Valverde, 24 de março de 2017

Lara mal havia entrado em casa quando o seu telefone, imaginou de imediato quem seria, confirmou o nome olhando para a tela e atendendo.

— Já chegou em casa? – Carlos perguntou, quase sussurrando.

— Sim, acabei de chegar.

— Precisava tanto falar com você. Podemos combinar amanhã na cachoeira?

— Eu também queria ficar perto de você, mas não é prudente. Ontem, um carro me seguiu, quando sai de lá.

— Você acha que alguém desconfia de algo? – Carlos indagou, preocupado.

— Não sei, mas essa região está nas mãos de Ricardo. Alguém pode reconhecer o seu carro ou o meu, e não seria nada bom se descobrisse que sua ex-amante e seu futuro genro tem encontro pecaminosos na cachoeira nas terras dele.

— Ex-amante? Soa como se você tivesse escolha.

— Por favor, não quero voltar mais a esse assunto. Mas, quanto a você, sobre esse seu plano de maluco de ir embora, abandonando Roberta praticamente no altar. Por que simplesmente não termina com ela, diga que não a ama ou que não está preparado para casar ou qualquer bobagem dessas, antes que ela coloque em prática os planos mirabolantes para a cerimônia?

Silêncio

— Carlos, você não quer despertar a ira de Ricardo Hernández contra você, não é? Se é isso que você quer, simplesmente, termine com Roberta, será mais fácil para todos. A não ser se esteja em dúvida sobre esse casamento.

— Agora, sou eu que não quero falar sobre isso. Podemos conversar a respeito depois.

Ao desligar o telefone, Carlos encarou a parede do quarto, considerando que Lara nunca o entenderia, não tinha medo de Ricardo, sempre teve uma ideia em mente: Vingança. Tentou de tudo para que Lara o ajudasse, mas mesmo debaixo daquela máscara de mulher moderna e independente, ela tinha tanto medo quando as outras, nenhuma delas estava disposta a enfrentar o passado, preferiam se calar e esquecer, só que algumas não conseguiram.

Lara sabia que Carlos estava brincando com fogo desafiando Ricardo, se acaso magoasse a sua única e preciosa filha, as palavras de Felipe a alertaram. O rapaz estava certo, desde criança ouviu falar dos destinos terríveis que os inimigos dele encontraram, mesmo ela não sabia por quanto tempo estaria segura, já que era a figura viva de rebelião contra ele. Mesmo assim, ele dizia que a amava, que a queria de volta, quem sabe, seria melhor fugir, antes que a situação virasse contra ela.

Barcelona, 20 de julho de 2016

— Vamos ficar o dia inteiro nessa cama? – Lara perguntou, já no meio da tarde, vencida pela fome.

— Não está bom aqui? — Carlos respondeu com falso espanto.

— Eu estou com fome — ela respondeu, já se levantando e vestindo uma camiseta. — Deixa eu ver o que temos na geladeira.

Carlos a seguiu, esperando na porta, enquanto ela retirava pimentões, tomates, cebolas, e tudo mais que encontrou na geladeira.

— Temos ovos e tudo isso aqui, podemos fazer um espaguete ou uma omelete.

— Espaguete — decidiu Carlos — Vou ajudá-la.

— Sua mãe nunca lhe disse que não se deve cozinhar pelado? Vista uma roupa.

— Acho que minha mãe nunca pensou em me aconselhar sobre isso.

Ele saiu e voltou usando uma camiseta e short, posicionou-se ao lado dela e começou a ajudá-la a cortar os legumes.

— Minha mãe não era muito afeiçoada à cozinha, pelo menos nos últimos anos, ela mal cuidava da casa e de si mesma — Carlos comentou, Lara pressentiu que havia algo a mais naquelas palavras, uma nuvem de tristeza pairou sobre ele.

— Ela cansou?

— Não, desde que minha irmã morreu, foi como se ela perdesse a vontade de viver, era quase como um fantasma, como a vida fosse uma pena a ser cumprida.

— Eu lamento muito — Lara parou o que estava fazendo e olhou para ele, penalizada. — Deve ser muito duro perder um filho. Sua irmã era muito jovem quando morreu?

— Quinze anos.

— Foi alguma doença?

— Não, um acidente. Eu era mais jovem não me recordo muito bem o que aconteceu, só um monte de memórias embaralhadas na minha cabeça. Depois disso tudo mudou na nossa casa, meu pai quase não aparecia, trabalhava dia e noite, talvez para esquecer. Minha mãe foi o que eu lhe disse, vive lutando contra a depressão. Até nos mudarmos de cidade e nunca mais voltamos nem para visitar os parentes que ficaram, querendo esquecer o inesquecível.

Os olhos de Carlos se encheram d’água

— São as cebolas — ele passou as costas da mão sobre os olhos e Lara colocou a sua mão sobre seu ombro a fim de reconfortá-lo, ele a segurou, trazendo para si e a abraçou, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, ficaram assim por um longo tempo.

Valverde, 24 de março de 2017

Mesmo dormindo muito tarde, Lara acordou cedo, já que estava lá para ajudar a mãe, pelo menos, poderia fazer companhia ao seu pai, apesar de ele parecer não notar a sua presença. Já arrumada, foi até a cozinha, onde sua mãe ajudava o marido a se alimentar.

— Bom dia, Lara.

— Bom dia, mãe. Pode deixar que eu cuido dele.

— Já estou quase acabando. Tome o seu café e fique com seu pai depois.

Foi no exato momento que a campainha tocou. As duas mulheres se entreolharam, imaginando quem seria àquela hora da manhã.

— Eu atendo.

Lara se levantou e foi até a porta, quando abriu qual foi a surpresa, pois diante dela, estava Joana Hernández, usando um bonito conjunto Givenchy azul claro e muitas joias, vestida para ostentar, impor sua posição social superior.

— Posso entrar? — perguntou, tirando os óculos escuros, diante do catatônico silêncio da sua anfitriã.

— Por favor, entre — saindo da letargia, Lara saiu da frente para lhe dar passagem. — Sente-se.

— Obrigada, mas não vou demorar muito — Joana disse, parando diante dela, Lara fechou a porta, esticou os olhos para a cozinha, preocupada com os pais, pois não esperava que aquela fosse uma visita de cortesia.

— Em que eu posso ajudá-la, senhora Hernández? — Lara olhou para baixo, pois mesmo com saltos altos e queixo desafiadoramente erguidos, a mulher era pequena.

— Eu vim lhe dar um aviso, na verdade, um ultimato, sei que esse namoro com meu sobrinho é uma baboseira.

— Eu não... — Lara tentou retrucar, Joana ergueu a mão para que se calasse.

— No passado, você quase roubou o meu marido, mas eu a perdoei já que era praticamente uma criança, uma menina petulante e oferecida. Mas, agora, não vou deixar que estrague a felicidade da minha filha – Joana vociferou.

— Como? — Lara teve que tomar cuidado com as palavras, pois não tinha ideia de até que ponto Joana saberia.

— Eu sei desses seus encontros clandestinos na cachoeira com o meu futuro genro. Ele é homem, não resiste a uma mulher dando em cima dele, mas isso é inaceitável. Então, acabe com isso, imediatamente, pois senão terei que tomar providências energéticas.

Lara estava pronta para rebater, quando sua mãe entrou na sala arrasando o marido pela mão, estancaram diante do confronto. Os olhos de Marta se esbugalharam, enquanto Orlando ficou nervoso, começou a tremer e balbuciar, sua boca abria e fechava emitindo sons guturais incompreensivos, assustando as mulheres. Marta tentava acalmar o marido em vão.

— A senhora já deu seu recado, então, agora, retire-se da nossa casa — Lara pediu em tom seco, abrindo a porta.

Antes de sair, Joana ainda lhe deu um último olhar em fogo.

Após fechar a porta, Lara correu para junto da mãe, ajudando-a acalmar o pai, que lentamente voltou ao seu estado letárgico.

— Vou levá-lo para dormir um pouco, fará bem depois de toda essa agitação — Marta disse, guiando o marido até o quarto.

Sozinha na sala, Lara não sabia que pensar, então Joana sabia dos seus encontros secretos com Carlos, seria a mando dela que aquele carro a seguira? E há quanto tempo isso estaria acontecendo?

Marta surgiu na sala, encarou a filha com o olhar ferino, uma expressão acusadora.

— O que está acontecendo, Lara? Por que Joana esteve aqui?

— Eu não sei — deu de ombros, dissimulada. — Talvez, por ciúmes do marido.

— Eu já avisei para não se meter mais com os Hernández?

— Mas, ela não tem direito de me tratar dessa maneira! – Lara retrucou, irritada.

— Sim, ela tem.

— Como?! Eu não tive culpa do que aconteceu! Foi Ricardo!

— Eu sei disso. E ela também sabe, apesar de fechar os olhos por tantos anos para os erros do marido, já que, Joana sempre soube o que o marido fazia. Mas, quando você me contou o que estava acontecendo, fiquei tão desesperada para tirá-la dessa cidade, que pedi ajuda para ela.

— Você pediu? – Lara ficou estarrecida.

— Sim, nós não tínhamos dinheiro para pagar suas despesas e seus estudos, foi Joana que custeou sua faculdade.

— Para eu não voltar – Lara concluiu em voz baixa, Marta concordou com a cabeça.

— Ela sabia que Ricardo era obcecado por você, que seria a única mulher que poderia tirá-lo dela, por isso a queria bem longe daqui.

— Joana quis afastar a ameaça, mas não confrontou o marido.

— Você sabe: Ninguém confronta Ricardo Hernández.