separar.
— Isso é loucura! Eu não tenho mais 15 anos, não vou cair mais nas suas histórias. Só quero esquecer o que passou, então, por favor, me leve para casa e volte para a sua mulher.
— Eu tentei esquecer de você, mas não consegui. Sabe quantas noites rolei na cama, pensando por onde você andava, com quem estava na cama?
— Você é louco!
— Mas, também, sou paciente, vou esperar você vir a mim e se oferecer como fez antes. Então, terei a minha flor de novo, aberta só para mim.
— Por favor, me leve para casa, Ricardo – Ela estava ficando assustada com aquela conversa, mas ele deu a volta e a deixou na frente do seu portão.
— Eu estarei esperando por você, minha flor – disse, antes que ela saísse do carro.
Sozinhos na sala, depois que Joana foi para o seu quarto e Ricardo sumiu para algum lugar, Carlos e Roberta aproveitavam alguns poucos minutos de intimidade, entre beijos ardentes e carícias mais audazes, deitados no sofá.
— Podemos fugir para o seu quarto – Roberta cochichou no ouvido dele.
— Não seria prudente, pois seu pai pode aparecer a qualquer minuto – Carlos retruca no mesmo tom.
— Poderemos ser bem rápidos e silenciosos.
— E a história de você querer casar virgem e pura?
— Podemos só brincar um pouco.
Carlos não sabia o que fazer, não poderia evitar Roberta, sem despertar suspeita e botar tudo a perder, mas foi salvo do seu dilema pela chegada de Regis, que se acomodou, sem nenhum constrangimento no sofá em frente, mesmo sob o olhar feroz da prima.
— Por que não vão para o quarto? – o recém-chegado perguntou, com um ar divertido.
— Porque meu pai pode chegar a qualquer momento. Ele disse que foi dar uma volta, mas, na verdade, acho que fui fumar um daqueles charutos fedorentos lá fora.
— Acho que ele deve demorar, porque o carro dele não está na garage – Regis informou.
— Ele saiu de carro a essa hora? Ele anda muito estranho, ultimamente – Roberta observou, preocupada.
— Ele deve ter procurado alguma piranha para transar – Regis concluiu, com cinismo.
— Regis! Como pode falar isso do meu pai?!
— Por que não? Todo mundo sabe que a tia e o tio dormem separados, há muito tempo.
Roberta ficou vermelha, pronta para retrucar, quando a porta abriu e Ricardo entrou, pisando duro, sem olhar para os lados.
— Boa noite – disse de um modo seco, indo direto para o escritório e trancou a porta.
— Boa noite – respondeu o trio que ficou para trás, em uníssono.
— Pelo jeito, ele não deve ter conseguido nada – Regis sussurrou, Ricardo riu, mas, parou de imediato, diante da expressão zangada da noiva.
Dentro do escritório, Ricardo acendeu a luz do abajur sobre a mesa, pegou escolheu a pequena chave no chaveiro e abriu a primeira gaveta da escrivaninha, tirou lá de dentro um velho lençol amarelado, procurou a mancha cor de café bem no meio dele, a cheirou e beijou com devoção, passou-a no seu rosto, depois, abriu a calça.
Ao entrar, finalmente, em casa, Lara se sente esgotada, após mais uma contesta com Ricardo, se não fosse por seus pais sumiria dali e nunca mais apareceria. Vai direto para o seu quarto, troca de roupa e cumpre seu ritual de antes de dormir, quando se deita e fecha os olhos, porém, os abre ligeiro, assustada, com o toque do telefone. A sua primeira ideia foi que seria Ricardo a fim de continuar aquela conversa maluca, poderia, simplesmente, deixar tocar, mas havia o risco de acordar sua mãe, então, olhou para tela e encontrou um número desconhecido, atendeu.
— Lara, sou eu, Carlos. Eu carreguei o telefone antigo e peguei o seu número.
— Por que está ligando a essa hora?
— Porque não tive oportunidade antes.
— Eu suponho que teremos longas conversas, madrugadas, adentro no futuro.
— Será o melhor horário.
— Deve ser difícil para você, ficar sobre a vigilância constante de Ricardo.
— Isso é engraçado.
— O que é engraçado?
— Todo mundo na cidade, exceto a família, não o chama assim, apenas como Ricardo.
Carlos também notara, assim com Regis, ela precisaria se policiar no futuro.
— Acho que eu perdi esse ranço, depois de tanto tempo morando fora – ela inventou uma desculpa.
— Quando poderemos no ver, novamente?
— Quando sua noiva não estiver no seu pé.
— Acho que vai ser difícil.
— Será muito ruim para ela, quando você desistir do casamento.
— Eu sei, mas será melhor no futuro, do que viver com um homem que não a ama.
— Acho melhor irmos dormir, agora. Boa noite, Carlos.
— Boa noite, Lara.
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