Barcelona, 19 de julho de 2016

Mais uma vez, acordaram com o toque insistente do telefone de Carlos, que esticou o braço para alcançá-lo sobre a mesa de cabeceira, olhou para tela e recusou a ligação, sem nenhum comentário. Voltou-se para abraçar Lara e afundar o seu nariz no pescoço dela, que pode pressentir a tensão no seu corpo.

— O que faremos hoje? – Lara perguntou, querendo ser mais democrata.

— Que tal só andar por aí, sem compromisso, depois, voltaremos para cá, tomaremos vinhos, comeremos tapas e faremos amor à noite toda.

Ela se voltou para ele e sorriu.

— Parece bem original, já que estamos fazendo isso quase todos os dias.

— Eu estou adorando.

— Eu, também.

— No entanto...

— Como assim?

— O que quer perguntar, Lara?

— Sei que não tenho direito, que nos conhecemos apenas há alguns dias, mas a cada dia que passa... sabe como é?

— Não, eu não sei.

— Tudo aconteceu muito rápido entre nós dois.

— Por que precisaríamos esperar?

— Seremos só um romance de verão?

— E o que você quer de mim, Lara?

— Eu quero você, não consigo pensar que nossa história tenha dias contados. Que daqui a pouco, daremos adeus na plataforma de uma estação de trem para nunca mais e voltaremos para nossas vidas anteriores.

Ele afundou seus olhos indecifráveis nos delas.

— Também não quero que seja assim, mas por que sofrer por isso agora?

— Porque eu estou cada vez mais envolvida com você e não sei mais o que fazer.

Ele a estreitou nos seus braços com força, apoiando o queixo no alto da cabeça dela, enquanto ela, com a cabeça encostada no peito dele, escutava as batidas aceleradas do seu coração.

Valverde, 19 de março de 2017

Dentro do carro, indo em direção ao clube para um almoço de família, Lara percebeu a loucura que cometera, nunca deveria ter proposto essa mentira para Regis, deveria se manter o mais distante daquela família que conseguisse, até a sua partida daquela cidade. No entanto, nesse momento, estava toda bem vestida, indo direto ao encontro dos problemas que desejava tanto evitar.

Mesmo morando naquela cidade a vida toda, poucas vezes, entrou naquele clube exclusivo para os poucos endinheirados do lugar. Só esteve lá em uma ou outra festa de suas colegas com dinheiro. Foi lá a memorável e esplendorosa festa de quinze anos de Roberta, com direito a muitas trocas de roupas, queima de fogos de artifícios e dança com príncipe, um conhecido jovem e belo ator de televisão da época por quem a aniversariante tinha uma paixonite. Também, foi nessa festa que Ricardo a notou pela primeira vez, mesmo já tento a visto em muitas oportunidades na casa dele, ele nunca prestou atenção na amiguinha da filha, até aquela noite, quando pela primeira vez na vida, Lara usou um pouco de maquiagem e sapatos de salto alto, o vestido escolhido em uma revista e feito por uma costureira da vizinhança, ficou muito bonito, destacando-se entre os caros vestidos de grife, já demonstrando aí, o talento que a levaria longe nessa área. Nessa noite, após a valsa com a filha, Ricardo a chamou para dançar uma valsa, e ninguém levou a mal esse ato, era quase como uma forma de caridade, dançar com a amiguinha pobre da filha. Mas, o que os outros não perceberam foi a leve pressão da mão do patriarca nas costas da menina, o olhar lascivo dele. Não ouviram quando ele a elogiou dizendo como havia crescido e estava muito bonita, quase uma mulher. Lara sorriu envaidecida, ao receber a atenção do homem mais poderoso da região.

Regis estacionou o carro, os dois andaram juntos até a porta principal, onde ele segurou a mão dela, era a hora do show, por isso colocaram um sorriso nos lábios e entraram, no salão, notando os olhares sobre eles.

— O bicha e a vadia da cidade, juntos. Eles terão muito assunto para o almoço de domingo – ele cochichou no ouvido dela, que segurou a gargalhada, ao entrarem no restaurante.

Avistaram a mesa da família Hernández, no lugar mais privilegiado do restaurante. Lara vacilou, mas Regis praticamente a puxou até lá. Foram recebidos com entusiasmo por Roberta e Joana. Os outros homens a cumprimentaram com educação, com ar taciturno.

— Seremos só nós para o almoço. Os convidados do noivo foram embora, hoje pela manhã. Eles foram espertos – Regis sussurrou no ouvido dela.

— Eu não acredito que você e o primo Regis estão namorando – Roberta disse, animada, levantando em um pulo e beijando o rosto deles.

— A gente ainda está se conhecendo – Lara rebateu com cautela.

— Regis é um excelente rapaz – Joana afirmou.

— Tenho certeza que sim – Lara concordou.

— Foi tudo muito rápido – A voz de Ricardo soou dura.

— Sim, mas porque demorar quando uma pessoa gosta da outra? – Regis retrucou, e os olhos de Lara procuraram Carlos, que também olhava para ela, virou o rosto e encontrou os de Ricardo a observando. Aquele almoço seria um pesadelo.

— Como vocês farão quando Lara for embora? — Joana quis saber.

— Já conversamos sobre isso, eu a irei visitá-la, passarei alguns com ela.

— Então, já está tudo planejado em tão pouco tempo, somente, em uma noite?

— Muitas coisas acontecem em uma noite ou em algumas horas – Lara respondeu.

Ricardo respirou fundo e travou a mandíbula.

— Espero que você volte para o casamento de Roberta, Lara.

—Farei o possível, Joana – mentiu, pois demoraria muito retornar àquela cidade, outra vez. — Quando será? – perguntou por educação, pois não tinha o mínimo interesse.

— Carlos queria esperar um ano, mas eu o convenci, por isso casaremos na primavera em setembro – Roberta respondeu, prontamente.

Tão cedo?

— Como você mesmo disse, querido primo, por que demorar quando uma pessoa gosta da outra?

Nesse interim, um homem de boa aparência se aproximou, humildemente, de Ricardo.

— Senhor Hernández, gostaríamos que o senhor e sua família tirasse uma foto para o jornal da cidade.

Ricardo refletiu por alguns segundos, deu um sorriso.

— Pois bem, mas que não demore muito.

— Claro, senhor Hernández. Poderiam ir até o jardim? Seria um bom cenário para a foto.

Ricardo assentiu com cabeça, os membros da família Hernández se ergueram, mas Lara e Carlos permaneceram em seus lugares.

— Você não vem Carlos? – Roberta indagou, franzindo sua testa em desaprovação.

— Não, prefiro não participar se não se importar.

— Mas, querido, você é da família – Roberta insistiu.

— Ainda não, querida – Ricardo retrucou.

Ninguém se importou com Lara, que ficou agradecida com isso. Assim que a família se afastou, Carlos pulou para uma cadeira junto a Lara, fixando os olhos nela, que sustentou o olhar.

— Acho que você me deve uma explicação — ele disse de uma maneira incisiva, ela o olhou com desdém.

— Por quê?

— Você sabe muito bem porquê.

— Por ter sumido em Barcelona? Eu quis apenas facilitar a sua vida, indo embora.

— Facilitar a minha vida? Como assim?

— Você sabe porque eu fui embora.

— Não, eu não sei, ainda fiquei completamente desorientado, não sabia como achar você, já que roubou o meu celular.

— Eu não queria que me achasse.

— Só queria entender o que eu fiz de tão errado, para você me abandonar daquela forma.

— Eu já disse que queria apenas facilitar sua vida. Olhe onde está agora? Não vale a pena?

Então, eles ouviram o som das vozes da família retornando.

Roberta deu um sorriso, que não refletiu nos olhos ao encontrar Lara e Carlos conversando tão próximos.

— A conversa parecia bem interessante. Sobre o que estavam falando?

— Descobrimos que temos algo em comum: Barcelona – Lara respondeu com um ar de falsa inocência.

— Pois é, Carlos não fala muito dessa viagem para mim, mas disse que a cidade é mágica, onde viveu alguns dos melhores momentos da sua vida. Fiquei com inveja. Então, espero que possamos ir lá juntos, algum dia – Roberta fala de um jeito sonhador.

— De Barcelona, só conheço o time de futebol – Régis brincou.

— Pois eu não sei o que Carlos quis dizer, mas essa foi uma viagem reveladora para mim – Lara instigou.

Já anoitecia, quando o carro de Regis parou na frente da casa de Lara.

— Ainda bem que sobrevivemos – Regis comentou, forma dramática, soltando o ar com força. Lara sorriu solidária.

— Você fez um bom papel de namorado.

— Você sabe o que isso significa? – Ela o interroga com o olhar, que precisaremos sair juntos, enquanto estiver aqui.

— Eu já imaginava isso, mas nada de visitas de família.

— Tudo bem, se não se sente confortável junto ao meu tio, ele é realmente intimidador. Sendo assim, eu a pegarei amanhã à noite, para continuar a nossa farsa.

— Eu estarei esperando, mas acho melhor, se tivermos o número dos nossos telefones.

Na hora de sair, Lara deu um beijo nos lábios de Regis, que a fitou espantado.

— Caso alguém esteja nos observando – explicou.

Ao entrar em casa, Lara sentiu todo o peso fluir e evaporar no ar, sentindo se mais leve, longe de todos eles. No entanto, gostou de torturar Carlos, deixá-lo no ar, sem saber o que havia acontecido. Na sala, sua mãe assistia um daqueles torturantes programas de domingo e seu pai cochilava.

— Como é que foi, hoje? – Sua mãe indagou em voz baixa.

— Tranquilo, eu almocei no clube com os Hernández – Lara deu de ombros, com dissimulada indiferença.

— Lara, você está brincando com fogo. Se metendo com essa família, outra vez.

— Mãe, ninguém nessa cidade nunca soube do verdadeiro motivo para eu ir embora daqui, no entanto, para eles eu sou uma perdida que fugiu atrás de um homem casado, quando eu estava fugindo de um homem casado.

— E, depois de tudo, você está se reaproximando da família dele.

— Já se passou muito tempo, sou bem crescidinha agora, sei bem como me defender.

— Lara, um homem como Ricardo Hernández está acostumado a ter o que quer.

— Mas, ele não terá a mim, não mais. Boa noite, mãe.

— Boa noite, Lara.

Lara foi para o banheiro, se despiu e entrou debaixo da água quente, pensando que sua mãe estava certa, se não estaria provocando Ricardo, mostrando aquilo que ele não pode ter, entretanto, na verdade, ele teve.

Sua mãe não sabia de tudo, que ela havia acontecido. Que depois da festa de 15 anos de Roberta, ele a havia envolvido, com calma e sutileza, em uma rede de sedução. Começou com pequenas atenções, como mandar um carro buscá-la, em casa para passar o dia com a amiga. Ele sempre a aparecia quando estavam na piscina, de biquíni, tomando sol, perguntava algo sem importância e sumia. Em seguida, vieram pequenos presentes, nada muito ostentoso, eram alguns chocolates ou doces especiais, por fim as pequenas joias não muito caras, para não chamar a atenção. Um dia, ele a convidou para viajar com a família dele, com a desculpa de fazer companhia para Roberta. Foram para um hotel de luxo, em uma bonita cidade na montanha, Lara nunca havia vivenciado nada parecido. Ficou extasiada com o conforto do hotel, a beleza lugar, encantada com a atenção de Ricardo para com ela. E foi em uma tarde, quando Roberta e a mãe descansavam no quarto, que ele a levou para passear, em um parque lindo e distante. Durante todo o trajeto, ele lhe falava como ela era linda e especial, que estar ao lado dela, fazia lhe muito bem. Então, ele parou o carro, em um lugar remoto, rodeado de árvores, e a beijou com delicadeza, no começo ficou assustada, mas, ele era tão gentil e carinhoso, que ela permitiu, sem resistir, que tocasse seus seios e entre suas coxas, enquanto repetia como era bonita, e como gostava dela, contudo, dessa vez, parou aí.

— Não conte o que aconteceu aqui, para ninguém – advertiu com um ar sério, ela ficou com medo, sabia que ninguém acreditaria nela e, mesmo, se acreditassem não fariam nada contra ele.

Voltando ao presente, Lara saiu do banho e foi para o quarto, seu celular tocava, insistentemente. Na tela, um número desconhecido, que ela sabia quem era, pensou em recusar, contudo, atendeu.

— Lara?

— Ricardo, como conseguiu meu número?

— No telefone do meu sobrinho. Eu tirei dele, enquanto, dormia. Viu o que você me faz fazer? Virar um ladrãozinho — ela pressentiu o sorriso dele.

— Nós não temos nada para falar, Ricardo.

— Você pode não ter, mas eu tenho e muito, Lara. Será só dessa vez.

— Só dessa vez, eu vou me encontrar com você. Aonde?

— Na casa.

— Você ainda tem aquele lugar?

— Sim, ainda tenho. Eu mando pegar você aí, amanhã de manhã.

— Não precisa, vou com o carro do meu pai. Até manhã, Ricardo.

— Até manhã, Lara.