Sobre Cartas
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura!
I-
“Dazai de merda,
Eu me lembro de um dia em que você estava com o braço quebrado em cinco partes diferentes, torcido firmemente em bandagens mais grossas que as usuais, porém não imobilizado, não na posição de curar e juntar fragmentos, apenas embalado com força e mau jeito.
Lembro-me de perguntar qual era o objetivo de desperdiçar curativos se você nem iria usa-los do jeito certo.
Você sorriu. Aquele sorriso cruel e lupino que era só seu.
“Eu gosto do jeito que dói”
O seu braço esquerdo nunca curou direito e havia uma fraqueza permanente no seu pulso. Os ossos delicados se juntaram tortos e, quando eu tocava sua pele, podia sentir os nós calcificados do radius se pronunciarem de um jeito antinatural.
Nunca entendi porque alguém deixaria isso acontecer consigo mesmo do mesmo jeito que nunca compreendi porque você nunca parava de buscar vingança contra seu próprio corpo, essa sensível armadura de carne e nervos que protege as coisas preciosas e moles que existem dentro da gente do mundo cruel e afiado ao nosso redor.
Mas, um dia, você foi embora e eu senti meu coração, aquela coisa velha quase parada lá dentro, com jeito de passarinho morto de fome, se partir em cacos agudos e aguçados. Eu senti os fragmentos dele cortando os espaços entre minhas costelas à cada passo que eu dava, mostrando que você esteve ali e arrancou minhas costelas para sair.
E eu gostei do jeito que aquilo doía...”
II-
“Cavala,
Uma noite você me chegou com soluços, aqueles olhos castanhos de jeito manso que eram só seus e boca fresca de madrugada.
Para mim, você sempre teve jeito de menino que está indo embora: sem fôlego, lábios ressecados e partidos, carregando o fim do mundo nos braços, o coração: terra aborígene colonizada e devastada.
Você era um menino estranho, não mais que uma criança machucada quando pela primeira vez te deitei nos meus lençóis que, na época não tinham nada de seda. Nunca me esquecerei daqueles olhos, dos sons em seus lábios ou como você chorou o tempo todo, o corpo tremendo com a força dos seus soluços. Você parecia tão frágil e terrivelmente jovem para o peso nos seus ombros ou cicatrizes nos seus pulsos. Naquela noite, você parecia o garotinho trêmulo e assustado que era.
Quando eu te beijei, confundido sua boca com o sabor salgado das lágrimas e suas unhas cravaram-se nas minhas costas, tirando sangue, eu devia saber que nada de bom adviria disso.
Mas eu também era só outro garotinho machucado, frágil e assustado...”
III-
“Para você que nunca se deixou em paz,
Vi você, semana passada num mercadinho de esquina com aquele seu novo pupilo.
Ele é uma coisinha pálida, magra e risonha do jeito que as crianças devem ser: irradiando confiança e boas intenções. Ele tem estrelas nos olhos quando fala com você e parece que beijaria o chão por onde você passa e eu entendo tão bem dessa admiração cega que não posso julga-lo.
Vocês conversavam na fila do caixa e seus dedos sumiram brevemente entre o emaranhado branco que toma o lugar do cabelo do seu menino.
Ele se inclinou e você sorriu: pequeno e reservado, e meu coração apertou de saudade. Você o olha com carinho não adulterado, como se pudesse proteger esse garoto de todos os males do mundo.
Eu me pergunto se é doloroso dar o que você nunca recebeu.
Eu me pergunto se você ainda vê os reflexos de carmim do sangue nos seus punhos, de outra criança, só um pouco mais velha que essa.
Eu me pergunto, frequentemente, se você sabe que não precisa andar milhas, ajoelhado, implorando perdão pelas coisas que fez quando não sabia melhor.
Mas eu te entendo, por que de noite também me questiono.
Afinal, como podemos nos perdoar por todas as coisas que não fizemos até que fosse tarde demais?”
IV-
“ Múmia Ambulante Local,
Eu te amava.
Eu te amava como uma faca entrando em um músculo, uma bala em uma multidão ou uma bomba caindo numa cidade.
Eu te amava do jeito mais humano, feroz, selvagem que existia. Do jeito que só crianças criadas pelos cantos de cidades escuras aprendem a amar.
Você me amava como gasolina e fósforos, como aprender a andar de bicicleta: jovem e imprudente, como um desastre.
E Deus, era lindo!
Você me amava do jeito que fazia impérios caírem e ateava fogo em reinados.
Ainda não entendo porque você estava disposto a morrer numa cruz por mim, mas não a não ir embora.
Eu me apaixonei pelos seus sorrisos: os cruéis e os que eram pouco mais que uma contração dos seus lábios.
Você sabia os efeitos que tinha em mim, como eu ficaria de quatro, sete ou dez por você. E eu adorava cada minuto disso.
Amor, em excesso, é veneno, mas eu nunca aprendi a controlar minhas doses fosse de vinho, fosse de você.”
V-
“Para aquele em quem eu confio,
Você ainda pensa em mim? Eu ainda sou o lugar para qual seus pés querem voltar no final de um longo dia? Eu ainda sou o caminho mais curto para a segurança? Quando você deita sozinho na sua cama, você lembra-se da minha voz, do meu riso ou daquela noite em que éramos só nós dois, suados, jovens e imortais e eu disse com timbre rouco que seu nome tinha som de estrela bonita? Você pensa em mim? O paciente jardineiro, o guardião do seu sono?
Dazai eu te odeio e odeio ainda mais você ser o lugar aonde minhas células decidiram querer descansar.
A curva do seu pescoço, a dobra interna dos seus cotovelos, o espaço entre seus dedos, os redemoinhos dentro dos seus cabelos castanhos, tudo que sempre teve mais cheiro de casa do que qualquer apartamento em que eu já estive. Eu nunca dormi mais seguro do que quando estava dentro dos seus braços, a cabeça em seu peito, ouvindo seu coração palpitar em código que me amava.
Dazai, meu amor, minha alma, minha chama gêmea, eu te odeio, te odeio tanto, mas odeio ainda mais o que você fez comigo.
Anee-san ainda ontem me beijou no rosto, parecendo incorrigivelmente triste.
Ela disse que sou outra flor cega pela luz, sem nenhum ninho à qual pertencer.”
+1:
“Querido Osamu,
Eu nunca vou questionar seus motivos de ir embora, mas acho que nunca vou perdoa-lo por me deixar, do mesmo jeito que nunca deixaria de te amar.
Todas as noites são frias e todos os caminhos são escuros sem você.
Volte para mim, lugar de onde você nunca foi embora.
Eternamente seu,
Nakahara Chuuya."
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