Valverde, 29 de março de 2017

Lara arregalou os olhos, espantada ao ver a arma na mão da outra garota, o ar ficou preso no peito, sem acreditar no que estava acontecendo.

— O que está fazendo, Roberta? — Ela precisava pensar, ter tempo para dissuadir Roberta daquela ideia absurda.

— Você sabe muito bem o que estou fazendo, Lara? Vou acabar com toda essa história de uma vez por toda, e você faz parte dela.

— Eu não fiz nada contra você. Eu fui uma vítima do seu pai.

— Você, vítima? Não. Você roubou o amor do meu pai. Ele a amou mais do que a mim. Ele a desejou com não desejou mais ninguém — O olhar dela era insano.

— Claro que não, Roberta. O que ele fazia comigo e com as outras meninas não era amor, era abuso.

— Eu descobri tudo em uma tarde, estava sozinha em casa e resolvi vir até esse lugar para verificar, porque achei que meu pai se encontrava com prostitutas aqui. Estava escondida lá fora, quando o carro saiu e pude ver o rosto da menina lá dentro, o medo no seu olhar, devia ter uns catorze anos. Então, tinha que fazer alguma coisa para acabar com isso, eu entrei pelo portão destrancando, e o encontrei ainda deitado na cama, nu. — Lara segurou a respiração e Roberta continuou: — Ele se assustou ao me ver parada ali, bem na sua frente. Minha filha, eu posso explicar, ele me disse.

— Roberta, o que você fez?!

— Eu perguntei a ele se havia outras garotas, sobre você, então, ele disse que sim, mas que você, Lara, era especial, que vocês se amavam. Como pode? Ela era minha amiga, eu gritei. Não posso controlar isso, ele me respondeu. Aí, eu saquei essa arma, a mesma que ele me deu para me proteger de tarados, e atirei bem no coração dele. Ele me olhou assustado antes de morrer, bem ali na nessa cama, com a expressão de espanto congelada na cara — ela terminou quase murmurando.

— Roberta, podemos resolver isso, você não precisa continuar com essa loucura — Lara tentava manter a voz o mais firme possível, mesmo sendo muito difícil, suas mãos tremiam, a boca estava seca e o coração em disparada.

— Eu matei o meu pai por sua causa, Lara! — gritou. — Agora, você precisa pagar por isso!

— Eu não fiz nada, fui só uma vítima dessa história toda, não tive escolha.

— Você fez ele a amar e a desejar como ninguém. Ele sofreu por sua causa, eu via nos olhos dele quando você estava por perto — ela falou de um jeito choroso, lembrando uma garotinha.

Enquanto isso, Lara olhava sutilmente a sua volta, tentando achar uma saída, teria que se apegar a qualquer chance por mínima que fosse, seria tudo ou nada.

— Por favor, Roberta, eu não tive culpa de nada — disse em tom de súplica, precisava ganha tempo, quem sabe, Roberta não desistia dessa ideia louca.

Roberta enfiou a mão no bolso da calça e tirou de lá um objeto brilhante.

— Está vendo isso? É o isqueiro do meu pai, eu o peguei, porque achei perfeito para iniciar o fim de tudo isso. O fogo vai limpar toda essa imundice — Roberta tentou acendê-lo, mas ele falhou. — Droga!

Ela tentou outra vez, se distraiu por alguns segundos, aproveitando a oportunidade, Lara tentou alcançar a arma, segurou a mão de Roberta que se assustou, alargando o isqueiro, as duas lutaram, foi quando o revólver disparou atingindo o chão encharcado de gasolina, uma simples fagulha, o fogo subiu e se espalhou rápido, o lugar começou a ficar perigosamente quente, a fumaça e o cheiro de queimado encheu o ar. Pega de surpresa, Roberta soltou a arma que caiu no chão e escorregou para junto do fogo, ela se abaixou e se esticou para pegá-la.

— Não seja louca, Roberta! Deixa isso! — Lara gritou e a puxou para longe das chamas que avançava rapidamente — Vamos sair daqui!

— Não! A minha arma!

— Você vai morrer! Vamos, antes que a gente não consiga mais sair daqui! — Lara deu um puxão forte e Roberta se deu por vencida.

Em poucos minutos, o lugar já havia se transformado em um inferno, o calor era desesperador, a fumaça as impediam de ver e ficou difícil respirar. O suor que escorria pelo rosto caia nos olhos, já irritados pela fumaça.

Lara sabia que como a chácara ficava em um lugar isolado, demorariam perceber o incêndio e a ajuda chegar, estariam mortas antes disso, por isso, precisariam encontrar urgentemente uma saída.

— Fique abaixada! — Lara ordenou, mal conseguindo ver para onde iam. Felizmente, ela conhecia muito bem aquela casa, sabia para onde ir, mas o fogo impiedoso estava no seu encalço. — A porta dos fundos fica ali, espero que esteja aberta. Não dá para sair pela porta da frente por causa do fogo. — Avisou.

— Podemos tentar as janelas — Roberta gritou, por cima do barulho do fogo.

— Elas têm grades!

— E se a porta estiver trancada?

— Eu não sei que faremos — Lara murmurou.

Passando pelo corredor esfumaçado, conseguiram chegar a cozinha, no fim dela a porta azul chamava a atenção, correram na sua direção, Lara testou a maçaneta e empurrou, estava trancada.

— Meu Deus! O que vamos fazer? — Roberta gritou.

O que iriam fazer? Não sabiam, Roberta começou a chorar, Lara olhou em volta à procura de uma saída, já sentindo o fogo se aproximar, paredes estalavam, ouviram um estrondo, algo desabou, a fumaça invadia o lugar e o calor aumentavam, ficando insuportável, começaram a tossir, os olhos lacrimejavam, o pouco ar estava quente, queimando os pulmões. Não queria morrer, ainda mais naquela casa, não podia ser o fim.

— Vamos morrer! — Roberta se lamentou, choramingando.

Lara continuava a pensar, não podia desistir assim tão fácil, não queria morrer naquele lugar.

— O banco! — Lara gritou, ao avistar o comprido banco de madeira maciça. — Podemos jogá-lo contra a porta, usá-lo como um aríete para arrombá-la. Pode ser a nossa única saída.

Roberta a olhou, descrente, não acreditando que desse certo, no entanto, não havia outra alternativa, estavam perdidas. Lara segurou no meio e Roberta na ponta.

— É muito pesado! — queixou-se.

— É a nossa única chance!

Segurando o banco com dificuldade, escorregando das mãos suadas, tomaram certa distância e se lançaram contra a porta que estremeceu, mas não cedeu.

— Não deu certo! — Roberta constatou.

— Precisamos de mais distância!

— Não dá, não tem espaço!

— Vamos tentar de novo! — Lara insistiu.

Outra vez, se afastaram e correram o mais rápido que podiam em direção a porta, que gemeu com o leve rangido, mas continuou inteira, o banco escorregou das mãos de Roberta, puxando o braço de Lara para baixo, que gemeu de dor.

— Desculpa!

— Tudo bem. Vamos mais uma vez.

Ergueram o banco outra vez, olharam para trás, o fogo já avançava pelo corredor, preste a invadir a cozinha, as garotas se entreolharam, tomaram toda a distância que podiam e correram o mais rápido possível, com ajuda do peso dos seus corpos se lançaram contra a porta, dessa vez as dobradiças se soltaram a porta se abriu e elas se estatelaram do lado de fora com o banco em cima delas, respiraram fundo, enchendo os pulmões com ar fresco, mas não tinham tempo para descansar, estavam encurraladas entre a casa em chamas e o muro.

— Precisamos escalar o muro! — Lara falou, saindo debaixo do banco.

Correram em direção do alto muro, a única alternativa era usar a trepadeira que subia por ele. Segurando os galhos finos, mas resistentes, com as mãos já feridas sendo perfuradas pelos espinhos da buganvília, escalaram a parede, impulsionada pelo medo e a adrenalina, desceram até uma altura segura e pularam, caindo sobre o mato que circunda o lugar.

Roberta aterrissou de mau jeito, com o pé em um buraco, deu um grito de dor quando o osso da sua perna se partiu. Ficou caída ali, no meio do mato, segurando a perna, com uma careta de dor e gemendo, Lara ficou olhando para ela, talvez, fosse melhor ir embora e deixá-la para trás. Um forte barulho de algo desabando a despertou dos seus devaneios. Por via das dúvidas, era melhor sair dali. Teria que dar uma boa caminhada para circundar o terreno da casa em chamas, até chegar ao carro estacionado na rua, lá poderia telefonar para alguém, pois, felizmente, as bolsas com os telefones ficaram esquecidas ali dentro. Apoiando Roberta, que lhe pesava nos ombros doloridos, atravessaram lentamente o terreno acidentado coberto de mato e entulhos, com medo que alguma fagulha trazida pela brisa pudesse começar um novo foco de incêndio na vegetação ressecada. Lara não conseguiria descrever a sua imensa alegria ao avistar o carro, ainda intacto, estacionado em frente da casa, já totalmente destruída pelo fogo. Foi nesse exato momento que viram outro veículo se aproximar, correndo.