Sobre Nós Dois
7 Fugitiva
Barcelona, 20 de julho de 2016
O sol saiu, timidamente, de trás das nuvens após a chuva intensa, que caiu no início da manhã, liberando o calor do chão, deixando o ar úmido e limpo com cheiro de terra molhada, prometendo mais um dia de calor. Mas, Carlos e Lara não tinham pressa, ficaram deitados na cama e através da janela, contemplaram o final de chuva cair. Naquele instante, parecia que tudo estava bem.
— Quem será o grande artista que visitaremos, hoje? Miró, Picasso ou Gaudi – Carlos perguntou, pronto para mais uma peregrinação por um museu ou um lugar histórico.
— Ninguém.
— Como ninguém. Você tem certeza que você é a mesma mulher que está na minha cama e na minha vida desde que cheguei a Barcelona?
— Só estava pensando em aproveitar o dia, juntos – Ela deu ombros
— Isso tem cara de despedida. Ainda teremos mais alguns dias, por aqui.
— Eu sei, mas terei que voltar para Madrid por alguns dias e, você, sei lá para onde vai.
— Vou para casa, depois, tenho algo para resolver. Podemos marcar em algum lugar, para nos reencontrarmos.
— Contudo, nada será igual ao que vivemos aqui.
— Barcelona ficará para sempre nas minhas melhores lembranças, assim como você.
— Nas nossas. Sempre teremos Barcelona – Lara complementa de um jeito triste, aconchegando-se contra o peito dele. – Mas, é triste pensar que daqui a pouco seremos só lembranças. Por que não vem comigo para Madrid, Carlos?
— Eu não posso. Tenho assuntos urgentes para resolver, assim que voltar. Vamos marcar uma data e um lugar para nós nos encontrarmos, se acaso algo der errado – Carlos responde, com pesar, passando a mão nos cabelos dela.
— Onde?
— Lembra-se daquele lugar que me disse que costumava ir, quando queria ficar refleti um pouco, sozinha.
— Sim, o jardim onde gosto de me sentar em um banco junto ao espelho d’água.
— Então, hoje é dia... – Ele consultou o telefone. – Vinte de julho, são 11 horas. Nós nos encontraremos nesse lugar, daqui a um mês, no dia 20 de agosto, às 11 horas, e nunca mais nos separaremos, de novo, O que você acha?
— Eu acho uma loucura, mas concordo. Nós nos encontraremos no dia 20 de agosto, às 11 horas da manhã, junto ao espelho d’água do jardim. Caso o outro não possa ir, tem que avisar.
Ela estendeu a mão para ele, que apertou, selando o pacto, depois, a puxou sobre seu corpo e se beijaram.
— Confiou mais nisso – sussurrou nos lábios dela.
Durante o resto da manhã, não saíram da cama, aconchegados um no outro até quase a fome o arrastassem para fora.
Valverde, 20 de março de 2017
Ainda era cedo quando Lara se arrastou para fora da cama, sem vontade, talvez o que aconteceu nos últimos dias, não passasse de um sonho ruim, mas a última ligação registrada no seu celular lhe mostrou a verdade. Só não entendia porque iria se encontrar com Ricardo, reviver um passado que lhe foi tão doloroso. Mesmo assim, se aprontou sem cuidado, uma roupa simples, nenhuma maquiagem. Na cozinha, a mãe estava ocupada com as panelas, o pai sentado à mesa, tinha o olhar apático de sempre. Ela tomou um pouco de café, no tentando não comeu nada, tinha o estômago embrulhado.
— Vou sair. Você sabe onde está a chave do carro, mãe?
— No mesmo lugar de sempre, nem sei se ela vai funcionar, está parado há muito tempo.
— Veremos.
O carro não funcionar seria uma boa desculpa para não ir àquele encontro. Mas, na segunda girada de chave o motor roncou alto. Assim engatou a ré e saiu da garagem. Há algum tempo, não dirigia, mas não teve dificuldade na cidade pouco movimentada, percorreu o caminho conhecido, com certa dúvida, pelas mudanças do lugar. Por fim, a rua sem calçamento permanecia igual, avistou a entrada da casa isolada, que não mudou nada nesses últimos tempos, o mesmo portão de madeira que ela saiu para abriu e entra. Lá dentro um carro estacionado, não o carro de luxo de sempre, mas outro mais simples, para não chamar a atenção.
Hesitou em entrar, lembrando das vezes, que, no passado, um carro ia buscá-la em casa, com a desculpa de se encontrar com a amiga Roberta e a trazia para ali.
— Que bonito, seu Ricardo! – a menina Lara disse, depois de ele lhe mostrar o lugar com orgulho, na primeira vez que foi lá, ainda com a esperança de encontrar a amiga.
— É seu, se você quiser, Lara – ele responde. – E quando estivermos aqui, me chame só de Ricardo. Olhe! Quantas coisas bonitas eu comprei para você, abriu a porta do armário, no quarto todo decorado em rosa e branco. Veja que vestido bonito, deixe eu ajudá-la a experimentar – falou, começando a desabotoar a vestido simples que usava, a deixando constrangida de calcinha e sutiã, em seguida, a ajudou a colocar o outro vestido, esquecendo as mãos, em toques excessivamente longos.
De volta ao presente, Ricardo surgiu na porta, ao escutar o barulho do motor.
— Em oito anos, esse lugar não mudou em nada.
— Eu o guardei para você e para mim. O lugar onde fui feliz — ele respondeu em tom pesaroso.
— O que quer de mim, afinal, Ricardo? — Lara perguntou, desafiadora, mantendo a distância.
— Por que não entra, Lara? Assim podemos conversar com mais calma.
Mesmo a contragosto, ela entrou, no lugar que estava praticamente igual, guardava na lembrança cada pedacinho dele, assim ela ficou de pé no meio da sala.
— Ainda não sei o que quer de mim, Ricardo.
— Eu quero você de volta.
— Você nunca me teve. Você se apropriou de mim, eu era só uma criança.
— Eu nunca fiz mal a você, fui paciente, esperei até você me querer. Eu a conquistei devagarinho, até você estar pronta.
— Você não me deu escolha.
— Não. Eu me apaixonei por você, Lara. Você era o meu anjo de inocência – ela deu um passo à frente, na tentativa de alcançá-la, mas ela recuou e se retraiu.
— Inocência que você tirou.
— Inocência que você me deu por sua própria vontade.
— Eu não sou mais uma menina.
— Você sempre será a minha menina. Eu sempre amarei você. O meu anjo.
— Você é doente – ela falou, entredentes — Se era só isso, já falamos tudo que precisávamos. Adeus, Ricardo. – Virou-se para ir.
— Lara! – Ela atendeu ao chamado — Essa sua história com meu sobrinho foi só provocação, não foi? Aquele garoto não é homem suficiente para você, e acho que para qualquer mulher.
Ela deu um sorriso irônico e foi embora.
Ricardo ficou ouvindo o portão abrir e fechar e o barulho do motor do carro diminuindo a medida que ela se afastava. Nunca deveria ter deixado Lara ir embora na primeira vez, devia ter ido atrás dela e a trazido de volta, nem que fosse a força, para mostrar que ela era dele. Por mais homens com quem ela tenha se deitado, e não queria pensar nisso, ele seria eternamente o primeiro, o que a desvirginou, que a ensinou a ser mulher. Foi tão bonito, tão doce, depois, de tanto tempo, cuidando dela com carinho, ela se ofereceu por vontade própria, sem nenhuma vergonha, abrindo sua rósea e imaculada flor para que ele entrasse nela, com muita cautela, para não a ferir demais. Lara era tão doce e pura, que no fim ele até chorou de emoção, ao ver sangue da castidade dela manchando o lençol, que ele ainda guardava no escritório de casa e quando a saudade apertava, se masturbava diante dele, com muito cuidado para não o macular. Houve outras meninas, mas nenhuma delas tocou tão fundo aquele coração duro e bruto com Lara
Dentro do carro, ainda atormentada com o encontro com Ricardo naquela casa, pensando em tudo que acontecia lá, com ele a ameaçava veladamente, dizendo que não podia contar seus segredos para ninguém. Como ele a acariciou e a bolinou por tanto tempo, atiçando seus desejos nascentes, a cobrindo de presentes, que só podia usar dentro daquela casa. Ele não a forçou, ela cedeu por vontade própria, contudo, uma vontade minada pela insistência dele, que a ensinou a ser mulher, achando que aquilo era amor.
— Você será a mãe do filho homem que quero ter – ele revelou, uma tarde quando estavam na cama. Ela se assustou.
— Eu não quero ter filho nenhum. Quero estudar, me formar, ter um emprego.
— Para quê? Eu posso te dar tudo do bom e do melhor, mas do que um salariozinho qualquer.
— Não quero isso!
— Você vai querer, quando fizer dezoito anos, vem morar aqui. Eu venho te ver sempre que puder e tenho certeza que você será a mãe de um filho meu. Um filho macho que sempre sonhei.
Assustada ao ver todo seu destino traçado, precisava arranjar uma saída, queria fugir para não virar uma prisioneira, mais uma propriedade daquele homem.
Procurou ajuda com a mãe. Envergonhada e assustada, contou-lhe parte da história. Ela apenas ouviu, com os olhos mirando o nada.
— Você precisa ir embora daqui o mais rápido possível? – decretou, ligou para irmã que morava em outra cidade, juntou todo o dinheiro que tinha e o que não tinha, pediu emprestado.
Lara levou as pequenas joias que ganhou de presente de Ricardo, que serviria para o seu sustento por algum tempo. Em uma madrugada, mesmo sem saber o porquê, seu pai a levou até outra cidade para pegar um ônibus. Ficou na casa da tia e, depois, de uma prima por muito anos, cursando o colégio e a faculdade. Sua mãe lhe mandava dinheiro regularmente, para ajudar pagar a mensalidade.
Durante os meses que seguiram a sua fuga, algum carro a mando de Ricardo dava volta na sua rua, na tentativa de encontrar a fugitiva, até desistir.
Fale com o autor