Barcelona, 17 de julho de 2016

No calor sufocante da tarde, andando nas Ramblas, Carlos e Lara pararam em uma loja de sorvetes, ficaram em dúvidas de qual escolher diante da variedade de cores e sabores, por fim, saíram de lá, com uma bola de sorvete equilibrada em uma casquinha de biscoito, para ela, framboesa, para ele, chocolate belga, assim continuaram caminhando pelas ruas movimentadas, a passos lentos, não tinham nenhuma presa.

— É estranho saber, que você nasceu em uma cidade vizinha a minha, que morávamos tão perto um do outro e só nos encontramos aqui, a milhares de quilômetros de casa – Ela lambeu com a ponta da língua um fio de sorvete, que escorre pela casquinha de biscoito lambuzando dedos dela, enquanto, Carlos a observava com atenção, achando graça, daquele ato quase infantil.

— Poderíamos chamar isso de destino.

— Ou só uma mera coincidência.

— Nós nos mudamos de lá, há muito tempo atrás. Eu era quase uma criança, não me lembro de muito dessa época. Só sei que meu pai recebeu uma proposta para trabalhar em um outro local, com um salário bem maior.

— E você tem irmãos?

— Não, sou só eu.

— Eu também sou filha única.

— Seus pais devem ter sentindo muito, quando você foi embora.

— Como você sabe que eu fui embora, se eu nunca contei isso a você? – Ela parou, encarando, o sorvete esquecido derretia e escorrendo pela sua mão.

— Não precisou, eu imaginei, pois não há nenhuma faculdade de moda ali, por perto de Valverde.

— Espertinho! – Ela lhe mostrou língua.

— Sim, sou mesmo. Esperai tem algo bem aqui, ele lhe apontou para o canto da sua boca, ela tentou limpar com a ponta da língua.

— Saiu?

— Não, mas deixa que eu tiro – Carlos se inclinou para frente e a beijou.

Valverde, 23 de março de 2017

Lara manobrava o carro para pegar a pequena estrada de terra, seu telefone começou a tocar, o nome de Carlos surgiu na tela, mas ela não queria continuar aquela conversa que não chegaria a lugar nenhum. Ele, simplesmente, nunca entenderia o tipo de relação entre ela e Ricardo, o que aconteceu, realmente, entre os dois. Por isso, deixou tocar até cair na caixa postal, contudo, ele tentou outra vez, mais uma recusa, para deixar bem claro que não queria conversa, naquele momento.

Olhou para o retrovisor, para ver se o carro de Carlos estava seguindo o dela, não estava, mas havia outro carro de vidros escuros, ela não se preocupou. Pegou a estrada principal, seguiu alguns quilômetros, entrou na sua saída, olhou de novo o espelho e o mesmo carro continuava lá. Ela estaria sendo seguida? Estava ficando paranoica? Testou, pegando uma rua à direita, o outro carro fez o mesmo. Coincidência? Virou à esquerda, e ele continuava atrás dela. Ficou assustada, pensou se poderia ter a ver com Ricardo, alguma maneira dele intimidá-la, para procurá-lo. Não ia cair nessa! Continuou, sem saber como agir, talvez, fosse melhor voltar para casa. Foi o que fez, acelerou, a fim de ganhar alguma dianteira. Foi pelo caminho mais longo, até parar na frente da sua casa, estacionou sem cuidado, junto ao meio-fio, correu para a proteção e ficou observado lá de dentro, o carro suspeito reduzir a velocidade e fazer uma breve parada diante do seu portão, antes de seguir em disparada, cantando pneus. Ficou ali estática, atrás da porta, esperando o coração voltar ao seu ritmo normal, a respiração se tranquilizar, não queria preocupar a mão, já que seu pai vivia em um mundo próprio, muito longe daquelas inquietações.

— Onde esteve, Lara? Tem mato nas suas roupas – Sua mãe perguntou, sem lhe dar atenção, sentada na poltrona, cerzindo algumas roupas. Seu pai sentado na poltrona ao lado, olhava, sem ver, um programa matutino na TV.

— Na cachoeira.

— Você não devia ir lá, é perigoso! – A mãe descansou a costura no colo e encarou a filha de modo duro.

— Perigoso? Ninguém vai lá! – Lara riu, dissimulada, sentando-se, próximo ao pai.

— Por isso mesmo, é muito isolado. Além do mais é terra do Hernández, você não devia mais se meter com essa gente.

— Mãe, eu sei, mas, também, quero saber o que aconteceu com o pai, quem o deixou nesse estado.

— Por quê? O que você pretende fazer se descobrir quem contou a verdade para o seu pai?

— Mas, eu quero saber quem é o culpado...

A resposta estava nos seus olhos da mulher mais velha.

— Você acha que a culpa é minha, não acha, mãe? Sempre achou isso.

— Você sabe o que eu penso sobre essa história. Na época, você era só uma menina assustada...

— Mas, poderia ter confiado em você. Jamais me perdoou por isso, por manter segredo por todo aquele tempo.

— Você não sabe o que passa no meu coração, garota – Colocou a costura de lado e se levantou. – Fique com seu pai, enquanto eu cuido do almoço — Ela se levantou e foi para cozinha, escutaram o barulho das panelas.

Lara a observou sair, pensando que sua mãe estava certa, depois do que aconteceu hoje, talvez, alguém quisesse amedrontá-la, para que fugisse da cidade, mas ela não iria embora, ainda. Estendeu a mão e segurou a mão esquecida do seu pai, com um suave aperto, sem resposta.

— Pai, se você pudesse me contar o que aconteceu. Eu sei que fiz foi errado, deveria ter confiado em vocês, contado o que estava acontecendo comigo, mas não tive coragem, tinha tanto medo do que vocês poderiam pensar de mim, do que poderia acontecer se soubessem – confessou. Foi uma breve sensação, talvez, coincidência, mas Lara sentiu um leve espasmo na mão do pai. – Pai? – Esperou uma resposta, algum tipo de reação que não veio, os olhos dele continuaram vazios e perdidos em algum lugar desconhecido.

Ela não sabia o que fazer, quem sabe, sua mãe estivesse certa e fosse melhor esquecer e partir, voltar para a sua vida fora daquele lugar. Mas, agora, havia reencontrado Carlos, em uma tentativa de retomar aquele momento mágico que deixaram lá trás, em Barcelona. Seria apenas um sonho, uma ilusão inalcançável, no entanto, isso traria consequências que poderiam ser dramáticas.

Ao ver sua chamada recusada pela segunda vez, Carlos desistiu, voltando pela trilha, a tempo de ver o carro de Lara se afastando ao longe, precisaria esperar ela se acalmar, não podia forçar a barra, se não poderia pôr tudo a perder, manteria a paciência e perseverança que teve até agora. Contudo, foi tirado dos seus pensamentos ao ver um carro passar rapidamente, nunca encontrou ninguém por ali. Não se importou, deu de ombros, era hora de voltar para a casa dos Hernández e para os braços da sua noiva.