Sobre Nós Dois
32 Livre
Valverde, 29 de março de 2017
A velha caminhonete parou junto a elas, um homem de certa idade saiu, depressa, lá de dentro, e ajudou Lara a carregar Roberta, que lhe pesava muito nos ombros, a levaram até o carro dela.
— O que aconteceu? — o velho perguntou, assustado, olhando para as moças e a casa em chamas.
— A casa pegou fogo — Lara explicou, enquanto ajudava Roberta a sentar no banco de trás com a perna quebrada esticada. Então, ela pode ver melhor no rosto do homem. — Eu conheço você — afirmou. — Vasquez, não é?
O homem assentiu com a cabeça, era o antigo motorista de Ricardo, o mesmo homem que a pegava em casa para trazê-la àquela casa, como devia ter feito com várias garotas como ela, durante tantos anos. Lara o encarou por algum tempo, odiava aquele homem, mas não era o momento de falar nisso.
— É melhor vocês irem embora daqui, antes que alguém mais apareça – ele recomendou com ar sério.
— Foi você, não foi? — ela questionou, longe de Roberta, parada ao lado do carro, antes de partir. — Que tirou o corpo de Ricardo dessa casa e o colocou no carro?
— Ninguém precisava saber — o homem respondeu, sem alterar o tom de voz.
— Ele ficou impune e, agora, a memória dele está intacta, pois, mesmo depois de morto, ainda o protegem, escondem seus crimes. Até mesmo esse incêndio ajudou Ricardo a se livrar dos seus crimes.
— Deus foi o seu juiz. Afinal, ele não ficou tão impune assim. O senhor Hernández morreu pelas mãos da própria filha, que o venerava tanto que não conseguia suportar o amor dele pelas as outras meninas — ele falou, sem emoção na voz.
— Então, você sabe que foi Roberta? — Ela foi pega de surpresa.
— Eu vi quando o carro dela passou pelo meu, correndo. Depois, que eu cheguei na casa e encontrei o senhor Hernández morto, na cama, então eu entendi o que aconteceu e fiz o que tinha que ser feito.
— Chama isso de amor? Eu chamo de perversão.
— Pode ser, mas, você foi a que mais ele amou, sempre me falava como sentia a sua falta.
Lara sentiu seu estômago se revirar.
— Porque eu tive coragem de ir embora — respondeu, entredentes.
Lara olha para dentro do carro, onde Roberta a aguardava, com a face enegrecida pela fuligem e retorcida pela dor. Talvez de uma maneira distorcida, a justiça foi feita.
— Vou levá-la até o hospital e avisarei a família — Lara comunicou, entrando no carro.
— Vá longo, pois, mesmo distante, já devem ter avistado a fumaça e não tarda a aparecer alguém por aqui. Enquanto, isso deixe a casa se queimar, não terá mais serventia, agora.
Ao olhar a casa em chamas, Lara se pensou nos povos que queimavam os bens dos mortos importantes a fim de acompanhá-los para eternidade, quase ela mesmo foi uma oferenda a Ricardo.
Dirigindo pela estreita estrada de terra, sem se importar com suas mãos e braços feridos, Lara pensava no que deveria fazer, pegaria suas coisas e iria embora, daquela cidade, não podia mais ficar lá, não se importava com o que pensassem, voltaria para o seu apartamento, para seu trabalho, para a sua vida e tentaria esquecer.
— Você vai contar para eles, não vai? — A voz de Roberta a tirou dos seus pensamentos.
— Não, se me deixarem viver a minha vida em paz. Ligue para sua casa e avise que você está indo para o hospital — Lara falou de um modo seco e direto, Roberta obedeceu.
— Como eu vou explicar as roupas e minha cara cheia de fuligem?
— Não explique.
— Foi por causa do meu pai que você foi embora, Lara?
— Já falei que foi — Lara respondeu, impaciente.
— Eu nunca desconfiei.
— Não quero falar mais sobre esse assunto.
Lara estacionou o carro em frente da entrada de emergência do pequeno hospital da cidade e entrou para pedir ajuda. Ao saberem quem estava dentro do carro, logo vieram com uma cadeira de rodas, para levar a moça para ser atendida.
— A família dela já foi avisada, logo estarão aqui.
Avisou a enfermeira, ainda do lado de fora, já voltando para o carro.
— Mas, e você? As suas mãos? — perguntou, olhando para enegrecidas e ensanguentadas da garota.
— Isso não é nada— Entrou no carro e deu partida, só queria voltar para casa.
Ao chegar em casa, tentou entrar sem ser notada, porém, sua mãe surgiu, saindo da porta do quarto.
— Meu Deus, Lara! O que aconteceu?
— Nada, mãe.
— Como nada? Olhe o seu estado, por que o seu rosto está assim! — a mãe ergueu a voz, não contento a aflição.
— Fale baixo, mãe! Não quero que o pai escute! Eu estive em um incêndio.
— Em um incêndio? — A expressão da mãe da mãe era de pavor.
— A chácara de Ricardo pegou fogo.
— Foi você? – Os olhos da sua mãe se arregalaram ainda mais.
— Não, foi Roberta, mas não conte isso por aí. Vou tomar um banho.
Porém, antes que ela fizesse o que disse, ouviram a campainha da porta tocar, elas se entreolharam, Lara achou que já poderia ser a polícia por conta do incêndio. Receosa, Marta foi atender, enquanto Lara ficou parada no mesmo lugar, esperando.
— Você tem visita, Lara — Marta avisou em tom sombrio.
Lara se preparou para o pior, quem sabe, o que Roberta tinha dito no hospital, talvez, houvesse acusado do incêndio, deu um passo firme para frente, pronta para enfrentar o que viesse, no entanto, no meio da sala, com uma expressão tensa, estava Carlos.
— O que você está fazendo aqui, Carlos?
— Eu vim do hospital, Roberta nos contou tudo e eu vim ver se você estava bem.
— Sim, eu estou bem, só um pouco suja — Ela abriu os braços para se mostrar.
— Suas mãos! – Ele segurou as mãos dela feridas e ensanguentadas, para observar melhor.
— Não foi nada, só são ferimentos superficiais. E Roberta?
— Vai ser operada, foi uma fratura feia.
— E o que ela contou para você?
— Ela falou que vocês decidiram colocar fogo na chácara, para apagar o passado.
Lara bufou de raiva.
— Nós?! Ela decidiu. Ela quis me matar. Por isso, nós duas quase morremos.
— E agora?
— Eu vou embora daqui.
— E a investigação sobre o assassinato de Ricardo? — Carlos perguntou, aflito, poderia ser considerado como uma fuga, uma confissão de culpa.
— Eu sei quem é o assassino.
— Roberta? — O silêncio dela era a resposta — Ela tinha ciúmes de você com o pai.
Ela deu um sorriso debochado.
— É muito ironia, pois ela tinha ciúmes pelo homem errado. E o que vai acontecer agora?
— Provavelmente, arranjarão um culpado, um pobre coitado para pagar pela morte de Ricardo.
— Ou nunca revelem que é o verdadeiro assassino, seria um crime sem solução. A arma do crime foi destruída no incêndio, assim, como muitas provas, será difícil provar algo.
— Lara! — Ele pronunciou o nome dela quase como uma súplica, ela deu um passo à frente e se atirou nos braços dele, que a envolveu, apertando contra o peito. — Lara, chega disso tudo, vamos embora desse lugar, agora, deixar da essa história para trás, construir uma nova vida, juntos. Simplesmente, esquecer.
— Não será tão fácil assim.
Lara olhou para cima, procurando pelos olhos de Carlos, que limpou, com o polegar, as lágrimas que fazia um caminho claro pelo rosto enegrecido dela, e se inclinou e juntando seus lábios, em um beijo intenso.
Barcelona, 15 de julho de 2016
No fim da noite, em um encantador restaurante, perto da praia, Lara e Carlos compartilhavam uma saborosa paella valenciana, à luz de velas e ao som do lamento de um violão dedilhado por mãos hábeis, enquanto tomavam um vinho de sabor intenso.
— Um brinde ao destino que nos uniu — Carlos ergueu a taça, com um sorriso quente.
— Eu não acredito em destino — Lara rebateu, mas acompanhou o brinde, olhando nos olhos dele.
— Então, ao que devemos brindar esse nosso encontro?
— Coincidência?
— Então, um brinde a uma feliz coincidência que nos uniu. Tenho certeza que essa será a melhor viagem de toda a minha vida.
Ela lhe retribuiu com um sorriso caloroso.
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