Barcelona, 19 de julho de 2016

Deitados na cama, no fim de noite, Lara observava a cortina que dançava com a suave brisa que entrava pela janela aberta, enquanto seus pensamentos voavam, para lugares bem distantes dali.

— Em que está pensando? – Carlos quebrou o silêncio.

— Em nada especial, estou vagando por aí, indo de um pensamento ao outro, sem destino, ao sabor do vento.

— Indo para o passado?

— Também.

— Está pensando naquele homem mais velho, com quem você teve um relacionamento, quando mais jovem?

— Por que a pergunta?

— Por nada, só curiosidade. Já que, para mim, essa história é algo muito estranho.

— No passado e mesmo em algumas culturas atuais era uma prática muito natural – Lara rebate, sem muita convicção.

— Mas, não na nossa cultura, nos de tempos de hoje, é um crime. Ele era muito mais velho que você?

— Sim, era, tinha idade de ser meu pai.

— Aconteceu na sua cidade?

— Sim, mas ninguém da minha família sabia. Os outros fingiam não saber.

— Ele forçou você?

— Carlos, eu preferia não falar sobre isso, está bem?

— Desculpe. Eu sei que isso deve incomodá-la muito.

— Sim, incomoda. Por isso, prefiro não falar a respeito. Ficou no passado, eu já superei.

— Ninguém supera algo assim.

— Mas, eu sim. Por favor, Carlos – Ela se virou de lado, querendo encerrar o assunto.

— Não fique aborrecida, comigo – Ele se debruçou sobre ela e beijou seu ombro. – Só quero conhecê-la melhor.

— Por quê? – Lara se voltou par eles ficaram frente a frente, olhos nos olhos.

— Porque me sinto muito ligado a você, por tudo que viveu.

— Não preciso da sua piedade.

— E não terá, mas sinto que tudo que aconteceu a você me afeta de alguma forma.

— Carlos, não quero mas revolver essa lama. Já disse que deixei o passado para trás.

Valverde, 22 de março de 2017

A noite estava agradavelmente fresca, por isso, arrumaram a mesa de jogos na varanda que dava para o jardim, a senhora Hernandez havia providenciado bebidas e petiscos para os convidados, além de Lara, estariam lá Felipe, um improvável amigo de Regis, e Paula, uma amiga de Roberta. Os jogos de cartas eram só mais um pretexto, uma tentativa de aplacar o tédio da vida, foi logo esquecido. O motivo principal era a bebida e a conversa superficial e sem propósito.

Sentada ao lado de Regis, atuando no seu papel, Lara acompanhou o olhar distante dele sob o bonito rapaz, um pouco mais adiante.

— Você gosta dele, não é, Regis? – ela sussurrou no ouvido dele.

— Está tão na cara assim?

— Sim e não. Ele é bem bonito.

— Bonito e inalcançável. Felipe ó tipo de cara que preferiria morrer a transar com outro homem.

— Será mesmo?

— Por quê?

— Não sei, só um pressentimento, alguns olhares soltos.

— Não daria certo. Não tenho coragem.

— Sendo assim, parte para outra.

— É fácil falar.

— Eu sei como é que é, mas, não dá para ficar preso a alguém impossível para sempre.

Os olhos dela percorreram o lugar e encontraram Ricardo, um pouco mais adiante, encostado no guarda-corpo, com um copo de uísque na mão, e, também olhava para ela, que desviou o olhar, rapidamente. No mesmo instante que Joana se aproximou, com seu sorriso simpático de sempre.

— Como está seu pai, Lara?

— Um pouco melhor.

— Pobrezinho! Um homem tão forte, ficar daquele jeito. Uma lástima!

— Sim, foi realmente uma lástima.

Pelos cantos dos olhos, Lara percebeu quando Ricardo entrou na casa, viu aí uma oportunidade de confrontá-lo, precisava saber, mesmo sendo perigoso, alguém poderia vê-los, mas sempre poderia inventar uma desculpa qualquer. Pediu licença, dizendo que precisava ir ao banheiro. Entrou pela casa, que conhecia bem, foi direto para o lugar mais provável, onde ele poderia estar. Parou diante da porta, em dúvida se batia para anunciar sua chegada ou não. Decidiu-se, girou a maçaneta e a porta cedeu, abrindo uma pequena fresta, Lara observou lá dentro, seus olhos demoraram a se acostumar com a penumbra, até encontrar Ricardo sentado na sua cadeira atrás da mesa, com uma expressão perdida, seus pensamentos não estavam ali. Ele se espantou ao vê-la cruzar a fronteira do seu território, sem permissão, fechando a porta atrás de si.

Ele ergueu o olhar, quando ela parou bem diante dele, ficaram sem falar nada por alguns instantes.

— O que quer aqui, Lara? – Ricardo quebrou o silêncio, quase ríspido.

— Preciso fazer lhe uma pergunta – respondeu e ele apontou a cadeira a sua frente, ela se sentou, sem desviarem os olhos um do outro.

— O que quer saber?

— Preciso que seja sincero comigo.

— Eu sempre fui.

— Sei disso. Então, responda se foi você que contou ao meu pai sobre nós dois?

A expressão de surpresa dele já lhe deu a resposta.

— Não. Eu nunca faria isso. É o nosso segredo, como sempre falei para você. Por que acha que ele sabia sobre nós dois?

— Porque ele questionou a minha mãe, antes de passar mal. Alguém contou para ele, depois de tanto tempo.

— Eu posso garantir que não fui eu, Lara. Não faria nada para magoá-la.

— Eu sei – ela se ergueu e se virou em direção da porta.

— Lara! – Ela se voltou para ele – Você sabe que é especial. Você foi a única que realmente me amou, não tinha medo de mim.

Sem respondeu, ela continuou seu caminho e saiu, fechando a porta atrás dela. Tomou a direção da varanda, onde os outros se encontravam, mas foi impedida por Carlos, que surgiu bem diante dela.

— Onde você estava? – ele perguntou, em voz baixa, desconfiado.

— No banheiro – ela respondeu no mesmo tom.

— Você demorou.

— Não seja indiscreto, Carlos.

— Desculpe. Eu só queria ficar sozinho com você, por alguns minutos.

— Não aqui. É perigoso.

— Então, amanhã na cachoeira?

— Sim, às 8, lá, mas vamos voltar para fora, para não levantarmos suspeita.

— O que os dois estão fazendo aqui? – Eles se assustaram ao ouvirem a voz de Roberta atrás dele.

— Nada, querida. Só conversando – ele deu um passo para trás e envolveu a cintura da noiva com um dos braços.

— Sobre o que falavam – Roberta não parecia convencida com a desculpa.

— Barcelona – adiantou-se Lara. — Carlos me falou que esteve lá, ano passado. Assim como eu, então trocávamos impressões.

— Eu sei. Que coincidência! E se encontraram por lá? – O tom de Roberta era ligeiramente ácido. Ciúmes?

— Não, fomos em épocas diferentes – Carlos respondeu, prontamente, sem demonstrar nenhuma emoção na voz.

— Carlos não quis me levar nessa viagem – Roberta se lamuriou, com um tom infantil.

— Foi você mesmo que disse que seu pai não deixaria viajar, com um namorado tão recente.

— É verdade, meu pai é um pouco antiquado para esses assuntos. Mas, um dia, quando estivermos casados, iremos até lá com você, não é mesmo, amor?

— Sem dúvidas, querida.

— Você irá adorar, Roberta. É uma cidade maravilhosa e apaixonante, ideal para o romance – Lara respondeu. – Vou achar Regis, com licença.

Ao se afastar, Lara respirou fundo, se acalmando, na varanda, encontrou seu suposto namorado conversando animado com sua paixão enrustida. Ela se aproximou, acariciando as costas de Regis com uma falsa intimidade, sorrindo, amigavelmente, para o outro rapaz.

— Eu nunca esperaria que Regis tivesse uma namorada como você, Lara. – Felipe revelou.

— Por que não? – Lara rebateu, com uma expressão de falsa inocência.

— Porque você deve estar acostumada com muita gente bacana na sua cidade, não com caipiras como nós.

— Eu também sou uma caipira, nascia aqui, nessa cidade, lembra?

— Sim, mas, morou muito tempo fora, conheceu tantas coisas e pessoas diferentes.

— Foi uma questão de opção, é preciso ter coragem para mudar, quebrar os paradigmas que está habituado, ver que pode ser bom experimentar coisas novas.

— Eu não sei se teria essa coragem.

— Você nunca saberá se não tentar.

— Ah! Com licença, vou pegar mais uma bebida – o rapaz saiu meio atordoado.

— O que foi isso, Lara? – Regis indagou, abismado.

— Isso o quê? – respondeu, com uma expressão angelical.

— O que disse para ele.

— Você acha que ele entendeu.

— Acho que não, mas se entendeu não vai dar em nada. – Regis deu de ombros, desanimado. — Mas, por favor, não tente mais bancar o cúpido, outra vez, Lara.

— Por que não?

— Parece que você se esqueceu como é essa cidade. Eles até toleram, fingem que não vê, porque não tem certeza, mas se der muito na cara, então, você será condenado e execrado ou até coisa pior.

— É preciso ter coragem para se assumir.

— Não é questão de coragem, mas de sobrevivência, só os mais espertos conseguirão escapar, assim, como você.