Sobre Nós Dois
18 Magoados
Barcelona, 18 de julho de 2016
No alto do telhado ondulante da casa Mila, Carlos e Lara passeavam pelas chaminés surrealistas, com suas máscaras teatrais, guardiões da arte inusitada de um homem visionário, sentaram-se à sombra em um dos degraus para escapar do sol inclemente do final da manhã.
— É como estivéssemos em outro mundo, um lugar irreal aparte da visão convencional – Carlos disse, alongando a visão e busca dos sutis detalhes
— Pelo menos, Gaudi deu sorte de encontrar pessoas com mente aberta e dinheiro, em um tempo que ansiava por novidades.
— É difícil acreditar no novo, experimentar. É mais fácil e confortável se acomodar ao já conhecido.
— Foi assim com você? – Lara o encarou, esperando alguma revelação.
— Sou um homem convencional. Segui a profissão da família, fiz tudo como devia. Até alguns dias atrás, eu acharia improvável encontrar uma mulher no trem e viver um romance tórrido e inconsequente.
— Pelo jeito que está falando até parece que estamos fazendo algo errado. Afinal, somos pessoas livres, sem compromissos com ninguém. Pelo menos, eu sou. E você, Carlos?
— Claro que sou.
Valverde, 23 de março de 2017
Lara estacionou o carro, na entrada do portão de madeira. O carro de Carlos já estava lá. Sabia que estavam se arriscando, mesmo aquele local sendo pouco frequentado, mas nunca se sabia quem podia aparecer, precisavam ser muito cuidadosos. Sendo assim, ela estacionou seu carro o mais distante possível, meio escondido pela vegetação, passou pelo portão e entrou na trilha, camuflada pelo mato, quem não conhecia o lugar dificilmente a encontraria. Ouviu o barulho da água e, logo a seguir, chegou ao seu destino, avistando Carlos, sentado sobre uma pedra, suas pernas compridas esticadas, aproveitava o brando calor do sol da manhã.
Ele não percebeu a sua chegada, Lara parou por alguns segundos, observando aquele homem, ao mesmo tempo conhecido e desconhecido, não sabia se valia a pena se arriscar tanto por ele, pois nunca mais seria com naquele verão no passado, em uma cidade empolgante, sem responsabilidade e identidades, apenas um homem e uma mulher. Pressentindo a presença dela, Carlos se virou, um sorriso surgiu no rosto dele, quando a viu, levantou em um pulo, ela se aproximou, aconchegando-se no seu peito, que a envolveu nos seus braços. Ela ergueu seu rosto para encontrar a boca ávida do homem, que devorou a sua. Os corpos acompanharam, com uma fome de igual intensidade, sem se importaram com as pedras duras e ásperas, esfolando os joelhos, os cotovelos e as costas, no ímpeto do desejo, na ânsia da carne. Não conseguiam mais pensar no receio de serem descobertos, seus segredos revelados, só queriam um ao outro. Depois do gozo, deitados, lado a lado, sobre a pedra morna, Carlos observava os estragos do ato de paixão inconsequente nos seus joelhos e cotovelos.
— Vou precisar inventar uma desculpa, para explicar isso. Vou dizer que levei um tombo.
— Eu lamento muito – Lara olhava com pesar.
— Não se lamente, valeu muito a pena. É quase um prazer sadomasoquista.
— Espero que Roberta caía nessa história, ela estava ciúmes de nós dois ontem, à noite, e era somente uma conserva civilizada.
— Realmente, Roberta é muito ciumenta, às vezes, beira a paranoia.
— Provavelmente, ela tem razão, já que noivo dela está transando com outra mulher no meio do mato
— Eu jamais traí Roberta, até encontrá-la. Você me tira do prumo, Lara.
— Isso é um elogio? – Ela o encarou de um modo divertido.
— Sim e não. Você se lembra quando me contou sobre o homem mais velho que a seduziu quando era adolescente?
— Eu contei isso a você?
— Você sabe que sim, em Barcelona, quando visitávamos o museu de Picasso.
— Eu falo demais. Já faz muito tempo, deixei no passado. – Ela deu de ombros.
— Você também falou isso.
— Então, deixe isso para lá, não vale a pena desenterrar os mortos.
— Vale quando os mortos andam ao seu lado.
Ela se apoiou nos cotovelos para fitá-lo melhor, ele sustentou o olhar, seguro.
— Por que está dizendo isso? — Havia um tom de medo na voz dela.
— Porque tenho certeza, que esse homem é o meu futuro sogro, Ricardo Hernández.
— Não, não é! – Ela tentou, mas viu nos olhos dele que não acreditava nela.
— Lara, por que está defendendo esse homem? Ele é um criminoso! Um pedófilo! – Carlos se sentou, exaltado.
— Não, não é!
— Como não? Ele seduziu você, uma menina, e nem imagino quantas outras?
— Você não entende! – Lara se ergueu, levantou o queixo em desafio.
— O que eu não entendo?
— Não foi ele que me seduziu, fui meu que o seduzi.
Carlos sacudiu a cabeça, em negação, com um sorriso de escárnio.
— Ele fez você acreditar nisso. É isso que esses bandidos fazem, colocam o peso da culpa na vítima.
— Eu não fui uma vítima! — Lara se levantou, irritada, e começou a se vestir. – Eu o amava.
— Então, por que fugiu?
Ela parou e se virou para ele, ergueu o rosto, porque ele já estava de pé ao seu lado.
— Porque ele queria me aprisionar naquela casa, e eu queria muito mais da vida.
— Você pode ter fugido dele, dessa cidade, mas continua uma vítima, uma prisioneira — Carlos falou de um modo calma e segura, que ela balançou, ele, de algum modo, estava certo, ainda se sentia presa a Ricardo.
— Carlos, está história entre nós foi um erro, não dá para resgatar aqueles momentos que ficaram para trás. Precisamos terminar com isso, agora, antes de nos magoarmos e a outras pessoas – ela considerou com mais calma, acabando de se vestir.
— Por que está fugindo, Lara?
— Não estou fugindo, só estou sendo racional, não fico remoendo os erros do passado.
— Não, Lara. Você está sempre fugindo, quando tem medo de enfrentar a verdade.
— Você nunca entenderia.
— Não, eu não entendo, mesmo, como pode perdoar o que ele fez. O que ele continuou fazendo com outras garotas.
— Adeus, Carlos – Ela não queria discutir mais, apenas entrou na mata, deixando ele para trás.
Na sua curta caminha, no meio da vegetação, dividida entre a dor e a razão, considerava que Carlos não podia entender o que aconteceu no seu passado, o que aconteceu entre ela e Ricardo.
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