Sobre Lâminas e Lágrimas
1 As lâminas estão tortas...
Notas iniciais
O burburinho da multidão nunca me incomodou. Não incomodava na pista durante uma apresentação e não me incomodava agora no gigantesco parque temático.
A fila para o ringue de patinação no gelo era uma das maiores do parque. Ela prosseguia lentamente. Às vezes parava. Então andava. Então parava novamente.
Eu não pensava em nada especificamente. Não pensava na besteira que estava para fazer. Não pensava no desperdício de dinheiro que havia sido pagar a entrada absurdamente cara para usar apenas a pista de patinação no gelo, durante os ínfimos vinte minutos inclusos no pacote. Eu apenas esperava a minha vez na fila, encarando o espaço à minha frente sem realmente vê-lo.
Crianças corriam ao redor. As pessoas na fila apontavam as pessoas dentro do ringue, rindo de algum tombo aleatório. Talvez alguém percebesse que eu não estava bem quando o balão de uma menininha estourou próximo ao meu ouvido e não houve qualquer reação. Não pisquei. Não movi a cabeça. Sequer ouvi. Mas é claro que ninguém prestava atenção em mim. Não ainda.
Cedo ou tarde, acabei passando pela catraca. Não nutria expectativas para aquele momento, mas sua chegada me alegrou.
A moça com uniforme do parque movia os lábios. Provavelmente dava instruções. Eu não ouvia. Desatava os cadarços do meu tênis. Minha consciência despertou minimamente, apenas para avaliar o entorno e descobrir onde eu poderia encontrar patins.
Uma estante com patins brilhou aos meus olhos. Aquela imagem era como alguma droga para a minha mente entorpecida. Meus pés trataram de me levar naquela direção.
O caminho foi interrompido por outra moça de uniforme. Esta colocou um capacete em minhas mãos, com cotoveleiras e joelheiras em seu interior.
Meu cérebro me forçou a encarar aquele enigma por um longo tempo. Para que serviria aquilo? Certamente não era para mim.
- Normas de segurança. – A palavra segurança ecoou na minha cabeça e eu não reagi. Provavelmente a garota estava achando que eu tinha alguma doença mental. – Tem que pôr. Ou não pode entrar.
Bom, aquilo fazia sentido para mim. Tenho que pôr, ou não posso entrar. Sentei obediente e comecei a atrelar os velcros. Mas ao apertar o velcro no joelho esquerdo, alguma outra parte do meu cérebro adormecido reclamou.
Não, ela dizia. Não, não, não.
E eu entendi. Obedeci ao comando involuntário e pus a joelheira de lado. Está bem, pensei. Então não.
A segunda moça era mais esperta que a primeira. Percebeu que não teria sentido me abordar. Eu ia retomando meu caminho para a estante com patins, e ia esquecendo o capacete no banco. Ela apenas pegou o capacete e o pôs em minha cabeça, comigo em movimento. Não reparei.
O rapaz atrás de um balcão me entregou os patins com minha numeração. Meus olhos encararam a lâmina, muito gasta e um pouco curvada, e o pensamento mais consciente que elaborei desde que entrei no parque temático tomou forma. Que patins de merda.
Meus dedos se moviam automáticos sobre as fivelas. Talvez notassem que aqueles não eram os meus patins, ou talvez encontrassem a semelhança que necessitavam nas fivelas gastas. O fato é que repetiram o mesmo gesto realizado milhares de vezes em poucos segundos, guiados pela pratica.
E então eu estava na segunda catraca. Era apenas girá-la, e eu estaria no ringue. Um sopro de frio acertou meu rosto, e todo meu corpo se arrepiou de expectativa.
Um torpor gostoso ocupava a minha mente. Todos os pensamentos eram puramente viscerais. Não havia consciência. Como se eu observasse minha vida de cima, sem realmente me importar com o que aconteceria. Algo semelhante ao que acontece com os sonâmbulos, talvez.
Uma pontinha de angústia me dominou quando o funcionário responsável pela catraca me parou pelo ombro. Então é isso, pensei. Me descobriram. Cedo demais. Esperava poder ao menos pisar no gelo.
Mas o rapaz não me levou para longe. Ele apenas segurou meu rosto, levantando meu queixo, e fechou a presilha do capacete.
- Estava solto – ele falou – Agora, dê a primeira pisada devagar e segure na barra antes de...
Não escutei suas palavras. Sequer vi seu rosto. Com um impulso confiante, entrei na pista com velocidade.
Silêncio.
Havia somente o branco. O frio que subia do chão e o calor que emanava do corpo. A sensação dura, definitiva, da lâmina partindo o gelo.
A consciência poderia estar desligada, mas a exterocepção funcionava bem. A parte do cérebro responsável pelos sentidos registrava os turistas ao meu redor na pista lotada, e evitava que eu me chocasse com eles. Registrava o atrito anormal, repleto de solavancos, da lâmina quase cega contra o gelo. A pista vinha sendo sulcada por centenas de pessoas há horas sem ser recapada. Porém, tudo estava em segundo plano comparado com a sensação de voar pelo ringue mais uma vez depois do que parecia a eternidade.
A lesão no meu joelho chamou minha atenção, me alfinetando, quase como um gatinho que ronrona. Minha mente enevoada registrou aquilo como algo tão natural quanto o gelo ser frio. Como se fosse a sequencia natural dos fatos: colocar os patins, pisar no gelo, sentir dor. A dor não era classificada como fraca, forte ou insuportável. Dor era dor, e ela apenas compunha o cenário.
Meu corpo vibrava enquanto eu aquecia com o footwork ao redor do ringue. Talvez eu não devesse estar indo tão rápido. Seis era o número máximo de atletas permitidos em uma pista durante um aquecimento, por causa da alta velocidade que utilizamos. Havia no mínimo vinte turistas desastrados se apinhando por ali, se agarrando nas barras e rindo ao perder o equilíbrio e cair.
Bom, mas... eles ficavam nas barras, nas beiradas. Certamente não havia nenhum problema.
Um giro rápido e no mesmo instante meus dois pés deixam o gelo. Um inocente duplo toe, com os pés juntos e baixos. Totalmente vertical, sequer saí do lugar. Não queria machucar ninguém além de mim.
O minúsculo salto havia sido perfeito, é claro. Aterrissei impecavelmente na lamina externa com apenas um pé. Só que não o pé certo. Desci do salto no pé errado, da perna oposta. Da perna boa. Da perna que aguentaria o peso do corpo sem me levar ao chão.
Mesmo assim, o salto cobrou seu pedágio. A fisgada foi um pouco maior dessa vez, mas não o suficiente para chamar minha atenção.
O fato é que eu não estava ali, no parque temático fechado e abafado, com turistas desajeitados e risonhos. Minha consciência voava pela arena onde eu havia treinado toda minha vida. Onde conhecia cada canto da pista. Onde eu podia executar qualquer coreografia de olhos fechados.
Onde eu estaria agora se não fosse o joelho lesionado.
A dor a essa altura era alguma coisa. Mas tudo estava tão agradável no plano ideal que não tive coragem de voltar à realidade. Por esse motivo não pude notar os funcionários do parque exaltados fazendo chamadas por walkie-talkies, nem os turistas me assistindo e tirando fotos. Inevitavelmente, abrindo espaço no ringue para mim.
Eu passeava pelo gelo recém-aplanado da minha fantasia. Os dois pés em sequencia, com as pontas apontando para direções opostas, sem nunca perder a velocidade. O teto do ginásio era incrível. Giulian havia pendurado panos negros entre as fundações do telhado, puramente pela estética. Apenas eu sabia que aqueles panos eram na verdade azul-marinho se vistos de perto. Apenas para mim Giulian havia confidenciado aquele segredo. É o nosso céu, ele havia dito.
Giulian...
Certamente ele estaria na arquibancada, me assistindo, me julgando. A qualquer momento iria interromper o ensaio com alguma orientação.
Mas onde ele estaria? Ainda na posição de pés em que estava, comecei a inclinar o corpo para trás, com a intensão de olhar a arquibancada atrás de mim sem dobrar o pescoço. Meu corpo se transformou em um arco ao completar o cambré, e eu deixei que uma de minhas mãos roçasse levemente os dedos pelo gelo, a outra apontando para frente para manter o equilíbrio.
Giulian estava lá, é claro que estava. Mas aos poucos, a face serena do homem em minhas fantasias se dissolveu e deu lugar à face irada do Giulian real, presente no parque temático da vida real, logo atrás do muro.
Então, como se alguém acionasse uma chave, minha consciência despertou.
Eu desfiz o cambré. Não estava com muita velocidade agora. Meu joelho doía insuportavelmente. A velocidade ia diminuindo gradativamente, assim como minhas forças. Acabei me sentando, tirando o peso dos joelhos no exato instante em que parava por completo.
O burburinho dos turistas, o ar abafado do parque indoor. A realidade retornou sem nunca ter estado ausente.
Por que tive que fazer isso? Giulian esbravejava atrás do murinho que delimitava o perímetro do ringue. Eu estava de costas para ele, e estava feliz com isso. Não queria que ele visse meu rosto. Estava com tanta vergonha que não queria nunca mais olhá-lo nos olhos.
A lesão doía tanto, tanto. Eu a apertava com força. A dor era interna, profunda. Se eu apenas pudesse abrir aquilo... Um pequeno corte, e eu rebateria a pele, afastaria os ossos e removeria o que quer que causasse aquela dor. Se eu pudesse apenas... abrir...
O frio começava a penetrar em meu corpo, já que o calor do movimento havia acabado. Se dependesse apenas de mim, não me moveria tão cedo. Enfim tendo me encontrado, a realidade se encarregava de me manter no lugar, imóvel como pedra.
Braços envolveram meu tronco e joelhos, me erguendo do chão. Giulian. Soube pelo som seco do atrito que ele havia calçado os patins de alguém e os usava para me tirar dali. Eu olhava fixamente para um detalhe em seu casaco, sem querer encarar um rosto que fosse. Queria desaparecer.
Ele me largou delicadamente em uma salinha reservada, para o uso dos funcionários. Eles se apinhavam ao redor de nós dois, curiosos. Palavras como “primeiro lugar nacional”, “lesão grave” e “abalo profundo” alcançaram meus ouvidos. Tapei o rosto com as mãos. Não queria ver, não queria ouvir. Queria que todos fossem embora e me deixassem ali.
Bom, todos menos Giulian.
Isso eventualmente aconteceu. Só então meu treinador levantou minha calça até o meio da coxa, expondo a fonte de nossas noites mal dormidas nos últimos meses.
Eu não olhei. Já havia olhado que chegue.
Giulian tirou uma bisnaga de gel anti-inflamatório e analgésico do bolso, e começou a aplicar com uma massagem, sem nada dizer. Eu não tinha percebido que chorava. Por que tinha que doer tanto?
Ah, não a lesão. A lesão também, mas não só ela. Algumas outras coisas também doíam. Subitamente, eu me despia de uma certeza que me acompanhou por toda a vida. Eu não tinha mais nada para fazer no ginásio onde cresci. Eu veria tanto rivais quanto colegas progredirem, ganhando renome ou não, enquanto eu ficava para trás. Meus amigos optavam entre cursos de graduação, preocupados em escolher bem uma profissão para o resto de suas vidas. Eu nunca havia pensado nisso, pois o que eu faria pelo resto da minha vida já estava decidido... Até três meses atrás.
Giulian havia terminado com o gel, e agora segurava o meu rosto com suas mãos grandes. Limpava as lágrimas com os polegares.
- Por que você tinha que fazer isso? – ele perguntou, mas me conhecia bem demais para não saber a resposta.
_____
A campainha do meu apartamento soava insistente. Não me movi para longe da minha cama, pois sabia que minha mãe atenderia, e que o assunto não me diria respeito.
Pensei ter certeza disso quando as vozes sussurradas passaram um bom tempo conversando na sala. Passava um pouco das três horas da tarde, mas eu não havia levantado da cama e nem planejava fazê-lo.
Já tinha me esquecido de minha mãe e sua companhia quando Giulian entrou em meu quarto.
Não é a primeira vez que isso acontece, então não fiz cerimônia. Na verdade, sequer me movi. Apenas revirei os olhos, voltando a atenção para a televisão.
- Então era você. – disse apenas. E só então me perguntei o porquê de ele ter passado tanto tempo na sala com minha mãe antes de vir para o meu quarto.
Nessa hora, ele desligou a TV que eu estava assistindo.
- Levante-se – ele proclamou – e arrume sua mala. Você e eu estamos indo morar no Canadá.
A frase foi tão surreal que não lhe dei crédito.
- Liga a TV, Giulian...
Ele deu dois passos na direção da minha cama e jogou longe minhas cobertas, me assustando. – Estou falando sério. Voltaremos daqui a um mês para passar o fim de semana, então você pode deixar algumas roupas para buscar depois.
Nós dois nos encaramos por vários minutos sem nada dizer. Estampado no meu rosto, a total incredulidade. No dele, pura determinação.
- Me diga antes o que está acontecendo. – eu exigi.
Minha condição não era nada além de razoável, e Giulian sabia disso. Ele tirou algo do bolso e me entregou. Era um folheto impresso em casa, de uma clínica de recuperação do Canadá.
- Essa clínica é especializada na recuperação de atletas lesionados. É conhecida no mundo inteiro. Vamos conseguir para você o melhor fisioterapeuta que existe no ramo.
Eu balancei a cabeça para os lados. No meu atual estado de melancolia, Giulian teria trabalho para me fazer acreditar em tal história. Porém, apesar de todo meu pessimismo, uma centelha de esperança veio à vida, escondida no fundo do meu peito.
- Consegui um financiamento do governo – Giulian recomeçou, sentando na cama ao meu lado e acariciando meu rosto – Eles têm esperança de ver você competindo nas Olimpíadas algum dia. Aceitaram pagar a maior parte do tratamento. A parte que sobrou, a Academia vai pagar com o dinheiro das aulas e dos campeonatos.
E de repente eu não duvidava mais. Levei as mãos ao rosto, mal acreditando em minha sorte. Passei tanto tempo lamentando meu destino que sequer reparei no esforço que era feito em meu favor, pelas pessoas próximas a mim. Nada além do meu círculo de dor havia importado. Me surpreendeu eles terem levado a ideia a cabo, apesar do meu comportamento. Minha Academia iria me pagar um tratamento bilionário e eu sequer apareci lá nas últimas semanas.
- Giulian – percebi que estava chorando quando minha voz saiu na forma de um grasnado, aquoso e nasalado. Todos os orifícios do meu rosto escorriam e eu chorava aos borbotões. Meus cabelos estavam desalinhados e a era roupa de três dias. Eu era uma figura patética, e mesmo assim Giulian e o pessoal da Academia haviam movido mundos e fundos em meu favor – Eu... Não sei como agradecer...
- Shh... Está tudo bem. – ele me abraçou, rindo. Vi minha mãe escorada na porta do quarto, também rindo, antes de eu enterrar meu rosto no ombro de meu treinador e chorar tudo para fora.
Nessa hora, meu joelho voltou a incomodar. Mas eu não voltei a amaldiçoar minha sorte e meu destino como vinha fazendo nesses últimos meses. Nem sempre a vida perdoa os que desistem facilmente. De fato, mais ninguém tinha tanta sorte quanto eu.
Notas finais
Eu imaginei um rapaz quando escrevi, com cabelos loiros compridos. He.
Mas senti falta do smut, hehe. Não escrevi, pois seria difícil se ater à proposta de manter o gênero incógnito durante uma cena erótica... Se a recepção for boa, posso até tentar.
Obrigada aos que chegaram até aqui!
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