Barcelona, 22 de julho de 2016

Com as mãos trêmulas de raiva, Lara recolocou o telefone sobre a mesa, com um gesto brusco, sem pensar nem um segundo sequer, foi até o armário, pegou sua mala e atirou seus pertences ali dentro, sem cuidado, depois, pegou sua bolsa. Já saía do apartamento, quando, viu o telefone esquecido, o pegou e colocou dentro da sua bolsa, caminhou decidida para a porta, não havia mais volta. Parou por um breve instante, olhando o lugar onde por alguns dias, foi tão feliz, mesmo que vivesse só uma ilusão. A garrafa de vinho e os tapas os esperariam para sempre, sobre a mesa já posta para o jantar. Então, apagou a luz e fechou a porta.

Valverde, 17 de abril de 2017

E lá estava Lara, parada diante da porta de entrada da maior e mais luxuosa casa da cidade, através dela, podia ouvir o barulho da festa que acontecia do outro lado, a comemoração de noivado da sua amiga de infância Roberta.

As duas foram muito unidas até a adolescência, do tipo inseparáveis, trocavam sonhos e segredos, fantasiavam como seria suas vidas no futuro. Lara frequentou a casa de Roberta durante por muito até que tudo mudou... ela não gostava de pensar sobre isso.

Futuro era algo que Roberta não precisava temer, pois seu pai, Ricardo Hernández, era um homem muito rico, o mais poderoso político e o maior latifundiário da região, que adorava paparicar sua única filha, sua princesinha como costumava chamá-la.

Quanto a Lara não podia contar com o dinheiro que a família não tinha, seu pai era um funcionário da prefeitura, com muitos sacrifícios, estudou em bons colégios, como foi sempre uma excelente aluna, conseguia bolsas de estudos, e sempre quis muito mais do que aquela cidadezinha do interior poderia lhe dar. Sonhava com bons empregos e salário, uma vida empolgante, criativa e dinâmica, conhecer pessoas diferentes com novas ideias, estava certa que aquele não era o lugar dela, e, desde criança, tinha consciência que para isso precisava abandonar o ninho e abrir suas asas para alçar voos mais altos, mesmo morrendo de medo, não se intimidou, quando teve que fugir dali, antes que seus sonhos fossem destruídos.

Por isso, quando foi estudar e morar em outra cidade morar com parentes da sua mãe, assim Lara se distanciou da amiga e de tudo relacionado aquela cidade, nunca mais retornou, até aquele momento. Enquanto Roberta continuou sendo a princesa do lugar, sem se preocupar com o futuro. Em caminhos bem diferentes e a comunicação entre as duas amigas foi ficando cada vez mais exígua até, praticamente, não existir mais.

Mas, agora, Lara estava lá, na cidadezinha onde nasceu e foi criada, não por escolha própria, porque, de certa forma, sentia-se uma estranha lá, meio deslocada, após esses anos todo morando fora, se transformou em uma pessoa diferente dos seus antigos vizinhos e parentes, não pertencia mais àquele lugar. Mas, precisava rever a família, principalmente, porque o pai teve um AVC e, cheia de culpa, se obrigou a ir até lá, pois há muito tempo não se viam, já que ele se recusava viajar para qualquer lugar, sair da sua casinha.

Naquela tarde encalorada, entediada, sem ter nada para fazer, Lara se ofereceu para fazer compras no mercado.

— Você está muito magra, Lara. Não tem comida naquela cidade? – sua mãe reclamava, constantemente.

— Tem e muita, mãe. Só que preciso me cuidar para não engordar.

— Bobagem. Você parece estar doente, vou cuidar de você – Então, ela a entupia de doce e comida boa.

E foi, naquela tarde, no meio da rua principal, ouviu a buzina estridente e insistente, Lara olhou em volta para saber o que estava aconteceu, quando viu aquele carro enorme e caro, um SVU, parar junto dela, atrapalhando o trânsito.

— Lara! Lara! – A bonita loura ao volante gritou, sem se importar com as buzinas atrás dela.

— Roberta? — Ela se esforçou para a reconhecer.

— Sim, sou eu mesma – respondeu, com um sorriso esplendoroso. — Deixe eu tirar isso do caminho, por causa desses apressadinhos aí atrás. Espere aí mesmo.

Sim, essa era a mesma Roberta de sempre.

O carro andou alguns metros e estacionou sem muito cuidado junto ao meio-fio, a garota saiu apressada, abraçando Lara, com entusiasmo exagerado, que mesmo estranhando, tentou retribuir, desajeitada, com as sacolas de compras nas mãos.

— Eu não acredito que você está aqui! Quando voltou?

— Eu cheguei há dois dias, estou de férias, vim para casa, porque meu pai está doente.

— Eu soube do que aconteceu, Lara. Lamento tanto, Lara – Roberta disse, em tom de pesar. — Venha eu te dou uma carona para casa.

— Não precisa, estou com o velho carro do meu pai, logo ali parado, só espero que aquela lata-velha não me deixe na mão.

— Mas, você está tão bonita e parece estar tão feliz.

— O momento não poderia ser mais perfeito de você está aqui! Porque sim, estou muito feliz! Adivinhe! Eu vou me casar, Lara. E sábado à noite, será a minha festa de noivado e faço questão que você vá presenciar um dos momentos mais importante da sua vida.

— Eu não sei... – Lara não estava muito a fim de reencontrar a velha e ranheta elite da cidade, principalmente, ir aquela casa.

— Você tem que ir! Você se lembra quando conversamos sobre o que queríamos do futuro e eu sempre dizia que queria me casar, em uma igreja e ter festa mais linda do mundo. Então, minha amiga, estou a um passo de realizar esse sonho e você tem que testemunhar isso

— Sendo assim, eu irei — Lara ficou sem saída.

— E não se preocupe, que mandarei um carro ir pegá-la na sua casa, sabe, por causa do carro — Essa frase fez um arrepio subir pela espinha de Lara.

Antes de sair de casa, usando um vestido de noite, que sei lá porque, Lara havia trazido, esperava o carro que Roberta havia prometido, no fundo, com esperança que ela houve esquecido, assim teria uma desculpa para não ir aquela festa.

— Você vai mesmo a essa festa naquela casa, Lara? — sua mãe lhe perguntou, em tom soturno ao vê-la pronta.

— Eu não tive saída, Roberta me convidou e foi muito enfática, não podia dizer não, que desculpa eu daria?

— Espero que você saiba o que está fazendo, Lara.

Ela não sabia e, agora, estava ali, diante daquela porta, pronta para aturar uma festa chata, pessoas me perguntando se estava comprometida e olhando de forma esquisita depois de tudo que falaram, no passado, depois que ela se foi, assim, deu uma ajeitada no vestido e nos cabelos, respirou fundo e jogou os ombros para trás, querendo passar a melhor impressão possível, e foi em frente.

Uma empregada com um impecável uniforme clássico abriu a porta, Lara entrou, olhando em volta, procurando por algum rosto familiar até a mãe da noiva surgir bem na sua frente, seu ar de espanto se transformou, imediatamente, em um sorriso simpático.

— Como vai, Joana?

— Lara! Você está ótima! Eu não pude acreditar quando Roberta me disse que encontrou você, outro dia, no meio da rua e a convidou para a festa – Joana disse, que mesmo vestida de Chanel dos pés à cabeça, usando e joias caras, ainda era o que era, uma dona de casa provinciana.

— Foi realmente um convite inesperado.

— Para nós, também, aconteceu tão de repente. Eles se conheceram a menos de um ano e, imagine só, já vão se casar em setembro!

— Era o que Roberta sempre desejou se casar.

— Éramos que todos nós desejávamos, que Roberta arranjasse um bom homem para se casar e conseguiu. E você?

— Eu? – Ela já esperava por isso.

— Você já tem alguém?

— Ainda, não tive tanta sorte.

— Que pena! Tenho certeza, que um dia vai encontrar um bom homem, Lara.

Nesse mesmo instante, Lara pensou que não precisava de ninguém para ser feliz.

— Venha o pai de Roberta vai adorar revê-la – Joana a puxou pelo braço, pela sala luxuosa, decorada por muitas flores, aproximando-se de um grupo de homens mais velhos que conversavam animados, entre eles, padre, o delegado, o prefeito e Ricardo Hernández, o todo poderoso pai de Roberta.

— Olhe, Ricardo, quem está aqui! Lara, a amiga de infância de Roberta.

Ele se virou para ela, com um copo de uísque na mão e um charuto na boca, havia envelhecido um bocado, mas ainda era bonito, forte e vigoroso, e olhou para ela daquele jeito. Esse olhar foi uma das razões para Lara deixar a cidade. Um olhar de cobiça, de um homem que consegue tudo que quer.

— Lara, como você cresceu! Voltou para ficar? – Ele estava visivelmente animado pelas doses de uísque.

— Não, só por alguns dias por causa da doença do meu pai – Lara respirou fundo e respondeu, de certa forma aquele homem ainda a intimidava, mesmo depois de tanto tempo.

— Uma pena! Deveria voltar a morar aqui, por causa da sua família, depois que aconteceu com seu pai, sua família precisará de vocês, tenho certeza que sentem muito a sua falta. Eu poderia conseguir um bom emprego para você.

— Minha família está bem sem mim. E acho que uma designer de moda não teria muito campo de trabalho por aqui, em Valverde. Além disso, já tem um bom emprego, sou compradora de uma grande rede de lojas.

— Nunca se sabe o que o futuro pode nos trazer, Lara. Essa cidade tem muitas oportunidades e receberia uma filha pródiga de braços abertos. – Ela lhe deu um sorriso encantador. Será que só ela estava entendeu o que acontecia ali? Todos ficaram parados, escutando com cara de paisagem. Talvez, não entendessem mesmo ou fingiam não notar.

Ela queria fugir, ir embora, arrependida por ter ido àquela casa, porém, foi salva pela chegada da esfuziante Roberta, usando um deslumbrante vestido vermelho Stella McCartney, com maravilhoso brincos de diamante.

— Eu não acredito que você veio! – ela disse, a abraçando, apertando, quase a deixando sem ar.

— Estou tão feliz. Esse é o dia mais feliz da minha vida, pelo menos, até o dia do meu casamento. Mas, agora, venha, você precisa conhecer o meu maravilhoso noivo. — Ela a puxou pela mão, pelo meio dos outros convidados, até a varanda — Nunca imaginaria que encontraria meu noivo dessa maneira. Sabe, ele bateu no meu carro parado, fiquei furiosa, mas foi tão gentil, que eu perdoei, por fim trocamos os números dos telefones e, aqui, estamos.

— Então, foi o destino.

— Sim, mas tive que dar um empurrãozinho ao destino, então no fim de agosto, inesperadamente, ele me pediu em casamento.

As duas se aproximam de um grupo que conversava em tom baixo e educado.

— Carlos! – Roberta chamou. Por um instante, o coração de Lara acelerou e parou de bater, quando o homem mais alto se virou para elas e olhos deles se encontraram. – Carlos, querido, essa é a amiga que eu te falei, Lara.