Sobre Aliens E Irmãos

6 I - Sexto - Sobre Amigos e Mudanças


Notas iniciais
Hey, hey~~ Bem, o atraso desta fanfic em específico se deu porque bem, tem uns personagens de Maid-sama com que ainda não sou acostumada a lidar (Kanou), mesmo que eu goste muito deles (Kanou) e ele não é tão fácil de decifrar quanto o casal protagonista (Kanou). Empaquei na escrita mesmo e blablabla, ninguém quer saber. Boa leitura ♥


Percorria os corredores do colégio, alheio à movimentação a sua volta. Afinal, sua mente estava concentrada na costura, no detalhamento, na textura dos tecidos e no seu molde ao corpo feminino. Estava dentro do prazo para a entrega das vestimentas à sua tia, feliz consigo mesmo por conseguir administrar tão grande carga de trabalho num tempo restrito. Mas isto custara a Aoi várias noites mal dormidas, um estresse sem tamanho e aquilo que ele pretendia esconder de sua família ― um leve decair em seu desempenho estudantil.

Nada tão impressionante, embora soubesse a raiva com que seu pai lidaria com a situação, incriminando (ainda que desta vez merecidamente) aquilo que ele dizia ser um “desperdício de tempo”, “brincadeira nociva”. Brincadeira! Era irritante a maneira com que aquele homem tratava de suas paixões, menosprezando-as como simples rebeldias adolescentes. Não conseguia aceitar que seu filho amava costurar roupas femininas?

Pensar naquele assunto fez com que seu aborrecimento crescesse, e fez questão de evitá-lo. Daí voltou sua atenção ao ambiente externo, e notou a voz de sua colega de clube alguns metros além, conversando com o que pareciam ser outras duas garotas. Foi de grande ajuda a presidente do clube, não somente quando o auxiliava no processo de feitura dos uniformes, como também ao assegurá-lo de que poderia dormir algumas horas na sala enquanto ela prosseguia na costura.

“Amigo.”

Aquela palavra ainda ardia em sua mente, além de confundi-lo e simultaneamente confortá-lo. Era um sentimento estranho, aquele tal companheirismo para alguém como ele, que sempre se isolou dos colegas por considerar a si mesmo tão diferente destes. Mas Suzuna era tão ― ou até mais ― excêntrica do que ele mesmo, e talvez isto explicasse aquela relação um tanto esquisita que ela nomeou como “amizade”.

Estava prestes a cumprimentá-la antes de entrar na sala de aula, quando percebeu que não era um diálogo saudável que se desenrolava naquela extremidade do corredor. Suas interlocutoras, um pouco maiores do que a morena de cabelos presos, pareciam confrontá-la, mesmo que ambas estivessem na defensiva. Na verdade, com sua expressão indiferente, a pequena aparentava ser a mais tranquila dentre todas.

― Se está interessada nele, tem de ir você mesma dizer isso ― aconselhou ela, sem mudanças em seu timbre. Seus olhos tradicionalmente inexpressivos carregavam um tédio que explicitava sua falta de interesse no assunto.

― Mas você é amiga dele, não é? ― intrometeu-se uma delas, mais energética. ― Ou mentiu para nós está tentando monopolizá-lo?

Os olhos da líder do Clube de Sorteios se estreitaram minimamente diante da suposição. Não poderia dizer-se que estava irritada, já que a paciência da colegial era proporcional à sua apatia, mas alguns sinais de um desabrochar de aborrecimento eram visíveis. Ao menos para Aoi, que a conhecia minimamente. Mas, acima de tudo, ele mesmo estava irritado, pois sabia que elas falavam de si mesmo. Antes de se aproximar, contudo, Suzuna respondeu com alguma determinação em meio ao tom monocórdio:

― Não vou me intrometer em algo que não me diz respeito.

― Isso é preguiça? Ou é má-vontade? ― insistiu a mesma garota, já que sua companheira parecia apenas concordar com suas palavras.

― Talvez os dois. ― A morena desviou seus olhos, nitidamente enfadada com aquele rumo.

Na verdade, a verdadeira preguiça estava em explicar para elas os inúmeros motivos pelos quais não lhes atendia o pedido: sugerir ao amigo que saísse com uma delas, a mais quieta dentre as duas. Em primeiro lugar, julgava que ela mesma deveria dizer o que sentia ao garoto. Além disso, não traria mais complicações ao rapaz, já que ele estava preocupado com tantas outras. E usar de sua amizade para beneficiar aos desejos de alguém era, além de mesquinho, desleal.

― Mas... mas você está sendo muito egoísta! ― disse enfim a mais calada.

― Não é ela que está obrigando nada a ninguém ― interviu Aoi, enfim. Já estava cansado de ouvir todo aquele espetáculo ridículo.

― H-Hyoudou-kun! ― assustaram-se as duas ao descobri-lo tão próximo.

Ao avançar na direção do trio, a expressão do moreno era mais ranzinza que de costume, pois a indignação somara-se à constante irritação. Soube, sim, que com o tempo, ao tornar-se um belo rapaz, as atenções masculinas de outrora deram lugar às femininas. Empecilhos, de qualquer forma, embora não o incomodassem com tanta frequência. Mas a covardia das meninas ao perturbar sua ― tão recente ― amiga o afetou mais do que previra.

Ainda que seu jeito mal-humorado afastasse qualquer aproximação, elas deveriam ter feito isto por elas mesmas! No entanto, a iniciativa com que abordaram Suzuna pareceu sumir à sua frente, já que ambas permaneceram caladas a fitá-lo de baixo ― não apenas porque era mais alto do que qualquer uma, como também pela forte presença que tinha devido à natureza orgulhosa.

― Sakishima-san, pronto ― começou a mais baixa, estendendo as mãos para frente. ― Agora diga ao Aoi-kun o que queria. ― Complementou sua fala com um sorriso ameno como seus olhos. ― Ele está bem à sua frente, não é?

Diante de suas palavras, as garotas inverteram seus olhares entre os dois e saíram disparadas, envergonhadas e frustradas. Aoi deixou-se observar a pequena, que as avistava partir. Certamente ela não dissera aquilo em vão ― havia uma pontinha de sádica naquela colegial considerada inexpressiva. Até mesmo conseguira fingir um sorriso daqueles! Embora ele mesmo não fosse julgá-la cruel, a Ayuzawa mais nova não era uma inocente e tímida garotinha a aceitar o assédio de suas colegas.

― Obrigada, Aoi-kun ― agradeceu ela, repentinamente. Confuso, o rapaz não sabia como respondê-la.

― Me diga por que está me agradecendo se podia lidar com elas sozinhas? ― indagou, exasperado.

― Mas é aí que está ― declarou, simplesmente. Aquilo não explicava nada!

Contudo, a morena não complementou-se, pois parecia disposta a caminhar até a sala. A ele restou acompanhá-la, com uma imensidão de dúvidas e questionamentos internos. Amizade era algo muito complicado.

****

― Diga, quanto tempo falta para nos aposentarmos?

Se não estivesse acostumada ao cansaço de sua colega de apartamento, Misaki certamente iria perguntar-se se ela não estaria doente ou algo parecido. Afinal, as olheiras abaixo dos olhos acinzentados e o caminhar lento e débil de sua companheira poderiam muito bem ser indícios de alguma má-disposição. Porém, sua sentença revelava a causa de suas mazelas: faculdade. Professores. Trabalhos.

― Ainda nem nos formamos, Hanamaki ― retrucou a morena, alheia à brincadeira contida nas palavras da outra.

― Como você é séria, Ayu-chan! ― protestou Myoko. ― Não precisa mais agir como presidente de sei-lá-o-quê.

― Não consigo evitar. ― Era como se dissesse que sua própria natureza era desta maneira, mesmo que as responsabilidades de seu cargo no Conselho Estudantil não lhe dissessem respeito há muito tempo.

― É fácil resolver isto com álcool ― sugeriu a loira, com um sorriso sugestivo.

Não! ― desesperou-se a mais nova.

Nunca experimentara nenhuma bebida alcoólica, mas recordou-se quando, muito tempo atrás, o atual presidente do Seika, Kanou, a hipnotizou para que deixasse o colégio. Não lembrava-se de nenhum momento sequer, mas o vídeo gravado por Usui mostrou-lhe o constrangimento pelo qual passou ao adotar o comportamento de alguém bêbado. Não queria repeti-lo jamais.

― Quem diria. ― Myoko gargalhou. ― Ayu-chan já ficou bêbada?

―Eu... ― Apesar de procurar por palavras, não as encontrou. ― Eu não quero beber, ok?

Enquanto ria um pouco mais do embaraço da outra, a loira de madeixas curtas abriu passagem para que adentrassem no elevador. De volta ao lar, depois de uma rotina de estudos integral. Provavelmente seriam as últimas a chegar, disseram as duas ao alcançar o andar desejado. E acertaram em suas suposições. Contudo, nem em séculos Misaki iria prever o que a esperava ao chegar.

Usui Takumi estava estudando.

Não apenas estudando, distraído com qualquer outra ocupação. Não, ele estava concentrado, debruçado sobre inúmeros livros e folhas de rascunho que ocupavam a mesa da cozinha ― o maior cômodo do apartamento de pequenas dimensões. Usava seus óculos de leitura enquanto os olhos percorriam as páginas à sua frente. Se poderia dizer que estava até mesmo ligeiramente irritado. E a morena nem ao menos notou que seu colega, Takahagi, também emaranhava-se entre aquela confusão de números e letras, bem mais desesperado que o outro.

Na mente feminina, a cena confrontava-se com suas memórias ― todas as vezes nas quais se indignara com o fato de que aquele alien conseguia notas altas sem o mínimo esforço. E lá estava ele: se esforçando. Avançou vacilante até o rapaz, como se a visão à sua frente pudesse se desvanecer. E, ainda perplexa, apenas conseguiu balbuciar algumas palavras:

― O quê...?

― Cálculo I¹ ― respondeu ele, pressionando as têmporas. Há quanto tempo estava ali?

― É tão difícil assim? ― indagou, ao encarar as folhas avulsas rabiscadas com fórmulas e equações.

― Você não faz ideia ― suspirou Takumi.

― É um inferno ― complementou Takahagi, pendendo sua cabeça para trás da cadeira, cansado de olhar para tanta informação.

Apesar de não compartilharem do mesmo curso, os alunos de Exatas ocupavam as mesmas turmas, pois suas matérias eram equivalentes. E ainda que o moreno de óculos não fosse um calouro como Usui, estava inscrito pela segunda vez naquela disciplina. Na verdade, a repetência era bastante comum, já que o conteúdo era extenso e complexo. O que não diminuía o nervosismo do mais velho diante da ameaça de uma nova reprovação.

― Boa sorte com a tarefa impossível, Taka-chan ― ironizou a loira ao sentar-se ao seu lado.

― Não preciso de sorte, mulher zumbi ― retrucou ele, citando o fato de que sua colega raramente dormia.

Enquanto ambos trocavam farpas entre si, Misaki avançou até a bancada e fez algo que nunca imaginou que um dia faria: colocou em uma bandeja algumas torradas e uma xícara de café, apanhada da garrafa térmica, já que desde aquele incidente nunca mais tocara na cafeteira. Seus movimentos não eram automáticos, mas tampouco eram deliberados. Na verdade, sabia muito bem o que fazia: nunca admitiria o que sentia em palavras, e preferira expressá-lo em gestos.

“Estou orgulhosa de você.”

Era o que transmitira ao estender a pequena bandeja ao namorado, que fitou-a demoradamente em resposta.Era impressionante a maneira com que agora ela agia diante de determinadas situações com naturalidade ― como se realmente se esforçasse para não mais repetir os erros cometidos na adolescência.

― Se não vai querer, eu mesma como! ― ralhou ela, zangada diante da falta de reação.

E, ao mesmo tempo, ainda que não mais se constrangesse como antes, preservara em si mesma seu caráter relutante e impaciente. Conjugadas, as mudanças e as permanências de seu temperamento faziam dela tão fascinante como sempre. Havia sempre algo a desvendar naquela que para ele era a mulher mais forte que conhecera, e tendo isso em mente aceitou o que ela lhe oferecia, agradecendo-lhe com um sorriso de canto.

― Obrigado, Misaki.

Um breve sorriso também foi visto nos lábios dela. Como sempre, suas manifestações de afeto mais expressivas só se davam quando estavam sozinhos, e eram nestes momentos em que ela mesma permitia-se sorrir abertamente. Mas seu semblante logo converteu-se num mais severo ao apontar para os livros à frente do rapaz:

― Trate de continuar estudando! ― ordenou, antes de avançar para seu quarto, pronta para um banho.

― Ah, Ayu-chan é tão fofa! ― opinou Myoko, levantando-se também.

― Seja fofa como ela e me traga café também ― aproveitou-se Takahagi, sugestivamente para sua amiga de infância. A loira arqueou as sobrancelhas, descrente.

― Morra de fome, infeliz.

Gargalhou diante da decepção do outro, seguindo o mesmo rumo da morena. Deixou ambos novamente livres para voltar aos estudos. Seria uma noite longa...

****

Mesmo após tornar-se presidente e expandir, ainda que minimamente, sua teia de relações, Kanou ainda era um estudante reservado, cujo círculo de relacionamentos restringia-se a uma dupla: seus vice-presidentes. E era com eles que agora almoçava, na sala de aula que os três ocupavam em conjunto: turma 3-B. Ao contrário de seu próprio comportamento fechado, ambos eram muito efusivos, e talvez este contraste os tenha ligado de alguma forma, já que os ruivos pareciam ansiar por sua companhia. Chegou até mesmo a questioná-los sobre o fato, e a resposta de Hiyoru lhe surpreendeu:

― Você não me parece alguém hipócrita, sabe? Alguém que julga os outros e acusa sem provas... ― Sua voz carregava um misto de monotonia e atrevimento habitual, enquanto reclinava-se sobre as costas da cadeira. Como se tratar de assuntos sérios fosse entediante, e mesmo assim ele acrescentou: ― Além disso, esse seu jeito pode ser irritante, mas é engraçado também.

Hã? O jeito dele? Soutarou fitou ao mais baixo um tanto confuso, enquanto a própria irmã do rapaz sorria ao balançar a cabeça em descrença, como se não acreditasse no que ele dissera. Não porque discordara de uma palavra sequer do que ele dissera ― compartilhava da mesma opinião sobre a índole do presidente, assim como suas hilárias reações. E como se para provocar seu humor, a perplexidade do moreno incitou-lhe o riso brando.

― Viu só? ― apontou o ruivo para comprovar sua sentença, presunçoso diante da certeza.

― Vocês são muito estranhos ― revelou Kanou, franzindo o cenho ao fitar o próprio almoço. Sua sinceridade absurda (e por vezes incômoda) ao que o perturbava era outro atributo a que os gêmeos se afeiçoaram.

― De nada ― murmurou o mais velho antes de abocanhar parte de sua própria comida.

Enquanto preenchiam seus estômagos para suportar a carga vespertina do Conselho, a entrecortada conversa alternou dentre temas diversos, pois aos dois nunca surgia um assunto somente que os entretivessem por muito tempo. E para alguém fechado como Soutarou, este tipo de interlocutor era o mais adequado para manter uma conversa que não se resumisse a monossílabos e frases simples. Mesmo que apenas os acompanhasse em suas discussões, por vezes se sobressaltava, como quando disseram que já frequentaram a detenção de outro colégio. Perguntou-lhes se foram muito numerosos os seus castigos.

― Mais vezes do que pode contar nos dedos, Kanou-chan. ― O sorriso de Hiyoru indicava que não se arrependera nem um pouco do que o levara à punição escolar.

― Nunca fomos o melhor exemplo de estudante ― esclareceu a irmã mais velha, e também não transparecia qualquer sinal de que haveria mudanças em seu temperamento.

― Posso imaginar ― sibilou o moreno, evidentemente embaraçado ao responder a uma garota.

Ao menos não suava frio ao compartilhar do mesmo ambiente que Yukari ― talvez pelo fato de que ela sentara-se o mais distante possível dos dois. Enquanto ele e o ruivo compartilhavam da mesma mesa, ela sentara-se duas carteiras além. Também poucas vezes intrometia-se, deixando que o menor tagarelasse apenas para acrescentar algo vez ou outra. Apesar de ainda não ter criado um vínculo com nenhum dos dois, Kanou sentiu-se ligeiramente culpado por isso. Sabia que a garota só se portara daquela maneira para que ele permanecesse minimamente confortável.

― Não tem nenhum ensaio hoje, Yuka-chan? ― perguntou o irmão repentinamente.

Em cumplicidade, a colegial trocou um breve, embora significativo olhar com seu gêmeo. Ainda que seu próprio orgulho o impedisse de explicitá-lo, ele introduzira o assunto para dissolver desconforto do rapaz de óculos em outro diálogo. Em resposta, o ruivo apenas desviou os olhos em irritação. Ele não iria mesmo admitir que fizera algo por Kanou.

― Toca em uma banda? ― questionou o presidente, surpreso. A curiosidade superou por pouco sua fobia.

― Pff, Yuka-chan nunca faria algo tão legal. ― O bom humor de Hiyoru parecia ter retornado. Afinal, seu temperamento era tão volúvel.

― Há-há-há. ― A ruiva semicerrou os olhos. ― Vou me lembrar dessa quando me pedir por alguma música.

― Ela faz parte de uma orquestra ― explicou ele diante do olhar aturdido do maior dentre eles, revirando os olhos como se não desse muita importância ao fato. Segredou, com um sorriso malicioso: ― E tem um caso com o violino.

― Só porque o trato bem não quer dizer que tenho um caso com ele ― refutou a outra, nem um pouco afetada por suas palavras.

Mas em sua mente, Soutarou ainda tentava assimilar o fato de que aquela garota tão audaciosa e impulsiva tocava um instrumento tradicional como aquele. Não havia harmonia alguma entre Yukari e o solene timbre agudo do violino. Porém, era de uma Mirikamo que estava tratando ― aqueles dois revelavam-se paradoxos ambulantes diante de todas as suas excentricidades, semelhanças e diferenças entre si.

― Você já deu um nome a ele! ― implicou o rapaz em insistência, retirando o presidente de seus devaneios.

― Eu tinha doze anos ― justificou-se ela ao fato de que já nomeara um objeto inanimado. O que fazer; naquela idade “Maurice” parecia ser um ótimo nome. E seus lábios converteram-se no sorriso mais provocante que Kanou um dia viu uma garota esboçar: ― E na época você acreditava que cresceria mais rápido se dormisse com os pés para fora do colchão, Yoru.

Se fosse uma pessoa tímida, propensa a ruborizar quando envergonhado, o ruivo teria o feito neste momento diante da lembrança vergonhosa. Afinal, foi inútil aquele esforço. Seu crescimento estacionou antes de sequer alcançar um metro e setenta. Contudo, praticamente pedira pela revelação constrangedora quando ele mesmo expusera uma fração embaraçosa do passado da irmã. Ainda que ela mesma não aparentasse estar minimamente embaraçada.

Restou a ele bufar em aceitação, contrariado com o término da discussão. E pensar que iniciara a conversa por aquele estúpido presidente, que ainda por cima era mais alto que ele mesmo! Durante o resto do almoço, Soutarou sentiu um calafrio diante dos olhos verdes a fuzilarem seu rosto. Não apenas estranhos, aqueles irmãos eram assustadores também.

****

Aproveitara-se do intervalo do almoço para passar pela biblioteca do colégio. Deveria procurar por livros que o auxiliassem em seus estudos, agora em que o dever para com o Maid-Latte estava tão próximo de seu término. Era o momento de dedicar-se às disciplinas em que encontrara mais dificuldade naquele período no qual não deu a atenção necessária à matéria.

Apanhou alguns cujo conteúdo parecia esclarecedor, pronto para levá-los ao balcão da bibliotecária, quando avistou um rapaz que já vira algumas ― raras ― vezes pelo Seika. Estava sentado, aos fundos do recinto. Sentado, na verdade, era um vocábulo inadequado. Estirado sobre a cadeira resumia melhor sua condição. Inclinava-se a si mesmo e à mobília que o sustentava para trás, enquanto os pés ocupavam a borda da mesa à sua frente. Mais aparentava estar relaxado, como se o ambiente à sua volta fosse seu próprio lar, e não um local público.

Concentrado, não desviava os olhos escuros do exemplar em suas mãos, embora seu rosto expressasse um descaso extraordinário. Não foi difícil identificá-lo: era ele o estudante transferido há tão poucos dias para a turma 2-D. Handaryoku² Shouki, ou coisa parecida. Boatos sobre seu comportamento indiferente (e até mesmo arrogante, disseram alguns) circulavam por entre os alunos, e vários deles descreviam suas infrutíferas tentativas de aproximação. Ao que parecia, ele não queria ninguém a incomodá-lo ― e, segundo diziam, evitava aos outros o máximo possível até mesmo matando aulas fundamentais, como matemática e educação física.

Oscilando a cabeça para afastar esses comentários nocivos, Aoi ignorou aos boatos. Nada daquilo lhe dizia respeito, e todos pareciam tão ansiosos para inventar algum detalhe sórdido sobre a novidade momentânea. Não tinha tempo a gastar com idiotices, e muito menos com os idiotas que as difundiam por aí. Contudo... aquele parecia ser o perfil perfeito de pessoa a preencher uma vaga do clube.

Não era obtuso o suficiente para não perceber que, além de ajudá-lo com suas próprias obrigações e concorrer aos estranhos prêmios com sua sorte bizarra, Suzuna também procurava por algum membro mais para o clube. Apesar de sua recente fundação, deveria possuir dois membros no mínimo, além da própria líder, para que suas atividades fossem levadas adiante no ano seguinte. Porque a sala que utilizavam foi desocupada devido ao término de um clube após a formatura de todos os seus membros, e estava livre de outras atividades. No entanto, se no ano seguinte não alcançassem o número mínimo de estudantes interessados, correriam o risco de perder o espaço.

E dentre os inúmeros alunos do Seika, nenhum adequara-se ao padrão do clube. Havia aqueles ― a maioria ― que já ingressara em alguma atividade a ocupar-lhe as tardes. E os restantes dividiam-se entre os que trabalhavam em empregos de meio-período, os que utilizavam o horário vespertino para voltar para casa e mergulhar em seus próprios hobbies, os que simplesmente recusavam a proposta da morena por julgá-la fantasiosa demais. Ninguém, definitivamente ninguém aceitara.

Aoi achava justo dedicar o mínimo esforço ao que representava para a menor sua maior paixão, já que ela também o auxiliara com sua própria. Afinal, o enfado transmitido por aquele rapaz talvez se adaptasse àquela proposta ― teria onde fazer o que quisesse, sem qualquer obrigação ou responsabilidade, repetiu mentalmente os argumentos que Suzuna dissera certa vez.

Ele já estava mesmo no colégio, não é? Que mal fazia em transferir-se para uma sala qualquer e assinar seu nome complicado em um papel? E ao final, o máximo que lhe aborreceria seria uma recusa. Não seria tão mal assim, pensou o moreno ao alojar os livros já emprestados entre os braços e encaminhar-se até seu alvo.

O que não contava era que lidaria com alguém como Handanryoku Shouki. E não demoraria a arrepender-se de sua decisão.

Notas finais
¹ Não sei como funcionam em outras universidades, mas ao menos na UFRJ o curso de Cálculo I é um dos que mais assombram os alunos (calouros e repetentes). O índice de reprovação já chegou a mais de 60% num período. Estou usando como base porque são os dados a que tenho acesso. ² Handanryoku é um sobrenome meio complicado de se escrever e pronunciar, e várias vezes os personagens o pronunciarão errado. Só avisando. ... Tadinho do Aoi. Well, dá pra perceber (eu acho que dá, né? xD) que esta fanfic aqui é um pouquinho diferente das demais que eu escrevo. O foco nas relações entre os personagens (principalmente as nada românticas) vai ser constante, e isso pode até ser chato ou sem graça para alguns. Mas quando as tretas começarem, bem, tudo isso vai ser necessário. Até~~